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A Ficção de Patrícia Melo Ou o “Inferno” Da Urbe

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  1  A ficção de Patrícia Melo ou o “inferno” da urbe   Ana Catarina Marques CITCEM 1.   A escrita de Patrícia Melo na literatura brasileira dos séculos XX/XX1 A ficção de Patrícia Melo emergiu, no Brasil, em plena década de 90, do século XX, (a)firmando-se como uma narrativa voltada para a violência na grande urbe, através da construção de personagens tão díspares, desde marginais/favelados até elementos da classe média alta, que circulam entre o centro e a periferia. Considerada epígona do escritor Rubem Fonseca (homenageado publicamente em  Elogio da Mentira , 1998,  Jonas, o Copromanta , 2008,  Ladrão de Cadáveres , 2010) ou, ainda, trabalhando temáticas que relembram traços marcantes do ficcionista Sérgio Sant´Anna, a autora de Valsa Negra  dá uma nova roupagem ao crime e à onda de violência que percorre as grandes metrópoles. Deste modo, a narrativa de Melo mescla traços do romance policial (não convencional, não clássico, já que a autora não se rege estritamente pelas regras típicas do romance policial) com uma visão contundente da realidade social e do quotidiano das populações marginalizadas, com o requinte sóbrio e o sentido de humor que retira das mais diversas situações. É ainda na década de 90 que, a par da narrativa de Patrícia Melo, outros escritores emergem numa incursão pelo mundo underground, do crime e da violência, revisitando mestres da narrativa contemporânea ou renovando, inclusive, a forma de olhar criticamente o Brasil atual  –   atente-se, por exemplo, no caso de Bernardo Carvalho, Paulo Lins ou Luiz Ruffato  –   com repercussão na narrativa que se produz à entrada do século XXI, com Ferréz ( Capão Pecado , 2001), João Paulo Cuenca ( Corpo presente , 2003) ou ainda Marçal Aquino ( Cabeças a prêmio , 2003). A própria oralidade e o modo comportamental destas personagens transportam o leitor para o universo da trama e do drama, numa visão ácida e infernal   sobretudo dos subúrbios cariocas e/ou paulistas e a emergência, no romance, do novo espaço-espectro da favela. É assim que Melo desvela uma cosmovisão nua e crua do Brasil contemporâneo: «No Brasil, ele dizia, não é  2 nenhuma vergonha ter uma ordem de prisão contra você. Tanto faz pobre, rico, branco, os caras lá em cima, digo ministro, vereador, bambambã, todo mundo tem. Brasileiro é assim, escroto mesmo. Faz parte da nossa cultura roubar, sacanear» 1 . É justamente nesta ótica que Beatriz Resende aponta a violência na cidade, em  Expressões da literatura brasileira no século XXI  , 2008, como o grande tema dos ficcionistas de finais da década de 90 e inícios do século XXI: Chego assim à última das questões que quero identificar nas múltiplas possibilidades da prosa contemporânea, talvez o tema  mais evidente na cultura produzida no Brasil contemporâneo: a violência nas grandes cidades. […]. A cidade –   real ou imaginária  –   torna-se, então, o locus de conflitos absolutamente privados, mas que são também os conflitos públicos que invadem a vida e o comportamento individuais, ameaçam o presente e afastam o futuro, que passa a parecer impossível. 2   Desta forma, as narrativas expõem a urbe como espaço primordial da ação, através de conflitos concatenados por vinganças pessoais até à explosão de crimes  passionais; são cenas e contracenas construídas com uma mestria plástica que facilmente converge para a escrita cinematográfica, o que corrobora a experiência madura da autora de  Mundo Perdido  na criação de roteiros e guiões para cinema e televisão. Deste modo, parafraseando um título da escritora, verifica-se que a sua escrita mergulha no inferno  da violência urbana, onde personagens à margem do sistema  –   Reizinho, Máiquel, etc.  –   ou alucinadas pela própria noção de sistema  –   o maestro, de Valsa Negra    –   constroem as suas vidas entre jogos de sorte e azar. Se, como já foi apontado pela crítica, existe uma conexão ao crime que percorre toda a obra, importa assinalar que não é esse o “escudo de Aquiles” que justifica a opus magnum : para Melo, o crime é uma das facetas que faz revelar a perversão do humano, quando confrontado com situações que exigem uma tomada de decisão que implica, necessariamente, o eu  o outro , através de mecanismos egocêntricos ou de ímpetos destruidores. É aqui que Patrícia Melo atua sem tergiversar: ao propor uma reflexão dura, acintosa e polémica sobre as práticas criminais aguça o leitor para as relações entre 1  Patrícia Melo  , Mundo Perdido , Porto, Campo das Letras, 2007, p. 11. 2  Beatriz Resende, Expressões da literatura brasileira no século XXI , Rio de Janeiro, Casa da Palavra, 2008, pp. 32-33.  3 crime e arte, encenadas no dilema enunciado em  Elogio da mentira , pela transformação do elemento fictício em matéria factual (paródia do escritor que se torna autor/perpetrador de um crime).  Na obra  Ladrão de cadáveres , 2010, assente sobre um predicado criminal, assiste-se a um conjunto de “crimes (i)morais”  perpetrados pela necessidade de sobrevivência em situações de risco-limite. O protagonista ensombrado pelas memórias da mãe em torno da espera do pai desaparecido (não houve cadáver para fazer o luto), acaba por se envolver com a família de Júnior, piloto que se despenhou no rio Paraguai, Pantanal, ao resgatar o falso cadáver do piloto para que a sua mãe, Dona Lu, faça o respetivo luto. Até aqui, a história teria um mecanismo linear, porém, fora o próprio  protagonista o primeiro a deparar-se com Júnior após a queda da avioneta, mas fugiu do local com a mochila que continha cocaína, não avisando a polícia do sucedido. Assim, num primeiro momento, o protagonista abandona o cadáver (título da  primeira parte da narrativa) para, posteriormente, encenar o resgate do cadáver, com o intuito de pagar uma dívida ao traficante Ramirez, tornando-se um ladrão (título da segunda parte da narrativa) de cadáveres. É aqui que entra a sua cúmplice, Sulamita, a namorada policial, metódica, que, por amor, renuncia ao princípio da moral para elaborar e colaborar com o plano pernicioso do namorado: roubar do necrotério um cadáver que personalize Júnior, o defunto. O enredo vive das tensões e emoções do protagonista (cujo nome nunca é revelado), abalado pela revelação do seu lado obscuro, masoquista, chegando a questionar a execução do plano, com o intuito de o abortar, encontrando, porém, em Sulamita, uma voz decidida e dominante na prática corrupta do crime. O paradoxo de uma hipermoral personalizada pela namorada e a sua excitação na organização de uma trama macabra reforça a temática obsessiva que Melo aborda nesta obra: até que ponto a  bondade é uma maldade mascarada, porque já traz em si o princípio da distorção e  perversão. Sulamita representa, inicialmente, o elemento feminino crente na família e na honestidade laboral (até descobrir que o parceiro, Joel, também é um corrupto) para assumir, no final, o espelho reverso da sua conduta, ao ser uma cúmplice leal, sem constrangimentos punitivos, de uma jogada amoral, em proveito da sua relação. Também Sulamita, a bondosa e cândida, cai nas malhas da sua perversão, ao aceitar o  jogo que trai os seus princípios, atuando no lugar do criminoso, revelando que o ser  4 humano é sórdido por natureza. Esta é a lição que Melo desvenda: não há lugar para a  bondade, porque do nascimento à morte, o humano é uma homologia dessa sujidade e sordidez. Para além de incidir compulsivamente na questão da morte, este romance de Patrícia Melo alarga o seu espaço ao interior brasileiro, Mato Grosso, Pantanal, o que se aparenta ser um desvio no seu percurso (da cidade, S. Paulo, para a periferia) apenas o é na mera relação das aparências, já que torna ainda mais coesa a abordagem temática  proposta: em todo o lugar, a vileza e a podridão grassam, independentemente do espaço, já que o ser humano é um “criminoso em potência”.  Desta forma, compreende-se que a Melo se sirva do leitmotiv  do crime para aportar numa visão pessimista e filosófica da existência, já que os seus personagens vão em linha reta para o abismo  –   ou inferno  –   da corrupção moral, política, sexual ou religiosa, como a loucura do maestro, em Valsa Negra . 2. Excrescências e desatinos nas narrativas de Patrícia Melo: para uma cosmovisão da maldade e da degenerescência humana (visão filantrópica pessimista)  Numa abordagem holística à obra da autora de  Elogio da mentira , ressalta, desde logo, uma mundividência pessimista e marginal que não cede lugar a uma construção utópica ou otimista das relações humanas; as situações, as ambiências e as personagens fazem parte de uma espécie de “teatro do desagradável”, na aceção rodriguiana  (Nelson Rodrigues), em que a frivolidade da espécie traça o desígnio do seu ator, o ser humano, nem sempre disposto a recuar perante a violência da vida. Em Patrícia Melo, a tríade corpo, desejo e punição constitui o cerne de uma abordagem que joga com as noções de corpo e crime, como é focado no excerto da obra  Ladrão de cadáveres : «Você não faz a mínima ideia do que é uma morte sem corpo. Claro que faço, ela disse, é como um crime sem corpo: não existe» 3 . O projeto ficcional apresentado, facilmente ajustado a um trompe l  ’oeil     policial, apresenta uma proposta mais elaborada assente numa visão ético-moral da humanidade e das suas criaturas reais (ou  pequenas criaturas , ao estilo de R. Fonseca). É por isso que se o crime existe ou paira como força motora das narrativas é justamente porque 3  Patrícia Melo, Ladrão de Cadáveres , Lisboa, Quetzal, 2012, p. 174.
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