Documents

A Teologia Da Unidade

Description
Nas últimas décadas muito se passou no campo do ecumenismo. Hoje vemos que o decreto Unitatis redintegratio foi pioneiro em muitas coisas; profético em algumas; surpreendido por outras. É pioneiro ao ensaiar uma eclesiologia de comunhão e introduzir oficialmente a Igreja Católica no diálogo ecumênico. Profético quando assume os esforços de diálogo já iniciados e qualifica as demais igrejas como comunhões batismais. Surpreendido pela autonomia de algumas esferas do diálogo, bastante livres em relação às instituições confessionais; pelos fatores não-teológicos que desafiam o caminho da unidade; e até pelo pentecostalismo moderno. Muito poderíamos dizer a respeito disto. Mais ainda se considerarmos o largo horizonte que o ecumenismo vislumbra atualmente, com seus sinais de tempestade ou bonança, de brisa ou ventania.
Categories
Published
of 28
All materials on our website are shared by users. If you have any questions about copyright issues, please report us to resolve them. We are always happy to assist you.
Related Documents
Share
Transcript
   1  A TEOLOGIA DA UNIDADE Eclesialidade, eucaristia e ministérios em perspectiva ecumênica: Estudo a partir de “Unitatis redintegratio” Dr. Pe. Marcial Maçaneiro, SCJ. Introdução Nas últimas décadas muito se passou no campo do ecumenismo. Hoje vemos que o decreto Unitatis redintegratio  foi pioneiro em muitas coisas; profético em algumas; surpreendido por outras. É pioneiro ao ensaiar uma eclesiologia de comunhão e introduzir oficialmente a Igreja Católica no diálogo ecumênico. Profético quando assume os esforços de diálogo já iniciados e qualifica as demais igrejas como comunhões batismais. Surpreendido pela autonomia de algumas esferas do diálogo, bastante livres em relação às instituições confessionais; pelos fatores não-teológicos que desafiam o caminho da unidade; e até pelo pentecostalismo moderno. Muito poderíamos dizer a respeito disto. Mais ainda se considerarmos o largo horizonte que o ecumenismo vislumbra atualmente, com seus sinais de tempestade ou bonança, de brisa ou ventania. Diante disto, fizemos uma escolha. Por método, sim. Mas também pelo cuidado. Este decreto conciliar é complexo. Diz mais do que parece dizer à primeira vista.  Apesar do tempo transcorrido, ele é atual e toca a sensibilidade de muitas Confissões cristãs. Como lê-lo? E que passos nos fizeram chegar à presente contribuição? Primeiro passo: perceber, no largo horizonte ecumênico, algumas questões específicas e particularmente exigentes como a eclesiologia, os sacramentos e o reconhecimento dos ministérios. Segundo passo: tendo isto presente, ler o documento a partir de sua própria lógica, para colher o que ele diz e o que nos permite dizer. Terceiro passo: articular teologicamente os conteúdos colhidos, na perspectiva de esclarecer as questões visadas (eclesiologia, sacramentos, ministérios), para a edificação da Igreja Una. Na esperança de que esta contribuição sirva para o diálogo, sobretudo no campo da teologia, procuramos ser claros e didáticos: citamos as fontes, conectamos as afirmações mais significativas, mostramos os contrastes, indicamos as possibilidades de consenso, delineamos eventuais soluções. Os tópicos resultantes são sete: 1) a koinonia trinitária; 2) unidade na diversidade; 3) novas perspectivas; 4) a Igreja de Cristo, obra do Espírito Santo; 5) batismo e eucaristia; 6) Igrejas e Comunidades eclesiais; 7) a ministerialidade das igrejas.   2     1. A KOINONIA TRINITÁRIA  Já nas primeiras linhas o Decreto Unitatis redintegratio  define o ecumenismo como “movimento da unidade” e diz que “dele participam os que invocam o Deus Trino e confessam a Jesus como Senhor e Salvador” 1 . A “invocação” da Trindade, aqui citada, remonta ao “patrimônio comum” a todas as “comunhões” cristãs 2 . A fé trinitária é eminentemente bíblica, sugerida nas Escrituras Judaicas e explicitada pelos autores do Novo Testamento. As primeiras gerações cristãs acolheram a revelação de Deus Trino, aplicando-lhe o olhar da contemplação e a inteligência da fé. Exemplo disto são a teologia patrística e o magistério inicial da Igreja, que desenvolveram brilhantemente a doutrina de Deus Uno e Trino – Pai, Filho e Espírito – três hipóstases na koinonia de uma só divindade 3 .  A exemplo da Igreja indivisa: Na consolidação da teologia trinitária concorreram especialmente os primeiros Concílios, no marco da Igreja indivisa 4 . A expressão Igreja indivisa  engloba o primeiro milênio do cristianismo, antes do cisma entre Ocidente e Oriente, em 1054. Hoje, cheios de esperança, voltamos o olhar a este primeiro milênio cristão 5 .  Ali todos nós – católicos, ortodoxos, reformados, anglicanos e evangélicos – nos situamos num terreno comum, que foi semeado pela tradição apostólica, fértil de intuições teológicas, florescente na liturgia e exemplar pela comunhão plural  que tal época soube manter. Pois, nas Igrejas do primeiro milênio, ritos e disciplinas diferentes conviviam sem romper a unidade sacramental. Celebravam-se sínodos e os episkopoi  exerciam fraterna colegialidade. As sedes episcopais de Jerusalém,  Antioquia, Alexandria e Constantinopla se reconheciam mutuamente, ao lado de Roma, que as presidia na caridade 6 . Sabemos que acolher os valores do primeiro milênio cristão não significa transplantar, talvez anacronicamente, certos esquemas. Mas a communio ecclesiarum  daqueles séculos – cultivada pela caridade, pelo martírio e pela co-participação nos sacramentos – é sempre um referencial positivo e inspirador para a comunhão atual das nossas Igrejas e Comunidades.  A Trindade, “arché” da comunhão eclesial:  Além da doutrina comum referente à Trindade contemplada e professada a partir das Escrituras, a fé no Deus Trino está na própria raiz da Igreja Una. Na 1  Decreto Unitatis redintegratio  1 (a seguir, indicada pela sigla UR). 2  UR 4 e 12, respectivamente. 3  Cf. UR 2, final do parágrafo. 4  Cf. UR 14. 5  Procedimento de João Paulo II na Encíclica Ut unum sint   54-55 (a seguir, indicada pela a sigla UUS). 6  Jerusalém, Antioquia, Alexandria, Roma e Constantinopla: patriarcados apostólicos da chamada “pentarquia”.   3 comunhão do Pai, do Filho e do Espírito Santo, que juntos (co)operam para a salvação universal, se encontra a arché  (princípio) donde se desenvolve e manifesta o mistério íntimo da Igreja: sua natureza, sacramentalidade, significado e realização se vinculam fontalmente à koinonia trinitária 7 . A Igreja é esboçada no desígnio salvífico do Pai, fundada no tempo pelo Messias Jesus e manifestada universalmente pelo Paráclito, em Pentecostes. “Desta maneira aparece a Igreja toda como o povo reunido na unidade do Pai e do Filho e do Espírito Santo” 8 . O ecumenismo, resposta à Trindade: “Nisto se manifestou a caridade de Deus para conosco, a saber: que o Filho Unigênito de Deus foi enviado ao mundo pelo Pai, a fim de que – feito homem – remisse todo o gênero humano e assim o regenerasse e unificasse” 9 .   O ecumenismo é resposta dos cristãos e cristãs à Trindade. É questão de veracidade  do cristianismo. Ou a fé cristã se realiza como proposta de comunhão entre os seres humanos e destes com Deus, ou deixa de ser autêntica. A própria Igreja se inclui nesta condição de autenticidade evangélica quando proclama a si mesma “sacramento de união” 10 . Deste modo, o amor comunional dos batizados já realiza entre eles a unidade (chamada a manifestar-se sempre mais plenamente) e brilha no mundo como sinal indicativo da comunhão de todos na una humanidade reconciliada. Por isso, o movimento ecumênico não se satisfaz com as experiências de unidade já conquistadas, mas se amplia evangelicamente a todas as Igrejas e, destas, à humanidade inteira. O ecumenismo tem alcance universal, não por estratégia ou vontade humana, mas porque o Evangelho de Jesus é uni-versal (= na direção do uno), bem como a comunidade messiânica que ele fundou (cf. Mt 28,19). A proposta de unidade é essencial à identidade cristã e constitui o horizonte trinitário modelar de cada Igreja e Comunidade concreta: “Que todos sejam um” (Jo 17,21). Para os gregos, ecumene  designava a Terra habitada. Compreensão que o cristianismo herdou e reelaborou teologicamente. No âmbito da fé, o adjetivo ecumênico  significa mais do que extensão geográfica. Significa co-participação salvífica. Unidade. Comunhão. Em uma palavra: koinonia 11 . Pois toda relação “ecumênica” vincula-se à koinonia trinitária de modo fontal: o ecumenismo se 7  Cf. especialmente na Constitutição Dogmática  Lumen gentium  1-4 (a seguir, indicada pela sigla LG). 8  LG 4. 9  UR 2, remetendo a 1Jo 4,9; Col 1,18-20 e Jo 11,52. 10  Cf. LG 1 e 48, especialmente. 11   Koinonia  é o termo grego correlato ao latim communio . Aproxima-se também da noção de sobornost   da Igreja Ortodoxa Russa. A compreensão de koinonia  engloba unidade, interação, convivialidade, participação e inclusão. Não significa singularismo, monismo ou uniformidade, mas sim a conciliação de diferenças numa comunhão duradoura e includente, plasmada pelo amor. Neste sentido o termo é abordado por João Paulo II: UUS 9 e 82-85.   4 compreende na ação regeneradora e unificante que a própria Trindade exerce no mundo (pela mediação da Igreja primeiramente, mas também além da Igreja). Na comunhão trinitária o ecumenismo tem sua raiz; na união dos cristãos tem sua realização: “Lembrem-se todos os fiéis de Cristo que tanto melhor promovem e até exercem a união dos cristãos, quanto mais se esforçarem por levar uma vida mais pura conforme o Evangelho. Quanto mais unidos estiverem em comunhão estreita com o Pai, o Verbo e o Espírito, tanto mais íntima e facilmente conseguirão aumentar a mútua fraternidade”. 12   Ecumenismo e Igreja:  A vinculação do ecumenismo à Igreja o define, mas não o confina. A definição de diálogo ecumênico em sentido estrito (diálogo de batizados em vista da unidade da Igreja de Cristo) inclui na sua compreensão a humanidade inteira e una, na diversidade das línguas, culturas e nações, diante das quais a Igreja se apresenta como “sacramento ou sinal e instrumento da íntima união com Deus e da unidade de todo o gênero humano” 13 . Neste sentido, o ecumenismo promove a “plena catolicidade” da Igreja 14 , ao contemplar, desde a comunidade batismal, todas as comunidades humanas. Quanto mais for promovida e restaurada aquela unidade que Cristo confiou à sua ekklesía , mais plenamente a Igreja cumprirá sua missão de congregar num só Povo de Deus todos os remidos, “do justo Abel ao último dos eleitos” 15 . Igreja una e universal, porque destinada à una humanidade, como também una é a Trindade da qual provém 16 . Disto concluímos que a Igreja é chamada a ser ecumênica, tanto quanto o ecumenismo é chamado a ser eclesial, porque ambos se encontram no mysterium unitatis  que o Pai decretou, o Filho inaugurou e o Espírito suscita continuamente, nos coraçãos e nas comunidades 17 . Caridade, eucaristia, unidade: “E ele (Jesus), antes de se oferecer no altar da Cruz como hóstia imaculada, rogou ao Pai em favor dos que crêem, dizendo: ‘Para que todos sejam um, como tu, Pai, em mim e eu em ti; para que sejam um em nós, a fim de que o mundo creia que tu me enviaste’ (Jo 17,21)” 18 .  Aqui a unidade dos cristãos é elevada à categoria de mistério e vocação escatológica, como desenvolvimento pleno da vida batismal. Pois Jesus e o Pai 12  UR 7. 13  LG 1, também 48. 14  UR 4. 15  Pensamento de Agostinho, apud LG 3. Sobre o novo e universal Povo de Deus cf. LG 13. 16  Cf. LG 2-4. 17  Idem, ibidem. 18  UR 2.
We Need Your Support
Thank you for visiting our website and your interest in our free products and services. We are nonprofit website to share and download documents. To the running of this website, we need your help to support us.

Thanks to everyone for your continued support.

No, Thanks