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À sombra da clandestinidade: práticas religiosas e encontro cultural no tempo do tráfico ilegal de escravos. AGOSTINI, Camilla

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Fichamento do texto À sombra da clandestinidade: práticas religiosas e encontro cultural no tempo do tráfico ilegal de escravos. AGOSTINI, Camilla
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  UNIVERSIDADE FEDERAL DE SÃO PAULO   Arqueologia Histórica - Profª Drª Claudia Plens   Fichamento do texto À sombra da clandestinidade: práticas religiosas e encontro cultural no tempo do tráfico ilegal de escravos.  AGOSTINI, Camilla   A ILEGALIDADE   Os dois primeiros parágrafos dessa primeira parte contam rapidamente sobre Joaquim José Pedro de Souza, passando por sua vida pessoal mas também contando lendas acerca deste. Tais histórias são contadas para a apresentação do sítio arqueológico (registrado junto ao IPHAN) formado a partir das ruínas de sua suposta fazenda amaldiçoada, onde são realizadas  pesquisas e escavações por Wagner Bornal. É destacado que o terreno dessa fazenda, localizada em um morro, foge dos parâmetros convencionais das fazendas da época, em geral localizadas em terrenos planos. A partir das ruínas da fazenda, pode-se indicar que a mesma era usada como engenho de açúcar, uma vez que ruínas de materiais para o processamento da cana foram encontradas no local. Já a presença de pés de café na vegetação local podem indicar o grão também era cultivado. A autora faz então um relato sobre a arquitetura do local, passando pela parte principal, onde encontravam-se a casa senhorial, o engenho, um pátio e uma possível capela e a região mais afastada, local que Agostini diz ser o possível lugar que abrigava os escravos, formado  por mais três construções, uma dessas com dimensões aproximadas de outras senzalas da época.  Neste ponto a autora volta à história de Joaquim. No começo nos é dito que ele aparece somente junto a sua mulher nos registros da cidade, porém cinco anos após o casamento eles reaparecem no registro  –   agora com dois filhos e com mais posses financeiras do que a primeira vez. Mas o que realmente chama a atenção é que se antes Joaquim aparecia como pardo , agora aparece como branco . É interessante perceber que o embranquecimento do mesmo se dá  junto com seu enriquecimento, o que Agostini diz ser comum para a época. Também nos são apresentados registros do Livro de Matrícula dos escravos de São Sebastião, dando acesso ao conhecimento do número de escravos pertencentes à Joaquim. Tais registros mostram que seu número de escravos cresceu, mas ainda assim seriam considerados  poucos para uma fazenda de engenho de cana de açúcar (possuía 12 quando a média era 32),   porém dentro dos parâmetros normais para produtores de gênero alimentício ou de café, como explicado pela autora, o que o coloca como um proprietário de escravos de médio porte. Com somente seis escravos homens cuidando dos serviços de roça e lavoura (e entre esses seis, um sendo uma criança) e seis mulheres tratando do serviço da casa (sendo duas crianças e uma que veio a falecer), é pouco provável que realmente tenha havido uma grande  produção de açúcar e que a renda principal da fazenda seja proveniente dela. O autor Bordal explica que a fazenda pode ter começado com o intuito da produção de cana e mais tarde voltando-se ao plantio de café (Bordal baseia tais afirmações na própria história de São Sebastião, que passou por essas duas fases), além dos pés de café encontrados próximos às  possíveis habitações dos escravos. Porém, ainda assim há o questionamento de que se apenas 5 escravos conseguiriam lidar com a produção.   Agora é levantada a hipótese da escravaria praticada por Joaquim. Como a área destinada aos escravos se encontrava bem longe do complexo principal, pode-se dizer que era um local propício para quarentena ou ilegalidade. Outro fato que chama atenção é que os escravos de Joaquim eram em sua maioria africanos, sendo somente algumas crianças srcinárias de São Sebastião, enquanto a maior parte dos outros proprietários de escravos tinham valores inversos, possuindo em maior número escravos nascidos na cidade. Juntando-se isso à alta rotatividade de escravos, numa época de ilegalidade do tráfico, a tese sobre a escravaria ganha força. Utilizando-se da cultura material encontrada nas escavações do sítio arqueológico e aplicando a estas a fórmula de South, adaptada por Lima, chega-se a data de ocupação da fazenda por volta do ano de 1832, época em que o tráfico de escravos era fortemente proibido. Ilha Bela e São Sebastião eram destinos comuns dos navios de tráfico negreiro. Chama atenção o fato de Joaquim Pedro ter um número de escravos próximos a de outros homens que tinham como renda principal a venda de negros. A autora cita o exemplo de Joaquim Ignacio, que  possuía 13 escravos. Há também o fato de suas terras nunca terem sido registradas por ele, mas somente apontada por vizinhos. A autora cita Boccia e Malerbi para mostrar que ainda nos anos de 1850 o tráfico não havia cessado por completo e que após sua chegada no literal, os escravos eram rapidamente escondidos na mata. A localização da casa de Joaquim, além da vista de sua propriedade direta  para o porto e o registro de um processo que afirma a compra de um escravo após a abolição do tráfico de escravos firmam ainda mais a tese da escravaria.    PRÁTICAS RELIGIOSAS E ENCONTROS CULTURAIS   Alguns materiais encontrados no sítio revelam que ali havia alta sociabilidade do grupo, como por exemplo um cachimbo encontrado, que também pode sugerir práticas religiosas. A autora fala também de outro simbolo, a figa, que é normalmente ligada à ritos e religião e encontrada em abundância nos grupos africanos. Entretanto não se sabe ao certo seu verdadeiro significado, sendo assim possível o levantamento de hipóteses, até mesmo uma possível ligação à tradição portuguesa, o que revela uma troca cultural entre os portugueses e os africanos. Outro  ponto que chama atenção é a visão católica sobre a religiosidade africana, comumente ligando-a ao mal, a magia negra. Uma questão é levantada sobre o significado da fertilidade para os escravos, uma vez que cabos de panela em forma fálica (que são usados para cultos de fertilidade nos grupos de escravos) achados. O questionamento (feito por historiadores como Laura Mello e Souza) está no fato de que, já que os bebês nasceriam em cativeiro, o que pode nos fazer pensar num significado da fertilidade além da maternidade, mas da fertilidade no sentido da agricultura (porém, esta beneficiaria apenas o senhor, o que ainda deixa em aberto o questionamento). Tais cabos, ou manifestações semelhantes, não foram encontrados em outros sítios mas aparecem em todo o entorno da região do Sítio São Francisco, indicando uma troca com as manifestações religiosas de toda a vizinhança.   São encontrados vestígios da construção de uma capela, no século XIX, devota a São Gonçalo (santo da fertilidade), que podia ser frequentada por libertos, pardos e cativos. Embora haja a sugestão de cultos religiosos, a irmandade da capela previa missão, sermão e procissão e era acompanhada da imagem do santo, porém com uma aparencia de decência e não a que ele aparece com a viola. Nesse ponto são levantadas algumas questões: os libertos e cativos que frequentavam a capela de São Gonçalo como uma atividade decente e oficiosa seriam os mesmos a praticar cultos portugueses ao santo? Ou faziam isso na intenção de normatizar suas  práticas religiosas? Muitos dos objetos foram encontrados enterrados de forma posicionada (como chaves formando uma cruz), o que pode indicar, para alguns autores, feitiçaria dos escravos contra o  poder senhorial e seus senhores. Porém, mais tarde, tais pensamentos foram reavaliados, já que havia o melhor conhecimento dos terrenos de candomblé e umbanda, onde eram enterrados  alguns objetos importantes para a sobrevivência do lugar, mas seus exatos significados ainda são incertos. CONSIDERAÇÕES FINAIS   Aqui a autora começa citando Martin sobre a crioulização. Podemos ver que tal processo geralmente é visto como algo exclusivo dos africanos, excluindo a participação senhorial do  processo. Também nos é dito que Wilkie entende que as culturas africanas e europeias influenciavam uma a outra. Os encontros culturais são vistos como processos contínuos.   As expressões simbólicas apresentadas a partir da cultura material encontrada na referida fazenda, dentro dos limites da cidade de São Sebastião, são entendidas dentro da dinâmica Atlântica e de um circuito cultural que gerava fenômenos híbridos ou simétricos, mas não por isso destituídos de contradições e conflitos.    Nos é apresentada a transculturação , onde um grupo subordinado se vê em contato com a cultura de um grupo dominante e a partir dela selecionam e inventam. Com os estudos dos vestígios no sítio São Francisco, podemos ligar aspectos culturais de Portugal, Brasil e África Centro-Ocidental. Outros vestígios indicam bastantes visitas ao lugar, como cachimbos achados.   A autora nos mostra que a ligação de Joaquim com o mundo do tráfico lhe trouxe também uma ligação com o encantado , sobrenatural . Muito temido por seu suposto pacto com o diabo, podia ter passado tal imagem por seu enriquecimento rápido e seu envolvimento com o ilícito.   Enfocando o encontro de diferentes sujeitos no circuito cultural Atlântico, procurou-se contribuir para o entendimento de práticas cotidianas e simbólicas que tomaram forma e dinamizaram a vida de diferentes personagens, por vezes invertendo normas e recriando relações de poder  
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