Documents

A_questao_da_legibilidade_do_mundo_na_Ob.pdf

Description
OTTE, Georg. A questão da legibilidade do mundo na “Obra das Passagens” de Walter Benjamin. Ipotesi, Juiz de Fora, v. 8, n. 1 e n. 2, pág. 25 - 38, jan/jun e jul/dez 2004. Disponível em http://www.letras.ufmg.br/poslit. A questão da legibilidade do mundo na “Obra das Passagens” de Walter Benjamin Georg Otte*
Categories
Published
of 9
All materials on our website are shared by users. If you have any questions about copyright issues, please report us to resolve them. We are always happy to assist you.
Related Documents
Share
Transcript
  OTTE, Georg. A questão da legibilidade do mundo na “Obra das Passagens” de Walter Benjamin. Ipotesi  , Juiz de Fora, v. 8, n. 1 e n. 2, pág. 25 - 38, jan/jun e jul/dez 2004. Disponível em http://www.letras.ufmg.br/poslit. 1 A questão da legibilidade do mundo na “Obra das Passagens” de Walter Benjamin Georg Otte *   Para Gudrun e Jan Skuin RESUMO: Na Obra das Passagens , Walter Benjamin retoma o tópos milenar do “Livro do Mundo“, postulando que ele se aplique também ao mundo urbano. Ao lado da arquitetura, a moda é um dos campos privilegiados dessa ‘leitura das coisas’, que divide com a leitura dos textos a possibilidade da citação. PALAVRAS-CHAVE: Walter Benjamin, Obra das Passagens, Livro do Mundo, Moda, Citação. ”Para o filósofo, o interesse mais ardente na moda reside nas suas antecipações extraordinárias.” 1  É com essa afirmação categórica que Benjamin inicia um dos fragmentos do capítulo “Moda” da Obra das Passagens . O próprio caráter taxativo dessa afirmação gera dúvidas, isto é, a dúvida se os “filósofos” poderiam ter algum interesse pela moda. Tal interesse certamente não faz parte da filosofia tradicional e tudo indica que Benjamin se deixou influenciar pelo título do ensaio “A filosofia da moda” do seu contemporâneo Georg Simmel” (SIMMEL, 1995, p. 7-37), citado várias vezes no mesmo capítulo. Acontece que Simmel, uma das figuras principais da chamada “Kulturphilosophie” (“Filosofia da Cultura”) não pode ser considerado como “o filósofo” no sentido genérico da palavra. Além disso, Simmel não teve a mínima preocupação, no ensaio citado, com o potencial antecipatório da moda, tal como Benjamin o postula. A provocação da frase inicial, no entanto, não se limita ao suposto interesse filosófico pela moda, mas é reforçado pelo superlativo que, por uma questão de lógica, pressupõe a existência de um interesse múltiplo, sendo que o “interesse mais ardente” estaria logo na “antecipação”, ou seja, na possibilidade de se prever determinadas coisas, ou, como diz o final do fragmento, na possibilidade de saber “de antemão não apenas das novas correntes da arte, mas também dos futuros códigos, guerras e revoluções.”( GS, V/1, p. 112). Entre o início e o fim do mesmo fragmento encontra-se uma espécie de excurso sobre a arte que compartilharia com a moda seu caráter antecipatório, mas estaria inferior a esta última exatamente nesse ponto. Podemos ver uma outra provocação, pelo menos para a época de então, no fato de Benjamin atribuir à moda o primeiro lugar: Pois sabemos que a arte, em seus quadros por exemplo, antecipa, por muitos anos e de várias maneiras, as realidades perceptíveis. Podíamos ver as ruas e os salões brilhando em fogos coloridos muito antes de a técnica tê-los iluminado numa luz igual através de propagandas luminosas e outros recursos. É certo que a sensibilidade do artista em relação às coisas vindouras ultrapassa de longe a sensibilidade da grande dama. Mas, mesmo assim, a moda se encontra em um contato muito mais preciso com as coisas vindouras graças ao faro sem igual que o coletivo feminino possui por aquilo que o futuro oferece. (GS, V/1, p. 112) Pelo visto, determinados fenômenos culturais não se distinguem apenas pelo fato de estarem na frente de sua época, mas também pela competição quanto ao seu potencial antecipatório. Nessa rivalidade, o “faro” do “coletivo feminino” supera as forças visionárias do artista; o faro da mulher em relação ao futuro, segundo Benjamin, é mais confiável que o olho do pintor e, entre os cinco sentidos, parece estar especialmente apto para antecipações. Também na 14 a  tese de “Sobre o conceito de história”, um texto que, de certa maneira, foi extraído da Obra das Passagens , Benjamin menciona o “faro” no contexto da moda. Desta vez, não é a arte que serve como parâmetro para ilustrar o potencial transtemporal da moda, mas nada menos que a Revolução Francesa que “cita” a antiga Roma: *  Professor da Faculdade de Letras/UFMG. O presente texto é a tradução da palestra apresentada no Seminário de Ciências Culturais da Universidade Humboldt, de Berlim, como resultado de uma bolsa de pós-doutorado pela CAPES. Agradeço à CAPES o apoio financeiro. Devo também meus agradecimentos ao Prof. Dr. Hartmut Böhme e aos participantes do seu Kolloquium  cujos comentários contribuiram para a confecção do presente texto, cuja versão em alemão foi publicada sob o título “Zitieren und Antizipieren – Die Frage der Lesbarkeit der Welt im Passagen-Werk   Walter Benjamins” na Zeitschrift für kritische Theorie , Vol 18/19 (2004), p. 133-149, e que também está disponível como videoconferência no seguinte site do Instituto Embratel http://200.244.52.177/embratel/main/mediaview/tvpontocom. 1  Walter Benjamin, Das Passagen-Werk  . In: Gesammelte Schriften , Vol. V. Frankfurt/M.: Suhrkamp, 1983, p. 112. O texto está sendo traduzido pela Editora UFMG, com lançamento previsto para o final de 2005. A partir desta nota, as referências a essa obra serão assinaladas dentro do texto, entre parêntesis, pela sigla GS (Gesammelte Schriften).  OTTE, Georg. A questão da legibilidade do mundo na “Obra das Passagens” de Walter Benjamin. Ipotesi  , Juiz de Fora, v. 8, n. 1 e n. 2, pág. 25 - 38, jan/jun e jul/dez 2004. Disponível em http://www.letras.ufmg.br/poslit. 2 A Revolução Francesa se concebia como o retorno do Império Romano. Ela citava a antiga Roma exatamente como a moda cita um traje antigo. A moda possui o faro pela atualidade quando ela se move no emaranhado do acontecido. Ela é o salto de tigre para o passado. No entanto, esse salto acontece numa arena que está sob o comando da classe dominante. O mesmo salto sob o céu livre da história é o salto dialético que, para Marx, representava a revolução.( GS, I/2, p. 701) O fenômeno mais ou menos cotidiano da moda – Benjamin não está pensando apenas na moda da “grande dama” – é mencionado lado a lado com o acontecimento histórico que geralmente é considerado como o divisor de águas da era moderna. Nas teses sobre a história, no entanto, não se trata das forças antecipatórias da moda, mas da sua capacidade extraordinária de citar   o passado. Seguindo a linha auto-imposta do marxismo (BENJAMIN, 1966, p. 782) 2 , o nosso autor abafa sua estima pela moda através da restrição de que o “salto de tigre” estaria acontecendo “sob o comando da classe dominante”. A introdução da moda nas reflexões sobre a filosofia da história, entretanto, é mais que uma provocação dos filósofos ou do establishment   acadêmico, que recusou ao nosso pensador a entrada na academia. Ela faz parte de uma valorização generalizada, por parte de Benjamin, do cotidiano e do comumente desprezado (GS, I/2, p. 695.) 3 , que se reflete no uso pejorativo da moda na linguagem do dia-a-dia, fazendo com que determinadas inovações sejam desvalorizadas como estando apenas “na moda”. Benjamin, portanto, abre um espaço reflexivo para algo cotidiano e secundário, mostrando que é em fenômenos muitas vezes considerados insignificantes que reside a possibilidade de citar o passado ou de antecipar o futuro. Mesmo se Benjamin, nas “Teses”, não chega a conferir à moda – como no caso da arte – uma importância maior do que à Revolução Francesa, podemos partir do pressuposto de que lhe concederia o primeiro lugar exatamente por causa do seu caráter subliminar, uma vez que o “citar” de um traje antigo se adequa melhor ao encontro fugaz entre o presente e o passado (GS, I/2, p. 695.) do que as referências retóricas de um Robespierre à Roma antiga. 4  Pois a relação que pode ser estabelecida entre o presente e as épocas anteriores ou posteriores não se baseia tanto nos espetaculares “saltos de tigre” apresentados pelos grandes domadores da história, mas num “índice clandestino” que o passado traz consigo, de acordo com a segunda tese, e que aponta para o “encontro marcado” com o presente: Pois não somos tocados por um sopro do ar que foi respirado antes? Não existem, nas vozes que escutamos, ecos de vozes que emudeceram? Não têm as mulheres que cortejamos irmãs que elas não chegaram a conhecer? Se assim é, existe um encontro secreto, marcado entre as gerações precedentes e a nossa. Alguém na terra está à nossa espera.(BENJAMIN, 1985, p. 223) A “leitura” de códigos, de guerras e de revoluções futuras a partir da moda pode parecer uma especulação um tanto exagerada, mesmo porque o conceito de leitura aqui empregado lembra muito as práticas pouco confiáveis dos  jogadores de búzios e de outros videntes. Mas, além de se interessar também pelo estudo dessas práticas, Benjamin deixa claro, que, para ele, não se trata de ler o futuro na constelação dos búzios ou na mão das pessoas 5 , mas da leitura como um modo peculiar de percepção e como parte de uma filosofia abrangente da história, que encontrou nas “Teses” sua expressão final. A seriedade da análise, ou então: da “leitura” da moda se evidencia na tentativa de Benjamin de explicitar a diferença de classe que existiria entre o proletariado e a burguesia através dos respectivos critérios da continuidade e da descontinuidade: assim, a “classe burguesa”, conforme sua maior familiaridade com a moda, estaria marcada por uma volubilidade maior, o que se evidenciaria pelo fato de que as idéias geradas por essa classe seriam mais volúveis que o fundamento ideológico, supostamente mais sólido, dos oprimidos. Cabe esclarecer que “volubilidade” é a tradução do alemão Sprunghaftigkeit  , derivado de springen , “saltar” ou “pular”, ou seja, a burguesia, em sua instabilidade ideológica, estaria ‘saltando’ ou ‘saltitando’ de uma posição à outra. 2  Aqui cabe lembrar principalmente a crítica de Adorno, em sua carta de 10/11/1938, ao uso que Benjamin faz do marxismo, cobrando a “mediação” necessária entre a base material e a superestrutura cultural. Por mais que a crítica de Adorno a alguns ‘curtos-circuitos’ de Benjamin à maneira do marxismo vulgar seja justificada, evidencia-se ao mesmo tempo sua falta de compreensão em relação à predileção benjaminiana pelo imediato, ou seja, pela ausência de mediação. 3  Até Roland Barthes, em sua análise semiológica sobre a moda, vê o risco de se expor ao ridículo quando ilustra questões da Filosofia da linguagem através da moda, ou ainda através da linguagem de revistas de moda. BARTHES, 1985, p. 22. 4  Estamos nos referindo à “orientação quase natural dos atores históricos da época revolucionária pela República romana antiga – estilizada como modelo normativo“. (GUMBRECHT, 2003, p. 36). 5 Benjamin até mesmo considerava essas práticas como etapas preliminares da leitura de textos: “Esse tipo de leitura é o mais antigo: a leitura anterior a qualquer linguagem, das vísceras, estrelas ou danças. Posteriormente passaram a ser usados de elos de mediação, tais como ruínas e hieróglifos.“ (GS II/1, p. 213, apud   BOCK, 2000, p. 31).  OTTE, Georg. A questão da legibilidade do mundo na “Obra das Passagens” de Walter Benjamin. Ipotesi  , Juiz de Fora, v. 8, n. 1 e n. 2, pág. 25 - 38, jan/jun e jul/dez 2004. Disponível em http://www.letras.ufmg.br/poslit. 3 Ora, para se chegar a uma compreensão adequada da burguesia, a descontinuidade passa a ser a “idéia condutora” do “pensador materialista”, ou seja, o objeto “volúvel” exige um método “volúvel”: Nesse empreendimento [de compreender a burguesia] temos que proceder de maneira excêntrica  e volúvel [sprunghaft]  . É o procedimento da moda  no sentido pleno da palavra. “Salvar” as grandes figuras da burguesia significa, em boa parte, compreendê-las na parte mais decadente da sua atuação e significa arrancar, citar   dessa atuação aquilo que ficou enterrado e invisível debaixo dela por não ter servido aos poderosos. [...] (GS, V/1, p. 460; grifo meu) Ao conhecedor das “Teses” não escapa a ambivalência desse fragmento: por um lado, Benjamin parece reforçar o clichê da moda como sendo expressão de uma mera mania de inovação de uma burguesia decadente, inserindo-a no esquema marxista da luta de classes, quando, ainda no mesmo fragmento, se deixa levar à formula patética de que as “ondas da moda [burguesa] se rompem na massa compacta dos oprimidos”, por outro lado conhecemos o valor que tem para ele, principalmente nas “Teses”, o “choque”, o salto – inclusive o salto de tigre – e a quebra do “ continuum ”, para chegar a um novo conceito de história. Outra ambivalência, característica do procedimento benjaminiano em geral, consiste na diluição da fronteira entre a realidade e a consciência da realidade, entre o plano ontológico e o epistemológico, sendo que, a rigor, são três planos que se delineiam neste último fragmento e que dificultam uma leitura analítica: primeiro, a burguesia é  “volúvel”, segundo, ela tem uma consciência “volúvel” e, em terceiro lugar, ela só pode ser compreendida pelo historiador através de um método correspondente, que, segundo Benjamin, deve acompanhar, metodologicamente, essa “volubilidade”. Entretanto, esse método não consiste, de maneira alguma, em sua adaptação ad hoc   a um objeto particular e nem mesmo a uma inovação que tivesse surgido na fase tardia do nosso pensador, pois, já no “Prefácio epistemológico” (GS, I/1, p. 207-237) do livro Origem do drama barroco alemão  – o próprio Benjamin faz questão de estabelecer um paralelo entre este último e a Obra das Passagens  – encontram-se reflexões em torno do “salto” e da “volubilidade” – , além de afirmações categóricas do tipo “método é desvio” (GS, I/1, p. 208). No mesmo prefácio, Benjamin desenvolve ainda sua própria etimologia do termo Ursprung   (srcem), que, numa tradução literal, significaria algo como salto srcinal  : “Na srcem [ Ursprung  ] não se trata do devir de algo que nasceu [ Entsprungenes ], mas antes de algo que nasce e escapa do devir e do passar [ Entspringendes ].”( GS, I/1, p. 226) A “volubilidade” e a excentricidade, portanto, não são apenas uma característica da burguesia parisiense do século XIX, mas representam, para Benjamin, um paradigma epistemológico conforme o qual as idéias se relacionam com as coisas “como as constelações com as estrelas” (GS, I/1, p. 214): As idéias são eternas constelações, e, quando se concebe os elementos como pontos nessas constelações, os fenômenos passam a ser divididos e salvos ao mesmo tempo. E é nos extremos que esses elementos, cuja extração dos fenômenos é tarefa do conceito, aparecem da maneira mais nítida. A idéia pode ser circunscrita como uma formação que relaciona o singular-extremo aos seus similares.(GS, I/1, p. 215) A constelação como tal – Sternbild  , literalmente, significa “imagem de estrelas” – é excêntrica, ou então descentrada; a rigor, seu centro é vazio, pois ela é constituída pelos seus extremos, a saber, as estrelas. Também na 17 a  tese de suas reflexões sobre a história, Benjamin recorre à constelação no sentido concreto enquanto resultado da exigência de uma paralisação da história, quando diz que somente o procedimento de arrancar uma época “do processo homogêneo da história” possibilitaria sua percepção enquanto história excêntrica e constelar. Somente o “choque” permite o “salto” e, assim, a transformação da visão linear numa imagem constelar da história. A descontinuidade que, no fragmento citado da Obra das Passagens  e numa postura ‘ideologicamente correta’, não determina apenas o ser e a consciência da burguesia, mas também o processo de conhecimento do historiador, serve como postulado epistemológico generalizado em outros textos. A idéia da excentricidade da moda, portanto, não corresponde apenas ao senso comum, mas a moda se transforma num ícone da filosofia da história de Benjamin exatamente pelo fato de que sua Sprunghaftigkeit  , sua volubilidade, a transformar num fenômeno descentrado, fora do eixo “homogêneo da história”. A extra-vagância, o desvio da moda dos caminhos trilhados pelas modas passadas facilita, por assim dizer, o trabalho do historiador, uma vez que este é dispensado da operação difícil de “arrancar” os elementos de seus contextos imediatos e de “fazer  OTTE, Georg. A questão da legibilidade do mundo na “Obra das Passagens” de Walter Benjamin. Ipotesi  , Juiz de Fora, v. 8, n. 1 e n. 2, pág. 25 - 38, jan/jun e jul/dez 2004. Disponível em http://www.letras.ufmg.br/poslit. 4 explodir o continuum  da história” (16 a tese), pois, devido à própria descontinuidade da moda, ele é poupado de tais esforços, podendo passar diretamente à sua “leitura”. 6  Essa descontinuidade faz com que um “singular-extremo” de uma determinada época se cristalize, contribuindo, assim, à sua caracterização, a saber, à caracterização da moda e, por extensão, à caracterização da época. A descontinuidade, porém, significa também que a moda, depois de ter permanecido por um tempo à altura de sua época, caia logo nas profundezas da memória coletiva, para, eventualmente, ser “citada” um dia. Mas, mesmo se esse “singular-extremo” continue apenas como “ruína” – o que importa é que continue existindo, podendo ser recolhido e “lido” por uma geração do futuro. Tudo leva a crer que, por trás do “historiador materialista” de cunho marxista, se esconde um materialismo especificamente benjaminiano (OTTE, 2001) que supera o primeiro em radicalidade na medida em que atribui uma importância maior à materialidade do objeto e à percepção sensorial correspondente. Mesmo assim, Benjamin insiste em considerar apenas o “materialismo histórico” (marxista) como capaz de reanimar a matéria morta. Mais uma vez, é um suposto “interesse ardente” que toma conta do historiador: O interesse do historiador materialista no passado é, em parte, um interesse ardente pelo fato deste ter acabado e pelo seu estar-morto profundo. Ter certeza disso, em geral e no todo, é uma condição indispensável para a citação (reanimação) de partes desse fenômeno. (GS, V/1, p. 459) 7   Enquanto o proletariado revolucionário, paradoxalmente, convive numa certa tranqüilidade com seu passado – “Os exemplos dos seus combatentes, a sabedoria dos seus líderes não envelhecem.”( GS, V/1, p. 460) –, caracterizando-se assim por uma atitude um tanto estática, as ruínas que sobram do dinamismo “volúvel” da burguesia, devido à sua afinidade com a moda, têm que ser resgatadas como se fossem objetos arqueológicos; elas têm que ser reanimadas, para se tornarem, assim, “citáveis”. Esse paradoxo poderia ser interpretado no sentido de que o proletariado extrairia do passado de seus líderes o ímpeto para transformar o presente, enquanto a burguesia, por meio da moda, altera o presente apenas na aparência para mascarar um passado marcado pela opressão e para transformar assim o presente em um status quo  permanente. Ora, uma tal diferenciação entre um dinamismo revolucionário e um dinamismo “da moda” que serviria para sufocar os impulsos revolucionários, não é compatível com a importância que Benjamin atribui à moda em particular e ao mundo perceptível de um modo geral. Mesmo se ele, em alguns momentos, deixa entrever o dualismo entre ser e aparência, entre Sein  e Schein , entre verdade latente e a ilusão manifesta, normalmente com base em pressupostos marxistas, e mesmo se ele, nessas ocasiões, se deixa levar pela postura platônica cristã cartesiana e também marxista – ou seja, ocidental – de considerar os cinco sentidos como algo suspeito, não há dúvida que, nos fragmentos aqui citados, esses sentidos não são apenas órgãos físicos, mas que eles estão no centro, como ele diz em um outro lugar, de uma “concreção superior” (GS V/1, p. 495) Aparentemente, essa concreção superior” também se enquadra nas hierarquias tradicionais, segundo as quais a realidade estaria dividida em uma esfera superior e outra inferior, sendo que, esta última, seria representada pelo mundo físico. Em Benjamin, no entanto, a “concreção superior” não faz parte de uma camada superior dentro de uma geologia de valores, mas resulta de um processo espaço-temporal, descrito como “condensação”. À maneira dos restos carregados por um rio após uma enchente, que se acumulam num determinado obstáculo, qualquer presente pode opor obstáculos ao fluxo do tempo para assim acumular as “ruínas” do passado. Nesse processo, o material carregado pelas águas se condensa, ou seja, os restos dispersos, as ruínas se transformam numa imagem “condensada” no espaço, “superior” à sua dispersão no tempo. 8  Os esforços terminológicos de Benjamin, conforme os quais o passado é denominado o “acontecido”, o presente o “atual” ou o “tempo de agora” e o futuro o “vindouro”, parecem ser outro indício de que sua dialética não é aquela 6  Segundo Willi Bolle, o historiador se serve também do flâneur   como medium  para ler o “texto da cidade“. Bolle também recorre ao termo da “leitura“ quando fala na “teoria baudelairiana da modernité, que faz o diagnóstico da época a partir da leitura de sua epiderme, a moda.“ (BOLLE, 2000. p. 78/85). 7  Procuramos manter, na nossa tradução, certas ‘extravagâncias’ da linguagem de Benjamin, uma vez que, no nosso entender, não cabe ao tradutor tornar o srcinal mais ‘palatável’. 8  Márcio Seligmann-Silva, em Ler o livro do mundo , associa a questão da densidade e materialidade ao caráter imagético do conceito benjaminiano de leitura (SELIGMANN-SILVA, 1999, p. 229-230).
Search
Tags
Related Search
We Need Your Support
Thank you for visiting our website and your interest in our free products and services. We are nonprofit website to share and download documents. To the running of this website, we need your help to support us.

Thanks to everyone for your continued support.

No, Thanks