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A Estrutura e Seus Efeitos o Simbolico d (2)

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   A estrutura e seus efeitos: o simbólico de Lévi-Strauss a Lacan, via Koyré. Gilson Iannini 1   Suivre la structure, c’est    s’assurer de l’effet du langage.   (Lacan, Radiophonie   )  Faz meio século, a onda estruturalista atingia seu cume. Em pouco tempo, ela se dissiparia num movimento que pareceria deixar poucas marcas reconhecíveis daquela aventura e de seus impasses. Da lingüística estrutural a Lévi-Strauss e Lacan, o pensamento francês contemporâneo foi marcado não apenas por esforços de formalização que visariam fornecer às ciências humanas um modelo de cientificidade análogo ao das demais ciências; não apenas por realizar uma espécie de linguistic turn   à la francesa, em que a tradição da filosofia do conceito encontraria as temáticas do signo e do simbólico, do significante e do discurso; mas também por toda uma singular relação que este pensamento sempre manteve com a arte contemporânea e, mais particularmente, com a literatura e com a poesia, que não será sem efeitos para o ponto de  vista desenvolvido aqui. Trata-se de apresentar sumariamente alguns episódios desta aventura que colocou o conceito de simbólico  no centro das pesquisas de ponta de meados do século XX, em diversos campos de conhecimento. Trata-se também de distinguir alguns termos que costumamos confundir: o pensamento estrutural e o estruturalismo são coisas distintas, como insiste Lacan; a estrutura não é o simbólico, logo a crise de um não necessariamente coincide com a crise de outro; nem mesmo o Outro é formalmente homólogo ao simbólico, etc. A melhor maneira de desenvolver estas questões é abordando os pontos de continuidade e de descontinuidade entre Lévi-Strauss e Lacan. Buscarei depreender do texto de Lacan um conceito de estrutura que podemos qualificar como especificamente lacaniano, o que nos economizará o ponto de vista da fidelidade ou não em relação ao emprego srcinal do conceito. Finalmente, buscarei, muito sucintamente, apontar um ou outro risco acarretado pelo abandono puro e simples de algumas conquistas da perspectiva estrutural fundamentais para a prática de orientação lacaniana, particularmente no que concerne à idéia de que o significante produz efeitos no real e à idéia de que a partilha entre o sentido e o não-sentido não pode ser determinada aprioristicamente. Mas, antes disso, gostaria de lembrar o papel de Koyré, guia epistemólogico de Lacan, na constituição do pensamento estrutural.  A epistemologia de Koyré como patrono do pensamento estrutural Lacan conheceu Lévi-Strauss no ano em que este publicava  As estruturas elementares do  parentesco  (1949), por ocasião de um jantar organizado por Koyré. Os laços de amizade que surgiram e se consolidaram entre o psicanalista e o antropólogo tinham como ponto comum, sobretudo, o gosto pelas obras de arte 2 . Ao acordo mútuo que se firmava em torno da arte se contrapunha um mal-entendido no plano intelectual, que não cessou de gerar desencontros, até culminar com o distanciamento, muitos anos mais tarde, dos dois homens. Tanto para Lévi-  1  Gilson Iannini é psicanalista em Belo Horizonte. É também professor-adjunto do Departamento de Filosofia da Universidade Federal de Ouro Preto (UFOP). É doutor em filosofia pela USP. Na Université Paris VIII, obteve o tí tulo de “Master en Psychanalyse: concepts et clinique” (antigo “DEA du Champ Freudien”), sob a orientação de François Regnault. É autor de “Estilo e verdade em Jacques Lacan” (Ed. Aut êntica, 2011). 2  ROUDINESCO, E.,  Jacques Lacan: Esboço de uma vida, história de um sistema de pensamento , p. 219. Conforme declara Lévi-Strauss, Lacan costuma organizar almoços em Guitrancourt, em sua casa de campo, junto com Lévi-Strauss e os Merleau-Ponty. Interessante notar que a partir de meados da década de 50 era lá que Lacan expunha e escondia seu Courbet.   2 Strauss quanto para Lacan, o pano de fundo do problema é a tentativa de estabelecer as condições mínimas para a formalização algébrica ou matematização de seus respectivos campos de saber: redução estrutural ou literalização. É claro que tudo isso tem relação estreita com a questão do estatuto de cientificidade da etnologia (Lévi-Strauss) e da psicanálise (Lacan). Isso não é sem razão. Um pouco antes, na segunda metade da década de trinta, Lévi-Strauss tentara transcrever línguas indígenas do Brasil Central. Não refeito das dificuldades encontradas, ele assiste, por indicação de Koyré, aos cursos de Jakobson sobre o som e o sentido de 1942-43, no departamento francês ultramarino da Escola Livre de Altos Estudos instalado em New York durante a guerra. Promete, então, a si mesmo encontrar os rudimentos de lingüística que lhe faltavam junto ao ensino de Jakobson. Mas o fato é que o ensino do lingüista praguense haveria de proporcionar algo, do ponto de vista epistemológico, muitíssimo mais valioso, escreve Lévi-Strauss: a revelação da lingüística estrutural. Esta lhe ensinaria a c onsiderar “as rela ções mais simples e mais inteligí  veis” que unem os termos, em vez de se deixar perder por entre sua multiplicidade 3 . Nasce aí o programa de pesquisa do pensamento estrutural. O que salta aos olhos é como os dois principais encontros que ajudaram a formar o pensamento estrutural, o de Jakobson com Lévi-Strauss em Nova York e o de Lévi-Strauss com Lacan em Paris, foram patrocinados por um epistemólogo. Para além do episódio contingente destes encontros, o fato é que há uma certa teoria da ciência, fornecida justamente por Koyré, que é o laço que transforma a contingência dos encontros num fato, por que não dizer, de estrutura. Esta teoria consiste, de modo muito rudimentar, na idéia de que a principal característica da ciência não é a experimentação nem a fidedignidade na observação pretensamente neutra dos fatos. Ao contrário, o sucesso da física moderna depende de uma operação epistemológica que consiste em afirmar o caráter matemático do real, a possibilidade de apreender o real pelo simbólico. A física de Galileu, como quer Koyré, é uma física de corpos abstratos movendo-se em espaços abstratos. Esta concepção do primado da forma sobre o conteúdo, ou, mais precisamente, a possibilidade de reduzir o real ao simbólico que atrairá a atenção de Lévi-Strauss e de Lacan ao método fonológico desenvolvido por Jakobson. Evidentemente, os resultados obtidos desta freqüentação são diversos e distanciaram-se cada vez mais ao longos dos anos. Pela razão principal de que, desde o primeiro momento (1953), Lacan ter sempre insistido na idéia de que há algo do real que escapa ou resiste ao simbólico.  A Eficácia simbólica, de Lévi-Strauss a Lacan Nã o por acaso, “  A Eficácia simbó lica” é o primeiro artigo de Lévi-Strauss que Lacan cita no conjunto de toda sua obra escrita, precisamente em o “Est á gio do Espelho...” (E: 98) 4 , ainda sem muito distanciamento. Mas em  A ciência e a verdade  , estenografia da lição de abertura do seminário sobre O objeto da psicanálise   (1965-66) realizado na  École Normale Supérieure  , a posição de Lacan já é outra. Com efeito, ele então examina o problema das relações entre ciência e verdade sob o prisma da noção de causa. Mais especificamente, sua estraté gia consiste em investigar “a  verdade como causa” nos “quatro modos de sua refra çã o” (E: 890). Estes quatro modos de refração da verdade   são inspirados nominalmente pela terminologia da  Metafísica   de Aristóteles concernentes aos diferentes aspectos da causa (eficiente, final, formal, material). Sua recensão fornece um quadro comparativo de como a verdade funciona como causa, respectivamente, na magia, na religião, na ciência e na psicanálise. 3  LÉVI-STRAUSS, 1977, p. 8 4  Para as obras de Jacques Lacan, utilizarei as seguintes convenções: E:, para  Escritos  ; OE, para Outros Escritos  ; S, para O Seminário  [para indicar o livro correspondente, emprego numeração romana após a sigla. Exemplo: S. IV indica O Seminário, Livro IV].   3 De modo bastante sumário, temos o seguinte quadro. Na magia, a verdade opera como causa segundo seu aspecto eficiente, mas o saber mantém-se velado (E: 886), porquanto a  verdade funciona sob o regime do recalcamento (E: 889). O interesse aqui é de diferençar o gênero de cura posto em ação na psicanálise e na magia, em franca discussão com o ponto de  vista lévi-straussiano. Com efeito, em  A eficácia simbólica   (1949) 5 , Lévi-Strauss analisa a cura xamanística e surpreende-nos, ao final, com uma inusitada comparação com o psicanalista. Depois de analisar o caso concreto de uma intervenção xamanística em um parto difícil, o autor busca entender a eficácia da operação. Em linhas gerais, a argumentação é mais ou menos a seguinte. A cura xamanística consiste em tornar inteligível   uma situação dada, a princípio, no registro dos afetos, e tornar “ aceitáveis   para o espírito as dores que o corpo se recusa a tolerar. Que a mitologia do xamã não corresponda a uma realidade objetiva, não tem importância: a doente acredita nela, e ela é membro de uma sociedade que acredita” (L évi-Strauss, 1973, p. 228). Por isso, na terminologia de Lacan, a eficiência da cura xamanística, pois, na magia, a verdade opera como causa em seu aspecto eficiente. Diferentemente da relação causal e objetiva entre um microorganismo e uma doença, a relação entre o monstro e a doença é uma relação do símbolo à coisa simbolizada, ou, para empregar o vocabulário dos lingüistas, de significante a significado. O xamã fornece à sua doente uma linguagem  , na qual se podem exprimir imediatamente estados não-formulados, de outro modo informuláveis. E é a passagem a esta expressão verbal (que permite, ao mesmo tempo, viver sob uma forma ordenada e inteligível uma experiência real, mas, sem isto, anárquica e inefável) que provoca o desbloqueio... (Lévi-Strauss, 1973, p. 228). Lévi-Strauss conclui daí que a cura xamanística se situa a meio caminho entre a medicina orgânica e a psicanálise, e lança mão de conceitos tais como ab-reação para tentar justificar sua posição. De todo modo, é o xamã, em carne e osso, que suporta a operação. Entender a distância que separa o xamã e o psicanalista corresponde a percorrer a distância que separa a verdade como causa eficiente (magia) da verdade como causa material (psicanálise); o saber velado, inefável (magia) ao saber literal, formalizável (psicanálise). Do mesmo modo, vale acrescentar: o simbólico pressuposto por Lévi-Strauss é consistente e, ao mesmo tempo, esta consistência é eficaz também ao produzir crença. Os membros de tal ou qual sociedade crêem na capacidade ordenadora do simbó lico, de onde se justifica o termo “ordem simb ó lica”. J á para Lacan, o simbólico é muito mais da ordem da ficção e sua capacidade de produzir crenças é limitada pela inconsistência do Outro. Não por acaso foi Jakobson quem sugeriu que Lacan lesse a Teoria das ficções  , de Jeremy Bentham, no contexto de uma discussão sobre as relações entre a linguagem e o real. Desde o Seminá rio sobre “A Carta roubada”, os v   ínculos entre verdade e ficção começavam a se consolidar no ensino de Lacan. Ao apresentar o sujeito do inconsciente dessubstancializado, definido apenas por sua localização na estrutura simbólica  –   no caso em pauta, a partir da posição do sujeito em relação ao deslocamento da letra/carta do conto de Poe  –   , Lacan comenta: Foi por isso que pensamos em ilustrar hoje a verdade que brota do momento do pensamento freudiano que estamos estudando, ou seja, que é a ordem simbólica que é constituinte para o sujeito, demonstrando-lhes numa história a determinação fundamental que o sujeito recebe do percurso de um significante. É essa verdade, podemos notar, que possibilita a própria existência da ficção (E: 12) 5  Não por acaso, o primeiro artigo de Lévi-Strauss que Lacan cita no conjunto de toda sua obra escrita. Citado em “Est á gio do Espelho...” (E: 98). Cf. tamb ém Lécuru, 1994, p. 126.   4 Formalização: fonema, mitema, significante. O fonema é a menor unidade linguística existente. Ele próprio é desprovido de sentido, sendo uma entidade negativa, opositiva e relaciona. Mas é desta ausência de sentido que, num jogo de oposições, através da diferença, nascerá o sentido: /p/; /r/; /g/, em si mesmos, são fonemas desprovidos de sentido. Mas, precedento “ato”, definem o sentido de “pato”, “rato”, “gato”. O mesmo ocorre com o mitema, na etnologia e com o signific ante, na psicanálise. Este é, pois, o melhor exemplo desta estratégia de formalização. O que importa é a sua “ oposição recíproca no seio de um sistema ”. Oposi ção esta fundada sobre a primeira grande categoria da análise estrutural: a diferença, que Milner apresenta como principal contribuição da lingüística estrutural 6 . Lacan inspira-se amplamente neste método combinatório, principalmente no que concerne à “ forma de matematizaçã o” tornada poss  ível através da redução de fenômenos a suas estruturas simbólicas mí nimas, que faculta “uma abordagem estrita de nosso campo” (E: 286).   Vejamos como Lévi-Strauss constrói o conceito de mitema: Ocorre com os mitos o mesmo que com a linguagem: se um sujeito aplicasse conscientemente em seu discurso as leis fonológicas e gramaticais, supondo-se que possuísse o conhecimento e o virtuosismo necessários, perderia quase que de imediato o fio de suas idéias. Do mesmo modo, o exercício e o uso do pensamento mítico exigem que suas propriedades permaneçam escondidas, senão nós nos colocaríamos na posição do mitólogo, que não pode acreditar nos mitos, pois se dedica a demonstrá-los. A análise mítica não tem, nem pode ter, por objeto mostrar como os homens pensam (...). Não pretendemos mostrar, portanto, como os homens pensam nos mitos, mas como os mitos se pensam nos homens e à sua revelia. Talvez, como sugerimos, convenha ir ainda mais longe, abstraindo todo sujeito para considerar que, de uma certa maneira, os mitos se pensam entre eles (Lévi-Strauss, 1991, p. 20-21).  A empresa vã de compreender que tipo de necessidade interna unia sons e sentidos só se  viu resolvida quando a lingüí stica se apercebeu que a “fun ção significativa da linguagem não está ligada aos próprios sons, mas à maneira pela qual os sons se encontram combinados entre si” (Lévi-Strauss, 1973, p.240). Na mitologia arquetípica de Jung, Lévi-Strauss encontra ocasião de contra-exemplificar o que seria a noção de arbitrário do signo em etnologia. Jung pecaria por crer na existência de elos naturais entre as figuras míticas e sua significação, do mesmo modo como os linguistas, antes de Saussure, procuravam um vínculo natural entre sons e sentidos. Agora, dotado do aparelho nocional da linguística estrutural, é possível estudar os mitos desvinculados de qualquer espécie de vínculos naturais entre a matéria e o significado dos mitos. Passo fundamental para que se possa proceder a uma verdadeira análise estrutural e ultrapassarmos a miragem da compreensão. Por isso é possível dizer com Lévi- Strauss: “mito é linguagem; mas uma linguagem que tem lugar num nível muito elevado, e onde o sentido chega, se é lícito dizer, a decolar do fundamento linguístico sobre o qual começou rola ndo”. Este fato explica, por exemplo, uma peculiaridade do mito em relação a uma das manifestações mais altas da linguagem, a poesia. A poesia é muito difícil de ser traduzida de uma para outra língua; ao contrário, a despeito da pior tradução, o valor do mito persiste. Isto permite dizer que “a subst ância do mito não se encontra nem no estilo, nem no modo de narração, nem na sintaxe, mas na história que é relatada”. N ão obstante, este relato pode ser reduzido a sua estrutura mínima. Lévi-Strauss fornece um exemplo claro da natureza do mitema no Prefácio  escrito por ele para um livro de Jakobson. As características principais do fonema, que são unidades opositivas, relativas e negativas, reaparecem, uma a uma, nas unidades elementares do discurso mítico, os mitemas. 6  LÉVI- STRAUSS, “Pref  á cio...”, p. 8. Cf. MILNER, J -C., Les noms indistincts,.  p. 33.
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