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A GEOGRAFÍA DO ESTRANGEIRO EM EN CUALQUIER LUGAR DE MARTA TRABA E ANDAMIOS DE MARIO BENEDETTI. LEITURAS DA MEMÓRIA E DO EXÍLIO.

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A GEOGRAFÍA DO ESTRANGEIRO EM EN CUALQUIER LUGAR DE MARTA TRABA E ANDAMIOS DE MARIO BENEDETTI. LEITURAS DA MEMÓRIA E DO EXÍLIO. Neiva Maria Graziadei Fernandes 1 2 RESUMEN: Este artículo tiene como objetivo
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A GEOGRAFÍA DO ESTRANGEIRO EM EN CUALQUIER LUGAR DE MARTA TRABA E ANDAMIOS DE MARIO BENEDETTI. LEITURAS DA MEMÓRIA E DO EXÍLIO. Neiva Maria Graziadei Fernandes 1 2 RESUMEN: Este artículo tiene como objetivo exponer un breve análisis comparativo entre dos obras hispanoamericanas a saber: En cualquier lugar (1984) de la argentina Marta Traba y Andamios (1997) del uruguayo Mario Benedetti. Ambos libros tratan de la geografía del extranjero a partir de sus reflexiones acerca de la memoria, una de las consecuencias del exilio a que los personajes se ven obligados a vivir durante las dictaduras de Argentina y Uruguay, en los años setenta, respectivamente, llevando en cuenta las lecturas desarrolladas de Antoine Compagnon, Giorgio Agamben, Zigmund Bauman, Zilá Bernd, Regina Dalcastgné, entre otros, que tratan del desplazamiento humano, de los lugares y de los espacios negociados, resultantes de estos desplazamientos. PALABRAS CLAVE: geografía, memoria, exilio. RESUMO: Este artigo tem por objetivo expor uma breve análise comparativa entre duas obras hispano-americanas, a saber: En cualquier lugar (1984) da argentina Marta Traba e Andamios (1997) do uruguaio Mario Benedetti. Ambos livros tratam da geografia do estrangeiro a partir de suas reflexões sobre a memória, uma das consequências do exílio a que os personagens se veem obrigados a viver durante as ditaduras da Argentina e do Uruguai nos anos setenta, respectivamente, considerando 1 as leituras desenvolvidas por Antoine Compagnon, Giorgio Agamben, Zigmund Bauman, Zilá Bernd, Regina Dalcastgné, entre outros, que tratam do deslocamento humano, dos lugares e dos espaços negociados, resultado desses deslocamentos. PALAVRAS-CHAVE: geografia, memória, exílio. Algumas calçadas em Buenos Aires estampam em suas pedras inscrições inusitadas, tanto pelo fato de estarem ali, como pelo conteúdo das mesmas: Aquí fue secuestrada Guillermina Santamaría Woods, militante popular, detenida y desaparecida por el terrorismo de estado. 8/07/1976. Barrios x Memória y Justicia. Esta é uma das tantas baldosas cujo conteúdo tem a finalidade de manter viva a memória daqueles que desapareceram durante a última ditadura argentina. Entre 1973 e 1985, 30 mil pessoas sumiram. O país ainda não enterrou seus mortos porque ninguém sabe onde estão os corpos de jovens, velhos e crianças, vítimas de uma crueldade sem par do governo Videla. Dia após dia, parentes buscam incessantemente e nessa busca vivem cotidianamente a experiência da memória e do luto permanente. Este artigo é uma incursão no espaço da dor, dos lugares da memória e do exílio representados nos livros En cualquier lugar (1984) da crítica de arte e escritora argentina, Marta Traba, e Andamios (1997) do escritor uruguaio Mario Benedetti. A partir dos títulos já se percebe que a noção de espaço/lugar é o que identifica, pelo menos em parte, cada um deles. Comecemos, pois, a pensar este espaço intervalar entre a teoria e as duas obras pelo desconhecimento a respeito dos autores por parte do Brasil, salvo raras exceções; sugiro, então, enveredar-nos en passant, (permitam-me valer-me de uma emergência) em suas trajetórias para entendermos que suas errâncias resultaram em um conjunto de obras voltadas para as artes latino-americanas (no caso de Marta Traba) e as temáticas sobre a repressão, o exílio e memória em nosso continente. Traba, juntamente com seu marido, o crítico uruguaio, Angel Rama, vivenciou a experiência do entre-lugar em Bogotá, Washington, Paris, Montevidéu, afora outras paisagens de deslocamentos. Do mesmo modo, Mario Benedetti, além de Montevidéu, escreveu muitos de seus livros durante exílio no México, Cuba e Espanha. Nesse caso, vale resgatar o que afirmou Regina Dalcastagnè 3 em seu artigo Sombras da cidade o espaço da narrativa brasileira o espaço da narrativa contemporânea : Nunca antes os homens possuíram tamanha mobilidade geográfica, o que faz com que os sentimentos comunitários percam centralidade. (pág.33). Essa mobilidade inscreve Traba e Benedetti na geografia do desterro como também suas obras. Se fizermos o levantamento da fortuna crítica de ambos, comprovaremos que dificilmente o tema, exílio, está ausente. E essa 2 preocupação decorre da consciência, antes de qualquer coisa, do compromisso que um autor deve ter com seu meio e com seus leitores; aproxima-se ao que o ser humano entende por ética. Antoine Compagnon, em seu livro Literatura para quê? (2009), referindo-se a Proust, escreve o seguinte: Somente pela arte, continuava Proust, podemos sair de nós mesmos, saber o que enxerga outra pessoa desse universo que não é igual ao nosso, e cujas paisagens permaneceriam tão ignoradas de nós... ( pág.21). Nesse sentido, o sair de nós mesmos, como afirma Proust, abrange também uma questão ética, mas não a ética comumente entendida como o cumprimento da ordem existente ; bem mais que isso, a ética se refere ao que lemos, ao que nos afeta para além da superfície, ao que nos faz outro, nos transforma, que em dado momento ouvimos nossa própria voz dizendo não, isso não é bem assim, não está certo, deve haver uma justiça dos homens! Nossa voz, que indignada com algo que nos fere no âmago da existência, o cerceamento da liberdade, minha, sua, caro leitor, de outrem, injustamente, algo que nos identifica com este outro e que põe em cheque toda uma tradição de silêncio, o não dizer, o não se manifestar contrariamente ao status quo, enfim, o que nos desumaniza e se dissemina como um gás venenoso e que, oh Deus, profana a dignidade dos homens. Mas, por que o termo profanar não parece estranho a esse texto? Se sua origem remonta ao que é sagrado, a devolver à comunidade humana aquilo que historicamente foi subtraído ao uso comum através da sacralização.? Basta que leiamos a apresentação feita por Selvino J. Assmann para o livro Profanações (2007), de Giorgio Agamben, para entendermos que seu olhar é meio enviesado quanto ao uso da palavra: profanar significa (...) tocar no consagrado para libertá-lo (e libertar-se) do sagrado. Assim, a profanação do improfanável nos diz que o mais íntimo de nós, e fora de nós, pode ser objeto de libertação, em outras palavras, de profanação. Tal ato também pode ser entendido como uma nova modernidade, ou, nas palavras de Zigmund Bauman, segunda modernidade. O momento atual no mundo global se configura como um tempo de travessias, de incoerências, de espaços nada seguros e muito menos de certezas que antes representavam um solo firme para realizações tanto individuais como coletivas. Como afirmou o autor em seu livro Modernidade líquida (2001), Associamos leveza ou ausência de peso à mobilidade e à inconstância...essas são razões para considerar fluidez ou liquidez como metáforas adequadas quando 3 queremos captar a natureza da presente fase, nova de muitas maneiras, na história da modernidade.(pág.9) Bauman compara a atual ordem mundial a um processo físico/químico, no qual a sociedade, suas mudanças, os movimentos dessa modernidade líquida, porque fluida, se misturam, se entrelaçam as escolhas individuais em projetos e ações coletivas, Tudo em novos e inesperados movimentos, acontecendo muito rápido; nenhum nicho segue ocupado pelo mesmo em um lugar cômodo, seguro, onde cada um usava sua liberdade de acordo com regras do jogo e condutas politicamente corretas; então, realmente o mundo e seu tempo de agora, segundo ele, se tornou um espaço líquido porque não se consegue fixar nada por muito tempo, como o pensador diz, escorre. Espaço/tempo: sabe-se que o tempo adquire história uma vez que a velocidade do movimento através do espaço (diferentemente do espaço eminentemente inflexível...) se torna uma questão do engenho, da imaginação e capacidade humanas, de acordo com este sociólogo. Seguindo no mesmo caminho: uma das marcas desse tempo, é sem dúvida, a fugacidade e a rapidez que permitem menosprezar memórias, lugares e histórias que marcaram o homem ao longo da existência de sua espécie e sua desidentificação como uma necessidade imperiosa para que os espaços se determinem como lugares seletivos de indivíduos. Assim, tem-se um grupo de pessoas, por exemplo, convivendo em curto período de tempo em uma praça, um shopping center e outros lugares, públicos ou não. Tal configuração de ocupação por pessoas que não se conhecem, que vão e que vem, às quais lhes é negada a possibilidade de um convívio mais longo, no qual poderiam interagir, intercambiar informações, reconhecer-se no outro, identificar-se e que tais atos não fossem entendidos como apenas presença física. Pois bem, tal fenômeno já é bastante raro na sociedade atual. Estes espaços se transformaram em não-lugares de indivíduos distintos, residentes temporários cujos padrões de comportamento devem ser o mais uniforme possível, dentro dos moldes de cada sociedade. Ouvindo Bauman, não sem um leve toque de ironia: O que quer que aconteça nesses lugares, todos devem sentir-se como se estivesse em sua própria casa, mas ninguém deve se comportar como se verdadeiramente em casa. Um não-lugar é um espaço destituído das expressões simbólicas de identidades, relações e história: exemplo incluem aeroportos, autoestradas, anônimos quartos de hotel, transporte público...jamais na história do mundo os não-lugares ocuparam tanto espaço...os não lugares não requerem domínio da sofisticada e difícil arte da civilidade... (pág ) 4 Em certa medida, o sociólogo atualiza o conceito de exílio, posto que reduz a um tipo de comportamento que isola as diferenças, mantidas à parte...impedidas de serem percebidas. Essa homogeinização, na qual tudo é rápido, instantâneo, superficial, dimensiona a busca pela felicidade também imediata - aliás, o imediatismo tem sido a tônica deste novo século - por meio da fragilidade de compromissos pela vida em si mesma, e que mal nos deixa tempo para refletirmos sobre os dilemas reais da sociedade. O espaço deixou de ser conhecido como o lugar que marcava as pessoas como uma parte de suas identidades; portanto, a dúvida é a seguinte: seria essa então uma espécie de exílio pós-moderno? Embora neste novo mundo no qual vivemos, realizamos coisas, adiante, essas coisas se desfaçam, percam seus sentidos, se tornem obsoletas, mesmo que esta modernidade que nos deixa sem fôlego, ainda assim, se espera que nós, humanos, mantenhamos alguns valores universais, alguma compaixão ensinada pelos nossos pais, pela sociedade e pela literatura. Nas palavras de Daniel Madelénat em seu artigo titulado Literatura e sociedade 4 sociedade e arte são indissociáveis e pode-se afirmar que a segunda é consequência da primeira; se poderia pensar, inclusive, na dependência de uma pela outra: A arte é uma atividade social; a obra estética não se isola de um contexto religioso, político, cultural, econômico e até mesmo técnico, resumindo, de um conjunto de instituições, de mentalidades, de ideologias, de saberes, de atitudes propriamente sociais: eis a evidência, ou o postulado, que inaugura toda a reflexão sobre as relações entre a literatura e a sociedade...quer o artista se integre harmoniosamente numa civilização ou se lhe oponha (num conflito latente ou violento), ele testemunha os desenvolvimentos, as repressões, as regras ou os costumes que caracterizam uma sociedade. (pág. 101) O mundo cabe nas mãos da literatura e um de seus traços é poder estabelecer relações com outros saberes, outros sistemas e nesse ato, transpõe fronteiras, elas também se tornam, então, líquidas, fluidas. Essa é a principal característica da literatura comparada, poder expandir-se, interagir com outros processos de conhecimento. Interessante o que afirma o autor a respeito: A literatura comparada parece fazer sociologia naturalmente (... ) sublinha a originalidade dos domínios nacionais, explica as relações internacionais, une áreas culturais separadas;... (pág.103). Pois bem, considerando-se essa afirmativa, é possível pensar a Literatura Comparada também como o processo que ocupa um dos lugares privilegiados na produção do pensamento humano, por sua conquista no direito de tratar do triunfo da memória, ou de seus vestígios, como algo que possa e mereça ser lembrado, narrável, dizível, 5 quiçá, silenciado, também, e por que não? Se no silencio se encontram as palavras certas para dizer aquilo que nos calaram ou nos calamos, pelo simples arbítrio da mudez? Assim, o narrar e o rememorar se assemelham a uma espécie de exílio de cujo lugar aquele que lembra nem sempre quer sair, pois lá está o nicho que o protege de qualquer coisa que o faça lembrar; nesse sentido, ao recordar-se o que não se deseja lembrar, opera-se um processo de profanação da memória. Em Walter Benjamim encontramos a ponte necessária para entender a memória de quem perdeu a noção de sujeito, de quem se tornou um vencido neste tempo de anjos que olham para trás, como se uma nostalgia se houvesse instalado num mundo que deveria ser um bom lugar para alguém viver. Difícil falar de século XX como tempo passado, já distante, amnésico; porém, podemos, sem dúvida nenhuma, fazer o trajeto inverso, provocar uma anamnésia: no conjunto ele se tornou a era das catástrofes. Por isso também, nesse artigo, nos valemos da História, da Literatura e da Memória e do modo como se entendem os Espaços, os Lugares; sem essas imbricações torna-se ineficaz a compreensão de como a literatura latinoamericana se comportou nos últimos 40 anos. Um autor faz parte dessa parcela especial da humanidade quando sobre ele recai a responsabilidade de resgatar o passado através da escritura. É por meio da literatura, da conjunção entre ela e a realidade, que ele se posiciona em um espaço intervalar para narrar também o dizível/indizível; é nesta literatura permeada de lugares ora cheios de lembranças, de saudades, ora vazios, é que se opera a subversão e a critica às estruturas de poder, assim como também o ato de resistência contra qualquer forma de autoritarismo. Em outras palavras, o escritor e sua obra não são apenas criador e criatura engendradas somente no mundo ficcional, muito menos apenas espectadores, mas elementos que estabelecem uma estética que discute, que atravessa catástrofes desencadeadas pelo ser humano. Nesse sentido, repensar a condição do escritor como formador de seu meio social é repensar também a identidade, seja ela coletiva ou individual emergente durante uma crise nacional. Eis, então, alguns bons motivos para que nos adentremos nestes espaços que privilegiam os vestígios da memória e do esquecimento na literatura latino-americana, considerando como base as mobilidades transacionais e transnacionais 5 pertinentes ao entre lugar das identidades culturais em constantes ir e vir, entre o passado e o presente, entre os restos das memórias de países cujo passado revelam-se como traces de processos históricos violentos na sua acepção mais ampla. 6 Sobre o livro de Marta Traba, En cualquier lugar, percebemos que nos desvãos da memória, se entrevê a ineficácia de um lugar que já perdeu seu sentido, e está longe de acontecer o que os personagens desejam alcançar: voltar à Argentina, embora, agora, o gesto da busca se revela na cartografia da margem. Na condição de estrangeiros vivendo agora em um país distante, tentando entender o idioma que os acolheu: dónde estaba?, en qué ciudad?, a dónde iba?...así, el mundo se convertía cada vez más en un lugar de extrañas sílabas, que formaban extrañas palabras. Le era imposible reconstruir una sola frase. (pág. 48). O lugar a que aportam os exilados, em primeira instância, é a ilusão da segurança, a esperança do recomeço. Amontoados, misturados aos objetos, traços de outras identidades, memórias insistentes nas frestas entre passado e presente, entre a alegria (seria uma falsa alegria - porque estão vivos?) e a tristeza do que deixaram para trás, dia após dia gastam a vida entre as ruínas de uma velha estação de trem. Este é, enfim, o lugar, mas ao mesmo tempo, o não-lugar, bem diria, o falso lugar; a intermitência do quase não mais humano (se questo è un uomo) e o fracasso de uma cidadania, esboço intervalar. O dentro e o fora. Dentro de quê? A estação se torna o espaço enigmático de onde os exilados deambulam a memória de seu país. Esperam que seja apenas passagem, uma travessia, um breve deslocamento, mas preferem ignorar que o que ficou para trás foi um país destroçado pela ditadura, homens, mulheres, jovens e crianças, torturados, 30 mil desaparecidos...não, não..., a Argentina transformara-se na paisagem dantesca, o último círculo a que recorriam em memória os desterritorializados. Por isso, cada vez que chegava um contingente de hermanos, Luis se apressava em percorrer o espaço estrangeiro que no final das contas não o aceitava por completo. A paisagem intervalar entre o antes e o agora se traduz nos registros da narrativa: Todavía le faltaba pasar el puente, y la calle estrecha que terminaba en la arcada, y los baldíos. Ya desde ahí se veía, imponente, la mole oscura de la estación. Había dejado de funcionar veintidós años atrás, pero parecía abandonada desde hacía un siglo. Sin embargo, ya acercándose oyó el zumbido de la colmena. Oscilaban por todas partes luces fantasmales. Vio, de repente, que del lado de la frontera llegaban unos camiones dando tumbos y calculó que serían los nuevos. Se aceleró el ritmo de su corazón. Alguien traería noticias Lo invadió una oleada de calor y, sin poder contenerse, se puso a correr hacia los caminos. (pág.58) A angústia por desconhecer, não ter notícias, mas mesmo assim, por menor que fosse, qualquer coisa, já faria dele e aos demais, novamente, seres humanos. Pois que o exílio político, mais que deslocamento físico, é o sentimento interior de errância e da 7 desidentificação. Na temporalidade do que viveram e no que agora, (essa palavra torna-se terrível para todos), estão vivendo, são obrigados a resimbolizar seus valores, suas crenças e relações. Casais tornam-se triângulos, traições consentidas porque, do futuro, quem o sabe? E nesta reconfiguração de parcerias, o outro torna-se Outro, para novamente tornar-se apenas outro, como Flora que, de esposa, militante, amante, suicida-se com um tiro no lugar onde, antes da tortura, estava um seio que poderia ter amamentado sua filha recém nascida e desaparecida nos porões da ditadura argentina. Traba leu a terra natal e a estrangeira tal qual Barthes em A luz do sudoeste (1987): Pois ler uma terra é antes de tudo percebê-la segundo o corpo e a memória, segundo a memória do corpo. Nesse caso, o corpo torna-se o espaço violado. A personagem sofrera ferozmente nas mãos dos torturadores durante a repressão; a memória não se inscreve apenas nos fatos que ela tenta em vão esquecer, mas seu corpo é o registro vivo, incerto, desidentificado, inseguro e estático com o qual ela vê-se obrigada a conviver dia após dia, tocá-lo e mantê-lo limpo. Observando o pensamento de Ozíris Borges Filho(2009) sobre a teoria da Topoanálise, veremos que os cinco sentidos, ou os gradientes sensoriais (que compõem a teoria) conforme o autor, colaboram para a representação do espaço em um texto literário. Assim, a visão e o tato remetem às noções de longe e perto e de quente e frio, as diferentes texturas das superfícies das coisas, e da dor 6 ; Flora quase não varia o tipo de roupa que veste diariamente: No se saca de encima la camisa y los pantalones que le regalaron al llegar. El mismo sweater, la misma camisa, los mismos pantalones. Debe tener el mismo repuesto, porque varias veces los ha visto colgados en la cuerda, allá arriba en el techo. (pág.121). A personagem evita a troca frequente de roupas por três motivos: um deles é porque não suporta ver-se, tocar nas cicatrizes; o outro, porque perdeu toda e qualquer noção de vaidade natural feminina após a tortura, mas um terceiro, o mais cruel de todos, é a ausência da filha nos seios que não existem mais e que mal conheceu antes de ser arrancada de seus braços imediatamente após o parto na prisão. O corpo faz parte de uma memória que ela deseja esquecer; este espaço da dor, que nã
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