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A Função da Arte

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A FUNÇÃO DA ARTE Ernest Fischer A necessidade da arte. Rio de Janeiro: Zahar, 1976. 5ª ed., p. 11-14. Prof. Arildo Camargo “A poesia é indispensável. Se eu ao menos soubesse para quê...” com este encantador e paradoxal epigrama, Jean Cocteau resumiu ao mesmo tempo a necessidade da arte e seu discutível papel no atual mundo burguês. O pintor Mondrian, por sua vez, falou do possível “desaparecimento” da arte. A realidade, segundo ele acreditava, iria cada vez mais deslocando a obra de arte, que e
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  A FUNÇÃO DA ARTE Ernest FischerA necessidade da arte. Rio de Janeiro: Zahar, 1976.5ª ed., p. 11-14.Prof. Arildo Camargo “A poesia é indispensável. Se eu ao menos soubesse para quê...” com esteencantador e paradoxal epigrama, Jean Cocteau resumiu ao mesmo tempo anecessidade da arte e seu discutível papel no atual mundo burguês.O pintor Mondrian, por sua vez, falou do possível “desaparecimento” da arte. Arealidade, segundo ele acreditava, iria cada vez mais deslocando a obra de arte, queessencialmente não passaria de uma compensação para o equilíbrio deficiente darealidade atual. “A arte desaparecerá na medida em que a vida adquirir mais equilíbrio”.A arte concebida como “substituto da vida”, a arte concebida como o meio decolocar o homem em estado de equilíbrio com o meio circundante – trata-se de uma idéiaque contém o reconhecimento parcial da natureza da arte e da sua necessidade. Desdeque um permanente equilíbrio entre o homem e o mundo que o circunda não pode serprevisto nem para a mais desenvolvida das sociedades, trata-se de uma idéia que sugere,também que a arte não só é necessária, mas igualmente que a arte continuará sempresendo necessária.No entanto, será a arte apenas um substituto? Não expressará ela também umarelação mais profunda entre o homem e o mundo? E naturalmente, poderá a função daarte ser resumida em uma única fórmula? Não satisfará ela diversas e variadasnecessidades? E se, observando as srcens da arte, chegarmos a conhecer a sua funçãosrcinal, não verificaremos também que essa função inicial se modifica e que novasfunções passaram a existir?Este livro apresenta uma tentativa de responder a questões como essas, com basena convicção de que a arte tem sido, e será sempre necessária.Como primeiro passo, é preciso advertir que tendemos a considerar natural (eaceitá-lo como tal) um fenômeno surpreendente. E, de fato, referimo-nos a algosurpreendente: milhões de pessoas lêem livros, ouvem músicas, vão ao teatro e aocinema. Por que? Dizer que procuramos distração, divertimento, relaxação, é não resolvero problema. Por que distrai, diverte e relaxa o mergulhar nos problemas e na vida dosoutros, o identificar-se com os tipos de um romance, de uma peça ou de um filme? Porque reagimos em face dessas “irrealidades” como se elas fossem a realidadeintensificada? Que estranho, misterioso divertimento é esse? E se alguém nos responde  que almejamos escapar de uma existência insatisfatória para uma existência mais ricaatravés de uma experiência sem riscos, então uma nova pergunta se apresenta: por quenossa própria existência não nos basta? Por que esse desejo de completar a nossa vidaincompleta através de outras figuras e outras formas? Por que, da penumbra do auditórioalgo que é fictício e que tão completamente absorve a nossa atenção?É claro que o homem quer ser mais do que apenas ele mesmo. Quer ser homemtotal. Não lhe basta ser um indivíduo separado; além da parcialidade da sua vidaindividual, anseia uma “plenitude” que sente e tenta alcançar, uma plenitude de vida quelhe é fraudada pela individualidade e todas as suas limitações; uma plenitude na direçãoda qual se orienta quando busca um mundo mais compreensível e mais justo, um mundoque tenha significação. Rebela-se contra o ter de se consumir no quadro da sua vidapessoal, dentro das possibilidades transitórias e limitadas da sua exclusiva personalidade.Quer relacionar-se a alguma coisa mais do que o “Eu”, alguma coisa que, sendo exterior aele mesmo, não deixe de ser essencial. O homem anseia por absorver o mundocircundante, integrá-lo a si; anseia por estender pela ciência e pela tecnologia o seu “Eu”curioso e faminto de mundo até as mais remotas constelações e até os mais profundossegredos do átomo; anseia por unir o seu “Eu” limitado com uma existência coletiva e portornar socia  l a sua individualidade.Se fosse da natureza do homem o não ser ele mais que um indivíduo, tal desejoseria absurdo e incompreensível. Porque então como indivíduo ele já seria tudo o que eracapaz de ser. O desejo do homem de se desenvolver e completar indica que ele é maisdo que um indivíduo. Sente que só pode atingir a plenitude se apoderar das experiênciasalheias que potencialmente lhe concernem, que poderiam ser dele. E o que um homemsente como potencialmente seu inclui tudo aquilo de que a humanidade, como um todo, écapaz. A arte é o meio indispensável para essa união do indivíduo como o todo; reflete ainfinita capacidade humana para a associação, para a circulação de experiências e idéias.Essa definição de arte como um meio para tornar-se um  com o todo da realidade,como o caminho do indivíduo para a plenitude, para o mundo em geral, como a expressãodo desejo do indivíduo no sentido de se identificar com aquilo que ele não é, essadefinição não será talvez demasiado romântica? Não será temerário concluir, com baseno nosso próprio senso de identificação quase histérico com o herói de um filme ou de umromance, que seja essa a função universal e srcinal da arte? Não conterá a arte,também, o contrário dessa perda “dionisíaca” de si mesmo? Não conterá a arteigualmente o elemento “apolíneo” de divertimento e satisfação que consiste precisamente  no fato de que o observador não se identifica com o que está sendo representado e até sedistancia do que está sendo representado, escapa ao poder direto com que a realidade osubjuga, através da representação do real, e liberta-se do esmagamento em que se achasob o cotidiano? A mesma dualidade – de um lado, a absorção na realidade e, de outro, aexcitação de controlá-la – não se evidencia no próprio modo de trabalhar do artista? Nãonos devemos enganar quanto a isso: o trabalho para um artista é um processo altamenteconsciente e racional, um processo ao fim do qual resulta a obra de arte como cominada,e não – de modo algum – um estado de inspiração embriagante.Para conseguir ser um artista, é necessário cominar, controlar e transformar aexperiência em memória, a memória em expressão, a matéria em forma. A emoção paraum artista não é tudo; ele precisa também saber tratá-la, saber transmiti-la, precisaconhecer todas as regras, técnicas, recursos, formas e convenções da arte. A paixão queconsome o diletante serve ao verdadeiro artista; o artista não é possuído pela besta-fera,mas doma-a.A tensão e a contradição dialética são inerentes à arte; a arte não só precisaderivar de uma intensa experiência da realidade como precisa ser construída, precisatomar forma através da objetividade. O livre resultado do trabalho artístico resulta damestria. Aristóteles, tão freqüentemente mal compreendido, sustentou que a função dodrama era purificar as emoções, superando o terror e a piedade, de maneira que oespectador, ao se identificar com Orestes ou Édipo, viesse a ser por sua vez libertadodaquela identificação e se erguesse acima da ação cega do destino. Os laços da vida sãotemporariamente desfeitos, pois a arte “cativa” de modo diferente da realidade, e esteagradável e passageiro cativar artístico constitui precisamente a natureza do“divertimento”, a natureza daquele prazer que encontramos até nos trabalhos trágicos.

intestinul-subtire

Aug 12, 2017
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