Documents

A Estátua, o Autômato e o Cadáver a Neutralização Do Corpo No Pensamento de Jacques Lacan

Description
A Estátua, o Autômato e o Cadáver a Neutralização Do Corpo No Pensamento de Jacques Lacan
Categories
Published
of 21
All materials on our website are shared by users. If you have any questions about copyright issues, please report us to resolve them. We are always happy to assist you.
Related Documents
Share
Transcript
  3 dois pontos : , Curitiba, São Carlos, volume 13, número 3, p. 3-23, dezembro de 2016 Recebido em 02-06-2016; Aceito em 08-08-2016 A estátua, o autômato e o cadáver: a neutralização do corpo no pensamento de Jacques Lacan 1 ichard eisen Simanke Universidade Federal de Juiz de Fora Resumo:  A questão da corporeidade é recorrente no pensamento lacaniano e é também constantemente reto-mada por sua escola. No entanto, pode-se argumentar que a forma como essa questão é abordada nos diversos momentos do pensamento de Lacan acaba por neutralizar a efetividade da referência ao corpo na sua teoria psica-nalítica e, presumivelmente, na clínica que essa teoria fundamenta. Este artigo se propõe a identificar as evidências dessa atitude ao longo da obra de Lacan e discutir suas implicações teóricas. Apesar das várias mudanças concei-tuais que caracterizam essa obra, essa mesma atitude parece prevalecer ao longo de toda a sua evolução, mesmo que em diferentes contextos e com relação a diferentes dispositivos teóricos. Palavras-chave:  teoria psicanalítica; Lacan; corporeidade; neutralização; imaginário; simbólico. Abstract:  The issue of corporeality is recurrent in Lacan’s thought and is also constantly taken up by his school. However, it can be argued that the way this issue is addressed in the various stages of Lacan’s thought ultimately neutralizes the effectiveness of the reference to the body in his psychoanalytic theory and, presumably, in the clinical practice based on this theory. This paper sets out to find evidence for this attitude throughout Lacan’s work and discuss its theoretical consequences. In spite of the many conceptual changes that distinguish this work, this same attitude seems to prevail throughout its development, even though in different contexts and with regard to different theoretical devices. Keywords: psychoanalytic theory; Lacan; corporeality; neutralization; imaginary; symbolic.  Esse eu corpo é um fardo . Cecília Meireles, Cânico V  INTODUÇÃO  A quesão da corporeidade esá presene desde o nascimeno da psicanálise, no conexo das inves-igações iniciais de Freud sobre os sinomas conversivos da hiseria. No enano, essa aenção inicial às funções do corpo na esruuração do psiquismo não foi homogeneamene preservada pelas radições pós-freudianas, algumas das quais a empurraram nooriamene para o segundo plano. Birman (1998; 1999) fala de um recalcameno  do corpo em psicanálise, em benefício de uma aiude que privilegiaria a represenação e/ou a linguagem. Conudo, em psicanálise, o recalcameno ou repressão designa o pro-cesso pelo qual um coneúdo ou processo psíquico fica excluído do discurso ou da experiência, mas con-inua produzindo seus efeios desde o inconsciene, seja como for que as diversas eorias psicanalíicas  4 dois pontos : , Curitiba, São Carlos, volume 13, número 3, p. 3-23, dezembro de 2016 concebam o modo de operação desse sisema e a própria naureza do mecanismo do recalque. Conudo, a hipóese de rabalho adoada aqui considera que as eorias psicanalíicas em quesão efeivamene  falam  muio do corpo, mas de uma maneira al que elas se impedem de reconhecer e conceder o peso devido na consrução da subjeividade e na esruuração do agir. Por isso, o conceio harmanniano de neuralização  (HAMANN, 1939) foi eleio como meáfora para expressar o senido dessa hipóese. Como se sabe, esse conceio foi proposo como uma alernaiva e um complemeno ao conceio freudiano de sublimação : Freud susenou que, na sublimação  , o ego subjuga a energia insinual e a canaliza para objeivos socialmene aceiáveis. Por exemplo, o voyeur   se orna um foógrafo. O conceio de neuralização  de Harmann era diferene. A neuralização efeivamene despoja os impulsos de suas qualidades sexuais e agressivas. Essas energias, enão, se ornam livres de conflio ou auônomas e disponíveis para uso do ego; elas se ornam funções auônomas secun-dárias. ais funções do ego ornam-se independenes do id, e o ego pode usar as energias disponíveis a serviço da adapação e do domínio. No caso das funções auônomas secundárias, a energia foi neuralizada, o conflio removido, e a função do ego pode enão conribuir para a adapação (PALOMBO, BENDICSEN & KOCH, 2009, p. 57, grifos dos auores). 2 Ou seja, na sublimação é ainda a sexualidade que aua, embora dirigida a ouras meas (o foógrafo é ainda um voyeur  ); na neuralização, a energia se orna anódina, indiferenciada, e pode ser empregada para qualquer fim. Analogamene, é isso que aconece com a referência ao corpo nas referidas eorias: ela permanece nominalmene presene na lera de suas formulações, mas arelada a noções que a privam de qualquer efeividade ou poência e aponam numa direção oalmene diversa.  As concepções lacanianas sobre o corpo, por ouro lado, podem, em muios de seus aspecos, ser con-sideradas exemplares dessas esraégias de neuralização. O objeivo desse rabalho é, enão, mosrar que, apesar do abundane discurso lacaniano sobre o corpo e de suas manifesações exuais sobre sua impor-ância para a psicanálise, essa referência aparece sempre mediada por ouras insâncias que neuralizam sua efeividade. Num primeiro momeno, no quadro da primeira eoria lacaniana do imaginário, organi-zada em orno do conceio de eságio do espelho, o corpo comparece na eoria primordialmene como a imagem do corpo ; em ouras palavras, o corpo real, biológico, só se orna “próprio” aravés da imagem. Num segundo momeno, quando o regisro lacaniano do simbólico é alçado para o primeiro plano, na eseira de seu compromisso com o esruuralismo, o corpo aparece como supore da lera  , iso é, como o real a ser rabalhado pelo significane na produção do sujeio (cf. a meáfora do corpo-pergaminho inroduzida adiane). Por fim, acompanhando a guinada que marca o pensameno lacaniano na virada dos anos 60 (privilégio do regisro do real, abandono do paradigma clínico da inersubjeividade ec.), a formulação do conceio de gozo, por um lado, abre a possibilidade de que um esauo mais efeivo seja conferido à corporeidade, a qual, por ouro lado, no enano, é mais uma vez neuralizada, seja por novos insrumenos de formalização que surgem nesse momeno (como o conceio de objeo a, por exemplo), seja pelo reorno a anigas fórmulas (como a função significane do corpo e sua dependência da imagem). Significaivamene, as imagens recorrenes, com as quais Lacan expressa a inércia e a impoência do corpo na sua realidade própria – a esáua  , o auômao  e, mais enfaicamene ainda, o cadáver   –, e a impermeabi-lidade de seu sisema a uma  fenomenologia da vida  coninuam podendo ser enconradas aé os momenos mais ardios de seu pensameno. É impossível não lembrar aqui a críica de Michel Henry (2009) que coloca a psicanálise, com Freud, como uma herdeira ardia do grande equívoco da filosofia ocidenal moderna inaugurada por Descares, a saber, uma espécie de recalcameno de uma fenomenologia da vida, anunciada, mas perdida naquele ao inaugural pela orienação episêmica e fundacionisa que se seguiu, razão pela qual “fracassou o esforço de uma fenomenologia radical capaz de discernir, no seio mesmo do puro aparecer e sob a fenomenalidade do visível, uma dimensão mais profunda na qual a vida se alcança a si mesma anes do surgimeno do  5 dois pontos : , Curitiba, São Carlos, volume 13, número 3, p. 3-23, dezembro de 2016 mundo” (HENY, 2009, p. 38). Diane desse diagnósico, uma leiura filosófica de Freud se perguna-ria: “Essa insância subjacene, operane e recalcada não será a vida e, além disso, a vida em sua essência fenomenológica própria, o afeo consubsancial a essa fenomenalidade e que não poderia ser separado dela, que nunca é inconsciene ?” (ibid., p. 41, grifos do auor). Pode-se quesionar se essa leiura se aplica ão crisalinamene a Freud, mas ela parece exprimir bem fidedignamene a aiude lacaniana, em que um caresianismo laene e a negação da vida se alimenam muuamene, embora esse pono não possa ser desenvolvido aqui.raa-se, assim, na sequência, apenas de ilusrar, com o comenário de algumas das passagens mais represenaivas, aqueles rês grandes momenos do percurso eórico lacaniano com relação à sua aiude diane do problema da corporeidade e expliciar as consequências que daí decorrem para a sua visão da psicanálise. O COPO NO ESPELHO oda a eoria lacaniana do imaginário e do eságio do espelho, de fao, se jusifica a parir de uma pre-missa básica: a insuficiência do corpo biológico para dar srcem a um sujeio. Se em sua ese de psiquiaria (LACAN, 1980), o organicismo psiquiárico fora criicado por reduzir a doença menal a um conjuno de efeios secundários de um dano orgânico hipoéico, essa ese é agora ampliada mediane o recurso a cera informação biológica (premauração ao nascer, neoenia do adulo, reardo da puberdade, enre ouras), segundo a qual a espécie humana enquano al padeceria de uma carência vial srcinária. Com isso, a experiência srcinária do corpo aparece como incapaz de dar cona da consiuição de uma posição de su- jeio; ela só se expressa no imaginário do infane como um conjuno de fanasias de feiio quase paológi-co, como uma experiência de desagregação e de angúsia. Assim, anes que qualquer mauração orgânica possa remediar essa siuação, é um corpo imaginário que oma forma, mediane uma idenificação com um objeo vivido como exerior ao sujeio – paradigmaicamene, a imagem especular do corpo próprio –, operação fundamenal aravés da qual Lacan busca reformular a concepção freudiana do narcisismo: (...) o exame dessas fanasias que se enconram nos sonhos e em ceras impulsões permie afirmar que elas não se referem a nenhum corpo real, mas a um manequim heeróclio  , a uma boneca barroca  , a um roféu de membros  em que é preciso reconhecer o objeo narcísico cuja gênese nós evocamos acima: condicionado pela  precessão, no ho-mem, das formas imaginárias do corpo sobre o domínio do corpo próprio  (LACAN, 1938, p. 8, 40-14, grifos nossos).  A precedência da imagem sobre a experiência do corpo próprio é, assim, expliciamene afirmada. Me-lhor dio, a experiência corporal não desempenha nenhum papel consiuivo, mas apenas disrupivo; de fao, as formações paológicas mais agudas vão se explicar pela fixação e pela regressão a essa experiência primordial da corporeidade, sineizada naquilo que Lacan denomina a “fanasia do corpo despedaçado” ( le fanasme du corps morcelé  ). A eoria do eságio do espelho sisemaiza essa visão lacaniana sobre o processo de consiuição do sujeio. É do conrase enre a unidade e a inegração percebidas na imagem e a descoordenação e ima-uridade corporal que se srcina aquilo que Freud denominou de eu ideal  – a mariz narcísica do eu. A corporeidade desempenha, nesse processo, apenas uma função negaiva: ela prima pela insuficiência. O recém-nascido premauro depende absoluamene do ouro para sobreviver, e a experiência conínua de sua própria impoência orgânica orna presene, a cada momeno, esse risco de more e a angúsia que o acompanha. Como para Freud, a premauração ao nascer é o faor biológico fundamenal em ação na consiuição do sujeio psíquico. Mas Freud aribui uma significação  posiiva  à premauração: o desam-paro ( Hilflösigkei  ) que dela resula é, como ele diz em sua obra inicial, “a fone primordial de odos os  6 dois pontos : , Curitiba, São Carlos, volume 13, número 3, p. 3-23, dezembro de 2016 moivos morais” (FEUD, 1987, p. 411). Para ele, o recém-nascido, incapaz de realizar no mundo as ações que podem garanir sua sobrevivência, depende absoluamene da inervenção de ouro indivíduo disposo a aendê-lo. Ser amado pelo ouro é, assim, o valor supremo e srcinário de oda a sua organiza-ção psíquica e, nesse senido, o desamparo é a fone de odos os moivos morais, com odo o nauralismo éico que daí resula (SIMANKE, 2011; 2013). Mais arde, o recurso à hipóese da premauração como faor biológico fundamenal auando na gênese da neurose e do próprio aparelho psíquico será um argu-meno para a necessidade de considerações de ordem biológica na fundamenação da meapsicologia. Para Lacan, ao conrário, a premauração será argumeno para a desnauralização dessa mesma funda-menação e para a sua subsiuição por considerações anropológicas. Aí reside o valor e a significação paradigmáica da experiência do reconhecimeno especular: o espelho mosra o modo como o infane é viso pelo ouro e ilusra como ele se idenifica com essa ideal que o ouro nele projea, iso é, aquelas caracerísicas que susenam o amor e o desejo do ouro, condição para que ese lhe prese os cuidados necessários à sobrevivência. Como resulado, a relação com a imagem orna-se primordial; ela compensa e subsiui a experiência corpórea desagregaiva e angusiane: O que denominei eságio do espelho é ineressane por manifesar o dinamismo afeivo pelo qual o sujeio se ideni- fica primordialmene com a Gesal visual de seu próprio corpo : ela é, em comparação com a descoordenação ainda muio profunda de sua própria moricidade, uma unidade ideal, uma imago saluar; ela se valoriza a parir de oda a aflição srcinal, ligada à discordância inra-orgânica e relacional da criança, durane os seis primeiros meses, em que ela apresena os sinais, neurológicos e humorais  , de uma  premauração naal fisiológica  (LACAN, 1966b, p. 113, grifos nossos). Como consequência, a consiuição do sujeio é remeida à dimensão da exerioridade . À impoência do corpo se subsiui a fanasia de uma poência ideal fornecida pela idenificação com a imagem. O corpo que aua na produção do sujeio é o corpo imaginário, nunca o corpo real. udo se passa como se, para Lacan, o corpo enquano al não pudesse ser oura coisa que um objeo e, além disso, um objeo precário e insuficiene. A operação imaginária e idenificaória que consiui o eu irá, igualmene, dar srcem ao campo dos objeos, aqueles que realmene ineressam à psicanálise, consruídos à imagem e semelhança desse eu: a eoria lacaniana do imaginário é, ambém, uma eoria da gênese dos objeos, ano do conheci-meno quano da libido (PRDO, 1991). Assim, se Lacan disingue o sujeio do eu – o eu é essa esruura inrapsíquica na qual o sujeio se objeiva a parir de sua relação com a exerioridade –, esse sujeio, não obsane, permanece desencarnado. Ele permanece numa espécie de limbo enre um eu imaginário e ob- jeivado e um corpo real cada vez mais concebido como inere. Daí que as meáforas predileas com que Lacan vai coninuamene se referir à corporeidade quando considerada nela mesma – iso é, para além dos disposiivos de subjeivação imaginários ou simbólicos que lhe serão sempre exeriores – comecem muio cedo a aparecer em conexão com o desenvolvimeno da sua eoria inicial do eságio do espelho. Es-sas meáforas, compreensivelmene, expressam sempre a inércia e a impoência do corpo, apresenando-o como uma realidade, em úlima insância, inanimada 3 : É que a forma oal do corpo, pela qual o sujeio anecipa, numa miragem, a mauração de sua poência, só lhe é dada como Gesal, iso é, numa exerioridade em que, ceramene, essa forma é mais consiuine do que cons-iuída; mas, sobreudo, em que ela lhe aparece, num relevo de esaura que a congela e sob uma simeria que a invere, em oposição à urbulência de movimenos com que ela experimena animá-lo. Assim, essa Gesal, cuja pregnância deve ser considerada como ligada à espécie (...) é cheia ainda de correspondências que unem o eu à esáua em que o homem se projea, assim como aos fanasmas que o dominam, ao auômao, enfim, em que, numa relação ambígua, ende a se acabar o mundo de sua fabricação (LACAN, 1966d, p. 94-5, grifos nossos). São, assim, a esáua  de Condillac – maéria progressivamene animada pela sensação – e o auômao  caresiano, com seu simulacro de vida, que fornecem as analogias pelas quais Lacan exprime sua visão da
Search
Tags
Related Search
We Need Your Support
Thank you for visiting our website and your interest in our free products and services. We are nonprofit website to share and download documents. To the running of this website, we need your help to support us.

Thanks to everyone for your continued support.

No, Thanks