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A Escola de Frankfurt e a psicologia* ANTONIO GOMES PENNA** Expõe resumidamente as características básicas da Escola de Frankfurt e dá destaque às suas contribuições no campo da psicologia, especialmente foca- lizando-as no domínio da psicologia social e no da psicanálise. Esta é con- siderada, juntamente com o marxismo, sua mais importante fonte. A Escola de Frankfurt caracteri
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  A Escola de Frankfurt e a psicologia ANTONIO GOMES PENNA Expõe resumidamente as características básicas da Escola de Frankfurt e dá destaque às suas contribuições no campo da psicologia, especialmente focalizando-as no domínio da psicologia social e no da psicanálise. Esta é considerada, juntamente com o marxismo, sua mais importante fonte. A Escola de Frankfurt caracterizou-se pela produção de uma teoria crítica da sociedade e da cultura contemporâneas, operando, especificamente, na área das ciências sociais. Suas contribuições, entretanto, estenderam-se à psicologia e, em particular, à psicologia social, obviamente redefinida, e é em torno dessas contribuições que nos deteremos no presente texto. Não se excluirá, todavia, uma breve introdução visando a cobrir os aspectos mais característicos por ela considerados nos diversos domínios em que operou e a apontar s principais fontes que lhe proporcionaram s categorias conceituais com que historicamente se definiu e se define. Limitadamente no campo da psicologia focalizaremos sua conceituação de consciência enquanto instância prospectiva e aberta para o que não é, mas poderia ser; suas contribuições centradas nos fatores que sus- tentaram e sustentam s estruturas autoritárias; sua análise do problema da reificação tal como ele se apresenta em função da perspectiva existencial, com- parando-a com a marxista; suas críticas ao revisionismo psicanalítico operado pela Escola americana ou culturalista de Karen Horney, Harry Stack Sullivan e Erich Fromm; sua interpretação da teoria da cultura proposta pela psicanálise freudiana, tal como ela é realizada por Adorno, Horkheimer e, principalmente, Marcuse; sua análise da imersão social do indivíduo através da incorporação de papéis e conseqüente intensa socialização, como forma expressiva e aparentemente contraditória de solidão e alienação e, finalmente, sua posição no que se refere o significado existencial do trabalho tal como ele nos é mostrado em textos de Marcuse. Artigo apresentado à Redação em 15.8.85. Chefe do CPGP/ISOP/FGV -Professor na UFRJ. Endereço do autor: Rua Pompeu Loureiro, 15/901 -Copacabana -22.061 -Rio de Janeiro, RJ.) Arq. bras. Psic., Rio de Janeiro, 38 2): 18-33, abr,/jun. 1986  No tocante à introdução, ela contemplará, com resumidas informações, o processo de srcem e evolução da Escola; suas fontes mais significativas; suas características básicas, bem como suas objeções ao positivismo e ao existencialismo, estas, na realidade, adiantando considerações desenvolvidas em tomo do conceito de consciência e em tomo do conceito de reificação. Uma razoável bibliografia será citada como suporte do presente texto e como sugestão para ampliá-lo. A expressão Escola de Frankfurt designa o grupo de cientistas sociais e filósofos alemães que desencadearam um movimento de crítica à sociedade e à cultura contemporâneas, a partir da fundação de u Instituto de Pesquisas Sociais, inicialmente financiado com recursos privados oferecidos pela família de um de seus integrantes, Felix WeU, e que se incorporou a um dos departamentos da Universidade de Frankfurt, em 1924. Desse grupo participaram fi- guras eminentes, como Friedrich Pollock, CarI Grünberg (primeiro diretor do Instituto), Max Horkheimer (diretor do Instituto a partir de 1931 e sua figura central), Karl Wittfogel, Theodor W. Adorno (responsável pela publicação do que Kolakow:s ki considerou como a Suma filos6fica da Escola , Walter Ben- jamin (notável crítico literário), Karl Korsch (uma das mais significativas figu- ras que integraram o que se convencionou chamar de marxismo ocidental ), Herbert Marcuse (inicialmente muito ligado a Heidegger e depois centrado essencialmente na crítica da cultura a partir de uma reinterpretação dos concei tos freudianos), Erich Fromm (depois desligado do movimento e vinculado ao revisionismo psicanalítico americano, mas fiel à temática da Escola); e, mais recentemente, Jürgen Habermas (1982), muito conhecido, especialmente por sua obra Conhecimento e interesse. Após a ascensão do nazismo, em 1933, alguns membros trasladaram-se para Genebra, outros para Paris, onde deram prosseguimento à publicação da e- vista de Investigação Social, fundada em 1932. Adorno, depois de breve pas- sagem por Oxford, transferiu-se, em 1938, para os EUA, onde, ao lado de outros emigrados, fundou o Instituto de Pesquisas Sociais na Universidade de Colúmbia. Após a conclusão da guerra, tanto Adorno como Horkheimer, que também emigrara para os EUA, retornaram à Alemanha, voltando a lecionar na universidade. Erich Fromm, Herbert Marcuse, Wittfogel e Lowenthal permaneceram na América, onde continuaram a produzir trabalhos vinculados aos temas peculiares à Escola. Dois textos clássicos foram redigidos visando apresentar os princípios que marcaram a Escola: 1 o que foi produzido por Max Horkheimer (1973), intitulado Teoria critica e editado em dois volumes, contendo diversos artigos pu- blicados anteriormente em revista, dentre eles destacando-se o que foi escrito em 1937 sob o título de Teoria tradicional e teoria crítica; 2 a dialética negativa de Adorno, reputada por Kolakowski, como .iá se adiantou, como a Suma filos6fica d Escola. Outros textos, contudo, poderiam ser mencionados como expressivos da perspectiva do que se convencionou chamar de Teoria Crítica. Tal o caso, por exemplo, do .trabalho de Marcuse intitulado A filosofia e a teoria crítica, produzido em 1937 e reimpresso em 1970 na coletânea publicada sob o título de Culture et société. No que se refere às suas fontes, segu~ mente as duas mais importantes fo- ram o marxismo, especialmente na versão produzida p r Lukács e exposta em Hist6ria e consciência de classe e a psicanálise freudiana, esta pela primeira vez Escola de Frankfurt 19  dialeticamente interpretada. No que conceme psicanálise, vale que se recorde que desde a fundação do Instituto de Pesquisas Sociais, em 1924, nele se incluiu um departamento psicanalítico, dirigido por Karl Landauer. Por outro lado, a Revista de Investigação Social continha, em seu primeiro número, um artigo programático sobre as tarefas a se desenvolverem objetivando a criação de uma psicologia social analítica e Horkheimer e Adorno, no prólogo que escreveram para o livro Preud en l actualidad assinalam que todos os estudos empreendidos em tomo do papel da família, do autoritarismo e do anti-semitismo seriam inimagináveis se não contassem com o apoio da psicanálise e não incorporassem os seus conceitos fundamentais. Quanto ao marxismo, além da influência recebida de Lukács, outras fontes podem ser assinaladas, como Karl Korsch e Emst Bloch, este sobretudo pela relevância concedida à utopia e pela importância concedida à necessidade de se produzir uma teoria utópica do co- nhecimento, centrada não sobre como as coisas são realmente, mas como elas deveriam e poderiam ser em função de um processo de explicitação envolvendo a dimensão prospectiva que integra o inconsciente do homem. Uma fonte adicional, de resto responsável, em grande parte, pelas críticas à cultura e mesmo à ciência contemporânea é Nietzsche, indiscutivelmente presente em Adorno e em Benjamin. Conforme já adiantamos, responde a Escola de Frankfurt pela elaboração de uma Teoria Crítica . Pois, em primeiro lugar, cabe que se esclareça que a designação de crítica não tem, como observou Horkheimer, o mesmo sentido detectado na crítica idealista da razão pura, mas sim o da crítica dialética da economia política. A relevância que deve ser concedida à expressão mencionada é bastante justa, dado que ela implica uma reivindicação de independência dos integrantes da Escola, mesmo em relação ao marxismo. Na verdade, como observa Kolakowski, para eles o marxismo constitui um ponto de partida, mas nunca uma norma a ser dogmaticamente aplicada. Essa observação é absolutamente válida, por exemplo, em relação a Luckács, na medida em que, como ainda observa Kolakowski, a perspectiva da teoria crítica, absorvendo como efetivamente absorveu, os principais conceitos com que Lukács opera, rejeita, não obstante, a tese da relevância do proletariado como classe revolucionária e a tese da importância do Partido Comunista como sua vanguarda e instância expressiva de sua consciência. Por isso mesmo é válido sustentar-se que nenhum dos integrantes da Escola poderá definir-se como discípulo de Lukács. Vale assinalar que a rejeição do proletariado como uma classe revolucionária revela-se presente em Marcuse, que prefere transferir o seu potencial de negativida de aos marginalizados do sistema. Por outras razões essa mesma rejeição aperece sustentada por André Gorz em texto clássico que não se vincula à Escola. Também em relação à psicanálise, a posição da Escola revela-se crítica, ou seja, independente. Claro que, como assinalamos, Horkheimer rejeita totalmente o revisionismo psicanalítico norte-americano, ao qual, inclusive, aderiu Erich Fromm. Mas isso não implica uma total absorção do pensamento freudiano como se comprova especialmente em Marcuse, não só em Eros et ci- vilisation como nas duas conferências pronunciadas em 1956, em Frankfurt e em Heidelberg, por ocasião das comemorações do centenário de nascimento de Freud, publicadas em Preud en l actualidad sob os títulos de La idea de progreso a la luz de psicoanalisis e La doctrina de los instintos y la libertado A B P 2/86  Também em Le Vieillissement de l Psychanalyse, conferência pronunciada em 963 na reunião anual da American Political Science Association e publicada em Culture et Société registra-se a mesma independência crítica com relação ao pensamento de Freud, especialmente no que concerne à problemática da cultura. Em relação à psicanálise, efetivamente, poderíamos repetir o que se afirmou em relação· ao marxismo: aceita-se sobretudo o impulso que se srcinou de Freud e seus conceitos básicos, mas preserva-se a independência crítica que marca a Escola e que conduz a assumir posição revolucionária no que concerne à promoção de mudanças no sistema vigente. Habermas (1982), que a ela concede grande destaque, considera-a como a única forma através da qual a psicologia se revelou como ciência,construindo-se sobre bases semelhantes àquelas que definiram todas as outras ciências naturais, como a física, por exemplo; Como comenta Sérgio Paulo Rouanet (1983), ela se revelaria como o paradigma de uma ciência crítica que assume explicitamente seu enraizamento num interesse: od dissolução das estruturas patológicas que inibem a livre comunicação do sujeito consigo mesmo e com os outros. Vale assinalar que, distanciando-se de todos os demais integrantes da Escola de Frankfurt, Haber mas revela-se fundamentalmente preocupado com a dimensão terapêutica da psicanálise, dimensão que, no fundo, caracterizaria o tipo básico e externo de interesse que a constituiria e serviria de paradigma para a análise crítica das estruturas ideológicas. Sobre as características e princípios básicos da Escola, Kolakowski os resu me assim: 1 trata-se de uma Escola que, em primeiro lugar, caracterizou-se por considerar o marxismo não como uma norma a que se devia manter fidelidade, mas como um ponto de partida e uma ajuda para a análise e crítica da cultura existente; por isso mesmo ela faz uso de fontes de inspiração nãomarxistas, como as de Hegel, Kant, Nietzsche e Freud ; 2. em segundo lugar, vale assinalar que o programa desenvolvido pela Escola jamais se incorporou a qualquer partido ou movimento político, incluídos não s6 o comunismo como a social-democracia, em relação aos quais sempre produziu críticas; 3. no que concerne às influências marxistas, elas se revelam através das interpretações desenvolvidas por Lukács em Hist6ria e consciência de classe Mas de nenhum modo pode ser considerada como integrada por discípulos de Lukács; 4. sem- pre sublinharam a independência da Escola ainda quando participassem, como os marxistas e, em especial, com o marxismo de Lukács, da idéia de que as críticas propostas contra a sociedade pudessem conduzi-la a transformações substanciais. Nesse sentido, compartilham de uma disposição claramente revolucionária, descartando toda eficácia dos processos meramente reformistas; 5. ainda quando aceitando a posição de Marx acerca da exploração e alienação do proletariado, nunca se identificou com a tese que lhe conferia a condição de classe privilegiada ·para efeito do desencadeamento do processo revolucionário, tampouco aceitando o papel de vanguarda reivindicado pelos partidos comunistas e considerando suas decisões como normas a priori destinadas à obrigat6ria obediência. Na verdade, cada vez mais a Escola manifestou dúvidas quanto ao papel revolucionário e libertador do proletariado, atingindo essa posição seu ápice na obra de Marcuse; 6. ainda que profundamente revisionista em relação ao marxismo ortodoxo, a Escola sempre se considerou um movimento revolucionário, recusando, como já deixamos assinalada, a posição reformista. Não obstante, e apesar da influência de Bloch, sempre afirmou que não scola e Frankfurt 2J
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