Documents

A MERCANTILIZAÇÃO DA FELICIDADE EM JORNAIS PORTUGUESES-REVISADO

Description
sobre a felicidade e a sua relação com o Mercado
Categories
Published
of 23
All materials on our website are shared by users. If you have any questions about copyright issues, please report us to resolve them. We are always happy to assist you.
Related Documents
Share
Transcript
    BANCA PARA PROMOÇÃO À CLASSE DE PROFESSOR ASSOCIADO   Prof. Dr. Alexandre Sebastião Ferrari Soares    A MERCANTILIZAÇÃO DA FELICIDADE EM JORNAIS PORTUGUESES: ALGUNS SENTIDOS SOBRE O BRASIL E O BRASILEIRO Alexandre Sebastião Ferrari Soares  –   UNIOESTE/CAPES/Universidade de Coimbra 1   Embora a falta que marca o sujeito seja percebida por este como a perda de algo essencial para a  jouissance   [gozo], é   na verdade   um marco da subjetividade  –   isto é, como o sujeito é marcado por uma falta, constantemente tenta recuperar o objeto que percebe como a encarnação do prazer perdido  e que pode  preencher o vazio. O próprio fato de o sujeito ser marcado pela falta é então a máquina que mantém o desejo vivo. (SALECL, 2005, p. 24, grifos meus). A falta a que se refere a autora, na epígrafe que abre este artigo,é quase sempre  percebida pelo sujeito como algo a ser preenchido, e não como algo que constitui uma marca de sua subjetividade: a incompletude do sujeito é o que lhe dá humanidade . Ela não é, portanto, uma falta a ser preenchida por alguma coisa que está fora (ou mesmo dentro ou em algum lugar que se  possa descobrir aonde fica), mas o que o define como sujeito.  Pensar a felicidade como um bem a ser adquirido, é pensar como, na atualidade, os indivíduos são interpelados em sujeitos a partir da especialização das estruturas capitalistas dentro das mais diversas sociedades: o consumo de mercadorias vai além de uma simples aquisição de suporte para a exi stncia e para a   sobrevivncia humana: e as mercadorias transformam-se em sensações (momentâneas) de prazeres egocntricos. O consumo quase sempre é uma alternativa para preencher aquela falta a que SALECL (2005) se refere acima, porque produz a sensação ainda que passageira de satisfação e simula um preenchimento (de forma efêmera) daquele vazio constitutivo do sujeito. O consumo movido à ansiedade transforma a idéia de felicidade em mais um objeto a ser desejo e adquirido . Para Bauman (2001), ‘a infelicidade dos consumidores deriva do excesso e no da falta de escolha’ . Enquanto o capitalismo ‘  pesado ’  utilizava a terceira pessoa de singular, ‘ ele ’ , o capitalismo ‘ leve ’  é norteado pela primeira pessoa do singular ‘ eu ’ .   O desejo pelo consumo é despertado em ambos atravé s do “efeito manada”  impregnado no inconsciente coletivo. Todavia, a diferenciação entre o ‘  pesado 1’ , ou seja, o excesso, e o ‘ leve ’ , falta, registra a diferença transformadora de cada momento de constituição do capitalismo. A analogia com o copo d’á gua pode ser interessante. No excesso , o copo com metade de água está cheio ; já na falta, o mesmo copo com metade de água estará vazio . A mobilizao pelo consumo se configurando na ansiedade pelo excesso ou pelo vazio não completa as necessidades do próprio ‘ eu ’  da vida humana . (MENEZES, 2008, p. 6, grifos meus) 1  Professor Adjunto D da Universidade Estadual do Oeste do Paraná, campus  Cascavel. Bolsista CAPES - Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior. Aluno do pós-doutorado da Faculdade de Letras, da Universidade de Coimbra e pesquisador convidado do Centro de Investigação Média e Jornalismo, sob a supervisão da Professora Doutora Associada Isabel Maria Ferin da Cunha. Estágio realizado entre os meses de setembro de 2013 e agosto de 2014.    O mercado liberal e a democracia são os dois pilares que sustentam/suportam o mundo globalizado. Nunca na história das sociedades ocidentais contemporâneas foi possível  produzir um número tão grande de bens materiais em circulação que vendem também a ideia de atingir o bem-estar. Por outro lado, inclusive como forma de mostrar que o sistema/mercado está gozando de saúde plena, essa busca não tem e não pode ter um fim. Não existe, portanto, qualquer possibilidade de se chegar a uma satisfação pessoal: a satisfação se encontra,  justamente, nesse percurso sem ponto final. A felicidade, por sua vez, se converte, como afirma MENEZES (2008), em ansiedade e angústia. Este artigo faz parta das primeiras conclusões a que cheguei a partir das análises realizadas durante a pesquisa referente ao estágio de pós-doutorado, na Universidade de Coimbra, sob a supervisão da professora Dra. Isabel Ferin 2 . O corpus  discursivo desta pesquisa foi organizado a partir de textos, charges, fotografias e cartas de leitores presentes nos jornais impressos, de grande circulação em Portugal (o Correio da Manhã , o  Diário de Notícias , o  Expresso , o  Jornal de Notícias  e o  Público ) publicados em 2011/2012. Aqui, neste artigo analiso, a partir dos pressupostos teóricos da Análise de Discurso de orientação francesa (doravante, AD), duas matérias produzidas, respectivamente, pelo jornal o Público , em janeiro de 2011, i ntitulada “ Os jovens brasileiros e indianos são os que têm uma visão mais optimista da sua vida 3 ” e pelo  Jornal de Notícias , em agosto de 2011, intitulada, “  Futuro vendido ”.  Essas matérias evidenciam o que PAYER (2005) denomina de Formação Discursiva Mercantil, ou seja, uma nova forma de interpelação do sujeito. Segundo a autora, - isso será melhor explorado na sequência deste artigo -, essa Formação Discursiva (doravante, FD) opera na base de nova formação ideológica, a exemplo da ideologia religiosa e jurídica. Consequentemente, também segundo PAYER (2005), o modo como se articulam a língua, os sujeitos e a ideologia são decorrentes das transformações dos processos discursivos de subjetivação vigente: o fortalecimento do poder do Mercado diante da diluição do poder do Estado significando o sujeito. Esses sujeitos, na contemporaneidade, são um efeito da onipotência do Mercado como instância máxima de poder. As relações sociais são, portanto, marcadas, em sua maioria, pela submissão à circulação da Mercadoria. É preciso deixar claro que, sendo o meu ponto de vista teórico o da AD, os  princípios que regem-no são, em termos gerais: 2  Professora Doutora Associada da Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra, vice-presidente e  pesquisadora do Centro de Investigação Média e Jornalismo (CIMJ).   3   Jornal o Público  de 23 de janeiro de 2011.      a) O sujeito, nessa perspectiva, não é um ser humano individualizado, como um ser que tem uma existência particular no mundo. Deve, portanto, ser considerado como um ser social. Deve, em virtude disso, ser compreendido a partir de um espaço coletivo. Para um analista de discurso, dessa orientação, o histórico e o simbólico não se separam. (ORLANDI, 2010).  b) Sujeito e sentido se constituem ao mesmo tempo. Ao significar o sujeito também se significa. Os lugares ocupados pelos sujeitos são, portanto, definidos a partir do que ele diz, a partir do que se materializa no seu discurso. c) Não , portanto, uma teoria do sujeito determinado por uma enunciaão pr - est abelecida, ou seja, antes que ele enuncie, mas uma teoria da instncia de enunciaão que , ao mesmo tempo e intrinsecamente, um efeito de enunciado. d) Diante disso, é possível afirma que as palavras não têm um sentindo dado. Para que elas façam sentido é necessário que estejam inscritas na história, pois cada tempo tem a sua maneira de nomear e interpretar o mundo (ORLANDI, 1996). Esse é um complexo processo da memória. Há dizeres já ditos e esquecidos que estão em nós e que fazem com que ao ouvirmos uma palavra, uma proposição, ela apareça como fazendo um determinado sentido. e) A memória discursiva é constituída pelo esquecimento. Esquecemos quando os sentidos se constituíram em nós, eles nos aparecem como evidentes, como um sempre  já-lá . f) Vivemos em uma sociedade estruturada pela divisão e por relações de poder,  portanto, os sentidos não são os mesmos para todos, ainda que pareçam ser. Nós, analistas do discurso, tratamos do político que se inscreve na língua. A escolha das matérias publicadas pelos jornais o  Público  e  Jornal de Notícias  em detrimento das demais, como corpus  desse artigo, se deu por conta do meu interesse na circulação da Formação Discursiva Mercantil (PAYER, 2005) que interpela os sentidos (e os sujeitos), na sociedade contemporânea, além, é claro, delas produzirem sentidos sobre o Brasil e o brasileiro. Segundo dados da Associação Portuguesa para o Controle de Tiragem e Circulação 4  (APCT), o  Público , no primeiro semestre de 2014, contou com uma tiragem de 35.220 exemplares e 28.284 de circulação. Em 2011, esses números eram, também segundo o APCT, 45.745 e 31.590, respectivamente. Em relação ao  Jornal de Notícias , os números referentes ao  primeiro semestre de 2014 são: 85.962, de tiragem, e 64.436 de circulação. E em 2011, os dados da APCT para o este jornal eram: 108.119 de tiragem e 88.436de circulação. Esses números 4   Dados disponíveis em http://www.apct.pt/index.php em 25 de maio de 2014.
Search
Similar documents
View more...
Tags
Related Search
We Need Your Support
Thank you for visiting our website and your interest in our free products and services. We are nonprofit website to share and download documents. To the running of this website, we need your help to support us.

Thanks to everyone for your continued support.

No, Thanks