Documents

A Sociedade Urbana e Conflitos Sociais Na Idade Média

Description
O desenvolvimento dos enclaves urbanos na sociedade medieval significou uma mudança considerável nas estruturas econômicas e sociais, trazendo à tona uma série de conflitos sociais e lutas políticas específicas. O presente artigo tem por objetivo abordar a relação estabelecida entre o fenômeno urbano e o desenvolvimento de determinados conflitos, no sentido de compreender os aspectos e os fatores que os motivaram, bem como os significados que esses assumiram no período medieval.
Categories
Published
of 15
All materials on our website are shared by users. If you have any questions about copyright issues, please report us to resolve them. We are always happy to assist you.
Related Documents
Share
Transcript
   󰁐󰁵󰁢󰁬󰁩󰁣󰁡󰃧󰃣󰁯 󰁤󰁯 󰁄󰁥󰁰󰁡󰁲󰁴󰁡󰁭󰁥󰁮󰁴󰁯 󰁤󰁥 󰁈󰁩󰁳󰁴󰃳󰁲󰁩󰁡 󰁥 󰁇󰁥󰁯󰁧󰁲󰁡󰁦󰁩󰁡 󰁤󰁡 󰁕󰁮󰁩󰁶󰁥󰁲󰁳󰁩󰁤󰁡󰁤󰁥 󰁆󰁥󰁤󰁥󰁲󰁡󰁬 󰁤󰁯 󰁒󰁩󰁯 󰁇󰁲󰁡󰁮󰁤󰁥 󰁤󰁯 󰁎󰁯󰁲󰁴󰁥 󰁃󰁥󰁮󰁴󰁲󰁯 󰁤󰁥 󰁅󰁮󰁳󰁩󰁮󰁯 󰁓󰁵󰁰󰁥󰁲󰁩󰁯󰁲 󰁤󰁯 󰁓󰁥󰁲󰁩󰁤󰃳 󲀓 󰁃󰁡󰁭󰁰󰁵󰁳 󰁤󰁥 󰁃󰁡󰁩󰁣󰃳. 󰁖. 0󰀵. 󰁎. 11, 󰁪󰁵󰁬./󰁳󰁥󰁴. 󰁤󰁥 200󰀴. 󲀓 󰁓󰁥󰁭󰁥󰁳󰁴󰁲󰁡󰁬 󰁉󰁓󰁓󰁎 ‐1󰀵1󰀸‐33󰀹󰀴 󰁄󰁩󰁳󰁰󰁯󰁮󰃭󰁶󰁥󰁬 󰁥󰁭 󰁷󰁷󰁷.󰁣󰁥󰁲󰁥󰁳󰁣󰁡󰁩󰁣󰁯.󰁵󰁦󰁲󰁮.󰁢󰁲/󰁭󰁮󰁥󰁭󰁥 643 Sociedade Urbana e conflitos sociais na Idade Média Jean Luiz Neves Abreu Professor da Univale – MG  jluizna@hotmail.com  Resumo O desenvolvimento dos enclaves urbanos na sociedade medieval significou uma mudança considerável nas estruturas econômicas e sociais, trazendo à tona uma série de conflitos sociais e lutas políticas específicas. O presente artigo tem por objetivo abordar a relação estabelecida entre o fenômeno urbano e o desenvolvimento de determinados conflitos, no sentido de compreender os aspectos e os fatores que os motivaram, bem como os significados que esses assumiram no período medieval. Palavras-chave Cidades, urbanismo, conflitos A ascensão das cidades e as lutas políticas A história da Idade Média é vista como aquela em que prevalece o mundo rural e os conflitos entre senhores e camponeses. Entretanto, diversos estudos e testemunhos revelam a importância que assumiram as formações urbanas nesse período e a complexidade dos conflitos sociais no mundo urbano. O surgimento dos conflitos sociais na cidade medieval envolvem diversos atores sociais: senhores agrários, mercadores, artesãos e trabalhadores dos mais diversos ofícios, como os fabricantes de telhas, açougueiros, entre outros. Acompanhar o desenvolvimento dos conflitos entre tais atores é acompanhar um pouco a própria história da constituição das cidades. Não obstante as cidades nunca tenham deixado de existir na Idade Média, foi após um longo período de declínio, causado pela decadência do Império Romano no século V e o gradual povoamento do ocidente pelos “invasores” germânicos, que as cidades se multiplicaram e prosperaram a partir do século X, ganhando autonomia relativa em relação ao mundo rural.  i     󰁐󰁵󰁢󰁬󰁩󰁣󰁡󰃧󰃣󰁯 󰁤󰁯 󰁄󰁥󰁰󰁡󰁲󰁴󰁡󰁭󰁥󰁮󰁴󰁯 󰁤󰁥 󰁈󰁩󰁳󰁴󰃳󰁲󰁩󰁡 󰁥 󰁇󰁥󰁯󰁧󰁲󰁡󰁦󰁩󰁡 󰁤󰁡 󰁕󰁮󰁩󰁶󰁥󰁲󰁳󰁩󰁤󰁡󰁤󰁥 󰁆󰁥󰁤󰁥󰁲󰁡󰁬 󰁤󰁯 󰁒󰁩󰁯 󰁇󰁲󰁡󰁮󰁤󰁥 󰁤󰁯 󰁎󰁯󰁲󰁴󰁥 󰁃󰁥󰁮󰁴󰁲󰁯 󰁤󰁥 󰁅󰁮󰁳󰁩󰁮󰁯 󰁓󰁵󰁰󰁥󰁲󰁩󰁯󰁲 󰁤󰁯 󰁓󰁥󰁲󰁩󰁤󰃳 󲀓 󰁃󰁡󰁭󰁰󰁵󰁳 󰁤󰁥 󰁃󰁡󰁩󰁣󰃳. 󰁖. 0󰀵. 󰁎. 11, 󰁪󰁵󰁬./󰁳󰁥󰁴. 󰁤󰁥 200󰀴. 󲀓 󰁓󰁥󰁭󰁥󰁳󰁴󰁲󰁡󰁬 󰁉󰁓󰁓󰁎 ‐1󰀵1󰀸‐33󰀹󰀴 󰁄󰁩󰁳󰁰󰁯󰁮󰃭󰁶󰁥󰁬 󰁥󰁭 󰁷󰁷󰁷.󰁣󰁥󰁲󰁥󰁳󰁣󰁡󰁩󰁣󰁯.󰁵󰁦󰁲󰁮.󰁢󰁲/󰁭󰁮󰁥󰁭󰁥 644A história do apogeu das cidades medievais está relacionada com o progresso da civilização material, fruto da produção de excedente agrícola e da evolução demográfica assistida na Europa ocidental partir do século X ii . Após o ano 1000 o crescimento econômico na Europa incrementa e impulsiona a expansão urbana. Essa expansão, situada entre 1150 e 1330, pode ser acompanhada através do aumento da superfície construída de algumas cidades, como Bordéus, que passa de 30 a 170 hectares, da construção de sucessivas muralhas e da criação de cidades novas, tais como Villeneuve e Neuville iii . A maior parte das cidades no período considerado se srcinam da cité   da época romana, dos castelos ou mosteiros. Era comum pessoas se reunirem em torno de um castelo e estabelecerem pequenos estabelecimentos comerciais, formando um núcleo urbano que iria dar início à futura cidade. A srcem das cidades também estava ligadas às bastides  , espécies de aldeias de formação espontânea. O aumento da superfície urbana das novas cidades provém principalmente do fluxo de homens do campo, que formam um contingente demográfico que varia de 80.000 a 200.000. Por volta de 1250, a rede urbana da Europa pré-industrial já estava traçada: Paris era uma das maiores cidades, com cerca de 200.000 habitantes, as metrópoles italianas contavam com o contingente populacional de cerca de 60.000 habitantes. Centenas de pequenas cidades cobriam o mapa da Europa, com uma população que variava de 1000 a 10.000 iv . O desenvolvimento do aparelho urbano está diretamente imbricado com as funções que a cidade assume na Idade Média. Além da importância das feiras e do comércio, que conferem à cidade sua função econômica, merece destaque a função religiosa, exercida pelas ordens mendicantes; a função cultural das escolas e universidades e a função política, onde se percebe as lutas pelo domínio do poder nas cidades v . No tocante aos aspectos da dominação política na cidade, é preciso considerar primeiramente que o crescimento dos centros urbanos está relacionado com as cortes dos grandes senhores, havendo, portanto, uma ligação entre a vitalidade urbana e o poder senhorial vi . Neste sentido, a cidade se define como um dominium   que pertence a um ou vários senhores, representando um enclave territorial no mundo rural. Esses senhores concedem ou outorgam parte de seus direitos às comunidades urbanas ascendentes. Contudo, essa concessão nem sempre foi acompanhada pela aceitação geral dos citadinos, de forma que grande parcela dos direitos teve de ser arrancada à força. Essa reação contra os poderes arbitrários que os senhores laicos ou religiosos exerciam nas cidades ganhou força com o movimento comunal. A comuna era uma associação; uma “conjuração” que residia no juramento mútuo que seus membros prestavam. Conhecidas desde o século IX, na época carolíngia, as comunas tiveram um papel marcante na formação das cidades e na emancipação dos mercadores, estando intimamente relacionada com motivações de ordem econômica vii .   󰁐󰁵󰁢󰁬󰁩󰁣󰁡󰃧󰃣󰁯 󰁤󰁯 󰁄󰁥󰁰󰁡󰁲󰁴󰁡󰁭󰁥󰁮󰁴󰁯 󰁤󰁥 󰁈󰁩󰁳󰁴󰃳󰁲󰁩󰁡 󰁥 󰁇󰁥󰁯󰁧󰁲󰁡󰁦󰁩󰁡 󰁤󰁡 󰁕󰁮󰁩󰁶󰁥󰁲󰁳󰁩󰁤󰁡󰁤󰁥 󰁆󰁥󰁤󰁥󰁲󰁡󰁬 󰁤󰁯 󰁒󰁩󰁯 󰁇󰁲󰁡󰁮󰁤󰁥 󰁤󰁯 󰁎󰁯󰁲󰁴󰁥 󰁃󰁥󰁮󰁴󰁲󰁯 󰁤󰁥 󰁅󰁮󰁳󰁩󰁮󰁯 󰁓󰁵󰁰󰁥󰁲󰁩󰁯󰁲 󰁤󰁯 󰁓󰁥󰁲󰁩󰁤󰃳 󲀓 󰁃󰁡󰁭󰁰󰁵󰁳 󰁤󰁥 󰁃󰁡󰁩󰁣󰃳. 󰁖. 0󰀵. 󰁎. 11, 󰁪󰁵󰁬./󰁳󰁥󰁴. 󰁤󰁥 200󰀴. 󲀓 󰁓󰁥󰁭󰁥󰁳󰁴󰁲󰁡󰁬 󰁉󰁓󰁓󰁎 ‐1󰀵1󰀸‐33󰀹󰀴 󰁄󰁩󰁳󰁰󰁯󰁮󰃭󰁶󰁥󰁬 󰁥󰁭 󰁷󰁷󰁷.󰁣󰁥󰁲󰁥󰁳󰁣󰁡󰁩󰁣󰁯.󰁵󰁦󰁲󰁮.󰁢󰁲/󰁭󰁮󰁥󰁭󰁥 645O movimento comunal tomava muitas vezes a forma de insurreições armadas, como a que ocorreu na Lombardia, no século XI, em que os citadinos ergueram-se contra as pretensões feudais de seus senhores: Houve grande perturbação na Itália, com aspectos inauditos nos tempos recentes, por causa de várias associações  juradas que o povo fez contra os seus príncipes. (...) ajuramentaram-se contra os seus senhores e todo o povo miúdo contra os graúdos. Desta maneira tornaram impossível aos senhores levar por diante qualquer coisa contra a sua vontade, dizendo que, se o imperador não aparecesse na cena em pessoa, fariam eles próprios as leis viii . A Revolta de Colónia contra o seu arcebispo, em 1074, oferece outro exemplo das violências que precederam o triunfo da comuna. A população se mobilizou contra o fato do arcebispo ter requisitado o navio de um mercador para transportar o bispo de Münster. O filho do mercador teve por iniciativa organizar uma resistência contrária a tal ordem: (...) as notícias de que a cidade se debatia numa atrocíssima sedição chegaram até o arcebispo, que imediatamente enviou [homens] para dominar o tumulto do povo e, ficando cheio de ira, ameaçou os jovens rebeldes com o castigo merecido na próxima sessão [do tribunal]. (...) o tumulto na cidade havia se aquietado um pouco. Mas o jovem (...) não deixava de provocar todo o distúrbio que podia. Percorrendo a cidade, fazia discursos ao povo acerca da insolência e austeridade do bispo, que lançava injustas sobrecargas, despojava os inocentes da sua propriedade e insultava os honestos cidadãos(...) ix  Esses fragmentos oferecem um retrato dos conflitos que ocorriam nas cidades, ocasionados por motivos políticos. Essas lutas, envolvendo citadinos e senhores laicos e eclesiásticos, têm fundamento nas críticas aos privilégios senhoriais exercidos nas cidades e nas reivindicações pela liberdade pessoal, conquista de espaço e autonomia no meio urbano. Nesse sentido, pode-se afirmar que “a cidade medieval, em sua personalidade, é uma conquista de seus habitantes. É o resultado de uma luta social.” x  A liberdade significava, acima de tudo, um conjunto de direitos e costumes conquistados, seja através do consenso ou arrancados à força. Um dos testemunhos da conquistas dos citadinos são os privilégios que Henrique II cede aos tecelões de Londres no século XII: Henrique, pela graça de Deus, rei de Inglaterra [...] aos juizes, viscondes, barões, oficiais e a todos os seus fiéis e homens lígios de Londres, saúde. Sabei que concedi licença aos tecelões de Londres para terem a sua guilda em Londres, com todas as liberdades e costumes que tinham no tempo do rei Henrique, meu avô. E, assim, que ninguém dentro da cidade se intrometa nesse ofício salvo por permissão [dos tecelões] [...] Por isso quero e ordeno firmemente que eles possam praticar legalmente o seu ofício em toda a parte. xi     󰁐󰁵󰁢󰁬󰁩󰁣󰁡󰃧󰃣󰁯 󰁤󰁯 󰁄󰁥󰁰󰁡󰁲󰁴󰁡󰁭󰁥󰁮󰁴󰁯 󰁤󰁥 󰁈󰁩󰁳󰁴󰃳󰁲󰁩󰁡 󰁥 󰁇󰁥󰁯󰁧󰁲󰁡󰁦󰁩󰁡 󰁤󰁡 󰁕󰁮󰁩󰁶󰁥󰁲󰁳󰁩󰁤󰁡󰁤󰁥 󰁆󰁥󰁤󰁥󰁲󰁡󰁬 󰁤󰁯 󰁒󰁩󰁯 󰁇󰁲󰁡󰁮󰁤󰁥 󰁤󰁯 󰁎󰁯󰁲󰁴󰁥 󰁃󰁥󰁮󰁴󰁲󰁯 󰁤󰁥 󰁅󰁮󰁳󰁩󰁮󰁯 󰁓󰁵󰁰󰁥󰁲󰁩󰁯󰁲 󰁤󰁯 󰁓󰁥󰁲󰁩󰁤󰃳 󲀓 󰁃󰁡󰁭󰁰󰁵󰁳 󰁤󰁥 󰁃󰁡󰁩󰁣󰃳. 󰁖. 0󰀵. 󰁎. 11, 󰁪󰁵󰁬./󰁳󰁥󰁴. 󰁤󰁥 200󰀴. 󲀓 󰁓󰁥󰁭󰁥󰁳󰁴󰁲󰁡󰁬 󰁉󰁓󰁓󰁎 ‐1󰀵1󰀸‐33󰀹󰀴 󰁄󰁩󰁳󰁰󰁯󰁮󰃭󰁶󰁥󰁬 󰁥󰁭 󰁷󰁷󰁷.󰁣󰁥󰁲󰁥󰁳󰁣󰁡󰁩󰁣󰁯.󰁵󰁦󰁲󰁮.󰁢󰁲/󰁭󰁮󰁥󰁭󰁥 646 Conforme revela o excerto acima, a liberdade de comércio e de exercer ofícios eram reivindicações constantes do movimento comunal. A constituição da comunidade urbana se funda no papel corporações, que contribuem para a organização profissional e faz com que os burgueses adquiram privilégios nas cidades. Tais privilégios são assegurados pela organização jurídica e a constituição de um conselho administrativo, o que garante um espaço de atuação política por parte dos citadinos em oposição aos senhores. xii  Embora as decisões da comunidade urbana fossem teoricamente amplas e devessem ser tomadas em conjunto pelos citadinos, não se pode aplicar para a sociedade medieval o modelo de democracia ateniense, construída através de um longo processo de concessões das elites às reivindicações do “povo” e cujas decisões eram tomadas em assembléias que se baseavam no rodízio de cidadãos xiii . A maior parte das cidades medievais era controlada por um poderoso patriciado urbano — pequeno grupo de homens recrutados entre os intermediários feudais, mercadores e artesãos prósperos — , que detinha o poder político e social xiv . Neste sentido, além de conflitos envolvendo senhores agrários, detentores de direitos nas cidades, e citadinos, pertencentes às corporações de Ofício, existem as disputas entre as camadas superiores urbanas e inferiores. A relação estabelecida entre os mercadores e as classes populares urbanas é, na maior parte das vezes, de dominação. Os meios de pressão e de opressão dos mercadores sobre as categorias sociais “subalternas” eram numerosos e eficazes. Os pobres são dominados pelos mercadores porque têm dinheiro e são eles que oferecem trabalho. Dos mercadores dependem os empregados para viver. O grande mercador também é dono de casas, as quais se tornam investimento lucrativo por alojar empregados, clientes e fornecedores xv . Se por um lado, a conquista do poder político e de determinadas liberdades pelos citadinos representou uma resistência contra os poderes senhoriais; por outro lado, essa “nova sociedade urbana” foi edificada a partir do domínio político do patriciado urbano, favorecendo a ascensão dos mercadores e seu domínio sobre os demais citadinos. Essa desigualdade demonstra que o ideal de liberdade da comunidade urbana, expresso no movimento comunal, não se concretizou. A sociedade urbana, na prática, era uma sociedade de desiguais.
Search
Tags
Related Search
We Need Your Support
Thank you for visiting our website and your interest in our free products and services. We are nonprofit website to share and download documents. To the running of this website, we need your help to support us.

Thanks to everyone for your continued support.

No, Thanks