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A Linguiística e o Profissional de Letras

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  57  A Lingüística e o Profissional de Letras junto aos Desafiosdo Século XXI Leilane Ramos da Silva* A rtigo de natureza teórico-didática cuja tônica incide numa análise do papel da Lingüística na construção de um ensino delínguas (materna e estrangeira) mais condizente com os diasatuais, a partir de uma reflexão de como as suas teorias em ebuliçãovêm contribuindo para o aperfeiçoamento do perfil do profissionalde Letras do século XXI, que exige, cada vez mais, a militâncianecessária ao desabrochar de um ensino crítico.PALAVRAS-CHAVE: Lingüística; profissional de Letras; século XXI.       R    e    s    u    m    o *Doutora em Lingüística e Língua Portuguesa (UFPB). Professora do Núcleode Letras da Universidade Federal de Sergipe - Campus Prof. AlbertoCarvalho (Itabaiana). E-mail: leilaneramos@hotmail.com. Revista da Fapese, v.3, n. 1, p. 57-64, jan./jun. 2007  5858 Revista da Fapese, v.3, n.1, p. 57-64, jan./jun. 2007 Leilane Ramos da Silva  Lidamos com a linguagem, que é o maior empreendimento coletivo desocialização e produção de conheci- mento da humanidade, e nossa for- mação intelectual deveria ser de sen-sibilidade para as manifestações lin- güísticas em todas as suas extensões:artística, estética, científica, filosófi-ca etc. (Marcuschi, 2004, p.13). Introdução Debruçar-se sobre a análise apreciativa do papel daLingüística e do profissional de Letras junto aos desa-fios do século XXI traz à tona, entre outros, o diálogomuitas vezes inoperante, e por que não dizerinexistente, entre a pesquisa acadêmica na área lin-güística e o ensino a ser vivenciado nas diversas ins-tâncias educativas, sobretudo na Educação Básica.Uma grande queixa dos licenciandos em Letras é adissociação entre o que eles vivenciam nos bancosuniversitários e aquilo que irão vivenciar nas salas deaula dos Ensinos Fundamental e Médio. É, como ditoacima, a ineficácia ou, de forma mais contundente, afalta de diálogo entre os diferentes níveis de ensino,uma das grandes responsáveis pela prática diferencia-da (qualitativa e quantitativamente falando) dos pro-fissionais da área.Felizmente, assiste-se, no cenário dos programasde pós-graduação, a uma investida crescente na pes-quisa em linguagem e esta tem se mostrado, cada vezcom mais notoriedade, preocupada em expor seus re-sultados aos alunos de graduação, não só para queestes tenham acesso ao que ora está sendo desenvolvi-do, mas também para colocar em evidência sua impor-tância para uma pedagogia crítica do ensino de lín-guas (materna e estrangeira).Com base nessas reflexões, o objetivo deste artigoé validar uma discussão em torno do perfil do licenci-ado em Letras nos dias de hoje, a partir da considera-ção das contribuições da Lingüística para o ensino delínguas, com vistas à superação dos desafios impos-tos neste século. 1. A lingüística e o profissional de letras: interfacese contribuições Como se sabe, a Lingüística dialoga com outroscampos disciplinares, contribuindo significativamen-te para a formação em linguagem dos profissionais que,de alguma forma, estão ligados à Educação. Como re-gistra Mollica (2004, p. 18): Vale assinalar que, em qualquer área emque atue, é imprescindível que o professor  possua bases sólidas no que diz respeito à linguagem, devendo então instrumentalizar-se atual e adequadamente com relação àsquestões afetas à produção e percepção lin- güísticas, à aquisição da linguagem e àaprendizagem da leitura e da escrita. Algunsconceitos lingüísticos são, pois, de suma importância e constituem a base para qual-quer trabalho de um professor com relaçãoà linguagem oral e escrita. Sem sombra de dúvidas, as pesquisas de nature-za lingüística têm apontado aspectos inerentes à falae à escrita imensamente importantes a diferentes áreasque se preocupam com a linguagem. Mollica (2004)lembra que aspectos ligados ao processamento oralespontâneo das línguas (como as pausas, as hesita-ções, os gaguejos, as repetições, as estruturas inter-rompidas...), muitas vezes imperceptíveis aos nãomuito afeitos às teorias lingüísticas, são entendidospelos lingüistas não apenas como “naturais e exclu-sivos à modalidade falada das línguas, como tam-bém motivados por razões vinculadas ao grau defuncionalidade que possam imprimir na comunica-ção” (Mollica, 2004, p. 23). Para ilustrar, a referidaautora assinala que nem sempre hesitação e gaguejorepresentam distúrbios lingüísticos ou pouca flu-ência, antes podem ter um propósito bem definido,trazendo uma maior comunicabilidade ao discursoproferido.  59  A Lingüística e o Profissional de Letras junto aos Desafios do Século XXI Revista da Fapese, v.3, n.1, p. 57-64, jan./jun. 2007 Igualmente, do ponto de vista da escrita, é incontestea contribuição da Lingüística, mormente no que tangeàs pesquisas que têm efetuado em torno do processo dealfabetização/letramento, com as devidas implicaçõescognitivas que lhes são subjacentes. Ainda segundoMollica (2004), o escritor competente deve ser capaz deapropriar-se dos mecanismos de coesão e coerência tex-tuais para alcançar o significado e intencionalidade dotexto. Da mesma forma, algumas trocas de letrasefetuadas pelos alunos podem revelar (e quase semprerevelam!) o contato insuficiente que estes mantêm coma escrita ou, ainda, despertar reflexões sobre o estágiode desenvolvimento em que se encontram. Poder-se-iacitar, aqui, ‘como’ as inúmeras áreas da Lingüística(como a Sociolingüística, a Psicolingüística, a Pragmá-tica e outras) têm servido à formação dos profissionaisem Educação, mas, como o propósito deste artigo nãoreside no esmiuçar dessas questões, convém, no mo-mento, realçar o seguinte questionamento: Que desafi-os são impostos ao profissional da área de Letras nosdias de hoje e como o conhecimento lingüístico podecontribuir para o alcance de um ensino mais dinâmico,com vistas à superação desses desafios?  1.1O PROFISSIONAL   DE   LETRAS : DESAFIOS   E   PERSPECTIVAS Assim como a Lingüística trava diálogos com ou-tros saberes, o profissional de Letras “congrega umafauna de perspectivas, desde as diversas literaturas,passando pela língua portuguesa, as línguas estran-geiras, a lingüística e uma multidão de ramificações,sem esquecer a formação política, social e cultural”(Marcuschi, 2004, p. 11).Diante dessa característica, Marcuschi (2004), aotentar definir a expressão “intelectual de Letras”, assi-nala ser inverdade que o estudante/profissional deLetras venha a ser generalista, dada a atual exigênciacrescente de especialização. Grosso modo, para o au-tor, a formação intelectual do estudante de Letras, an-tes de ser uma questão de ordem conteudística, é umaquestão ligada à criticidade do profissional, de suasensibilidade para a autonomia e para a reflexão. Apropósito, eis as suas palavras:  De forma explícita, afirmo que o intelectual  não se caracteriza pela posse de um grandecabedal de conhecimentos, sejam eles quais forem, ou pelo domínio de muito conteúdocultural, histórico e temático em sua área, mas por sua capacidade de ação autônoma,crítica e ética  com o saber de que dispõe a partir da vivência que construiu em socie-dade. A formação intelectual do aluno de Letras não é edição de uma enciclopédia monumental que começa a envelhecer nodia seguinte à sua colação de grau e sim a formação de um cidadão capaz de agir naconstrução do conhecimento para atuar jun-to à sociedade. A formação intelectual é aformação para a competência e não para asimples competição no mercado. Ser com- petente significa tanto estar apto do pontode vista dos conhecimentos necessários comoestar maduro do ponto de vista da ação só-cio-política (Marcuschi, 2004, p. 11). Essa competência de que trata o estudioso confereao profissional da área de Letras a responsabilidadede superar dualismo, de forma a contribuir para opanorama civilizatório que se espera do século XXI.Ora, como dito antes, a competência do profissio-nal de Letras implica divisões e especializações as maisdiversas, como exemplo, pode-se citar a existência delingüistas e teóricos da literatura, com suas respecti-vas áreas de interesse.Mas, em se tratando, especificamente, da formaçãoem Lingüística, urge considerar como esta área do sa-ber tem contribuído para o desabrochar de novas pers-pectivas para o ensino de línguas (materna e estran-geira), para o alvorecer de uma pedagogia crítica, porassim dizer. Daí a razão de ser vista por muitos estudi-osos como indispensável à formação do profissionalna área de Letras. Mollica (2004, p. 25), por exemplo,diz ser ...indispensável ao graduando em Letrasqualificação específica em Lingüística, fun-  6060 Revista da Fapese, v.3, n.1, p. 57-64, jan./jun. 2007 Leilane Ramos da Silva damentada nos pilares da ciência e nos sa-beres de ponta desenvolvidos pela pesquisa na área. Por isso, o conhecimento acumu- lado sobre a linguagem tem que estar pre-sente nos conteúdos das disciplinas de gra-duação. Em todo o processo de formação básica e continu-ada de professor de línguas, não se concebe mais adissociação entre pesquisa e ensino. Há que se pen-sar num curso de Letras dinâmico, durante o qualseja estimulado nos alunos (também futuros profes-sores) a curiosidade permanente de buscar conheci-mentos novos, de pensar modos pedagógicos, de pres-tar atenção a novas tecnologias. Cabe alertar porémque os alicerces da formação básica são imprescindí-veis e a inovação não pode substituir conhecimentoconsolidado, deve apresentar-se e estabelecer-se comoparceira.A propósito, o conjunto das teorias lingüísticas temgerado uma constante renovação nas práticas pedagó-gicas, muitas vezes sob o aval das próprias políticasde ensino via documentos ou programas doGoverno.Como exemplo, podemos citar os ParâmetrosCurriculares Nacionais - PCN (Língua Portuguesa eLíngua Estrangeira Moderna, 1998), os PCN+ (2002)e as Orientações Curriculares Nacionais do EnsinoMédio - OCNEM (2004). Sobre esses documentos,Oliveira (2006) destaca o fato de que, em geral, apre-sentam uma linguagem muito hermética, uma estrutu-ra textual problemática e, muitas vezes, conceitos mes-clados de linhas teóricas distintas. O que, para a refe-rida pesquisadora, dificulta a leitura dos textos pelospróprios professores, que são tidos como leitores pri-vilegiados. Para efeito de ilustração, eis as suas pala-vras no tocante à temática: O interessante de se observar é que o dis-curso oficial deveria servir de parâmetro para definir e nortear a elaboração do novo currículo, no entanto, se constitui num texto abrangente, confuso, sem es-clarecer, exatamente, o que deve ser ensi- nado e quando deve ser ensinado. A mis-tura de teorias lingüísticas presentes nes-ses documentos e, por sua vez, empregada nos conceitos, como por exemplo, os de linguagem e língua veiculados pelos PCNEM, que trazem duas perspectivas te-óricas: estruturalismo e sócio- interacionismo, dificulta a definição deuma proposta pedagógica por parte dos pro- fessores que, sem saber exatamente comoacompanhar essa proposta, acabam, no geral, ensinando, em sala de aula, a par-tir do currículo consolidado. Seja como for, na atualidade, com o avanço daspesquisas de natureza lingüística, reconhece-se a ne-cessidade de renovação dos métodos de ensino de lín-gua que se sacralizaram ao longo dos anos. É precisoconsiderar, também, que alguns profissionais sentemnecessidade de mudança, têm conhecimento das teo-rias lingüísticas em ebulição, mas continuam com suaspráticas anacrônicas.Em geral, é preciso que o profissional de Letrasnão perca de vista:a)a discussão e o aprofundamento de questõesrelativas aos fundamentos teórico-metodológicosdo processo de ensino e de aprendizagem dalíngua (materna ou estrangeira);b)o repensar do processo e do ensino da língua(materna e estrangeira) a partir das contribui-ções de estudos lingüísticos e de campos auxi-liares;c)o conhecimento de diferentes concepções dealfabetização e métodos que orientem sua práti-ca pedagógica;d)a compreensão do ensino de língua (materna eestrangeira) em dois eixos: fala/escuta/leitura/ escritura, percorridos pela reflexão sobre a lín-gua (análise lingüística), para uma prática deensino articulada (atitudes, atividades, conteú-dos, procedimentos);
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