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A Influência Das Investigações Lógicas Entre Os Psicólogos Da Época

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Artigo que relata como a fenomenologia de Husserl se insere em algumas correntes da historia da psicologia
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  A influência das  Investigações Lógicas  entre os psicólogos da época Publicada em 1900/1901, as  Investigações Lógicas  é considerada um marco na filosofia do século XX, seja pela crítica ao psicologismo, seja pelas minuciosas análises da intencionalidade. A abrangência de temas por ela abordada é não só espantosa como trouxe várias dificuldades interpretativas, em particular no que concerne à unidade da obra. Nela Husserl trata de temas como a linguagem, a lógica, a semântica, epistemologia, apresenta uma teoria das partes e dos todos, uma teoria da gramática  pura, uma crítica ao psicologismo e oferece ainda uma rica descrição das vivências subjetivas e, em especial, das vivências de conhecer, das vivências linguísticas e das vivências intuitivas. Dada sua dimensão, a obra ainda hoje é alvo de estudos, os quais são realizados fundamentalmente nos meios filosóficos. Contudo, na ocasião de sua  publicação, ela não foi tomada como uma obra de filosofia pura, de interesse exclusivo de filósofos. Pelo contrário, foi recepcionada como uma obra dotada de três temas centrais articulados, a lógica, a epistemologia e a psicologia. Como pretendo mostrar ao longo deste artigo, a fenomenologia de  Investigações  Lógicas  foi entendida, por vários autores de época, como o desenvolvimento aperfeiçoado da psicologia descritiva de Brentano. Para Brentano, a psicologia descritiva era uma etapa preparatória para a psicologia explicativa (psicologia empírica ou experimental). Por essa razão, a fenomenologia não seria contra a psicologia experimental em si mesma. Pelo contrário, ela seria contra apenas determinados tipos de  psicologia empírica, realizados sobre uma má descrição da subjetividade. Husserl sempre refletiu sobre a possibilidade de uma relação positiva da fenomenologia, (tomada como psicologia fenomenológica ou fenomenologia pura) com a psicologia empírica. Isso já ocorria em  Investigações Lógicas . Por essa razão, podemos agora compreender a reação de vários psicólogos, que viram nas  Investigações Lógicas  a  fundamentação para uma nova psicologia experimental, fundada em uma concepção intencional da subjetividade. Esse artigo segue a seguinte ordem expositiva. Inicialmente, irei discutir alguns aspectos gerais da psicologia no século XIX. Irei me focar em dois traços centrais, os quais permitem situar o projeto de  Investigações Lógicas  à luz da psicologia da época. O primeiro deles é concepção de que psicologia e teoria do conhecimento eram disciplinas bastante vinculadas. A ideia de que há um vínculo essencial entre essas duas disciplinas tem início com o advento do empirismo, quando o problema do conhecimento assume o primeiro plano da filosofia, em detrimento da metafísica. O segundo traço central caracteriza-se pela psicologia ser tomada como uma ciência da consciência. Isso não pode ser menosprezado. A psicologia não é uma ciência da alma, tomada como substância possuidora de propriedades; nem uma ciência do inconsciente, nem do comportamento. Ao adotar a consciência como objeto de estudo, os pesquisadores não estavam se comprometendo um interseccionismo estéril, como muitas vezes é criticado por muitos manuais de psicologia, ou com o dualismo cartesiano, o qual considera a consciência livre e independente do corpo. Pelo contrário, a principal tentativa era abordar a consciência como uma parte pertencente a um corpo. Assim como o corpo é um processo natural, também o é a consciência. Assim como o corpo está integrado na totalidade da natureza, também a consciência está. Em outros termos, a ciência da consciência busca ser uma ciência natural como outras ciências naturais 1 . Ao longo deste artigo, irei mostrar, sem entrar em detalhes, algumas das mais importantes escolas que recebeu a influência de  Investigações lógicas . Depois de ter discutido esses aspectos gerais, irei me deter no projeto de  Investigações Lógicas . O foco será mostrar que Husserl se apropria da ideia de Brentano 1  É claro que, para isso, é necessário adotar complexas estratégias metodológicas. A crítica ao projeto de se tratar a consciência como objeto natural (crítica ao naturalismo) surge em Husserl apenas mais tarde, razão pela qual não irei me deter sobre tema.  de acordo com a qual a psicologia descritiva precede metodologicamente a psicologia genética. Finalmente, irei mostrar como vários psicólogos receberam de braços abertos a ideia de Husserl a fim de construir, a partir dela uma psicologia experimental. Introdução A situação da Psicologia no período da publicação de  Investigações Lógicas   Para compreendermos a razão do impacto de  Investigações Lógicas , é preciso ter em mente alguns elementos históricos relativos ao contexto da psicologia da época. A partir de Descartes começa um gradual processo de desvinculação da psicologia com relação à metafísica. Ora, a psicologia, ainda em Descartes, era concebida como uma ciência de um tipo especial de substância, a alma. Os problemas psicológicos, neste contexto, dizem respeito às propriedades dessa substância. Ela é mortal? Possui partes? Como ela se relaciona com o corpo? Com a queda do conceito de substância que começa a ocorrer com a ascensão da tradição empírica, a psicologia deixa de ter como a substância espiritual. Agora seu objeto são os fenômenos mentais. Cada homem encontra em si mesmo um fluxo de  percepções, sentimentos e outras experiências conscientes. A alma, tomada como substância, não é ela própria experienciada. Apenas as experiências são experienciadas. O que distingue, portanto, a psicologia escolástica daquela que surge com o empirismo é o objeto da psicologia. A primeira tem como objeto a alma, tomada como substância. A segunda tem como objeto os fenômenos. A psicologia metafísica é violentamente criticada, não só pelos empiristas, mas também por Kant. Este último afirma que a “psicologia racional” é uma das quatro áreas da metafísica.  Em suma, se a ideia de uma psicologia racional é abandonada, ainda restava aberta a possibilidade de uma psicologia que investigasse a relação de sucessão e coexistência entre fenômenos. Há, portanto, um movimento em que a psicologia perde cada vez mais seu vínculo com a metafísica para aproximar-se das ciências naturais. Juntamente com esse processo de se buscar abordar a mente como uma entidade natural, surge a ideia de que, para se compreender o conhecimento, é necessário compreender a mente humana. Ou seja, as ideias não é algo pronto, que caem na mente humana. O estudo da cognição é tarefa do  psicólogo e não do filósofo 2 . Descartes pode ser considerado um marco na transição entre o período metafísico e o período epistemológico da filosofia. Antes de se perguntar o que são as coisas, é  preciso se perguntar como é possível conhecê-las e como é possível conhecê-las com segurança. Com o início do empirismo, começa a concepção de que para conhecer o que é conhecimento é preciso conhecer a subjetividade que o produz. O pressuposto por trás deste programa é que a consciência humana não tem acesso imediato ao mundo, tal como o mundo é em si mesmo, mas apenas às suas próprias representações ou fenômenos. A pergunta sobre o que se encontra por trás dos fenômenos é considerada como problema metafísico. O conceito de substância, que era definida justamente como 2  Posteriormente será necessário articular dois problemas, os quais nem sempre foram desvinculados: a) O surgimento do conhecimento na mente de um determinado homem. O problema da srcem das representações.  b) O problema da fundamentação do conhecimento, o qual não necessariamente, tem a ver com sua srcem. É possível fundamentar um conhecimento sem necessariamente conhecer sua srcem factual, seja sua srcem histórica, seja na mente do indivíduo que pela primeira vez “descobriu”, seja na história de indivíduo que absorve um tal conhecimento. Em contraste, é possível igualmente conhecer a srcem fática sem efetuar uma decisão quanto à validade do conhecimento. Ainda que, como se observa, os dois  problemas possam ser desvinculados, eles nem sempre o foram, dependendo do ponto de vista adotado. Contudo, a discussão deve ser assinalada, pois um dos argumentos do psicologismo deriva da confusão existente entre os dois problemas ou da redução do problema “b” ao problema “a”. Ou seja, se o conhecimento se srcina na vida mental, conclui-se que a exploração das leis da vida mental é o meio  para elucidá-lo. Epistemologia remete necessariamente à psicologia. Há, fundamentalmente, no tempo das Investigações Lógicas dois tipos de psicologia, uma de cunho filosófica (o que não impede de ser empírica) e outra de cunho experimental (advinda da fisiologia).
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