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A Nova Leva de Anclicismos Feia de Dar Dó

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anglicismos na lingua portuguesa
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  13/03/2018 Sem mais regras: a nova leva de anglicismos que é feia dedar dó  julianacunha.com  /blog/sem-mais-regras-a-nova-leva-de-anglicismos-que-e-feia-de-dar-do Submeta-se, infiel. O prazo das submissões está se encerrando. Você precisa realizar quefeminismo não é sobre odiar homens. O ponto deste lide um pouco randômico é que estamosfalando um português de merda, repleto de uma nova leva de anglicismos pedestres queninguém sabe ao certo de onde veio, mas aqui vão alguns palpites leigos.Palpites… Eles não costumam prestar nenhum serviço aos estudos linguísticos. A teoria de que o“gerundismo” teria sido uma contribuição do telemarketing, por exemplo, provavelmente veiode uma coluna do jornalista Ricardo Freire no  Jornal da Tarde , em 2001. Tão difundida quantoequivocada, a tese era que o treinamento dos atendentes teria usado manuais mal traduzidos,transpondo um gerúndio excessivo — essa forma nominal é muito mais frequente na línguainglesa — para o português.Apesar das horas que cada um de nós já passou pendurado num telemarketing e da propensãoa assimilar novos aprendizados durante o sono — o sujeito te liga às 7h, você atende em estadode sonambulismo e logo pega a mania de gerúndio, tal qual um curso de línguas noturno — amaior parte dos linguistas considera improvável que o telemarketing seja o pai da criança.“Essas construções já existiam no português, a gente sempre pôde falar que ia ‘estar fazendo’algo. O que houve no fim do século passado foi um aumento significativo do uso,principalmente nos estratos menos letrados da sociedade. O porquê desse aumento nãosabemos, mas parece que havia uma tendência geral da língua puxando para isso, e que esseera um movimento anterior à generalização dos telemarketings”, explica Marcello Modesto,professor de linguística da USP.Se os palpites não ajudam, eles talvez divirtam. O palpite deste texto é que, nos últimos anos, oleitor brasileiro se viu cercado de más traduções. Na década passada, o mercado editorial sofreuuma rápida expansão muito mais baseada em importações do que em produção própria e queteria resultado em uma perda de qualidade nas traduções. As editoras passaram a lançar maistítulos e a toque de caixa. Paralelamente, sites como BuzzFeed e Huffington Post passaram atraduzir muitos artigos do inglês, em geral porcamente (parte das traduções é declaradamenteamadora) e com um conteúdo repleto de expressões idiomáticas. A legendagem caseira defilmes e seriados virou regra, assim como a tradução de verbetes da Wikipedia, com umaqualidade que varia do excelente ao amplamente lamentável.Isso pode ter gerado uma nova e significativa leva de anglicismos. Pessoas que nem sequerleem em inglês estão falando e escrevendo coisas como “realizar” (no sentido de perceber).Mesmo os jornais têm usado “assumir” como se fosse sinônimo de “supor”. Umacampanharecente do filme Cinquenta tons de cinza  trazia uma série de cartazes dizendo “sem maissegredos”, “sem mais regras”, traduções literais que seriam mais bem transpostas como “chegade segredos”, “basta de regras”. Tem aquela franquia de casas de depilação, a “Não+Pelo”.Ouve-se ainda endereçar (no sentido de “tratar de”). Submeter (inscrever-se. É um quinto ousexto sentido possível da palavra em português, mas remoto). Meu ponto é que (o que estou Sem mais regras: a nova leva de anglicismos que é feia de dar dó | Já ...http://julianacunha.com/blog/sem-mais-regras-a-nova-leva-de-anglici...  querendo dizer é que). Você tem um ponto (o que você disse faz sentido). Icônico (significa queo sujeito é pictórico?). Acurácia (precisão. Também existe em português, mas é pouco usual).Randômico (também conhecido como aleatório). Suportar (no sentido de financiar, de aceitarou de ser compatível. Um clássico dos aparelhos eletrônicos: de repente o celular grita que nãosuporta  aquele carregador). Dedicado a (no sentido de função). Discutir sobre (não podemos sódiscutir?). Mais cedo (como em “hoje mais cedo o caboclo de Policarpo Quaresma baixou emmim”). Virtualmente (no sentido de quase sempre, quase tudo). Disputar (no sentido de discutirou contestar). Clarificar (esclarecer). Agenda gay (reivindicações do movimento gay). Introduzir(um assunto ou pessoa). Entregar (no sentido de render no trabalho). Tipicamente (onde a fraseimplora por um “geralmente”).Mandatório (um obrigatório especialmente mandão). Regênciascomo “busca por”, “pede por” (as pessoas estão pedindo).“Hoje ouvi um aluno dizer ‘eu não pertenço a este lugar’. Estou à espera do ‘nós pertencemosuntos’”, conta Caetano Galindo, tradutor e professor de linguística da Universidade Federal doParaná.Erros de tradução não são nenhuma novidade, mas não se trata aqui de erros causados por ummau entendimento do inglês, e sim por uma falta de familiaridade com o português.Pressupõem um leitor com pouca leitura de textos srcinalmente escritos em português e queestá cercado de más traduções, ou que traduz mal ao ler sozinho textos estrangeiros.“É interessante pensar que o que possibilita essa pobreza das traduções não é necessariamentea pobreza do inglês dessas pessoas, mas sua pouca alfabetização em termos mais sofisticados,de repertório. Vejo cada vez mais casos de gente que não leu lhufas em português e que tem asensação de que as coisas foram inventadas em inglês”, afirma Galindo.A impressão é de que o pessoal que cumpre a função sintática de elite cultural nesta loucaoração chamada Brasil está se alimentando exclusivamente de textos gringos ou de traduçãoporca. A maior parte das pessoas nem sabe que está usando expressões transpostasliteralmente. Elas leem essas coisas no jornal, em sites profissionais, na legenda do filme baixadolegalmente e assumem  que isso seja português. Nesse sentido, o leitor que de fato fala inglêstalvez esteja mais protegido da adesão involuntária do que quem não percebe o ecoensurdecedor da tradução. Se você lê uma frase em português e o correspondente em inglêslogo se materializa na sua cabeça, as chances de ser transposição literal ou malfeita sãograndes.André Conti, editor da Todavia, acha razoável supor que o ganho de volume do mercado tenhabaixado o nível médio das traduções. “O inglês não é um idioma tão difícil, e muita gente quefala bem dá de barato que a migração para a tradução será tranquila quando a questão éustamente o português, esse sim um idioma bem filho da puta e enjoado”, diz. “Há umamassificação da cultura pop via séries, memes etc. que faz com que a gente queira usar essasexpressões que vemos todos os dias. Não chega a ser ruim, só um pouco caipira e afetado. Hojeem dia, no ambiente empresarial, usa-se, por exemplo, ‘performar’, no sentido de ‘esse livroperformou bem’, o que me soa como a morte lenta e dolorida de tudo o que é belo, mas o quefazer?”, conclui.Paulo Henriques Britto, poeta e professor de tradução da PUC-Rio, concorda que há uma novaleva de anglicismos no ar, mas não vê com maus olhos. “Pessoalmente, não tenho nada contraestrangeirismos, mas tendo a preferir os que realmente preenchem uma lacuna no léxico, como Sem mais regras: a nova leva de anglicismos que é feia de dar dó | Já ...http://julianacunha.com/blog/sem-mais-regras-a-nova-leva-de-anglici...  ‘privacidade’, ‘bullying’ e talvez ‘empoderamento’, embora seja uma palavra quase tão feiaquanto ‘seborreia’, eleita pelo Luis Fernando Veríssimo como a mais feia”.Há os estrangeirismos lexicais e os sintáticos. Os lexicais são mais comuns porque “ovocabulário é como que a pele da língua”, explica Galindo. Nessa categoria há os casos em queuma palavra estrangeira é adaptada, obedecendo inclusive às regras de formação de palavrasdo português (como em frilar e tuitar); aqueles em que uma palavra estrangeira é integralmentetransposta sem sofrer aportuguesamento (como em download e upgrade); e aqueles em queuma palavra que já existia num mesmo campo semântico recebe um sentido diferente (como nocaso de “eventualmente”, que passou a ser usada como sinônimo de “finalmente” ou de “emalgum momento”). “Esse terceiro caso é o que mais incomoda, porque parece que a língua nãoestá ganhando absolutamente nada”, opina Britto. Bem mais raros, os estrangeirismos sintáticos são quando estruturas gramaticais de outroidioma passam a ser incorporadas, como no uso que a preposição “sobre” vem assumindo emfrases como “liderar não é sobre mandar nas pessoas”, “conviver não é sobre estar certo”, tãocomum que está nos versos de“Trem-Bala”, sucesso imediato da cantora Ana Vilela. Essaestrutura simplesmente não existe no português e dói nos ouvidos só de pensar, mas vai negarque seja útil? Em português tout court teríamos que dizer algo como “liderar não ésimplesmente mandar nas pessoas” e “para conviver às vezes é preciso abrir mão de estarcerto”. Ou seja, teríamos que dizer algo completamente diferente. Nesse sentido, a incorporaçãode “é sobre” só pode ser vista como um enriquecimento da língua. O problema é queenriquecimento de língua nem sempre vem ao gosto estético do freguês.Britto observa a adoção de outro estrangeirismo sintático: o uso de sintagmas nominais compré-modificação complexa de uma maneira próxima ao inglês. “No português, isso me pareceinaceitável, mas as pessoas têm feito mesmo em textos srcinalmente escritos no nosso idioma,formando coisas do tipo ‘um não muito inteligente, porém bastante simpático rapaz’”, diz.A língua muda constantemente, eis uma verdade, mas não seja a mudança que você não querver no mundo. Tão natural quanto a língua mudar é os falantes oferecerem algum tipo deresistência a essas mudanças. Grosso modo, quem impulsiona alterações linguísticas são ascamadas menos escolarizadas e os jovens, enquanto as camadas mais escolarizadas só adotamas mudanças no último buraco do cinto, fazendo com que sua adesão prove a consolidação danova regra. No caso desses anglicismos, no entanto, a mudança parece vir de cima.“De um lado, há que reconhecer a naturalidade, a desejabilidade até, dessa flexibilidade naaceitação dos estrangeirismos. Ninguém quer ser o islandês, com sua política de barrar novaspalavras importadas. Ou os franceses, com sua esquizofrenia estrangeirista. De outro lado, háque se reconhecer a gratuidade de alguns desses empréstimos, bem como sua ligaçãoinquestionável com operações de tradução mal realizadas”, opina Galindo.Já Britto acha que resistir é um tanto inútil. “Se um uso se generaliza, em princípio não há o quefazer. Morrerei sem dizer ‘vou estar lhe telefonando’ e, a cada vez que leio que um livro estáfazendo sucesso ‘ao redor do mundo’ tenho vontade de replicar: ‘Ué, tem gente lendo nossatélites artificiais?’. Mas para a próxima geração é possível que essas formas se tornemnormais; nada a fazer”, diz.Para Modesto, coisas como ‘aplicar’ para o mestrado ou ‘fazer um ponto’ na hora de discutir Sem mais regras: a nova leva de anglicismos que é feia de dar dó | Já ...http://julianacunha.com/blog/sem-mais-regras-a-nova-leva-de-anglici...  talvez estejam mesmo entrando para a língua, mas e daí? Outras, como ‘compreensivo’ nosentido de ‘abrangente’, viriam do latim e importa muito pouco se estão ficando mais comunspor via do inglês. Para ele, esses empréstimos limitam-se a um grupo reduzido de falantes e sedividem entre aqueles que são realmente estranhos ao português e os que são portuguêsmesmo, embora talvez não sejam a melhor opção. Entre os estranhos estaria o uso de “emadição” no sentido de “além do mais”. Já entre os nativos estaria “baseado em Londres” nosentido de que mora ou tem sede em Londres, por exemplo. “Os que são português podem sealastrar rapidamente pela língua se os estratos menos letrados de falantes se espelharem nosestratos mais letrados, embora isso raramente aconteça. Já os amalucados provavelmente sãomodismos passageiros”, explica. Sem mais regras: a nova leva de anglicismos que é feia de dar dó | Já ...http://julianacunha.com/blog/sem-mais-regras-a-nova-leva-de-anglici...

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May 26, 2018

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