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A Tragédia Da Esperança: Uma Abordagem Sobre o Sentido Político Da Formação Do Capitalismo No Ocidente – Marx e Simmel Em Questão

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Um diálogo entre Marx e Simmel sobre o processo de alienação
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  A tragédia da esperança: uma abordagem sobre o sentido político da formação do capitalismo no Ocidente – Marx e Simmel e o problema da alienação Aloizio Lima Barbosa Introdução O processo de formação do capitalismo no Ocidente sempre foi motivo de grandes debates e de monumentais análises. Isso ocorre seja, como em Durkheim, na análise da passagem de sociedades de solidariedade mecânica (tradicionais) para as de solidariedade orgânica (modernas), seja em Weber, no esforço em entender o que caracteriza o Ocidente capitalista nos seus elementos específicos. A grande questão que fica subjacente, tendo como recorte o inicio do que hoje chamamos de pensamento sociológico, é que essas análises carregam consigo algumas implicações políticas, no sentido de entender politicamente os fenômenos abordados, que são importantes de se levar em consideração.Na trilha dessas mesmas análises se encontram dois autores importantes para caracterizar o Ocidente em suas dimensões mais gerais, do ponto de vista das estruturas sociais e da sua implicação subjetiva. Marx, preocupado essencialmente em como o capitalismo se consolidou enquanto sistema dominante, partindo da própria formação da modernidade em sua dimensão social e Simmel, que pode ser lido como um autor muito preocupado em entender as implicações, na subjetividade, dos processos mais gerais que caracterizam a modernidade, ou o capitalismo como estou entendendo aqui. Eles partem de premissas relativamente diferentes, assim como chegam a conclusões igualmente diferentes, mas seu destaque merece ser feito em duas dimensões mais básicas; (I) na forma como, direta ou indiretamente, esses dois autores montam uma crítica contundente às formas tipicamente modernas/capitalistas de relações sociais e (II) como(se) eles estabelecem possibilidades de superação dessas mesmas formas. De uma certa maneira, essa escolha remete ao modo como ambos abordam o problema da modernidade trazendo elementos diversos e de formas diversas. 1  O que pretendo fazer aqui é me concentrar nesses dois autores na tentativa de montar um quadro de referências, do ponto de vista teórico, de como o Ocidente capitalista se formou e de como essa formação é entendida em suas dimensões políticas, sejam elas partindo de uma análise visando a superação do sistema (Marx) seja como um movimento trágico da vida ocidental (Simmel). A ideia fundamental aqui é colocar Marx e Simmel em diálogo, construir algumas ferramentas analíticas para entender o capitalismo, assim como refletir politicamente sobre essas duas analises. Para que isso possa ser feito uma pergunta me parece fundamental: qual seria o sentido político da formação do capitalismo para Marx e Simmel? Responder essa pergunta será uma tarefa um tanto quanto difícil, principalmente tendo em vista o esforço de não avaliar as duas obras apenas pelas suas implicações políticas, tentando dar espaço para um dialogo interessante entre os dois autores, dentro de seu referencial mais geral.Na tentativa de responder a essa pergunta, vou guiar a argumentação a partir do problema, fundamental para os dois autores, da alienação. Em um primeiro momento, uma apreciação de alguns textos de Marx onde a avaliação das implicações políticas do capitalismo se coloca como mais central, na tentativa de entender o processo que dá sentido ao conceito de alienação no autor. Depois, seguirei tentando mapear como esse mesmo aspecto aparece, se é que aparece, em Simmel, a partir da formação da economia do dinheiro e com o consequente sentido alienador que ela tem. Dessa forma, o principal objetivo desse caminho é fazer um panorama desses dois autores entendendo as motivações implícitas, ou explícitas, nas suas análises. A conclusão será feita nessa premissa fundamental, ou seja, como entender a alienação, em termos de formação do capitalismo ocidental, e como pensar uma superação para isso. A esperança: a alienação como um momento na história do Ocidente. Dentro de todo o fervoroso século XIX, com todas as transformações e com todas as questões que começaram a surgir como problemas, uma delas parece mobilizar parte dos esforços em entender a sociedade humana: o problema da alienação. Na verdade, colocando em perspectiva, a questão fundamental era saber como o princípio de historicidade – os serem 2  humanos são capazes de produzir a sua própria história – se relaciona com o princípio de contingência – a história escapa ao seu controle (Vandenberghe, 2012: 43). Esses temas, na análise de Vandenberghe, fazem parte da querela na oposição entre a socialização consciente e a autonomização do social. Efetivamente, esses aspectos colocam em questão não só o fundamento do antigo regime – o ordenamento divino dos assuntos humanos – mas também põem em cheque um princípio moderno fundamental, ou seja, de que os seres humanos controlam o seu próprio destino. Afirmar algum grau de autonomização do social é questionar essa centralidade do humano 1  como criador de si mesmo.É dentro dessa oposição que se localiza o problema da alienação. E também é dentro desse problema que se pode ter uma primeira conclusão, na verdade a única conclusão possível: entender a alienação como um problema é entendê-la a partir de uma preocupação política, seja ela de ordem expressa da superação da alienação, seja como uma conformação desse processo, nesse sentido não como alienação mas sim como ordem 2  (Ibid.: 45) 3 . É tentando entender a alienação enquanto um processo, e visando a superação disso, que se localiza o pensamento de Marx. É possível entender o cerne do pensamento de Marx a partir de sua preocupação com o tema da alienação 4 Tentando mapear o problema da alienação dentro da sociologia alemã, Vandenberghe divide a teoria marxiana da alienação em dois momentos distintos – como dois pontos de convergência. O primeiro deles, a sua inauguração, a partir dos  Manuscritos econômicos- filosóficos  de 1844 e o segundo na clássica formulação presente em O Capital  (Ibid.: 48). Essa 1É sempre bom lembrar que, quando eu falo “humano”, estou tentando não empregar o uso falocêntrico da palavra “homem” como gênero supostamente neutro e totalizante. O pensamento dos séculos XIX e XX usou sem preocupações a palavra “homem” nesse sentido. Não vou reproduzir aqui para tentar dar uma certa amplitude ao debate, mesmo sabendo que esse questionamento, do ponto de vista da escrita, seja um pouco anacrônico. 2O pensamento ultra liberal da escola austríaca está preocupado como esse ordenamento sem a interferência externa (Vandenberghe, 2012: 46). Evidentemente que, dentro do que conhecemos como neo-liberalismo, esse ordenamento sem interferência só é aplicado ao mercado. 3Por trás dessas abordagens está a preocupação efetiva com o ideal moderno da autonomia e como salvar essa autonomia em meio ao ordenamento estrutural. Na esquerda e na direita, essa questão permanece.4Lefebvre (1968), sobre essa questão, fala que, para pensar uma sociologia a partir de Marx, o tema da alienação é inevitável. 3  distinção é importante pois, faz o caminho que vai de uma concepção genérica de ser humano, onde a alienação é o que afasta o elemento humano do ser, até uma análise estrutural que ressalta como, tomando a questão trabalho dentro do capitalismo, o trabalhador é alienado dos produtos de seu trabalho. Marx dá um estofo grande a essa análise, o primeiro volume de O Capital  trata basicamente desse processo, do problema da alienação e da restruturação produtiva a partir desse aspecto. Não quero, como Vandenberghe, fazer uma metacrítica da teoria da alienação em Marx, minha questão aqui é entender a formação política do capitalismo no Ocidente a partir desse problema. Assim, vou me concentrar na alienação enquanto um problema e uma característica histórica do Ocidente, na tentativa de mapear como o processo de alienação pode ser entendido e superado na visão de Marx.Em um trecho da parte final dos manuscritos 5  Marx fala: “O trabalhador se torna tão mais pobre quanto mais riqueza produz, quanto mais a sua produção aumenta em poder e extensão. O trabalhador se torna uma mercadoria tão mais barata quanto mais mercadorias cria. Com a valorização  do mundo das coisas aumenta em proporção direta a desvalorização  do mundo dos homens. O trabalho não produz só mercadorias; produz a si mesmo e ao trabalhador como uma mercadoria , e isto na proporção em que produz mercadorias em geral” (Marx, 1989: 148).Esse fragmento já diz em que proporções o problema da alienação é tratado. A estruturação do capitalismo enquanto modo de produção, lembrando sempre que essa estruturação é entendida como a estruturação de um sistema de dominação, é pautada no trabalho alienado enquanto base produtiva fundamental. Essa característica, que define e configura o trabalho no capitalismo, é generalizada para todos os ambientes dos assuntos humanos. Levando em consideração que todos estão sob o regime capitalista, todo trabalho humano é alienado, no sentido de estar subjugado ao acúmulo de capital. A lógica da mercadoria, que não está ainda formulada por completo nos manuscritos , é a lógica do capitalismo enquanto sistema de trocas generalizado. Esse primeiro aspecto da alienação, de uma certa forma, coloca a alienação como uma característica central do capitalismo. Não é 5Para facilitar a escrita, vou abreviar os  Manuscritos econômicos-filosóficos  como manuscritos e O Capital como Capital. 4
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