Documents

A terceira margem do rio, de João Guimarães Rosa

Description
ANÁLISES LITERÁRIAS DAS OBRAS DO VESTIBULAR DA UFMA 2000/2 Π Π Prof. Adeildo Π Π Obras Literárias I. II. III. IV. “A terceira margem do rio”, de João Guimarães Rosa “Jardim de Infância”, de Nauro Machado “Perto do Coração Selvagem”, de Clarice Lispector “A confissão de Lúcio”, de Mário de Sá-Carneiro I. “A TERCEIRA MARGEM DO RIO”, DE JOÃO GUIMARÃES ROSA 1. Primeiros comentários O conto. Texto literário, narrativa curta, pedaço da vida de um personagem. “Estória” de uma brevidade singular e,
Categories
Published
of 18
All materials on our website are shared by users. If you have any questions about copyright issues, please report us to resolve them. We are always happy to assist you.
Related Documents
Share
Transcript
  A NÁLISES L ITERÁRIAS   DAS O BRASDO V ESTIBULAR   DA UFMA 2000/2 ΠΠ   Prof. Adeildo ΠΠ Obras Literárias I.“A terceira margem do rio”, de João Guimarães RosaII.“Jardim de Infância”, de Nauro MachadoIII.“Perto do Coração Selvagem”, de Clarice Lispector IV.“A confissão de Lúcio”, de Mário de Sá-Carneiro I.“A TERCEIRA   MARGEM   DO   RIO ”, DE J OÃO G UIMARÃES R OSA 1.Primeiros comentários O conto. Texto literário, narrativa curta, pedaço da vida de um personagem. “Estória” deuma brevidade singular e, nessa singularidade, se manifestam os traços peculiares de um enredodinâmico, de ações pontuais, com um curto espaço geográfico e temporal, com poucas célulasdramáticas, sendo uma delas o núcleo de toda a trama.O livro “Primeiras Estórias” é uma obra literária que reúne obras literárias por excelência,isto é, é um livro de contos. Nessa obra, João Guimarães Rosa reúne os contos, considerados pela crítica e pelosanalistas literários como os primeiros degraus da longa e rica escada da obra de Guimarães Rosa,que resumem de forma ímpar as principais características de seu estilo: inovação na sintaxe,abundância de neologismos, vocabulário coloquial e, sobretudo, regional, tipificação dos personagens no meio rural, análise psicológica e muito mais.É nessa obra que encontramos o conto “A terceira margem do rio”, o qual será, a partir deagora, nosso objeto de estudo. 2.“A terceira margem do rio”: uma questão psicológica? Instigante. É este o melhor adjetivo com o qual podemos qualificar o enredo do conto “Aterceira margem do rio”. São vários os motivos que nos levam a esta afirmação: inicialmente, oconto parece atemporal, ou seja, passa-se num momento indefinível e, por isso, deixa a “estória” perpetuada na linha temporal sem uma referência diacrônica ou sincrônica; em seguida, trata de umconflito existencial muito forte do narrador-personagem; e, por fim, analisa (ou propõe, numa linha barroca até) e o comportamento de um personagem que é, no mínimo, misantropo. Portanto, paraque possamos compreender melhor esta atmosfera literária e, porque não dizer psicoliterária, partamos para a análise dos elementos narrativos que a compõem. 3.O enredo Enredo é história, é seqüência de ações praticadas por personagens num período temporal enum espaço físico delimitado. Em “A terceira margem do rio”, o enredo se desenvolve naslembranças de quem conta os fatos: o narrador. Podemos, e devemos, dividí-lo em partes para quemelhor possamos entender a sua “tecitura”. As partes que o compõem são: a apresentação, acomplicação, o clímax e o desfecho. 1  3.1. A apresentação Parte inicial do enredo, onde são mostrados ao leitor dados importantes e básicos datrama: personagens principais (geralmente o protagonista e o antagonista), bem como noscolocam no lugar em que tudo se desenvolverá e nos determinam, às vezes, o tempo. No conto que analisamos, a apresentação se processa com a exposição do pai pelonarrador – personagem, com sua caracterização conforme se pode observar no trecho “Nosso pai era cumpridor, ordeiro, positivo; e sidoassim desde mocinho menino, pelo quetestemunharam as diversas pessoas, quandoindaguei a informação” Em seguida, ainda nessa parte, o narrador – personagem mostra a sua mãe e irmãossendo ela apresentada direta e indiretamente e estes apenas indiretamente. “Nossa mãe era quem regia, e que ralhava nodiário com a gente – minha irmã, meu irmão eeu.” 3.2. A Complicação É o desenvolvimento da “estória” propriamente dito. É desencadeada por uma ação praticada ou sofrida pela personagem principal que desequilibra o estado inicial e começa a provocar as transformações na vida do protagonista.Esse fato desequilibrador na nossa “estória” é a atitude do pai contada pelo narrador –  personagem como se vê na seguinte passagem. “Mas se deu que, certo dia, nossopai mandou fazer para si uma canoa.” Isso certamente não seria uma atitude comum, e realmente não o era. A mãe e osfilhos não enderiam o porquê de tal procedimento, mas o certo é que encomendar uma canoa,recebê-la e, depois, partir sem motivo algum para a desolação num rio deixou uma incógnitana mente de todos. No decorrer da complicação, a incompreensão diante da atitude do pai se torna cadavez mais crescente e evidente. Primeiro por parte da mãe, que reage com certa esteria diantede tudo: “ – Cê vai, ocê fique, você nunca mais volte!” Em seguida, parentes e amigos confirmam a interrogação: “Os parentes, vizinhos e conhecidos nossos, sereuniram, tomaram juntamente conselho”. Com o passar dos anos, o filho (no caso, narrador – personagem) passa a assumir afunção de manter o pai alimentado e isso demonstra a admiração que ele tem pelo pai. A partir daí, a relação pai e filho se estreita a cada tempo passado.A família porém, chegou ao ponto de não tocar mais no nome do pai, mas a sua figuranão se fazia esquecida.Ainda na complicação, a irmã casa, tem um filho, muda-se com o marido; o irmãotambém vai embora e, em seguida, é a vez da mãe, que vai embora para morar com a filha.Porém, o filho (narrador – personagem) ficou com a imagem do pai e a vontade de seencontrar com ele. Um fator importante e que contribuiu para isso foi o fato do rapaz parecer-se muito com seu genitor: “Às vezes, algum conhecido nosso achava queeu ia ficando mais parecido com nosso pai” .Essa proximidade, tanto física quanto psicológica, vai dar ao leitor pistas importantessobre os porquês do conflito existencial que começa a se estabelecer na vida do narrador.Esse conflito se agravou mais ainda: quanto mais se passava o tempo, mais o filho queria seaproximar do pai. Os anos passavam e a aproximação não acontecia. Tudo isso leva o 2  narrador a pensar que era ele o culpado dos problemas estarem ocorrendo na vida do pai e,conseqüentemente, na sua também. Observe a citação: “Sou homem de tristes palavras. De que eu tinhatanta, tanta culpa? Se o meu pai, semprefazendo ausência: e o rio-rio-rio, o rio – pondoperpétuo. Eu sofria já o começo da velhice – estavida era só o demoramento (...). Sou o culpadodo que nem sei, de dor em aberto, no meu foro.” 3.3. O Clímax O Clímax do enredo se tece no mesmo ponto em que os conflitos existenciais chegamao auge. O clímax trata-se do ponto culminante de uma narrativa, isto é, representa o estadoconflituoso em mais alto grau na vida do personagem. Na “nossa obra”, essa parte do enredocomeça a se estabelecer quando, já à beira da velhice, o narrador – personagem tem umencontro com o pai, também – logicamente – bem velho. É a partir daí que se processam asmanifestações do clímax: “e agora, o que vai acontecer?” A resposta começa a ser dada noinício do desfecho .3.4. O Desfecho Ao que acontece depois do clímax chama-se de desfecho. É nesse momento final daestória que, bem ou mal, são resolvidos os problemas, ou o problema: O que interessa maisainda é o fato dos conflitos existenciais em “A terceira margem do rio” se manterem até ofinal da narrativa : “Sofri o grave frio dos medos, adoeci. Sei queninguém soube mais dele. Sou homem, depoisdesse falimento? Sou o que não foi, o que vaificar calado.” A estória se encerra no desejo do filho em ir ao encontro do pai depois que morresse: “(...) no artigo da morte, peguem em mim, e medepositem também numa canoinha de nada,nessa água que não pára, de longas beiras: e, eurio abaixo, rio afora, rio a dentro – o rio.” 4.O tempo e o espaço Dois elementos da narrativa que, muitas vezes, não têm tanta importância. Porém, sãoelementos delineadores, dentro de uma estória, do período que ela leva para acontecer (tempo) e doconjunto de ambientes ocupados pelas ações das personagens (espaço).A manifestação do tempo em “A terceira margem do rio” é feita de uma maneira muitoímpar: predomina um tempo psicológico que é estabelecido subjetivamente, sem observância deconvenções. O narrador personagem percebe e filtra individualmente os fatos. Apesar disso, se percebe também um toque de cronologia na evolução dos mesmos. Observação 01:  _______________________________________________________________________________  ________________________________________________________________________________  ________________________________________________________________________________  ________________________________________________________________________________  3  Já o espaço, lugares que servem de cenário ao desenrolar da ação e à movimentação dos personagens, complementam a caracterização do narrador-personagem e o seu conflito. Convémdestacar o rio que é personificado e se transforma em personagem. Ainda podemos verificar quesuas dimensões não são claras no decorrer do enredo, o que lhe identifica como um espaço predominantemente adimensional. 5.Foco narrativo Dependendo de como se conta uma “estória”, obtemos basicamente dois tipos denarradores que podem assumir uma dessas três características: onisciência, onipotência ouonipresença.Em “A terceira margem do rio”, temos uma narrativa em 1ª pessoa; isso significa que onarrador é narrador – personagem: conta a estória como participante dela. Além disso, caracteriza-se como onisciente pois revela traços psicológicos tanto seus, quando dos outros personagens. 6.O personagem Temos na estória de Guimarães Rosa os seguintes personagens: o filho (narrador –  personagem), a mãe, o pai, o irmão e a irmã, um tio e um padre, o esposo e o filho da irmã, alguns parentes e vizinhos.A principal célula dramática é o filho que, exercendo a função de narrador, conta toda a sua“estória” e nos mostra como era a sua relação com seu pai. Observação 02:  _______________________________________________________________________________  ________________________________________________________________________________  ________________________________________________________________________________  ________________________________________________________________________________  ________________________________________________________________________________  7.Estilo de época e estilo individual “João Guimarães Rosa inaugura uma nova fase na ficção e na prosa brasileira, e é o pontode partida para uma fecunda renovação literária”. É com essa afirmação que Celso Pedro Luftencerra em “Literatura Brasileira e Portuguesa” seu comentário sobre a obra de Guimarães Rosa.É necessário lembrar que “estilo” significa, em texto escrito, a maneira individual decompor, de escrever. Há uma bifurcação no conceito da palavra, desmembrando este conceito emoutros dois: estilo de época (numa perspectiva diacrônica) e estilo individual (numa perspectivasincrônica).A obra de Guimarães Rosa está atrelada desde suas primeiras linhas literárias aoModernismo, sobretudo à 3ª fase conhecida como “Geração de 45” ou “Pós-Modernismo”. Observação 03:  _______________________________________________________________________________  ________________________________________________________________________________  ________________________________________________________________________________  ________________________________________________________________________________  ________________________________________________________________________________ Já o seu estilo individual é ímpar, pleonasticamente ímpar. Não por ser individual, o queseria óbvio, mas por ser inovador, radical e revolucionário. Observação 04:  _______________________________________________________________________________  ________________________________________________________________________________  ________________________________________________________________________________  4
We Need Your Support
Thank you for visiting our website and your interest in our free products and services. We are nonprofit website to share and download documents. To the running of this website, we need your help to support us.

Thanks to everyone for your continued support.

No, Thanks