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A NOITE DOS TEMPOS. Traduzido por Marisa Murray Revisão: Salvador Pittaro Capa de Salvio Negreiros/Studio Artenova

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A NOITE DOS TEMPOS O enredo deste romance de René Barjavel é tão absurdo e fascinante quanto à própria realidade de nossa imprevisível época. Os membros de uma expedição polar fazem um levantamento do
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A NOITE DOS TEMPOS O enredo deste romance de René Barjavel é tão absurdo e fascinante quanto à própria realidade de nossa imprevisível época. Os membros de uma expedição polar fazem um levantamento do relevo subglacial, numa região onde o gelo tem mais de mil metros de espessura e as camadas mais profundas datam de 900 mil anos. De repente, um inacreditável fenômeno acontece: os aparelhos registram sinais provenientes do interior do gelo. Não restam dúvidas: existe um emissor sob a camada. A descoberta estoura nas manchetes de todo o mundo: O Mistério do Pólo ; Um Coração Bate Sob o Campo de Gelo ; A UNESCO Vai Derreter o Pólo Sul . Sábios e técnicos acorrem, de todas as partes do mundo, em busca da solução do mistério. A galeria aberta no gelo os conduz a um abrigo onde dormem congelados, há 900 mil anos, um homem e uma mulher. Assim começa a narrativa de um amor apaixonado, que nem mesmo a morte pôde destruir. Quando os sábios conseguem fazer Eléa voltar à vida, sua primeira palavra, não olvidada apesar dos séculos, será o nome de seu amado. Um romance excepcional, cujo enredo se passa simultaneamente nos dias de hoje e há quase um milhão de anos, e que deu a seu autor o cobiçado Prêmio dos Livreiros (da França) de A Noite dos Tempos está sendo filmado por André Cayatte. 2 A NOITE DOS TEMPOS Do original francês La Nuit des Temps Copyright 1968 by Presses de La Cité Copyright 1971 da edição em português Editora Artenova S.A. Terceira edição brasileira em abril de 1975 Traduzido por Marisa Murray Revisão: Salvador Pittaro Capa de Salvio Negreiros/Studio Artenova Reservados todos os direitos desta tradução. Proibida a reprodução, mesmo sem expressa autorização da Editora Artenova S.A. editora artenova s.a Composto e impresso no Brasil Printed in Brazil René Barjavel 3 A NOITE DOS TEMPOS Traduzido por MARISA MURRAY editora artenova S.A. End. telegráfico ARTNOVA São Cristóvão rio RJ Dep. jornalístico dep. gráfico dep. editorial Studio de arts 4 A André Cayatte, pai desta aventura inspirador deste livro, com a minha amizade. R.B. 5 Minha bem amada, minha abandonada, eu te deixei lá no fim do mundo, voltei para meu quarto de homem da cidade com seus móveis familiares sobre os quais tantas vezes pousei minhas mãos que os amavam, com os seus livros que me alimentaram, com sua velha cama de cerejeira onde dormi minha infância e onde, esta noite, procurei em vão encontrar o sono. E todo este cenário que me viu crescer, desenvolver, tornar-me eu, hoje me parece estranho, impossível Este mundo que não é o teu tornou-se um mundo falso, no qual meu lugar jamais existiu. E no entanto é meu pais, eu o conheci... Vai ser preciso reconhecê-lo, aprender novamente a nele respirar, a nele fazer o meu trabalho de homem no meio dos homens. Serei capaz disso? Cheguei ontem à noite pelo jato australiano. No aeroporto de Paris-Norte, um bando de jornalistas me esperava, com seus microfones, suas câmaras, suas inúmeras perguntas. Que poderia eu responder? Todos eles te conheciam, todos eles haviam visto sobre suas telas a cor dos teus olhos, a incrível distância do teu olhar, as formas perturbadoras do teu rosto e do teu corpo. Mesmo aqueles que te viram apenas uma vez não puderam te esquecer. Eu os sentia, por trás dos reflexos de sua curiosidade profissional, secretamente mudos, agitados, magoados. Mas talvez fosse a minha própria dor que eu projetava sobre o rosto deles, minha própria ferida que sangrava quando eles pronunciavam o teu nome... Voltei para meu quarto. Não o reconheci. A noite passou e não dormi. Através da parede de vidro, o céu, que era negro, tornava-se pálido. As trinta torres da Defesa se tingiam de cor-de-rosa. A Torre Eiffel e a Torre Montparnasse enfiavam seus pés na bruma. O Sacré-Coeur parecia uma maquete de gesso pousada no algodão, sobre esta bruma envenenada por suas fadigas de ontem, milhões de homens acordam já extenuados de hoje. Do lado de Courbevoie, uma chaminé alta joga uma fumaça negra que tenta reter a noite. Sobre o Sena, um rebocador solta seu grito de monstro melancólico. Estremeço. Nunca mais, nunca mais sentirei calor no meu sangue nem na minha carne... O Dr. Simon, as mãos nos bolsos, a testa apoiada na parede de vidro de seu quarto, olha Paris, sobre a qual o dia se levanta. É um homem de 32 anos, grande, magro, moreno. Veste um suéter grosso de gola roulé, cor de pão queimado, um pouco deformado, gasto nos cotovelos, e calça de veludo negro. Sobre o tapete, seus pés estão descalços. Seu rosto é 6 coberto por anéis de barba castanha, curta, barba de alguém que a deixou crescer por necessidade. Por causa dos óculos que usou durante o verão polar, o côncavo dos olhos parece claro e frágil, vulnerável como a pele cicatrizada de um ferimento. Sua testa é larga, meio escondida pela nascente dos cabelos curtos, um pouco tombada em cima dos olhos e cortada por uma profunda ruga. Suas pálpebras estão inchadas, o branco de seus olhos é estriado de vermelho. Não pode dormir, não pode mais chorar, não pode esquecer, é impossível... A aventura começou com uma missão de simples rotina, das mais banais. Havia anos que o trabalho sobre o continente antártico não era mais feito pelos corajosos, mas sim por sábios organizados. Havia todo o material necessário para lutar contra os inconvenientes do clima e da distância, para conhecer o que procuravam saber, para assegurar aos pesquisadores um conforto equivalente ao de um hotel de luxo. Todo o pessoal da equipe possuía os conhecimentos indispensáveis à missão. Quando o vento soprava forte demais, fechavam-se e deixavam-no soprar; quando se acalmava, todos saíam e cada um fazia o que tinha a fazer. Sobre o recortado mapa daquele continente, na Base Paul-Emile Victor, a missão francesa permanente debruçava-se sobre a fatia que lhe coubera, dividia-a em pequenos quadrados e trapézios e os explorava sistematicamente um após outro. Sabia que não havia mais nada a ser encontrado a não ser gelo, neve e vento, vento, gelo e neve. E, abaixo, rochas e terra, como em toda parte. Não havia nisso nada de excitante, mas mesmo assim aquilo os apaixonava, porque eles estavam longe do óxido de carbono e dos engarrafamentos, porque cada um dava a si próprio uma pequena ilusão de ser um pouco de herói explorador, enfrentando grandes perigos, e principalmente porque estavam no meio de amigos. A missão acabara de fazer a exploração do trapézio 381, a documentação estava encerrada, uma cópia tinha sido enviada à sede em Paris. Restava-nos passar à tarefa seguinte. Burocraticamente, do 381, deveríamos ter saltado para o 382, mas nem sempre as coisas aconteciam assim. Havia as circunstâncias, os imprevistos e a necessidade de um mínimo de variedade. 7 A missão acabava de receber um novo aparelho de sondagem subglacial de concepção revolucionária, que, segundo seu construtor, era capaz de descobrir os menores detalhes do solo sob vários quilômetros de gelo. Louis Grey, o glaciólogo, 37 anos, agregado de Geografia, estava ardendo de impaciência para pô-lo à prova, comparar o seu trabalho com o das sondas clássicas. Foi então decidido que um grupo iria fazer um levantamento do solo subglacial no quadrado 612, que se situava a algumas centenas de quilômetros do Pólo Sul. Em duas viagens, o pesado helicóptero depositou os homens, seus veículos, e todo o material sobre o local de operação. O lugar já havia sido bastante sondado pelos métodos e engenhos habituais. Sabia-se que profundidades de 800 a metros de gelo terminavam em abismos de mais de metros. Aos olhos de Louis Grey, o local constituía um campo de experiência ideal para testar o novo aparelho. Era, acreditava ele, o que havia motivado sua escolha. Hoje em dia, ninguém ousa acreditar. Com tudo o que foi revelado depois, como se poderia pensar ainda que tinha sido só o acaso, ou uma razão qualquer, que fizera vir esses homens com todo o material necessário exatamente a este ponto do continente, ao invés de a qualquer outro ponto desse deserto de gelo maior que a Europa e os Estados Unidos juntos? Muitos espíritos sérios acreditam agora que Louis Grey e seus companheiros tenham sido chamados . De que maneira? Isso não foi esclarecido com os acontecimentos seguintes. E nem mesmo se tratou disso. Havia problemas bem maiores e mais urgentes a elucidar. Mas a verdade é que Louis Grey e mais onze homens, levados em três snodogs, se colocaram exatamente no lugar certo. E, dois dias depois, todos estes homens sabiam que tinham vindo ao encontro de um acontecimento inimaginável. Dois dias... Como falar aqui de dias e de noites? Estávamos no princípio de dezembro, quer dizer em pleno verão austral. O sol não se punha. Girava sobre os homens e os caminhões, em volta do seu mundo redondo, como para vigiar de longe e por todos os lados. Mais ou menos às 9 horas da noite, passava atrás de uma montanha de gelo, reaparecia às 10 do outro lado dessa montanha, lá pela meia-noite parecia a ponto de sucumbir e desaparecer sob o horizonte que começava a engoli-lo. Então se defendia, crescendo, deformando-se, 8 tornando-se vermelho. Ganhava a batalha e recomeçava lentamente a percorrer suas distâncias e sua ronda de sentinela, iluminando ao redor da missão um imenso disco branco e azul de frio e solidão. Por outro lado, muito além desses limites longínquos sobre os quais montava guarda, atrás dele havia a Terra, as cidades e as multidões, os campos com suas vacas, as ervas, as árvores e os passarinhos. O Dr. Simon estava nostálgico. Acabava uma permanência de três anos, quase ininterrupta, nas diferentes bases francesas da Antártida, e estava mais do que cansado. Após esse estágio, deveria ter tomado o avião para Sidney. Ficou, porém, a pedido do seu amigo Louis Grey, para acompanhar sua missão, pois o Dr. Jaillon, seu substituto, estava ocupado na base atacada por uma epidemia de rubéola. Essa rubéola era inverossímil. Quase nunca se vêem moléstias na Antártida, dir-se-ia até que os micróbios têm medo do frio. Os médicos só têm que cuidar de acidentes e, às vezes, de frieiras dos recém-chegados, que não deixam de cometer imprudências. Por outro lado, a rubéola quase que desapareceu da face da Terra depois que inventaram a vacina bucal que todos os recém-nascidos tomam nas suas primeiras mamadeiras. Apesar dessas evidências, havia rubéola na Base Victor. Um homem em cada quatro ardia de febre em sua cama, a pele transformada num tecido de bolinhas. Louis Grey juntou um grupo ainda ileso, em meio do qual estava o Dr. Simon, e embarcou-o a toda pressa para o ponto 612, desejando ardentemente que o vírus não os seguisse. Se não tivesse sido a rubéola... * Snodogs: caminhão-tanque montado em esteiras e colchões de ar. Se naquele dia, ao invés de subir no helicóptero, eu tivesse embarcado no avião para Sidney, se do alto da sua decolagem vertical, antes que ele se lançasse rugindo em direção às terras quentes, eu tivesse dito adeus para sempre à base, ao gelo, ao monstruoso continente frio, que teria acontecido? Quem teria estado perto de ti, minha bem-amada, no momento terrível? Quem teria visto em meu lugar? Quem teria sabido? Alguém teria gritado, berrado o nome? Eu, eu não disse nada. Nada... E tudo se consumou... Desde então, repito a mim mesmo que era tarde demais, que se eu tivesse gritado isso não teria mudado nada, e eu teria simplesmente ficado arrasado sob o peso de um desespero inexpiável. 9 Durante aqueles poucos segundos, não teria havido bastante horror no mundo para encher teu coração. Eis o que me repito sem cessar, desde aquele dia, desde aquela hora: Muito tarde... muito tarde... muito tarde... Mas talvez seja uma mentira que eu mastigo e torno a mastigar, e da qual tenha de me alimentar para viver... Sentado numa esteira do snodog, o Dr. Simon sonhava com um croissant molhado num café cremoso. Molhado, sumarento, para ser comido aos pequenos pedaços, mastigando devagar, à maneira dos bons parisienses. Era um prazer que lhe trazia as melhores lembranças, aquele de entrar no bistrot, aproximar-se do balcão, aspirando o cheiro do café expresso, os pés sobre a serragem, lado a lado com os rabugentos da manhã, compartilhando do seu primeiro prazer do dia, talvez o maior, o de se encontrar neste lugar de primeiro encontro com os outros homens, sentindo o calor e as correntes de ar. Não podia mais com todo este gelo e este vento, um vento que não cessava jamais de fustigá-lo, de fustigar todos os homens da Antártida, metidos naquele deserto glacial. Empurrava-os sem cessar, a eles e a suas barracas, antenas e caminhões, para que se fossem, abandonassem o continente, e os deixassem, ele e a neve mortal, consumar a sós, eternamente na solidão, suas monstruosas bodas ultrageladas... Era preciso ser verdadeiramente obstinado para suportar aquela vida. Simon tinha chegado ao auge de sua obstinação. Antes de sentar-se, havia colocado uma coberta dobrada em quatro sobre a esteira do snodog, a fim de que suas nádegas ficassem melhor protegidas. Estava com o rosto voltado para o sol e esfregava as faces, escondidas pela barba, tentando convencer-se de que o sol o esquentava, se bem que lhe fornecesse mais ou menos tantas calorias quanto uma lanterna a óleo a três quilômetros de distância. O vento tentava virar o seu nariz em direção a sua orelha esquerda. Virou a cabeça para receber o vento do outro lado. Pensava na brisa do mar à noite em Collioure, tão quente, mas que achavam fresca porque fazia muito calor durante o dia. Pensava no indescritível prazer de se despir, de mergulhar na água sem se transformar em gelo, de se deitar sobre as areias quentes... Quentes! Isso lhe pareceu tão inverossímil que ele riu. 10 Você agora ri sozinho? disse Brivaux. Estamos bem... Você estará com rubéola? Brivaux estava por trás dele, a sonda a tiracolo, pendurada numa larga correia de pele de lobo que passava por trás do seu pescoço. Estava pensando nos lugares do mundo onde faz calor disse Simon. Não é rubéola, é meningite... Fique sentado assim, e você vai gelar até a alma... Olhe, venha ver um pouco isto aqui... Apontou-lhe o mostrador da sonda, com sua folha registradora já em parte enrolada. Era um modelo comum como qual ele acabava de prospectar o setor que lhe tinha sido designado. Simon levantou-se e olhou. Não entendia muito da parte técnica. O mecanismo do corpo humano lhe era mais familiar do que o de um simples isqueiro a gás. Mas tivera tempo, depois de três anos, de se familiarizar com os desenhos que traçava, sobre o papel magnético, a grafite das sondas portáteis. Pareciam, em geral, com o corte de um terreno vago, ou de um montão de ruínas, ou de não importa o quê, que não se parecesse com coisa alguma. Ora, o que lhe mostrava Brivaux parecia com qualquer coisa... Com quê? Com nada de conhecido, nada de familiar, mas... Seu espírito, habituado a fazer a síntese dos sintomas para apresentar um diagnóstico, compreendeu de repente o que havia de incomum nesse relevo do solo glacial. A linha reta não existe na natureza bruta. A linha curva regular também não. O solo brutalizado, áspero, misturado no decorrer das idades geológicas, pelas formidáveis forças da Terra, é sempre totalmente irregular. Ora, o que a sonda de Brivaux havia inscrito sobre o papel era uma sucessão de curvas e de retas. Interrompidas e quebradas, mas perfeitamente regulares. Que o solo pudesse apresentar um tal perfil, era totalmente improvável e mesmo impossível. Simon tirou a conclusão mais evidente: Há qualquer coisa errada nesse negócio... E você, você tem qualquer coisa errada aí dentro? Brivaux bateu com o dedo enluvado na sua cabeça. Este aparelho funciona com perfeição. Gostaria de funcionar tão bem quanto ele até o meu último dia. Mas lá embaixo há qualquer coisa que não está bem... Bateu na superfície do gelo com o salto da sua bota forrada. Um perfil assim, não é possível continuou Simon. 11 Eu sei, isto não parece ser verdade. E os outros? O que encontraram? Não sei de nada, vou dar um toque de cometa para chamá-los... Subiu no laboratório do caminhão, e, três segundos depois, soava a sirena chamando os membros da missão de volta ao acampamento. Aliás, eles já estavam prestes a voltar. Primeiro as duas equipes a pé, com suas sondas clássicas. Depois o snodog, que tinha na frente o transmissor-receptor da nova sonda, uma armadura metálica entre suas duas lagartas. Um cabo vermelho o ligava ao posto de comando e ao registrador, no interior do veículo. Estava também, no veículo, o mecânico Eloi, Louis Grey, impaciente para ver funcionar o novo instrumento, e um engenheiro da fábrica que tinha vindo para mostrar o seu funcionamento. Era um rapaz alto e magro, mais para louro, e de maneiras delicadas. Dava a impressão, por sua elegância natural, de ter feito cortar seus trajes polares numa casa de alta costura. Os veteranos não podiam deixar de sorrir ao olhá-lo. Eloi o havia chamado de Cornexquis o que lhe assentava com perfeição. Desceu do caminhão em silêncio, escutando com um ar reservado as apreciações de Grey sobre seu utensílio . Segundo a opinião do glaciólogo, a nova sonda falhara completamente. Ele nunca havia visto, nem mesmo no aparelho mais antigo, ser traçado um perfil igual àquele. Mas o mistério não acaba aí... disse Brivaux, que esperava junto ao caminhão - laboratório. Foi você quem chamou? Fui eu, velhinho... O que é que está acontecendo? Entre e verá... E eles viram... Eles viram os quatro levantamentos, os quatro perfis, todos estranhos e semelhantes entre si. O da nova sonda estava inscrito num filme de 3mm. Grey o havia seguido sobre a tela de controle. Os outros membros da missão o viram sobre a tela do laboratório. 12 O que as outras três sondas tinham deixado supor, o novo aparelho mostrava com evidência. Fazia desfilar sobre a tela, com uma nitidez que não deixava lugar a nenhuma dúvida, perfis de escadas derrubadas, muros quebrados, cúpulas arrebentadas, rampas helicoidais torcidas, todos os detalhes de uma arquitetura que uma mão gigantesca parecia ter deslocado e destruído. Ruínas!... disse Brivaux. Não é possível... disse Grey, com uma voz que ousava apenas se fazer ouvir. E por quê? indagou Brivaux, tranqüilamente. Brivaux era filho de um pequeno camponês da Alta-Savóia, o último de sua cidadezinha a continuar a criar vacas ao invés de seguir os parisienses acumulados a dez por metro quadrado de neve ou de grama seca. O velho Brivaux havia cercado seu pedaço de montanha de moirões e de arame-farpado É proibida a entrada e nessa prisão vivia em liberdade. O filho tinha-lhe herdado os olhos azuis-claro, os cabelos negros e a barba avermelhada, além do humor sempre igual e o senso de equilíbrio. Ele via as ruínas, como todos os que ali estavam e sabiam interpretar um perfil. A diferença é que os outros não acreditavam, mas ele acreditava porque os via. Se tivesse visto seu próprio pai lá no gelo, teria ficado espantado durante um segundo, depois teria dito olha aí meu pai... Mas os membros da missão não podiam deixar de se render à evidência. Os quatro levantamentos se assemelhavam e se confirmavam uns aos outros. O desenhista Bernard foi encarregado de fazer a síntese. Uma hora mais tarde, apresentava seu primeiro esboço. Não parecia com nada que se conhecesse: era uma arquitetura gigantesca, destruída por alguma força titânica, descomunal. A que profundidade estão estas coisas? perguntou Elói. Entre novecentos e mil metros! disse Grey com ar furioso, como se fosse responsável pela enormidade do acontecimento. Isso significa que elas estão lá há quanto tempo? Não se pode saber... Nunca perfuramos tão profundamente. Mas os americanos já o fizeram disse calmamente Brivaux. Sim... os russos também... acrescentou Simon, para depois perguntar: Eles teriam podido datar suas amostras? Pode-se sempre... isso não quer dizer que seja exato. 13 Exato ou não, eles dataram de quando? Grey levantou os ombros diante do absurdo que ia dizer. Aproximadamente novecentos mil anos, há alguns séculos... Houve exclamações e depois um silêncio estupefato. O
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