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A Prática Psicanalítica Com Crianças - Françoise Dolto

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Artigo sobre a prática psicanalítica com crianças de Dolto
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  206 Estilos clin  ., São Paulo, v. 17, n. 2, jul./dez. 2012, 206-227. R  ESUMO Este artigo se embasa no tra- balho e teoria de Françoise Dolto. Tivemos como objetivos compreender os pressupostos básicos de sua teoria; caracteri- zar as intervenções do psicana- lista na análise com crianças; e exemplificar seu método através do recorte das principais inter- venções realizadas no CasoDominique e no casoBernadette. Como resultado,constatamos que Dolto traba- lhava com maestria o fenômenoda transferência e as situações de interpretação; providenciava a oferta de recursos adequados à condição da criança; conduzia o trabalho com os pais permi- tindo a efetivação do sentimentode confiança neles, em aderirem ao tratamento analítico de seus  filhos. Descritores:  psicanálise com crianças; Françoise Dolto; transferência; interpretação; tra- balho com pais. Dossiê  A PRÁTICA PSICANALÍTICA DEFRANÇOISE DOLTO A PARTIR DE SEUS CASOSCLÍNICOS Vanessa Tramontin da SolerLeda Mariza Fischer Bernardino 1. Introdução reud, apesar de ter argumentando que apsicanálise deveria ser ampliada ao longo dos anos,apresentava algumas dificuldades para a análise comcrianças (Freud,1996a). Sabemos hoje que essas di-ficuldades estão superadas, e que a análise com cri-anças é possível. Melanie Klein (1981), Anna Freud(1971), Donald W. Winnicott (1984), Maud Mannoni F Mestranda em Psicologia pela Universidade Federal do Paraná(UFPR), Curitiba, PR, Brasil.Psicanalista. Docente da Faculdade de Psicologia da PontifíciaUniversidade Católica do Paraná (PUCPR), Curitiba, PR, Brasil.  207 Dossiê Dossiê (1999) e Françoise Dolto (1980) demonstraram com o seu trabalhoe suas teorias a importância de voltarmos nossa atenção para o tra-balho psicanalítico com crianças. Cada um deles, ao seu modo, cons-truiu uma maneira de conceber a criança e consequentemente deanalisá-la.Segundo Bernardino (2004) a análise com crianças necessita deuma teorização própria, pois a demanda, a transferência e o fim deanálise vão ser permeados pelas vicissitudes de um sujeito ainda emconstituição. Outra questão particular da análise de crianças trata deque, além do desejo da criança, há o desejo dos pais, desejo que ospróprios não conhecem, mas que se faz presente no processo deanálise:  Vai estar em jogo lidar com a  presença   destes pais que, mesmo não entrando fisica-mente na sessão do filho ... continuam se manifestando: seja nos atrasos paratrazer o filho à sessão, ou mesmo nas faltas que o fazem ter, seja nos diversostrâmites que impõem ao pagamento, e até na interrupção abrupta do tratamentodo filho (Bernardino, 2004, p.65, itálico do autor).  A análise com crianças difere da análise com adultos tambémpelo método empregado: no atendimento psicanalítico à criança aassociação livre não é possível, sendo assim é utilizado o método dobrinquedo, da conversação e do desenho (Dolto, 1988). Frente aessas diferenciações, fica evidente a necessidade de uma teorizaçãoprópria sobre a análise de crianças.No presente trabalho, focamos nossa atenção sobre a teoria deFrançoise Dolto. No campo da psicanálise, a teoria construída porDolto e a prática por ela realizada se firmaram como uma obrarevolucionária para a sociedade. Fora do campo da teoria, ela “éuma exploradora, descobrindo a infância como outros descobremum continente” (Halmos, 1989, p.74). Sua teoria ofereceu um novolugar às crianças, um lugar próprio. “Ouvindo as crianças, em lugarde falar delas e em seu lugar, Françoise Dolto fez uma ruptura e umescândalo” (Halmos, 1989, p.83).O atendimento psicanalítico iniciado por Françoise Dolto, nadécada de 30, foi a primeira possibilidade de tratamento analítico naFrança com crianças ditas anormais que apresentavam distúrbiosnervosos ou de caráter. Dolto, juntamente com Sophie Morgensternforam, nessa época, as duas únicas analistas na França a mostrarinteresse e competência face aos problemas da infância (Manonni,1986).  208 Estilos clin  ., São Paulo, v. 17, n. 2, jul./dez. 2012, 206-227. Em sua prática, Dolto trata acriança como uma pessoa autônomae responsável, orienta-se através dainterrogação face ao desejo da crian-ça e permanece atenta às diferentesposições da criança, nos momentosde tensões conflitivas em que ela seencontra (Manonni, 1986).Diante de toda a contribuição deFrançoise Dolto ao campo da psica-nálise de crianças, tivemos como ob-jetivo, neste trabalho, compreender ospressupostos básicos da teoria deFrançoise Dolto; caracterizar, segun-do ela, as intervenções do psicanalis-ta na análise de crianças; e exemplifi-car o método de Dolto através dorecorte das principais intervençõesrealizadas em O caso Dominique   (Dol-to, 1981) e no “caso Bernadette”(Dolto, 1996).Esse estudo foi realizado atravésde pesquisa bibliográfica. Foram ana-lisados o “caso Dominique” (Dolto,1981) e o “caso Bernadette” (Dolto,1996) atendidos por Dolto, por se tra-tarem de casos que receberam umadescrição minuciosa, devido à neces-sidade da presença detalhada das in-tervenções para a realização destapesquisa. Para a análise dos casos, uti-lizaremos a Análise do Discurso, talcomo proposta por Marilene Guirado(1995). Através da leitura e da análise dosdiscursos, foram identificadas algu-mas categorias comuns entre eles.Essas categorias foram agrupadas daseguinte forma: o manejo da transfe-rência; as situações de interpretação;  209 Dossiê Dossiê a oferta de recursos expressivos; otrabalho com os pais. 2. A clínica de FrançoiseDolto Em sua teoria e prática,Françoise Dolto propôs um lugarnovo às crianças ouvindo-as, em lu-gar de falar delas, ou falar por elas(Halmos, 1989, p.83). Posicionamentoque tem extrema relação com a con-cepção de criança em que a autora sepautava em sua prática como médicae psicanalista. A criança, para ela, éum sujeito, e não encarada como um‘mini-adulto’, ela compartilha as vi-cissitudes e as alegrias da vida. Assim, como o adulto, ela ama, odeia, sofre e goza;como ele, a criança pode falar em seu nome,ela compreende tudo, desde a aurora de sua vida. Colérica, anoréxica, doente ou mau alu-no, a criança não é testemunha de um defei-to de fabricação ou de uma avaria em seudesenvolvimento, mas de um sofrimento queela tenta fazer entender como pode (Halmos,1989, p.83). Desde Freud (Freud, 1996b,p.329) sabemos que o sintoma “sur-ge ali onde o pensamento recalcado eo pensamento recalcador conseguemjuntar-se na realização do desejo”. Osintoma denota a presença de um pro-cesso patológico, é um sinal e umsubstituto de uma satisfação instintualque se manteve em estado jacente, étambém uma conseqüência do pro-cesso de repressão (Freud, 1996c, pp.91-95). O sintoma, portanto, é a bus-ca de uma conciliação entre a satisfa-ção pretendida e a proibição da reali-zação dessa satisfação.Segundo Dolto, na primeira in-fância, os sintomas da criança “tra-tam-se de distúrbios reativos a difi-culdades parentais, a distúrbios entreos irmãos ou do clima inter-relacionalambiente” (Dolto, 1980, p. 14). Quan-do se tratar de distúrbios posterioresda infância ou da adolescência, elespodem dever-se aos conflitos da cri-ança frente às exigências do meio so-cial e das provações do complexo deÉdipo normal. Alguns sintomas sãoaceitos positivamente pelo meio so-cial, que muitas vezes não verifica taiscomportamentos como sintomáticos,mas que podem ser patológicos parao sujeito e são sinais de neurose in-fantil.Para Dolto e Nasio (2008) quais-quer que sejam os problemas da criança, a hipótese geral é de que ela sofre de umaangústia de culpa inconsciente cujos sinto-mas são ao mesmo tempo a prova e o recur-so que sua natureza entregue a si mesma en-controu para canalizar essa angústia e impedira criança de destruir mais gravemente o equi-líbrio de sua saúde. (p.77) Dolto propõe a hipótese de quea criança adoece do inconsciente dospais, “uma criança herdeira de nossasdívidas de adultos, uma criança sin-tomática do que permaneceu atado àsgerações que a precederam” (Cifali,1989, p.65).

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