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A Geograficidade Do Social

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    5 A GEOGRAFICIDADE DO SOCIAL: UMA CONTRIBUIÇÃO PARA O DEBATE METODOLÓGICO PARA OS ESTUDOS DE CONFLITOS E MOVIMENTOS SOCIAIS NA AMÉRICA LATINA 1   Dr. Carlos Walter Porto-Gonçalves 2   Resumo:  Uma das maiores dificuldades para os trabalhos de investigação de natureza interdisciplinar é superar a própria linguagem que nos constituiu enquanto comunidades específicas de conhecimento como a Geografia, a Antropologia, a Politologia, a Sociologia, a Economia e demais. Na constituição desses diferentes ‘territórios de conhecimento’ conformaram-se verdadeiras ‘barreiras alfandegárias’ com seus territórios de poder enquanto tais. Daí a importância dos trabalhos que se colocam para além das disciplinaridades instituídas. Observe-se que importantes contribuições teóricas para a compreensão dos processos sociais foram dadas por intelectuais que, a rigor, não cabem nessa divisão do trabalho científico, como Marx e Engels, Antonio Gramsci, Paulo Freire, Mariátegui, entre tantos e muitos outros, até porque, parafraseando o próprio Marx, esses intelectuais não estavam simplesmente interpretando o mundo, mas tentando transformá-lo. Palavras-Chave : TRABALHO INTERDISCIPLINAR; GEOGRAFIA; MOVIMENTOS SOCIAIS 1  Trabalho apresentado no Seminário Internacional “Conflicto Social, Militarización y Democracia en América latina – nuevos problemas y desafíos para los estrudios sobre conflicto y paz en la región”, realizado em Buenos Aires, Aregentina entre 16 e 18 de setembro de 2002 pelo Consejo Latinoamericano de iencias Sociales – Clacso – e Agencia Sueca de Desarrollo Internacional – Asdi. 2  Coordenador do Programa de Pós-graduação em Geografia da Universidade Federal Fluminense (Rio de Janeiro, Brasil). É autor de diversos artigos e livros publicados em revistas científicas nacionais e internacionais, sendo os mais recentes: - “ Geo-grafías: movimientos sociales, nuevas territorialidades y sustentabilidad  ”, ed. Siglo XXI, México, 2001; “ Amazônia, Amazônias  ”, ed. Contexto, São Paulo, 2001; “ Da Geografia às Geo-grafias: um mundo em busca de novas territorialidades  ” - capítulo do livro “ La guerra Infinita: hegemonía y terror mundial  ” Sader, E. e Ceceña, Ana Esther (orgs.), Clacso, Buenos Aires 2002. Ex-presidente da Associação dos Geógrafos Brasileiros – AGB (1998-2000). Revista Eletrônica da Associação dos Geógrafos Brasileiros – Seção Três Lagoas Três Lagoas - MS, V 1 – n.º 3 – ano 3, Maio de 2006      6 LA GEOGRAFICIDADE DEL SOCIAL: UNA CONTRIBUCIÓN PARA EL DEBATE METODOLÓGICO PARA LOS ESTUDIOS DE CONFLICTOS Y MOVIMIENTOS SOCIALES EN LA AMÉRICA LATINA Resumen:  Una de las mayores dificultades para los trabajos de investigación de naturaleza interdisciplinaria es superar la propia lenguaje que nos constituyó cuando comunidades específicas de conocimiento como la Geografía, la Antropología, la Politología, la Sociología, la Economía y demás. En la constitución de esos “territorios de conocimiento” se conformaron verdaderas “barreras aduaneras” con sus territorios de poder. De ahí ven la importancia de los trabajos que se colocan allá de las disciplinas instituidas. Se observe que importantes contribuciones teóricas para la comprensión de los procesos sociales fueron dadas por intelectuales que, a rigor, no caben en esa división del trabajo científico, como Marx e Engels, Antonio Gramsci, Paulo Freire, Mariátegui, entre tantos y muchos otros, ya que, parafraseando el propio Marx, esos intelectuales no estaban simplemente interpretando el mundo, pero intentando transformarlo. Palavras-claves:  TRABAJO INTERDICIPLINAR; GEOGRAFÍA; MOVIMENTOS SOCIALES ALGUMAS ADVERTÊNCIAS PRELIMINARES ACERCA DO TRABALHO INTERDISCIPLINAR Uma das maiores dificuldades para os trabalhos de investigação de natureza interdisciplinar é superar a própria linguagem que nos constituiu enquanto comunidades específicas de conhecimento como a Geografia, a Antropologia, a Politologia, a Sociologia, a Economia e demais. Na constituição desses diferentes ‘territórios de conhecimento’ conformaram-se verdadeiras ‘barreiras alfandegárias’ com seus territórios de poder enquanto tais. O Positivismo cuidou que cada fronteira, com a área específica de seu objeto de estudo, fosse delimitada de modo mais preciso e rigidamente possível. Vários autores (Santiago Castro-Gómez, Aníbal Quijano, Edgardo Lander, Carlos Walter Porto-Gonçalves entre tantos outros) vêm destacando que as    7 ciências sociais são instituídas por e instituintes da sociedade contemporânea 3 e, assim, a superação da divisão do trabalho científico, tal como ela se apresenta, faz parte da luta pela superação das contradições dessa mesma sociedade. Daí a importância dos trabalhos que se colocam para além das disciplinaridades instituídas. Observe-se que importantes contribuições teóricas para a compreensão dos processos sociais foram dadas por intelectuais que, a rigor, não cabem nessa divisão do trabalho científico, como Marx e Engels, Antonio Gramsci, Paulo Freire, Mariátegui, entre tantos e muitos outros, até porque, parafraseando o próprio Marx, esses intelectuais não estavam simplesmente interpretando o mundo, mas tentando transformá-lo. O que se procura aqui, considerando essas dificuldades e essas possibilidades, é contribuir para uma aproximação comum das ciências sociais desde a geografia. DA GEOGRAFICIDADE DO SOCIAL Há razões historicamente compreensíveis para a recusa de um diálogo mais próximo entre a Geografia e as ciências sociais em sentido estrito, sobretudo para os cientistas do social que se colocam de um ponto de vista crítico. Embora o determinismo naturalista não seja uma invenção propriamente dos geógrafos, vide Montesquieu, encontrou na geografia um campo onde germinou tão amplamente que o que era inicialmente determinismo naturalista tornou-se, com o tempo, determinismo geográfico. Essa redução naturalista tem sido um dos principais obstáculos ao 3   “Limite entre saberes, limite entre disciplinas, limite entre países. Por todo lado se fala que os limites já não são rígidos, que os entes já não são tão “claros, distintos e definidos” como recomendara René Descartes. Cada vez mais se fala de empresas inter  nacionais, ou trans  nacionais ou multi  nacionais, assim como se fala de inter  disciplinaridade, trans  disciplinaridade ou multi  disciplinaridade. Enfim, por todo lado são usados os prefixos inter  , trans   ou multi   indicando que as fronteiras, sejam elas epistêmicas, sociológicas ou geográfico-políticas, se é que podemos separá-las, são mais porosas do que se acreditava’ (Porto-Gonçalves, C. W., 2002 - ‘ Da Geografía às Geo-grafias – um mundo em    8 necessário diálogo entre essas disciplinas. Há outros, é claro, como o privilégio dado ao tempo em relação ao espaço na tradição do pensamento ocidental que colonizou corações e mentes 4 , assim como a instrumentalização do saber geográfico pelo colonialismo e pelo imperialismo por meio da geopolítica. Várias foram as conseqüências desse divórcio entre a geografia e as ciências sociais, entre os quais destaco, por sua importância nas questões que hoje se apresentam para superar os impasses teóricos e políticos que atravessamos: 1- não termos conseguido dar uma solução adequada ao significado da natureza no devir social, prisioneiros que ficamos de um pensamento eurocêntrico onde natureza e sociedade são termos que se excluem reciprocamente ou são pensados numa relação de causalidade unilateral seja da natureza para a sociedade (naturalismo), seja da sociedade para a natureza (antropocentrismo) e; 2- ignorarmos a dimensão espacial, na sua materialidade historicamente constituída. Enfim, não consideramos devidamente a geograficidade do social. Essa geograficidade deve começar, portanto, considerando o espaço geográfico enquanto dimensão constitutiva do social, recuperando, inclusive mas não exclusivamente, a natureza no corpo da análise sociológica (Fernando Coronil, 1991 e 2000; H. Lefebvre). A recuperação do espaço geográfico e da natureza na análise social deve, todavia, considerar todo o legado crítico das ciências sociais ao naturalismo bem característico do darwinismo   social de corte spenceriano  , inclusive nas busca de novas territorialidades  ” in La Guerra Infinita; hegemonía y terror mundial  , CECEÑA, A . E. e SADER, E. , (org.), Clacso, Buenos Aires, 2002.   4  - Vide Porto-Gonçalves, C.W. Da Geografia às geo-grafías; um mundo em busca de novas territorialidades, in Sader, E. y Ceceña, A . E. (compiladores) La Guerra Infinita: Hegemonía y terror Mundial, Clacso, Buenos Aires, 2002.
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