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A Peregrinação de Fernão Mendes Pinto e a Perenidade da Literatura de Viagens

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A Peregrinação de Fernão Mendes Pinto e a Perenidade da Literatura de Viagens Coordenação de João Carlos Carvalho Faculdade de Ciências Humanas e Sociais Universidade do Algarve – Campus de Gambelas – Faro CLEPUL – Centro de Literaturas e Culturas Lusófonas e Europeias da Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa A Peregrinação de Fernão Mendes Pinto e a Perenidade da Literatura de Viagens Ficha Técnica Título: A Peregrinação de Fernão Mendes Pinto e a Perenidade da Literatura de Viagens Coordenação: João Carlos Carvalho Composição & Paginação: Luís da Cunha Pinheiro Centro de Literaturas e Culturas Lusófonas e Europeias, Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa e Instituto Europeu Ciências da Cultura Padre Manuel Antunes Lisboa, novembro de 2015 ISBN – 978-989-8814-20-3 Esta publicação foi financiada por Fundos Nacionais através da FCT – Fundação para a Ciência e a Tecnologia no âmbito do Projecto «UID/ELT/00077/2013» João Carlos Carvalho (coordenação) A Peregrinação de Fernão Mendes Pinto e a Perenidade da Literatura de Viagens CLEPUL Lisboa 2015 Índice Intervenção do Coordenador na Sessão de Abertura João Carlos Carvalho . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 7 Intervenção do Cónego César Chantre César Chantre . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 9 Uma viagem por 4 Séculos da Peregrinação Alexandra Rodrigues Gonçalves . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 11 Interpretações de Peregrinação: João David Pinto Correia, António José Saraiva e Rebecca Catz Miguel Real . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 17 Fernão Mendes Pinto: «pobre de mim», «fora de mim», «ainda este sou». . . João Carlos Firmino Andrade de Carvalho . . . . . . . . . . . . . . 23 Peregrinação, Uma Narrativa Várias Perspetivas José Ruy . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 31 Jean Baudoin: tradutor-fantasma de Fernão Mendes Pinto Patrícia Couto . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 33 Matias da Maia, um jesuíta português na China do século XVII e a construção de entrelaços culturais e religiosos na vastidão do império Adriano Milho Cordeiro . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 49 O narrador cronista na trilogia alemã de Louis-Ferdinand Céline Daniel Teixeira da Costa Araujo . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 67 A propósito do romance tradicional «Nau Catrineta»: peregrinações no tempo e no espaço Sandra Boto . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 77 3 4 João Carlos Carvalho O Turista acidental: o cinema como lugar da memória Mirian Tavares . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 93 O Itinerário Espiritual do Herói (Metamorfoses, de Apuleio, e Peregrinação, de Fernão Mendes Pinto) António Manuel de Andrade Moniz . . . . . . . . . . . . . . . . . . 103 Le thème du voyage dans Astérix: altérité et «parodie des identités» Otília Pires Martins . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 117 Francisco Xavier na Peregrinaçam: o percurso de um santo segundo Fernão Mendes Pinto Fernando Alberto Torres Moreira e António Teixeira . . . . . . . . 131 Literatura da viagem em tonalidade modernista Dionísio Vila Maior . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 143 A História Trágico-Marítima: suas características no âmbito da História do Livro Kioko Koiso . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 163 Carlos Ríos e sua Fábrica de Realidade Flávia Walter e Alexandra Filomena Espindola . . . . . . . . . . . 179 A relevância de Peregrinação no contexto da apresentação do Budismo aos Europeus Bruno Miguel Gouveia Antunes . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 191 Quand un voyage en Orient en cache un autre Régine Atzenhoffer . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 207 Mia Couto: viagem e metaficção José Paulo Cruz Pereira . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 221 As Viagens de Fialho João Minhoto Marques . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 239 Exílios, refúgios e desenganos dos pastores peregrinos Artur Henrique Ribeiro Gonçalves . . . . . . . . . . . . . . . . . . 253 Pelo País dos Romances com o Padre Bougeant Ana Alexandra Seabra de Carvalho . . . . . . . . . . . . . . . . . . 265 Peregrinação de Fernão Mendes Pinto no sistema de ensino português Clara Anunciação . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 275 Por Este Rio Acima ou a Peregrinação revisitada Sara Vitorino Fernandez . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 289 www.clepul.eu A Peregrinação de Fernão Mendes Pinto e a Perenidade da Literatura de Viagens 5 A sede de conhecer — Uma revisão da herança literária das viagens no Diário de Miguel Torga Lenka Kroupová . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 299 Agustina Bessa-Luís: narrativa de viagens e diálogos da lusofonia Maria do Carmo Cardoso Mendes . . . . . . . . . . . . . . . . . . 311 Alexandra David-Néel: l’écriture d’un voyage personnel Ana Fernandes . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 323 A Tradução da Peregrinaçam de Fernão Mendes Pinto em Espanha, França, Inglaterra e Alemanha no século XVII Sandra Pina Gonçalves . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 339 Um olhar estrangeiro: as impressões de Francis de Castelnau em sua viagem pelo Brasil Flávia Lúcia Espíndola Silva . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 349 Cartografar a Literatura: contributos da abordagem geocrítica para a perenidade da Literatura de Viagens Sara Cerqueira Pascoal . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 359 A viagem imaginária do humanista Luis Vives (Somnium Vivis, 1520) Alexandra de Brito Mariano . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 387 Peregrinação: o ideário humanista de Fernão Mendes Pinto Elisama Soraia Sousa de Oliveira . . . . . . . . . . . . . . . . . . 401 A China e o Japão na Peregrinação de Fernão Mendes Pinto: entre utopia realizada e utopia realizável Stéphanie De Jésus . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 417 A Tra[d]ição do Cronista Viajante: uma Viagem por Outros Mares Semânticos Thaís do Socorro Pereira Pompeu . . . . . . . . . . . . . . . . . . 431 Miguel Torga e Agustina: viagens, memória e espírito do lugar Álvaro Manuel Machado . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 445 A Escrita e as «Oralidades» na Peregrinaçam de Fernão Mendes Pinto (breves notas de leitura) João David Pinto Correia . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 459 Viagens e peregrinações da língua portuguesa Manuel Célio Conceição . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 479 www.lusosofia.net Exm.a Sr.a Directora da Faculdade de Ciências Humanas e Sociais (em representação do Sr. Reitor da Universidade do Algarve), Exm.o Sr. Presidente da Câmara Municipal de Faro, Exm.a Sr.a Directora Regional da Cultura, Exm.a Sr.a Presidente da Associação 8 Séculos da Língua Portuguesa. Exms. Srs. Convidados: Directora Regional do Serviço de Estrangeiros e Fronteiras; Presidente da Associação do Comércio e Serviços da Região do Algarve; Cônsul Honorário do Canadá; Representante da Câmara Municipal de Loulé, Exmos. Srs. Docentes e Discentes da Universidade do Algarve, Caros e caras conferencistas e participantes, Na qualidade de Coordenador do Colóquio Internacional A Peregrinação de Fernão Mendes Pinto e a Perenidade da Literatura de Viagens, gostaria de começar por dizer que é com muita satisfação que vejo hoje concretizar-se a sua Abertura, projecto que responde ao desafio lançado à Universidade do Algarve pela Associação 8 Séculos de Língua Portuguesa, cuja Presidente (a Dr.a Maria José Maya) temos a honra de ter entre nós, e que só se tornou possível realizar pela excelente parceria que se formou entre esta Universidade e dois centros de investigação de referência nacional e internacional: o CLEPUL (isto é, o Pólo da Universidade do Algarve do Centro de Literaturas e Culturas Lusófonas e Europeias da Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa) e o CIAC (isto é, o Centro de Investigação em Artes e Comunicação da Universidade do Algarve). Aos seus respectivos Directores, o Doutor José Eduardo Franco, e a Doutora Mirian Tavares, o meu mais profundo agradecimento. Comemoramos, durante o ano de 2014 e em particular durante estes dois dias do Colóquio, os quatro séculos da 1a edição da obra de Fernão Mendes Pinto, cujo título abreviado todos conhecemos por Peregrinação, 8 João Carlos Carvalho embora ele seja muito mais longo como, aliás, era muito comum naqueles tempos. Trata-se de uma obra fundamental da cultura e da literatura portuguesas e europeias, por todas as singularidades de que se reveste e que deixarei aos especialistas as respectivas análises e interpretações. Sob o signo da Peregrinação, este Colóquio estende ainda a sua abordagem a um género – o da Literatura de Viagens – cuja universalidade se demonstra na transtemporalidade e transespacialidade dos exemplos possíveis. Para além disso, decidiu a organização abrir ainda as intervenções ao tema da Viagem na Literatura e noutras formas de expressão artística, enriquecendo assim as temáticas deste evento científico. Permitam-me, antes de terminar, uma palavra de agradecimento a todos quantos tornaram possível este momento, começando pelos membros da Comissão Organizadora (em especial, à Mestre Ana Catarina Ramos, à Doutora Sandra Boto, ao Dr. Jorge Carrega e à Doutora Sara Fernandez, infatigáveis em todo o trabalho organizativo interno, ao Dr. Luís Pinheiro do CLEPUL e à Dra Isa Mestre do CIAC, insubstituíveis na relação com o exterior) e ainda aos membros da Comissão Científica, constituída por especialistas de diversas Universidades. Estendo este agradecimento à Reitoria da minha Universidade, à minha Faculdade e à sua Direcção, aos seus funcionários (muito em particular, à D.a Isabel Afonso), aos docentes e estudantes por todo o apoio prestado ao longo destes meses de preparação. Das instituições exteriores sublinho toda a colaboração prestada pela Associação 8 Séculos da Língua Portuguesa, pela Região de Turismo e pela Câmara Municipal de Faro. Finalmente, à empresa OMVS Seguros, esta última repetente no patrocínio a eventos desta natureza, bem como ao Hotel Santa Maria, o meu agradecimento pelos diversos tipos de apoio e colaboração efectivados. Espero muito sinceramente que todos os participantes, no fim destes dois dias, possam sentir que valeu a pena a vinda até Faro, ao Campus de Gambelas da Universidade do Algarve por ter sido um evento científico produtivo e multiplicador de boas ideias e de bons projectos de investigação futuros. Bem vindos e votos de bom trabalho em torno da Viagem e da Escrita! João Carlos F. A. de Carvalho www.clepul.eu Ao solicitarem este pequeno apontamento, começo por felicitar os responsáveis da Universidade do Algarve por terem desencadeado este oportuno Colóquio sobre a magnífica obra literária de Fernão Mendes Pinto, Peregrinação. Parabéns! É o único comentário credível que posso fazer perante um leque tão variado e tão valioso de personalidades de relevo na análise da questão literária. De facto, Fernão Mendes Pinto agiganta-se no momento em que se reduz a si próprio, quase ridículo, para dar lugar a uma viagem geográfica, afetiva e de memórias que nos estimulam a refletir sobre os sonhos das nossas peregrinações pessoais. Também nos ajuda à observação atenta do fantástico do ser humano. Permito-me referir José Tolentino de Mendonça quando lemos o desafio da contemplação de algo que é um mistério: «vida é o imenso laboratório para a atenção, a sensibilidade e o espanto que nos permitem reconhecer, em cada instante, uma fantástica presença: os passos do próprio Deus». Ao avivarmos a memória, sublinho o paradoxo do tempo presente que vive tão rapidamente e deixa escapar a própria beleza da vida no seu sonho de fantásticos e na elaboração do pensamento da história por meio das estórias. Fernão Mendes Pinto não deixou de fazer memória para as gerações seguintes. Utilizando a fantasia, transmite uma literatura sibilina de sabor empolgante. Na nossa Europa, tão cética, tão fria, até a sua memória histórica, por vezes, é subvertida. O cristianismo, que poderia ser a alma e o rosto deste mosaico de nações, está permanentemente a ser preterido por nada. . . Quando um povo rejeita ou regateia o seu próprio rosto, terá dificuldades em dialogar com outros povos ou culturas. Nada como fazer peregrinações à Peregrinação da memória tão rica contida neste Continente. E Jesus Cristo é a base desta memória. Dá unidade na diversidade das nações que compõem as nossas culturas. O 10 Cónego César Chantre cristianismo tem o bónus e o ónus da História. Fernão Mendes Pinto obrigou-nos a pensar. Cónego César Chantre Capelão da UAlg www.clepul.eu Uma viagem por 4 Séculos da Peregrinação1 Alexandra Rodrigues Gonçalves Directora Regional de Cultura do Algarve Professora Adjunta da Escola Superior de Gestão, Hotelaria e Turismo da Universidade do Algarve Comemoram-se oito séculos da Língua Portuguesa e quatro séculos da publicação da Peregrinação de Fernão Mendes Pinto. A revisitação da obra de Fernão Mendes Pinto e do género literário da literatura de viagem no âmbito do Colóquio Internacional emergiu como uma oportunidade fascinante de reflexão pessoal, para quem desenvolveu um percurso académico na relação entre o turismo, as viagens e o património cultural. Talvez esta obra literária tenha estado nas origens do desenvolvimento do gosto pelas viagens e na oportunidade que representam de conhecimento cultural e patrimonial in situ. As Viagens de Marco Polo ou a Peregrinação de Fernão Mendes Pinto fazem parte das referências obrigatórias de leitura de obras de literatura de viagens. A obra de Fernão Mendes Pinto é inserida no género de literatura de viagens na medida em que se baseia no relato de viagens. A literatura de 1 Este texto assume-se como um artigo de reflexão, não correspondendo a uma investigação autónoma ou a um ensaio científico sobre a obra do cronista Fernão Mendes Pinto e a literatura de viagens. 12 Alexandra Rodrigues Gonçalves viagens tem a particularidade de cruzar e integrar duas coisas distintas: o espírito do viajante e a narrativa de um autor literário. Neste género literário, os factos e a sua exactidão são menos importantes do que a forma utilizada para os descrever. Há uma expectativa de que os factos relatados correspondam à realidade, mas o fascínio recai sobretudo sobre o discurso, de grande e apurada descrição, e que se traduz também numa viagem interior. A releitura desta grande obra, revelam-nos hoje um novo olhar sobre a nota preliminar de Aquilino Ribeiro, que nos diz: «Formoso livro de aventuras, como não há segundo na língua portuguesa (. . . ) O autor, depois de andar vinte anos pela Ásia, soldado, negociante, pedinte, embaixador, cortesão, jesuíta, pirata, “três vezes cativo, dezassete vendido” mune-se então de uma pena e resolve escrever. Escreve na sua pequena casa do Pragal, frente ao Tejo, pobre e desiludido, saudoso dos bons e aventurosos tempos, e já distante dos acontecimentos, construindo uma narrativa onde se desconhece onde começa e acaba a realidade, mas em que os pormenores nos parecem vivos» (Ribeiro, 1933: 4). A Peregrinação foi escrita entre 1570 e 1578 e só conheceu publicação em 1614, já a título póstumo. Não se sabendo se a obra sofreu alterações, relata as viagens de Fernão Mendes Pinto e fala-nos das aventuras e desventuras do autor no Oriente (Índia, China e Japão). Fernão Mendes Pinto retrata uma experiência por vezes fictícia e muitas vezes questionada pela falta de referências dos seus leitores em relação ao Oriente, à sua geografia, aos seus conflitos armados, à sua paisagem e às suas gentes. Eduardo Lourenço refere-se a Fernão Mendes Pinto como um percursor de Montesquieu ou de Voltaire, pela sua imensa curiosidade e ingenuidade reveladas na escrita (Lourenço, 1989). Confesso que a sua eloquente narrativa acerca das experiências, descobertas e reflexões perpetuavam na minha pessoa o desejo de viajar e de possuir aquela aventura pessoal de conhecer os «novos mundos», tal era a forma real, e por vezes tenebrosa, que aquelas descrições assumiam na mente de leitora adolescente, na sua primeira leitura da obra. Nas memórias mais acesas dessa leitura escolar permaneceram as histórias dos seus naufrágios e das suas fantásticas descrições, mas não faltou quem o apelidasse de impostor, pela forma como desenvolveu a sua narrativa, entre o maravilhoso e a ficção, entre o fabuloso e o real. De tal www.clepul.eu Uma viagem por 4 Séculos da Peregrinação 13 forma que a frase mais emblemática que se associa a estas descrições e que a nossa memória melhor deteve foi: «Fernão, Mentes? Minto!». Arnaldo Saraiva faz uma enumeração de vários ensaios que se debruçaram sob aspectos particulares de Fernão Mendes Pinto (2010), centrando-se numa variedade expressiva de aspectos que analisam desde o discurso literário (Maria Alzira Seixo); à representação espacial (Alberto Carvalho); ao léxico marítimo (Maria Luísa Cusati); ao exotismo linguístico (Erilde Reali); aos conhecimentos etnográficos do Oriente (José Gomez Tabanera); ou até à multiplicidade de sentidos da escrita do cronista (Saraiva, 2010). Tem-se escrito muita coisa sobre esta obra – que é autobiográfica que assume um espírito de cruzada, que faz uma sátira social, que possui inegável riqueza histórica, que se desconhece onde termina o mito e começa a realidade. A associação à viagem religiosa também não é unânime entre os seus estudiosos, apesar de uma referência insistente a Deus, às missões e aos padres, e mesmo a rituais religiosos, não há no entanto um destino ou lugar sagrado. Fala-nos de perigos, medos e obstáculos e de um viajante especial que se desdobra em muitas aventuras, nem sempre felizes na procura do Oriente e do conhecimento, e do encontro com o outro. António José Saraiva (1981) classifica a obra como anti-epopeia, pois não descreve apenas o processo de construção do império, mas também a resistência, a dificuldade e o custo desta construção, indo muito para além da coleção de feitos históricos e contribuindo para a criação do mito. Numa tese de mestrado recente (2006) José Carlos Machado afirma: «uma das virtualidades da obra, será a de espelhar com grande nitidez e realismo as contradições do homem quinhentista, renascentista, dividido pelo seu poderio, mas ao mesmo tempo, plenamente convencido da sua pequenez e da premente necessidade de refazer o seu percurso essencial e existencial». Eduardo Lourenço na sua análise da obra literário diz-nos que: «Descontentes com o presente, mortos como existência nacional imediata, nós começamos a sonhar simultaneamente o futuro e o passado.» (1978: 20). Outros, por sua vez, apontam uma grande semelhança entre este homem das Peregrinações e a matriz identitária do Homem português contemporâneo. www.lusosofia.net 14 Alexandra Rodrigues Gonçalves Então se é verdade que o contexto sócio-político e cultural é condicionante da literatura de viagens, o que se traduz em perenidade, também é verdade que se assiste a uma narrativa sobre a viagem ao interior do indivíduo e a um questionamento existencial que contribuem para o sucesso da sua contínua leitura e assim conduziram à imortalidade da obra e do seu autor (facto amplamente reconhecido e defendido, conforme Saraiva, 2010). É hoje incontornável o seu valor enquanto obra da cultura e da literatura nacional, e um elemento fundamental para a melhor compreensão da realidade de um viajante naquela época em que nem tudo eram rosas. Transmite-nos a perenidade do tempo vivido, a fantasia da aventura dos navegadores portugueses e a religiosidade nas suas várias formas e manifestações próprias daqueles tempos. Na Peregrinação de Fernão Mendes Pinto todas as viagens têm um lugar. Tal como disse Eduardo Lourenço que estas palavras nos sirvam para sonharmos mais com o futuro do que com o passado. www.clepul.eu Referências bibliográficas Lourenço, Ed
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