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A INTERPRETAÇÃO PSICANALÍTICA E A TEORIA DOS CAMPOS

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  Jornal de Psicanálise, São Paulo, 40(73): 91-98, dez. 2007. 91 A INTERPRETAÇÃO PSICANALÍTICAE A TEORIA DOS CAMPOS José Fernando de Santana Barros * RESUMO Com este artigo, o autor expõe as principais idéias da Teoria dos Campos sobrea interpretação psicanalítica fazendo um paralelo, um quase-diálogo, com algumasnoções clássicas sobre o tema, partindo basicamente do texto de R. HoracioEtchegoyen: Fundamentos da técnica psicanalítica. Palavras-chave:  Interpretação psicanalítica. Método psicanalítico. Inconsciente rela-tivo. Campo. Ruptura de campo. Identidade. Realidade. Com este artigo desejo fazer uma correla-ção entre algumas noções clássicas sobre a inter- pretação psicanalítica e as idéias da Teoria dosCampos. Assinalarei alguns pontos discutidos por R. Horacio Etchegoyen no seu livro  Fundamen-tos da técnica psicanalítica (1987), uma vezque este autor faz uma revisão bibliográfica sobreo assunto. Entretanto, enfatizarei apenas as ques-tões centrais que nos orientam de modo geral aconceituar e definir a interpretação psicanalítica,sem a pretensão de rever todos os autores estu-dados por Etchegoyen, e tentarei fazer um para-lelo, um quase-diálogo, com as idéias oriundas daTeoria dos Campos, fundamentalmente aquelasdesenvolvidas por Fabio Herrmann ao longo deseus escritos. Na Parte III —“Da interpretação e outrosinstrumentos”—, dando início ao estudo sobre otema, diz Etchegoyen que a interpretaçãoé ofundamento da terapia psicanalítica. De imediato,essa afirmação levanta algumas questões: o queé e o que significa interpretar e em que se *  Membro Titular da Sociedade Psicana-lítica do Recife e Membro do Centro deEstudos da Teoria dos Campos.   José Fernando de Santana Barros Jornal de Psicanálise, São Paulo, 40(73): 91-98, dez. 2007. 92 fundamenta, ela própria, a interpretação?Em outras palavras, poderíamos ainda perguntar, o que autoriza o analista ainterpretar seu analisando?Fabio Herrmann, ao longo de seutrabalho de resgate do método psicanalí-tico, identifica método com interpretação,com ruptura de campo, ou seja, com osurgimento do que ele chamou homem psicanalítico (Herrmann, 1991a), o ser que surge com a interpretação e que, por efeito dela, fica momentaneamente pen-durado num vazio representacional, semmais certeza absoluta de ser o que pensa-va e dizia ser. A tecla  shift   foi acionadaem sua auto-representação e algo estámudando. Já foi dito que depois de umainterpretação um sujeito já nãoé mais omesmo. Temos ainda outro aspecto curi-oso com o efeito da interpretação:é queo homem psicanalítico , este ser quesurge, quase diria metamorfoseado, é oexato objeto da psicanálise que, estamosvendo, cria-se ao aplicar-se o método psicanalítico. A interpretação, portanto,teria que ser, como diz Etchegoyen, ofundamento da terapia analítica e, creioque poderíamos acrescentar, o funda-mento do processo analítico. Mais adian-te veremos com o próprio Herrmann oque vêm a ser campo  e ruptura decampo. Entretanto, como disse acima, ainterpretação deve ter, por sua vez, umfundamento ou uma base sólida em que seassentar. Acredito que este fundamentoé a ambigüidade do discurso, a equivo-cidade da palavra. Ao falar, o analisandodiz o que quer dizer, mas diz muito mais.Outros sentidos estão presentes em seudiscurso, sentidos distintos dos consen-suais. Outros sentidos que serão“escuta-dos” pela atenção livremente flutuante doanalista. Tão importante é este trabalhode“escutar” outros sentidos subjacentesà fala do analisando, que tenho dito ser aatenção livremente flutuante mais impor-tante que a associação livre do analisan-do. Estes outros sentidos, contidos nodiscurso, por força de sua ambigüidade,corresponde, como veremos, às fantasiasinconscientes. Eles dão conta, na qualida-de de representações“outras”, de identi-dades possíveis do ser que fala. Isto nosremeteàs noções de realidade e identida-de, propostas pela Teoria dos Campos.Realidade e identidade são representa-ções e são conceitos solidários, conformedemonstrou Herrmann. Ao falar de umarealidade através de uma representação,o sujeito está falando de sua identidade.Portanto, as representações que estavamsubjacentes ao discurso têm também osentido de identidades alternativas queestavam desconhecidas ou negadas pelosujeito do discurso. São, conseqüente-mente, suas fantasias inconscientes.Talvez seja este o momento defalarmos sobre estes inconscientes que,na Teoria dos Campos, chamamos defantasias ou campos . Na literatura psica-nalítica, de modo geral, o termo inconsci-ente é entendido como uma região mental povoada de impulsos censurados, idéiasou pensamentos não-compatíveis , ouainda intenções prontas a nos induzir em   A interpretação psicanalítica e a Teoria dos Campos Jornal de Psicanálise, São Paulo, 40(73): 91-98, dez. 2007. 93 algum erro, enfim, uma outra linha de pensamentos só que ocultados quase to-dos pela repressão. A mente , vista assim, poderia quase ter uma espécie de registroeletrencefalográfico, registro duplo deduas atividades paralelas de pensamento.Ora, se uma  atividade de pensamento jáé por demais complexa, imaginem se pensássemos duplamente , uma linha de pensamento por cima e outra por baixo. ATeoria dos Campos pensa o inconscientecomo o avesso da consciência, fazendo parte de sua estrutura, que determina suaforma e conteúdos emocionais. Cada ato psíquico, cada ato de consciência e, por-tanto, cada relação são determinados por  um inconsciente a eles relativo (Herrmann,2004). Daí Herrmann tê-lo denominado inconsciente relativo ou campo . Cam- po, regras que se ocultam para ocultar suas determinações da consciência.Além do estudo de Etchegoyen,encontramos um outro texto interessante,de Irma Brenman Pick (1994), que vemcorroborar as noções acima menciona-das. Diz a autora: As partes mais elevadas da mente nãoagem de forma independente; o inconsci-ente nãoé tão-só uma parte residual ourudimentar da mente. Ele é o órgão ativo(poderíamos talvez dizer a fonte) no qual processos mentais funcionam. Nenhumaatividade mental pode ocorrer sem a suaoperação, embora normalmente decorramuita modificação de atividades primáriasantes que determine o pensamento e ocomportamento num adulto. Não há im- pulso ou ímpeto pulsional que não sejavivenciado na forma de uma fantasia in-consciente. Mesmo se um pensamento eum ato conscientes são completamenteracionais e apropriados, uma fantasia in-consciente subjaz a eles (Pick, 1994, p. 38). Comparamos essa passagem coma noção de campo , o qual corresponde àsregras inconscientes que determinam umarelação e se mostram na ruptura de cam- po, ou seja, vêmà tona com a interpreta-ção. E ainda quando Herrmann diz que: se pretendo ter o direito de interpretar,devo pagar o preço de interpretar sempre,ou pelo menos de não poder alegar, meto-dologicamente, nenhum outro tipo de cap-tação do objeto, diferente da escuta trans-ferencial. Para a interpretação, o comum eo banal não existem. A interpretação psi-canalíticaé uma curiosa profissão de fé, jurada ao pé da letra; fé na presença desentido em qualquer palavra, em qualquer discurso.... E, se tudo é interpretável—  por força do Campo em queocorre acomunicação—, tudo é fantasia, tudo é possibilidade de descoberta de outro sig-nificado, pois que assim definimos  fanta- sia (Herrmann, 1991a, pp. 93-94). De fato, em outro contexto,Herrmann define fantasia como sendo osoutros sentidos ocultos ou subjacentes aodiscurso.Esse modo de escuta é, paraHerrmann, o ponto de partida para aruptura de campo, momento interpretati-vo, por desvelar outro sentido na fala doanalisando, outro sentido, portanto, identi-tário do sujeito. A ruptura de campo, o   José Fernando de Santana Barros Jornal de Psicanálise, São Paulo, 40(73): 91-98, dez. 2007. 94 acontecimento interpretativo, estaria nadependência desse modo de escuta queexplora sobretudo a própria ambigüidadedo discurso, com leves toques emocio-nais , com o assinalamento de uma emo-ção discrepante ou de representaçõescontraditórias (Herrmann, 1991a).Etchegoyen define a interpretaçãocomo um instrumento para informar, dis-tinguindo, todavia, a interpretação comoinformação, de uma informação pura esimples. Isto significa que a interpretaçãocomo informaçãoé algo que pertence aoanalisando, muito embora este a desco-nheça. A simples informação diria respei-to a algo que o analisando ignora domundo externo, da realidade, algo que não pertence a seu mundo interno.Por essa razão, talvez, é queHerrmann diz que a interpretação nasceda boca do analisando; atua o analistacomo um obstetra que assiste o nasci-mento do bebê, propiciando de algummodo técnico que a “informação” que pertence ao analisando seja por este últi-mo“descoberta”. O próprio Freud já nosdava este conselho em seus escritos téc-nicos.Outro ponto a considerar é o ex- posto por Loewenstein, citado por Etchegoyen. Para aquele autor, a inter- pretaçãoé uma intervenção especial que produz as mudanças dinâmicas que cha-mamos de insight  . A interpretação dá ao paciente um novo conhecimento de simesmo.Com a Teoria dos Campos pode-mos concordar com o fato de que ainterpretação dá ao paciente um novoconhecimento de si mesmo. Contudo, dizê-la ser um insight   merece uma pequenaconsideração. Em que pese ter o termo aconotação de uma compreensão interna,também significa um conhecimento quese completa, que se fecha como uma Gestalt.  Muito embora a Teoria dos Cam- pos não explicite esta visão, propõe que ainterpretação abra um leque de possibili-dades, fazendo com que o analisandoabdique provisoriamente de sua identida-de acreditada como sólida e única, parareadquiri-la ampliada. A interpretação,ao invés de fechar um certo conhecimen-to, abre sentidos alternativos. Podería-mos mesmo dizer que a melhor interpre-taçãoé aquela que faz o analisando con-tinuar ou começar a associar livremente. Nesta linha de pensamento,Liberman, também citado por Etchegoyen,diz que o analista dá um segundo sentidoao material do analisando. O próprioEtchegoyen tem a opinião de que a inter- pretaçãoé também uma nova conexão designificado. O analista, diz ele, toma di-versos elementos das associações livresdo analisando e produz uma síntese quedá um significado diferente à sua experi-ência. Na verdade, esse trabalho de pro-duzir uma síntese que dá um significadodiferenteé conseqüência daquele modode escuta não-seletiva, que despreza osentido rotineiro do discurso e leva emconta sua ambigüidade. Ao escutar destemodo, o analista vai criando uma semân-tica especial — uma semântica psicana-
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