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A Escrita e Seus Efeitos Culturais

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  28 Revista FAMECOS ã  Porto Alegre ã  nº 39 ã  agosto de 2009 ã  quadrimestral DOSSIÊ ESPECIAL: GT Comunicação e Cultura (COMPÓS - 2009) O presente trabalho discute  a relação entre tecnologia decomunicação e cultura, tomando o caso específico daescrita e de seus efeitos socioculturais amplos. Assume-se assim o pressuposto de que a escrita deve ser conside-rada tecnologia de comunicação e de que enquanto talafeta o meio em que opera. Concordamos com um dosautores de que nos ocuparemos, que chega mesmo asustentar que até a poesia é uma tecnologia, tecnologiada palavra falada, anterior à tecnologia da palavra es-crita (Havelock, 1996, p. 101) esta representada especial-mente, para este autor, pelo “alfabeto grego [...] peça detecnologia explosiva, revolucionária por seus efeitos nacultura humana, de uma maneira que nada tem de exa-tamente comum com qualquer outra invenção” (Havelo-ck, 1996, p. 14). Serão abordados notadamente seus, daescrita, efeitos econômicos, administrativos, legais, reli-giosos e, finalmente, macrossociais. Trabalharemos es-pecialmente com um conjunto de três autores canônicospara esta discussão, tentando ordenar suas posiçõesheterogêneas num plano conceitual comum. Ao finalserão levantadas algumas questões acerca do modo comoteorizamos sobre a relação entre escrita e cultura, demodo que se trata aqui, também, de uma discussão docaráter epistemológico das teorias que operam sobre o jogo escrita e cultura, e, mais amplamente, tecnologia decomunicação e contexto cultural. O horizonte maior dopresente trabalho é, portanto, a epistemologia da comuni-cação, e envolve uma discussão dos paradigmas básicosdo tratamento da relação entre comunicação e cultura.Os autores de que nos serviremos são Jack Goody(1987), Eric Havelock (1996, 1996b) e Marshall McLuhan(1977, 2005).Goody, o menos abordado pelos teóricos da comuni-cação brasileiros, é um antropólogo interessado nos efei-tos sociais da escrita, não necessariamente escrita foné-tica, e trabalha comparando as sociedades daMesopotâmia Antiga, contemporâneas ou imediatamenteposteriores à invenção da escrita, com as sociedadesorais africanas do século passado.Havelock – cuja penetração junto aos pesquisadoresbrasileiros do campo da comunicação fica entre a deGoody e a de McLuhan – é um teórico da literatura quese ocupa dos efeitos da escrita fonética na Grécia Antiga.Note-se assim uma diferença em relação a Goody: estetrabalha com escritas não fonéticas, aquele com alfabéti-cas. A introdução da escrita alfabética, dada sua eficáciae facilidade de ensino, permitiu, para Havelock, o letra-mento da sociedade grega, que passa de um modo detransmissão cultural oral, marcado pela poesia, paraoutro baseado na escrita, que vai tornar possível, entreoutras coisas, a filosofia ocidental.McLuhan, bem mais conhecido nos meios comunica-cionais brasileiros do que os dois primeiros, faz uma  A escrita e seus efeitos culturais* Márcio Souza Gonçalves Professor da UERJ/RJ/BRmarcio67@oi.com.br RESUMO O presente trabalho discute a relação entre tecnologia decomunicação e cultura, tomando o caso específico daescrita e de seus efeitos socioculturais amplos. Assume-se assim que a escrita deve ser considerada tecnologiade comunicação. Serão abordados notadamente seus,da escrita, efeitos econômicos, administrativos, legais,religiosos e, finalmente, macrossociais. Trabalharemosespecialmente com um conjunto de três autores canôni-cos para esta discussão, tentando ordenar suas posiçõesheterogêneas num plano conceitual comum. Ao finalserão levantadas algumas questões acerca do modo comoteorizamos sobre a relação entre escrita e cultura, demodo que se trata aqui, também, de uma discussão docaráter epistemológico das teorias que operam sobre o jogo escrita e cultura, e, mais amplamente, tecnologia decomunicação e contexto cultural. PALAVRAS-CHAVE escritameio de comunicaçãocultura  ABSTRACT  The paper discusses the relationship between communicationtechnology and culture, focusing specifically on writing andits effects. In doing so, writing is considered as a communica-tion technology. We discuss its economic, administrative, le- gal, religious and macro social impacts. The discussion iscentered in three canonical scholars for the subject and their respective theories. Finally, some of the epistemologic proble-ms concerning theories linking writing and culture or, more generally, communication technology and culture, are consi-dered. KEY WORDS writingmediaculture  Revista FAMECOS ã  Porto Alegre ã  nº 39 ã  agosto de 2009 ã  quadrimestral 29 A escrita e seus efeitos culturais ã  28 – 34 leitura da história humana considerando os meios decomunicação, escandindo nosso passado (e presente)em três momentos diferentes: as sociedades tribais pri-mitivas, orais; a Galáxia de Gutemberg, cujos dois gran-des motores são a escrita fonética e a prensa tipográfica;a Aldeia Global, atravessada pelos meios eletrônicos decomunicação.Cada um a seu modo pensa o que nos interessa, omodo como a escrita produz efeitos sociais nas culturasem que age.Serão tratados inicialmente a economia, a administra-ção e o direito, ao que se seguirá uma abordagem dosaspectos religiosos e o que aqui se nomeia macrossocial,a saber, uma apreensão global do conjunto da socieda-de. Considerando que Goody é o menos conhecido dostrês autores citados, a ele será dada uma atenção ligeira-mente maior do que aos outros dois. Economia, administração e direito Goody é sem sombra de dúvida o autor que mais sedetém sobre o problema dos efeitos sociais da escritasobre a economia e a administração. Em primeiro lugar,deve-se destacar que tanto uma como a outra devem serpensadas levando-se em conta a dimensão religiosa e adimensão estatal, o templo e o palácio encarnando duasformas coexistentes e eventualmente conflitantes de poder.A economia tem um lugar de honra na medida em que agênese de escrita se deu ligada a questões econômicas 1 .Comparando as sociedades orais africanas com as soci-edades com escrita da Mesopotâmia Antiga, depreende-se que o efeito global da escrita é permitir uma maiorcomplexidade (tamanho, duração temporal, distribui-ção espacial) das transações econômicas. A ausência deescrita, uma vez que faz depender o registro das operaçõesexclusivamente da memória humana, limita a complexi-dade do que se pode realizar em termos econômicos:Nas sociedades orais é certamente possível encon-trar analogias, precursores, de todas as práticasdos mercadores do Médio Oriente, mas a escritapermite um desenvolvimento em termos de comple-xidade que seria de outro modo impossível (Goody,1987, p. 103). 2 Na medida em que torna explícito o implícito (lemamaior da interpretação de Goody dos efeitos da escrita),na medida em que materializa o que de outro modoficaria retido apenas no cérebro humano, a quantidadede informações que pode ser armazenada e processadaaumenta brutalmente, e com essa quantidade a comple-xidade das operações. Assim, por exemplo, podemospensar co-participação por ações, operações de crédito“bancário”, seguros (Goody, 1987, pp. 91-97) como tan-tas operações econômicas complexas para as quais aescrita é imprescindível, tanto hoje quanto na Mesopotâ-mia Antiga. Nota-se assim, com a presença da escrita,uma vida econômica surpreendente nestas sociedadesantigas que o senso comum rapidamente tende a enca-rar como sociedades excessivamente simples: a comple-xidade é na realidade grande.A administração da complexidade da economia, ououtra, por seu turno, supõe a presença da escrita. Pense-mos no templo como uma instituição nodal no fluxo depessoas, mercadorias, terras: recebe doações as maisvariadas, produz em suas terras, o que depende de mãode obra externa, gere grandes quantidades de oferendas,deve sustentar uma classe improdutiva economicamen-te de sacerdotes... ora, gerir essa imensa massa de infor-mações é impensável sem a escrita. Daí não ser exagera-do sustentar, como faz nosso autor, que a contabilidadee formas primitivas de livro-caixa surgem nas socieda-des antigas mesopotâmicas. Por outro lado, o paláciotem semelhantes necessidades de mecanismos objetivosde registro para que possa cobrar impostos, se adminis-trar, sustentar sua nobreza etc. Mas a administração temainda um lado civil, ligado aos mercadores, que do mes-mo modo que o palácio e o templo necessitavam demodos materiais de armazenagem de informação paraefeitos de gerenciamento. A escrita torna assim possíveluma mutação nas formas de administração.Goody refere-se também aos modos como o exercíciodo direito foi afetado pela presença da lei escrita, emoposição à lei oral tradicional.Todo grupo social necessita normas, no sentido geralda palavra, independente de serem implícitas ou explí-citas, que regem seu funcionamento. O ideal da socieda-de primitiva livre é assim, nada mais do que ilusão: todasociedade é por definição regrada. A invenção da escritaopera primordialmente explicitando normas que anteri-ormente existiam de modo implícito. Ora, essa explicita-ção engendra uma série de consequências fundamen-tais, que nosso autor detalha com bastante cuidado.Assim, por exemplo, a lei oral é bastante mais dinâmi-ca, flexível a adaptável do que a escrita:Mas escrevam-se as normas na forma de um códigoou decreto, e terão então de fazerem-se esforços deli-berados e conscientes para fazer qualquer altera-ção. Quer isto dizer, o governo nas culturas escritastem de ocupar-se de legislar em relação a alteraçõesna lei que o costume teria adaptado mais ou menosautomaticamente. E onde a lei escrita não foi for-malmente alterada recorre-se às ficções legais e ou-tras fontes da lei para adaptar às situações efetivas(Goody, 1987, p. 161).À mobilidade quase imperceptível da lei oral se contra-põe a imutabilidade da presença objetiva da lei escrita.Essa maior flexibilidade é, como dito acima, também,correlata das diferenças no modo de alteração da lei emculturas orais e escritas. Nas orais a lei muda impercep-tivelmente, se adaptando às sutis mudanças sociais,culturais, ambientais. Sua mudança é cotidiana, grada-tiva. Nas culturas escritas a mudança dos códigos su-  Márcio Souza Gonçalves ã  28 – 34 30 Revista FAMECOS ã  Porto Alegre ã  nº 39 ã  agosto de 2009 ã  quadrimestral põe situações especiais (pensemos por exemplo numaconstituinte), que duram um tempo preciso: ao invés dealterações constantes um lapso preciso de tempo dentrodo qual a alteração é possível.Outro traço importante que decorre da presença da es-crita é a criação de um grupo específico especializado emlidar com a lei, com seus rituais, jargões, maneirismos.A escrita afeta não só as fontes da lei e da argumen-tação jurídica como também a organização da lei. Arelação da lei com a sociedade formaliza-se com oadvento da escrita. Como já não existe uma adapta-ção praticamente homeostática de normas, a lei es-crita adquire uma espécie de autonomia muito pró-pria, tal como seus órgãos. O tribunal judicialsepara-se gradualmente do tribunal régio ou dochefe, adquirindo os seus próprios especialistas al-tamente instruídos, alguns dos quais são peritos naapresentação oral de casos, argumentando e defen-dendo a causa do cliente, outros na prestação deconselho. [...] A organização interna do tribunaltambém se torna elaborada porque o uso de prece-dentes, e quiçá a lei feita pelos próprios juízes aqualquer escala, exige a manutenção de registros.[...] Os registros escritos implicam a presença deescritores cujo trabalho dá uma forma permanenteaos pleitos e decisões verbais. Também os juízesprecisam compreender a palavra escrita à medidaque a lei é cada vez mais incorporada em resumos e summae . Sob estas circunstâncias, a profissão de jurista torna-se uma ocupação para especialistasletrados, e a lei é cada vez mais retirada das mãos“amadoras” do homem da rua (Goody, 1987, pp.164-165).Se Goody especificamente se referiu à administração,à economia e ao direito, o mesmo não se pode dizer deHavelock e McLuhan, que se detiveram mais em outrosaspectos (alguns dos quais não discutiremos aqui – sub- jetividade e epistemologia –, outros sim – aspecto ma-crossocial).McLuhan se apóia em Innis, autor fundamental quenão trataremos aqui por razões de espaço e tempo, paracompreender as transformações sócio-econômicas dainvenção da escrita:Harold Innis, em Empire and Communications,  foi oprimeiro a tratar desse tema e a explicar com preci-são o verdadeiro significado do mito de Cadmo. Orei grego Cadmo, que introduziu o alfabeto fonéticona Grécia, segundo se conta, teria semeado os den-tes do dragão e deles brotaram homens armados.(Os dentes do dragão talvez se refiram às antigasformas de hieróglifos.) Innis também explicou a ra-zão por que a palavra impressa gera nacionalismoe não tribalismo; e por que cria sistemas de preços emercados tais que não podem existir sem a palavraimpressa. Em suma, Harold Innis foi o primeiro aperceber que o  processo de mudança estava implíci-to nas  formas  da tecnologia dos meios de comunica-ção. Este meu livro representa apenas notas de péde página à sua obra, visando explicá-la (Mcluhan,1977, p. 82).O modo como McLuhan fundamenta suas “notas depé de página” pode ser percebido. De modo geral, osprocessos fonéticos (e posteriormente a prensa) afeta-ram a organização subjetiva dos homens dando maiorvalor ao visual, o que engendra uma mentalidade lineare fragmentada, racional, o que, em última instância, vaiter efeitos amplos em toda a cultura e corpo social (inclu-indo-se aí direito, administração e economia). Assimteríamos uma economia, um direito, uma administraçãooperando como dimensões separadas e independentesdo conjunto da sociedade, baseando-se em técnicas cujomodo de operação seria a linearização, a fragmentação,a racionalização. O rompimento da unidade tribal, porefeito em primeiro lugar da escrita fonética (e posterior-mente da prensa tipográfica) é também econômico, ad-ministrativo e legal.Havelock, finalmente, parece se assemelhar bastantea McLuhan. Os diversos modos como a escrita alfabéticaafetou, para Havelock, a consciência e a epistemologiagregas se refletem, claro, em vários outros campos, inclu-indo-se administração, economia e direito. Assim porexemplo, especificamente,[…] em The greek concept of justice: From its shadow inHomer to its substance in Plato , Havelock tratou domovimento que Platão levou ao ponto crítico. Aobjetividade analítica com que Platão tratou do con-ceito abstrato de justiça não pode ser encontradaem nenhuma das culturas puramente orais conhe-cidas (Ong, 1998, pp. 121-122).A escrita permitiria uma “racionalização” do direito,num sentido que parece próximo do de McLuhan. Se-guindo pela mesma linha é perfeitamente compreensí-vel que a administração e a economia sejam, indireta-mente, afetadas pelas alterações provenientes dapresença do alfabeto. Religião e aspecto macrossocial O esquema básico de explicação de McLuhan que vimosacima em ação pode ser estendido para o campo dareligião, opondo de um lado o mundo mágico integradoe holista das culturas orais a um mundo escrito desen-cantado e separado, o eletrônico religando o que o im-presso e o alfabético separaram.Pense-se por exemplo na experiência das crianças,[...] isto é, uma criança em qualquer meio ocidentalestá cercada por uma tecnologia visual abstrata eexplícita de tempo uniforme e de espaço contínuo e  Revista FAMECOS ã  Porto Alegre ã  nº 39 ã  agosto de 2009 ã  quadrimestral 31 A escrita e seus efeitos culturais ã  28 – 34 também uniforme, em que a “causa” é eficiente econtínua e as coisas se movimentam e acontecemem planos distintos e em ordens sucessivas. A cri-ança africana, no entanto, vive no mundo mágico eimplícito da palavra oral ressoante. Ela não encon-tra causas eficientes, e sim causas formais do cam-po configurativo, tais como as que qualquer socieda-de não-alfabetizada cultiva (McLuhan, 2005, p. 41).Temos assim a magia versus a razão, oralidade versusalfabeto.Mas podemos pensar historicamente efeitos mais es-pecíficos, como a ascensão do militar em detrimento doreligioso por efeito da alfabetização.O alfabeto significou o poder, a autoridade e o con-trole das estruturas militares, a distância. Quandocombinado com o papiro, o alfabeto decretou o fimdas burocracias templárias estacionárias e dos mo-nopólios sacerdotais do conhecimento e do poder.[...] O alfabeto acessível, juntamente com o papirotransportável, barato e leve, produziu a transferên-cia do poder da classe sacerdotal para a classemilitar (Mcluhan, 2005, p. 101-102).Tal asserção deve ser pensada em relação às teses deGoody sobre o papel administrativo templário da escritapré-alfabética.Ao mundo mítico-mágico da oralidade, a escrita alfa-bética, para McLuhan, faz suceder o mundo racionali-zado da Galaxia de Gutemberg.Havelock considera as limitações impostas ao camporeligioso pelos modos de comunicação presentes em de-terminada cultura. Seguindo a linha geral de sua argu-mentação, é fácil perceber que no Antigo Testamento,suas partes mais antigas:[...] foram escritas e preservadas numa variante dosilabário fenício. Na verdade, esses textos sofreramuma certa reelaboração teológica no período poste-rior à fundação do Segundo Templo. Mas continuaa ser inquestionável que as narrativas srcinais e asidéias a elas associadas têm uma sintaxe repetitiva;que situações típicas se mostram aí recorrentes, queo relacionamento entre os personagens é até certoponto simples, e seus atos têm uma qualidade qua-se ritual. Sentimos a simplicidade do ritmo da com-posição à medida que se desenvolve o relato. Sãoprecisamente essas limitações impostas ao alcancede apreensão possível da experiência humana oque confere ao Antigo Testamento o forte apelo quetem para as pessoas simples como dizemos. O re-gistro de uma cultura que se conforma a essas res-trições tem tudo para centrar-se em religião e mito-logia, pois ambas tendem a codificar e padronizar avariedade da experiência humana, de modo que oleitor desses escritos tem mais probabilidade dereconhecer aquilo de que o autor está a falar (Have-lock, 1996, p. 94).Ao caráter oral do Antigo Testamento, assim, se opõeo texto escrito do Novo, com tudo que essa alteraçãoimplica na perspectiva de Havelock. Como para esteautor o meio condiciona os conteúdos que podem serveiculados, as religiões orais têm assim um caráter maisconcreto, de ação, em oposição ao tom abstrato das reli-giões escritas. A escrita alfabética é correlata de umaabstração maior da religião.Goody discute amplamente os efeitos da escrita sobrea religião.O caso egípcio é notável, pois permite ligar os efeitosda escrita sobre a religião a outros fatores amplos. Assim,por exemplo: “No Egito, o aparecimento da escrita pareceser aproximadamente contemporâneo da criação de umestado único e um panteão global” (Goody, 1987, p. 84).Destacamos arbitrariamente, da pletora de elementosabordados por este autor, alguns pontos que considera-mos importantes.Em primeiro lugar, destaque-se o universalismo dasreligiões letradas contra o caráter local das orais.Neste contexto, gostaria de sugerir que uma compo-nente do universalismo, especialmente do univer-salismo ético, é característico não só do Cristianis-mo como de todas as religiões mundiais maisimportantes e está diretamente relacionada com oseu uso da escrita (Goody, 1987, p. 28).Além disso, nas sociedades orais, o fenômeno religio-so está integrado no conjunto da vida social, não consti-tuindo um domínio separado, como nas sociedades le-tradas. Assim, a escrita autonomiza o campo religiosoem relação a outros campos da vida social. Isso de pelomenos três formas: autonomia administrativa do tem-plo, autonomia política do templo, separação da experi-ência religiosa.Essa autonomização é correlata de um processo deendurecimento: as religiões orais são permeáveis a in-fluências estrangeiras, mais sincréticas, flexíveis, dinâ-micas. As escritas tendem a classificar o externo comoherege, como desvio, são menos permeáveis. Além disso,pode-se dizer que as religiões escritas são religiões deconversão. Goody assim se expressa:Quando há fronteiras, marcos da espécie envolvidaem religiões com Escritura, então não só há seitasdissidentes como indivíduos dissidentes, indiví-duos que são apostatas ou conversos. A conversãoé uma função das fronteiras que a palavra escritacria, ou antes, define (Goody, 1987, p. 26).Ou se está dentro ou se está fora.Finalmente, vamos considerar as análises de conjuntoda sociedade que consideram o efeito da presença da
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