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A indústria cultural em tempos de popularização da internet - por Valterlei Borges

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A INDÚSTRIA CULTURAL EM TEMPOS DE POPULARIZAÇÃO DA INTERNET UM OLHAR SOBRE A CENA MUSICAL BRASILEIRA RESUMO: este trabalho tem como principal objetivo apresentar algumas formas contemporâneas de veiculação musical via novas plataformas de mídia, em especial a veiculação por meio da internet, e refletir sobre as questões que norteiam esse tipo de produção. Embora nosso foco investigativo seja a música brasileira, tomaremos como base alguns exemplos vindos de fora do país, como numa análise compa
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  A INDÚSTRIA CULTURAL EM TEMPOS DE POPULARIZAÇÃO DAINTERNETUM OLHAR SOBRE A CENA MUSICAL BRASILEIRARESUMO: este trabalho tem como principal objetivo apresentar algumas formascontemporâneas de veiculação musical via novas plataformas de mídia, em especial aveiculação por meio da internet, e refletir sobre as questões que norteiam esse tipo deprodução. Embora nosso foco investigativo seja a música brasileira, tomaremos comobase alguns exemplos vindos de fora do país, como numa análise comparativa, paradepois apontarmos alguns casos que ganharam repercussão no Brasil. Com o intuito dedelimitar nosso estudo, abordaremos o assunto, sempre que possível, dialogando com oconceito de  Indústria Cultural defendido inicialmente por Theodor W. Adorno e MaxHorkheimer. Para enriquecimento da análise, buscaremos apoio em outros autores quedireta ou indiretamente discorrem sobre o tema, além da investigação em algumasfontes pelo canal direto com quem está promovendo essa revolução: a internet.  PALAVRAS-CHAVES: indústria cultural; música e tecnologia; novos suportes demídia. ABSTRACT: this work has as main objective to present some contemporary forms of music delivery by new media platforms, particularly the delivery through the Internet,and reflect on the questions that guide this type of production. Although our researchfocus is Brazilian music, we will take some basic examples from outside the country asa benchmark, to point out later some cases that gained impact in Brazil. In order todelimit our study, we will discuss the subject, whenever it is possible, talking with theconcept of Cultural Industry defended initially by Theodor W. Adorno and MaxHorkheimer. To enrich the analysis, we will get support in other authors that directly orindirectly talk on the subject, besides investigation of some sources by direct channel towho is promoting this revolution: the Internet. KEYWORDS: cultural industry; music and technology; new supports for media. AS NOVAS POSSIBILIDADES A internet e suas possibilidades ampliaram o mundo: o que inicialmente coexistiaapenas no plano virtual, hoje pode ser considerado quase um agente social, uma vez queesse ente passa a fazer parte das relações sociais e culturais e, consequentemente, passaa operar também na cidade e no espaço urbano reconfigurando as formas desociabilidade. No livro O espaço do cidadão , Milton Santos (1998, p.1) aborda algumasquestões pertinentes a esse tema e faz uma análise sobre “como se organiza a rede de caminhos e a rede de cidades segundo hierarquias e de como se distribuemterritorialmente os indivíduos, segundo suas classes sociais e seu poder aquisitivo”. O  geógrafo aponta que além da situação econômica, a localização sócio-espacial docidadão na cidade o faz ter ou não acesso aos bens oferecidos. E conclui que: a atividade econômica e a herança social distribuem os homens desigualmente noespaço, fazendo com que certas noções consagradas, como a rede urbana ou dosistema de cidades, não tenham validade para a maioria das pessoas, pois seu acessoefetivo aos bens e serviços distribuídos conforme a hierarquia urbana depende deseu lugar sócio-econômico e também de seu lugar geográfico. 1   Certamente concordamos com ele. Porém, o que talvez Milton Santos não pudesseantever em seu tempo era que, vinte anos depois, as formas de acesso aos bens eserviços não ficariam restritos apenas aos espaços geográficos da cidade e à localizaçãodo cidadão na malha urbana. Com o desenvolvimento dos meios de comunicação e apopularização da internet, muitos meios de produção ultrapassaram o espaço urbano echegaram às mais remotas localidades atingindo um incontável número de pessoas,especialmente se considerarmos o público atendido pelas lan houses , que hoje é umarealidade presente inclusive nas favelas e comunidades de baixa renda. Ainda que amaioria das pessoas não domine nem conheça as ferramentas disponibilizadas na rede,as possibilidades passam a existir até para os que se encontram à margem da cidade e doespaço urbano: os espaços físicos e geográficos, portanto, podem deixar de ser aprincipal barreira impeditiva para a fruição e a criação de bens culturais e simbólicos ede informação. O cidadão contemporâneo passa a ter condições e recursos ao seualcance que seriam inimagináveis há pouco mais de dez anos.O que acontece atualmente é um exemplo típico da compressão tempo-espacialapresentada por David Harvey (1992, p. 27), onde a aceleração causada pelossistemas de comunicação altera as relações dos indivíduos com os mercados e com oconsumo, e acaba por reconfigurar toda a esfera social, produzindo assim novossistemas de representação cultural, o que nos faz, por sua vez, relembrar e voltar aosapontamentos de Adorno e Horkheimer em  A indústria cultural (1990), no qual osautores questionam a seguinte idéia: em até que medida a escolha de um produto da indústria cultural por parte de quem o consome pode ser considerada subjetiva, umavez que a própria indústria é quem dita os padrões?Diante dos apontamentos de Adorno e Horkheimer 2 , somos levados a acreditar que osrecentes fenômenos surgidos pela internet são frutos, em sua grande maioria, não só damassificação, mas também de uma nova lógica do sistema propícia a esse tipo de  criação, que até poderá gerar outros modelos de representação e significação, mas quepor trás desse aparente benefício, tem como principal objetivo alimentar a roda-viva dacadeia produtiva imposta pela própria indústria cultural . E pode ser que isso sejaverdade, porém, o fato é que essa superestrutura gerou lacunas, se assim podemoschamar, em sua padronização, já que os mecanismos de controle desse processoenfraqueceram.Pois bem, é diante desse entendimento que as ferramentas e oportunidades geradas na cibercultura (LEMOS, 2003) nos permite ousar dizer que vivemos um momento semprecedentes na História, no qual surge a possibilidade de se questionar o padrão adotadopela mass media ao longo do século XX: a de único pólo de emissão de informação. Osrecém-chegados suportes midiáticos, muitos dos quais ao alcance das pessoas no seucotidiano, estão reconfigurando os modelos até então vigentes e criando diálogos apartir das novas plataformas: vozes e discursos estão emergindo e gerando outrasconcepções, discursos, reflexões. E a arte não ficou de fora dessa revolução. Aliás, elaestá se apropriando muito bem das oportunidades oferecidas pela tecnologia,especialmente a música, que tem se revolucionada contra as leis impostas pela ditadurado mercado.Ora, podemos dizer que com a reconfiguração geral pela qual passa a sociedade com oadvento das novas tecnologias de informação e comunicação, todos, a priori , passam ater os mesmos poderes de criação e interação no espaço social de formação de opinião,deixando a mass media de ser a única fonte formadora e controladora de subjetividadesdentro da sociedade. O que acontece na atualidade é que o pólo de emissão de opiniõese discussões se estendeu até o cidadão, como sugeriu Mcluhan (1996) em seu livro Osmeios de comunicação como extensões do homem , e a própria escolha da informação,em princípio, também passa a ser um direito que pode ser exercido individualmente ecriticamente por todos. EXISTIR É ESTAR NA REDE Neste novo modelo de mercado, no que se refere à música, é bem possível apontarcomo marco inicial deste tipo de discussão o álbum  In Rainbows dos ingleses do   Radiohead  3 , que no ano de 2007 foi disponibilizado com download  gratuito no site dabanda, onde fãs e demais interessados poderiam baixar todo o disco e pagar, caso  desejassem, o valor que julgassem necessário. A srcinalidade e o sucesso da iniciativafoi tamanha que surpreendeu a todos - inclusive ao próprio  Radiohead  . É certo que setrata de uma banda em voga e com grande público desde o seu aparecimento nos anos90, porém essa iniciativa não deixa de levantar uma série de questões e reflexões sobreo tema da veiculação e consumo da música na contemporaneidade. “Po r causa dessetrabalho, o  Radiohead  foi apontado como o grupo que melhor entendeu a mudança radical que a música sofre em tempo de internet” 4 .Também na Inglaterra, outra banda que chegou ao nosso conhecimento e que ganhoudestaque e popularidade a partir do “bo ca-a-boca ” iniciado pela internet são os jovensdo  Arctic Monkeys . Eles começaram gravando CD’s demo e distribuíam esse materialem shows para o público. Porém, como a oferta era pouca, por iniciativa do própriopúblico e sem que a banda soubesse, e sses CD’s foram parar na rede econsequentemente foram baixados por outras tantas pessoas que em algum momento seinteressaram pelo trabalho da banda. Em seguida, mais uma vez por iniciativa dos fãs,foi criado um perfil no  MySpace onde se disponibilizou as músicas do  Arctic Monkeys para quem quisesse ouvir 5 . A partir dessa divulgação massiva na internet, não só osamigos, mas centenas de pessoas já cantavam as letras nas apresentações do grupo.Desse momento em diante, a banda começou a fazer sucesso até chamar a atenção dasrádios e da imprensa britânica, para aí sim gravar e veicular suas músicas, digamos, nosmoldes tradicionais do mercado fonográfico.Esses dois breves exemplos ilustram muito bem as inovações que estão acontecendo nocenário do mercado da música. Torna-se importante voltarmos nossa atenção para essainversão que os novos suportes midiáticos disponibilizados pela internet estão causandodentro da indústria cultural, especialmente dentro da indústria da música. Suportescomo os blogs , o YouTube , os  podcasts ou o  MySpace , por exemplo, estão dandooportunidade a bandas e músicos de disponibilizarem seus trabalhos on line de formaprática e sem custos e para todo o mundo. Aliás, é importante notar que essasuperposição entre tecnologia e arte tornou possível partilhar de forma autônomaconteúdos também autônomos, o que leva qualquer pessoa que produza algum tipo debem ou reflexão cultural a poder compartilhar sua produção de forma independente commilhares de pessoas - criando, portanto, um novo sistema de representação cultural,
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