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a geografia e a realidade escolar contemporânea

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   ANAIS DO I SEMINÁRIO NACIONAL: CURRÍCULO EM MOVIMENTO – Perspectivas AtuaisBelo Horizonte, novembro de 2010 1 $*(2*5$),$($5($/,'$'((6&2/$5&217(0325Ç1($$9$1d26&$0,1+26$/7(51$7,9$6 Lana de Souza CavalcantiUniversidade Federal de Goiás A tarefa de ensinar Geografia na escola básica O que preocupa o professor na atualidade? Que perguntas ele se faz? O que oaflige? Quais são os desafios ele quer e precisa enfrentar? Que questões permanentes sãoespecíficas do professor de Geografia? Como ele concebe seu trabalho e o papel social queexerce? Pela experiência com os professores, ao ouvir seus testemunhos, ao observar suaspráticas, é possível perceber que seus questionamentos giram em torno de “estratégias” ou“procedimentos” que devem adotar para fazer com que seus alunos se interessem por suasaulas, para conseguir disciplina nas turmas, para garantir autoridade em sala de aula, paraconvencer os alunos da importância da Geografia para suas vidas. Ou seja, os professoresde Geografia estão, freqüentemente, preocupados em encontrar caminhos para propiciar ointeresse coletivo dos alunos, aproximando os temas da espacialidade local e global dostemas da espacialidade vivida no cotidiano.Em razão das inúmeras dificuldades que enfrentam no trabalho, alguns professoresse sentem inseguros e se fecham em uma atitude conservadora: optam por manter os rituaisrotineiros e repetitivos da sala de aula, desistindo de experimentar caminhos novos. Outrospautam seu trabalho pelo desejo permanente de promover a aprendizagem significativa dosconteúdos que ensinam, envolvendo seus alunos e articulando intencionalmente seusprojetos profissionais a projetos sociais mais amplos. Estes últimos não buscamsimplesmente recursos técnicos, receitas para um bom ensino, como muitas vezes se diz.Eles têm intuição de que isso não basta, pois os desafios que necessitam enfrentar não sãosimples e passíveis de se resolver com receitas; ao contrário, são complexos e requeremorientações teóricas seguras, conhecimento da realidade e dos processos da escola,convicções sobre modos de atuação nessa instituição. A análise mais detida das preocupações dos professores de Geografia permitedistinguir três questões fundamentais, que serão comentadas mais detidamente a seguir. O aluno e sua motivação para a aprendizagem Grande parte dos professores tem a expectativa de encontrar alunos motivados, cominteresse pela matéria.Falta-lhes, talvez, suficiente clareza dos processos que interferem nacognição, o que os leva a atribuir aos alunos a responsabilidade por essa motivação:esperam que ela venha deles e de seu mundo externo à escola e à sala de aula.Em outra perspectiva, quando se trata de motivação, é importante compreender, por um lado, que é papel do professor orientar, direcionar e intervir nos motivos dos alunos,realizando a mediação didática (LIBANEO, 2009). Para isso, cabe a ele não só selecionar eorganizar criteriosamente os temas a serem trabalhados, mas também expor aos alunos,com clareza, a relevância desses temas. Por outro lado, é também importante entender queas relações estabelecidas entre professores e alunos não são puramente cognitivas e   ANAIS DO I SEMINÁRIO NACIONAL: CURRÍCULO EM MOVIMENTO – Perspectivas AtuaisBelo Horizonte, novembro de 2010 2 racionais, nem estão pré-estabelecidas e garantidas pelos papéis que cada um cumpre noprocesso. Relações abertas, dialógicas, negociadas, sem papéis sociais/profissionaiscristalizados e fechados são de fundamental importância para a motivação.Outro aspecto a considerar é a necessidade de reconhecer as vinculações daespacialidade das crianças, de sua cultura, com o currículo escolar, com os conteúdos dasdisciplinas, com os conteúdos da Geográfica, com o cotidiano da sala de aula e de todo oespaço escolar. Alguns projetos inovam porque partem do pressuposto de que não bastamanter as crianças e os jovens dentro dos muros da escola; é necessário que ali elespossam vivenciar seu processo de identificação, individual e em grupos, e que sejamrespeitados nesse processo. As condições de trabalho  As representações sobre escola ʊ sobretudo escola pública ʊ que circulam entreas pessoas, diretamente ou através de veículos de comunicação, associam-na a um lugar com inúmeros problemas, entre eles os relacionados aos livros didáticos, à formação dosprofessores, às condições de salário e trabalho, à violência entre alunos e entre professorese alunos. Parece que não há saída, que os problemas são insolúveis. No entanto, osprofessores percebem que a escola é parte da sociedade, é integrante da lógica e dadinâmica sociais, e que suas dificuldades não se resolvem com medidas pontuais.Compreendem, porém, que seu compromisso mais direto é com esse espaço e que é neleque devem investir seus esforços de transformação.No Brasil e no mundo, a atual política educacional, traduzida nas normativas, nasreferências oficiais de conteúdos escolares e nas reformas do sistema, encaminha aquestão da formação do professor e de sua prática com base na concepção de profissionalreflexivo, de formação contínua, de formação na escola, de valorização dos saberes práticosdo professor. Essa mesma política também cobra competências do professor em termos deeficiência, de resultados traduzidos em indicadores das avaliações, a partir deparâmetros/padrões nacionalmente definidos ʊ pelo poder regulador do Estado. E os mausresultados são freqüentemente atribuídos à precariedade do trabalho do professor. Nessecontexto, além de suas próprias demandas de formação contínua e de garantia de saláriodigno, são inúmeras as demandas colocadas ao professor  ʊ em relação à comunidadeescolar, ao estabelecido pelas normas vigentes, aos currículos oficiais, à escolha dos livrosdidáticos. Como se vê, as exigências são muitas, e as condições para cumpri-las não sãodadas, precisam ser  conquistadas ...O quadro estrutural atual impõe limites à atuação e formação profissionais, o que nãosignifica impossibilidade de resistência, podendo-se vincular essa resistência a projetos deformação dos alunos. Ao dar aulas para qualquer nível de ensino, o professor escolhe suafala, seu discurso, define abordagens, enfoques, tempos de fala, tempos de silêncio,encaminha atividades, utiliza-se de recursos, que têm influência direta nos resultados dosprocessos de aprendizagem dos alunos. De alguma maneira, consciente ouinconscientemente, o trabalho do professor está ligado a um projeto de formação, a umprojeto de sociedade, a um projeto de humanidade. Assumir a autonomia do trabalho e refletir coletivamente sobre suas possibilidades éum ponto básico para intervir nas condições de trabalho. A luta pela superação deobstáculos impostos pela estrutura legal e institucional vigente e a efetivação consciente deprojetos político-sociais exigem que os coletivos da escola ʊ o conjunto de professores,   ANAIS DO I SEMINÁRIO NACIONAL: CURRÍCULO EM MOVIMENTO – Perspectivas AtuaisBelo Horizonte, novembro de 2010 3 técnicos e diretores ʊ assumam a responsabilidade pelo envolvimento dos alunos noprocesso de aprendizagem. A aprendizagem em Geografia Os professores de Geografia relatam que estão freqüentemente enfrentandodificuldade em “atrair” seus alunos nas aulas, pois a maioria não se interessa pelosconteúdos que essa disciplina trabalha. No entanto, se a Geografia contempla a diversidadeda experiência dos homens na produção do espaço, as questões espaciais estão semprepresentes no cotidiano de todos eles , sejam as de dimensões globais ou locais. É o caso dese questionar, então, por que os alunos não mostram interesse especial pelos conteúdos dadisciplina, limitando-se, na maior parte das vezes,ao cumprimento formal das obrigaçõesescolares.Se a tarefa do ensino é tornar os conteúdos veiculados objetos de conhecimentopara o aluno e se a construção do conhecimento pressupõe curiosidade pelo saber, esse éum obstáculo que precisa efetivamente ser superado. Para despertar o interesse cognitivodos alunos, o professor deve atuar na mediação didática, o que implica investir no processode reflexão sobre a contribuição da Geografia na vida cotidiana, sem perder de vista suaimportância para uma análise crítica da realidade social e natural mais ampla. Nessesentido, o papel diretivo do professor na condução do ensino está relacionado às suasdecisões sobre o que ensinar, o que é prioritário ensinar em Geografia, sobre as basesfundamentais do conhecimento geográfico a ser aprendido pelas crianças e jovens,reconhecendo esses alunos como sujeitos, que têm uma história e uma cognição a seremconsideradas.Para a definição do que ensinar, para que ensinar, para quem ensinar, o professor tem múltiplas referências, entre as quais as mais diretas são, de um lado, os conhecimentosgeográficos acadêmicos, tanto da Geografia acadêmica quanto da Didática da Geografia, e,de outro, a própria Geografia escolar, já estruturada pela escola ao longo do tempo.Portanto, ensinar conteúdos geográficos, com a contribuição dos conhecimentos escolares,requer um diálogo vivo, verdadeiro, no qual todos, alunos e professores, têm legitimidadepara se manifestar, com base no debate de temas realmente relevantes e no confronto depercepções, de vivências, de análises, buscando um sentido real dos conteúdos estudadospara os alunos.  As dificuldades dos professores têm sido pensadas em vários campos doconhecimento educacional, destacando-se a Didática e as didáticas das disciplinasespecíficas. Por Didática, compreende-se um campo do conhecimento que se ocupa dareflexão sobre o processo de ensino, entendido como uma prática social, dinâmica esubjetiva, não limitada a uma correta aplicação de regras gerais e procedimentos. Nessaperspectiva, a didática da Geografia busca analisar a dinâmica do ensino dessa matéria:elementos constitutivos, condições de realização, contextos e sujeitos, limites e demandas.Sua contribuição é produzir conhecimento amplo do ensino e dos fundamentos teóricos emetodológicos da Geografia escolar, seus princípios epistemológicos, subsidiando assim aatuação docente consciente e autônoma.Com o objetivo de explicitar essa contribuição, destacam-se , nos próximos itens , alguns elementos teórico-práticos para orientar o trabalho docente em Geografia naatualidade.   ANAIS DO I SEMINÁRIO NACIONAL: CURRÍCULO EM MOVIMENTO – Perspectivas AtuaisBelo Horizonte, novembro de 2010 4 A Geografia e sua contribuição para compreender a espacialidade contemporânea O processo de globalização tem sido apontado como uma das principaiscaracterísticas da contemporaneidade. Trata-se de um processo complexo e diverso, noqual participam, mas de modo diferente, grande parte dos países, sem que isso impliquemaior justiça social e maior aproximação entre seus desempenhos sociais e econômicos.Nesse processo, observa-se maior interdependência entre as escalas nas quais osfenômenos e fatos espaciais ocorrem, maior e mais intensa comunicação entre pessoas,empresas e instituições, levando à experiência simultânea (mas não homogênea) comesses fenômenos e fatos, ao adensamento de pessoas em territórios urbanos globais eglobalizados, a padronizações de estilos de vida, mas também à acentuação da diversidadecultural.Diante dessa realidade, investe-se na produção de conhecimentos mais abertos,mais articulados e integrados aos diferentes campos científicos, incorporando interpretaçõesmenos racionais aos fenômenos e fatos vivenciados. Busca-se a compreensão dacomplexidade inerente a esses fenômenos e fatos, expressa em um conhecimentointerdisciplinar (sobre esse tema conferir, entre outros, MORIN e LE MOIGNE, 2000). Aciência geográfica é um desses campos e se dedica a compreender a espacialidade dosfenômenos, elegendo como categoria principal de análise o espaço geográfico, produtohistórico e social, além de outras também consideradas elementares, como lugar, território epaisagem. Com essa referência comum, postula-se uma diversidade de perspectivas deanálise, que estão basicamente fundamentadas em uma das matrizes clássicas dopensamento ʊ a matriz fenomenológica, dialética, sistêmica.Para compreender a espacialidade, que é resultante e condição das práticas sociais,a Geografia, no contexto brasileiro, tem produzido inúmeros estudos, em diferentes linhasde investigação. Percebem-se, na produção das últimas décadas, esforços efetivos emlegitimar discursos sobre as práticas espaciais que incluem as diferentes explicações edeterminações do real, sejam elas econômicas, sociais, naturais ou simbólicas. O intuito é ir além das análises fragmentadas e dicotômicas do espaço, superando dualidades, cisões,compreendendo assim a realidade como práxis, em sua totalidade (SUETERGARAY, 2002e CARLOS, 2005). A essa altura, pode-se questionar se os professores têm acompanhado ascontribuições da Geografia acadêmica, pautando seu trabalho na construção de referênciasconceituais mediadoras do pensamento geográfico atual.Que bases teórico-metodológicas da Geografia Escolar brasileira têm predominadona primeira década do século XXI? O que fundamenta a construção do discurso geográficona sala de aula? As contribuições mais recentes da investigação no campo da Geografiat ê m acarretado também alterações nos conteúdos e nos métodos do ensino de Geografia?Como ocorrem essas alterações? As “geografias brasileiras”, acadêmica e escolar, institucionalizaram-se no início doséculo XX e têm histórias paralelas, que se encontram e se influenciam mutuamente,guardando, mesmo assim, suas identidades, suas especificidades 1 . A partir de 1980,ocorreu o “movimento de renovação da Geografia” (acadêmica e escolar), inicialmentemarcado pela disputa de hegemonia de dois núcleos principais, um aglutinando uma 1 Minha compreensão dessas duas estruturações da Geografia ʊ a acadêmica e a escolar  ʊ está explicitada emCavalcanti (2008).
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