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A Perda Da Diversidade_paulR

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  1 A PERDA DA DIVERSIDADE CAUSAS E CONSEQÜENCIAS Paul R. Ehrlich Professor de Ciências Biológicas, Universidade Stanford, California As discussões sobre a atual crise de extinção muito freqüentemente focalizam os destinos dasespécies mais proeminentes que estão em perigo, e, em muitos casos, na superexploraçãodeliberada feita por seres humanos como causa desse perigo. Assim, os rinocerontes negrosestão desaparecendo da África, porque seus chifres são necessários para a produção de adagascerimoniais usadas nos ritos de puberdade do Oriente Médio; os elefantes estão ameaçadospelo grande valor econômico do marfim; felinos correm risco porque os peleiros querem suaspeles; e as baleias são raras porque, entre outras coisas, podem ser transformadas em comidapara animais de estimação. A preocupação com esse perigo direto é válida e tem sido politicamente importante, umavez que a simpatia pública é conquistada mais facilmente pela condição de animais peludos,atraentes ou espetaculares. Contudo, chegou o momento de a atenção pública prestar atençãoa algumas verdades mais obscuras e (para a maioria das pessoas) mais desagradáveis, taiscomo as seguintes: . A causa básica da decomposição da diversidade orgânica não é a exploração ou a maldadehumana, mas a destruição de hábitats que resulta da expansão das populações humanas e desuas atividades. . Muitos desses organismos, menos atraentes ou espetaculares, que o  Homo sapiens  estádestruindo, são mais importantes para o futuro da humanidade do que a maioria das espéciessabidamente em perigo de extinção. As pessoas precisam de plantas e insetos mais do queprecisam de leopardos e baleias (sem se querer com isso menosprezar o valor dos doisúltimos). . Outros organismos supriram a humanidade com a base da civilização em forma deplantações, animais domésticos, uma grande variedade de produtos industriais e muitosremédios importantes. Não obstante, a razão antropocêntrica mais importante para sepreservar a diversidade é o papel que os microrganismos, as plantas e os animais página inicial textos complementares  2desempenham no fornecimento de serviços livres ao ecossistema, sem os quais a sociedade,em sua forma atual, não poderia durar (Ehrlich e Ehrlich, 1981; Holdren e Ehrlich, 1974). . A perda de populações geneticamente distintas dentro de espécies é, no momento, pelomenos tão importante quanto o problema da perda de toda a espécie. Uma vez que a espécieseja reduzida a um resto, sua capacidade de beneficiar a humanidade diminui bastante, e suaextinção total, em um futuro próximo, torna-se muito provável. No momento em que sereconhece que um organismo está em perigo de extinção, geralmente já é tarde demais parasalvá-lo. . A extrapolação das tendências atuais na redução da diversidade implica um desfecho para acivilização dentro dos próximos 100 anos, algo comparável a um inverno nuclear. . Interromper a perda da diversidade será extremamente difícil. A tradicional abordagem de“apenas estabelecer reservas” é quase certamente inadequada por causa de fatores comocrescimento descontrolado da população humana, chuvas ácidas e mudanças de climainduzidas por seres humanos. Talvez seja necessária uma transformação quase religiosa, queleve à apreciação da diversidade por si própria, independente de seus benefícios diretos para ahumanidade.Examinemos algumas dessas propostas mais de perto. Embora algumas poucas espécies sejampropositadamente superexploradas hoje em dia, milhares são consideradas de uma maneira oude outra como espécies ameaçadas ou em perigo de extinção. A grande maioria está nessecaminho, porque a humanidade destrói os hábitats, fazendo estradas, arando, derrubandoflorestas, utilizando-os excessivamente como pastagem, inundando-os, drenando-os oulevando para eles organismos exóticos, enquanto os submete a uma grande variedade detoxinas e muda seu clima.Como qualquer um que já tenha criado peixes tropicais sabe, todos os organismos requeremhábitats próprios para sobreviver. Assim como as pessoas não podem sobreviver em umaatmosfera com muito pouco oxigênio, os neon tetras ( Paracheirodon innesi) não podemsobreviver em água que esteja a uma temperatura de 40 ºF (4,4 º C), ou procriar em águamuito alcalina. As trutas, por sua vez, não podem se reproduzir em água que seja muitoquente ou ácida. E a bactéria que produz a toxina do tétano não se reproduz na presença deoxigênio. A fim de continuarem a existir, as borboletas-variegadas (Euphydryas edithabayensis)  precisam de áreas de prados serpentiformes (para sustentar o crescimento das  3plantas que servem de alimentos para suas lagartas e fornecer néctar para os adultos).Bacuraus ( Caprimulgus   vociferus ), juruviaras-oliva ∗  ( Vireo olivaceus), mariquitas – papo-de-fogo* (Dendroica fusca) , sanhaços-vermelho* (Piranga flava)  e dúzias de outras avesnorte-americanas têm que ter uma floresta tropical madura para passarem o inverno (verTerborgh, 1980, por exemplo). Furões-de-patas-negras (Mustela nigripes)  necessitam depradaria que ainda sustente os cães-de-pradaria** (Cynomys ludovicianus), dos quais aquelesse alimentam.Essa dependência absoluta que os organismos tem de ambientes apropriados (Ehrlich, 1986) éque faz com que os ecologistas tenham certeza de que as tendências hodiernas de destruiçãode hábitats e modificações – especialmente na floresta tropical de alta diversidade (ondeacredita-se que viva pelo menos metade de todas as espécies) – são uma receita infalível deempobrecimento biológico. Os políticos e cientistas sociais que questionaram a extensão dasatuais extinções estão apenas demonstrando sua profunda ignorância em ecologia; amodificação do hábitat e sua destruição e a extinção de populações e espécies andam de mãosdadas.A extensão da devastação feita pela humanidade no meio ambiente da Terra é mostradaindiretamente por um estudo recente sobre a apropriação humana de produtos de fotossíntese(Vitousek et alii, 1986). A fonte de alimento dos animais   em todos os principais ecossistemasé a energia que as plantas verdes colocam em moléculas orgânicas no processo defotossíntese, menos a energia que elas utilizam para seus próprios processos de sobrevivência-crescimento, manutenção e reprodução. No jargão dos ecologistas, essa quantidade de energiaé conhecida como Produção Primária Líquida (PPL). Globalmente, essa produção é de cercade 225 bilhões de toneladas métricas anuais de matéria orgânica, em torno de 60% ficando emterra firme.A humanidade está se utilizando diretamente (comendo, alimentando o gado, usando comomadeira e como lenha) mais do que 3% da PPL global, e cerca de 4% da PPL de terra firme.Essa é uma estimativa mínima do impacto do homem sobre os sistemas terrestres. Uma vezque o  Homo sapiens é apenas uma das (conservadoramente falando) cinco milhões deespécies, isso pode parecer uma parte exagerada na divisão dos recursos alimentares. Mas, se  ∗   N. E.: Espécies existentes no Brasil.  4considerarmos que os seres humanos têm um milhão de vezes o peso de um animal médio(uma vez que a grande maioria dos animais são pequenos insetos e traças), precisando de ummilhão de vezes a energia por individuo, talvez essa fatia não seja tão absurda.Não obstante, os seres humanos usam a PPL direta e indiretamente, também. Assim, secolocarmos na conta dos humanos não apenas a PPL consumida diretamente, mas tambémoutras categorias como a quantidade de biomassa consumida em fogos utilizados para limpara floresta, as partes de colheitas que não são consumidas a PPL de pasto (convertida dohábitat natural) não consumida pelo gado, e assim por diante, a fatia humana da PPL terrestrechega a impressionantes 30%. E se adicionarmos a isso a PPL perdida quando as pessoasconvertem sistemas naturais mais produtivos em sistemas menos produtivos (tais comoflorestas em fazendas ou pastos, prados em desertos, pântanos em estacionamentos), o total  potencial  em terra é reduzido em 13%, e a fatia humana na PPL potencial não reduzida chegaa quase 40%. Não há como se considerar razoável o uso de quase dois quintos do alimentoterrestre anual da Terra por apenas uma das espécies, no sentido de se manter a estabilidadenesse planeta.Essas estimativas podem explicar tanto as causas básicas e as conseqüências de se alterar edestruir hábitat quanto justificar uma grande preocupação com tendências futuras. A maioriados demógrafos prognosticam que o  Homo sapiens dobrará a sua população no próximoséculo. Isso implica uma crença de que nossa espécie pode apoderar-se de mais 80% da PPLterrestre, uma idéia grotesca para ecologistas que enxergam os impactos destrutivos do nívelatual de atividade humana. Os otimistas que acham que a população humana pode dobrar detamanho de novo devem pensar sobre onde serão encontrados os recursos alimentares básicos.Uma resposta padrão idiota a essa questão é que a indefinida expansão da população humanaserá sustentada pelas incomensuráveis riquezas do mar. Infelizmente, para essa idéia, asriquezas do mar foram cuidadosamente medidas, tendo-se descoberto que são insuficientes.As pessoas utilizam-se de cerca de 2% da PPL do mar, e as possibilidades de se dobrar essaprodução são muito pequenas. A razão básica é que para que haja uma colheita eficiente nomar é necessária a exploração concentrada de recursos – cardumes de peixes e invertebradosmaiores. As pessoas não podem fazer uma colheita eficiente de grande parte da PPL que fica  ** N. E.: ao contrário do que sugere o nome, esta espécie não é um canídeo, mas um roedor norte-americano (marmota) que vive em galerias feitas nas vastas campinas.
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