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A Tragédia Shakespeareana numa Perspectiva Nietzschiana

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Uma tentativa de interpretar tragédias de Shakespeare, em especial Otelo e Macbeth, com o auxílio das idéias de Nietzsche a respeito da tragédia.
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  Universidade Estadual de GoiásFaculdade de FilosofiaPós-Graduação (Mestrado)A TRAGÉDIA SHAKESPEAREANASOB UMA PERSPECTIVA NIETZSCHIANAEduardo Carli de MoraesDisciplina: “O trágico na ação – Arendt e Nietzsche”Professor: Adriano CorreiaGoiânia, Julho de 2011  I.A TRAGÉDIA GREGA NA PERSPECTIVA NIETZCHIANA  Nietzsche, filósofo que iniciou sua carreira na área da filologia, tornando-se mestre na artede interpretar os textos clássicos da Antiguidade greco-romana, demonstra já em suas primeirasobras um rico e extenso conhecimento sobre a produção cultural da civilização grega. Provam-nosua obra dedicada aos filósofos pré-socráticos,  A Filosofia Na Era Trágica dos Gregos , ondediscute as concepções de Demócrito, Anaximandro, Heráclito, Parmênides, dentre outros, e O Nascimento da Tragédia, em   que reflete sobre a história da cultura grega tendo como fio condutor atransformação histórica que gerou, após o período homérico, a tragédia ática de Ésquilo e Sófocles,especulando como esta foi posteriormente “assassinada” pela ascensão da filosofia de Sócrates eseu arauto na dramaturgia, Eurípides. O Nascimento da Tragédia é um livro de juventude, cujas ideias surgiram sob a influênciaintensa de Schopenhauer e Wagner, escrito em estilo intempestivo e repleto daquela “tempestade eímpeto” [ Sturm und Drang  ] que era então lema dos românticos. Nesta obra, Nietzsche ousa “ver aciência com a óptica do artista, mas a arte, com a da vida...” 1 Um dos mistérios que o filósofo sededica a aclarar é o seguinte: “a mais bem-sucedida, a mais bela, a mais invejada espécie de genteaté agora, a que mais seduziu para o viver, os gregos – mas como? Precisamente eles tiveramnecessidade da tragédia? Mais ainda – da arte?” 2  Segundo Nietzsche, a tragédia grega representaria uma síntese entre dois princípiosadversários, batizados em homenagem aos dois deuses da arte no panteão helênico, Apolo eDioniso. Haveria um “extraordinário antagonismo, tanto de srcem como dos fins, que subsiste nomundo grego entre a arte plástica, a apolínea, e a arte não-plástica da música, aquela de Dioniso” 3 .Do casamento entre estes princípios aparentemente irreconciliáveis, e que segundo Nietzscheestabelecem sua primeira aliança com o advento da tragédia ática, surge esta notável obra-de-artemesclada e inédita: a tragédia musical grega, a um só tempo apolínea e dionisíaca.O apolíneo, que representaria uma “divinização do princípio de individuação” de que tantofala Schopenhauer em O Mundo Como Vontade e Representação , preza pela conservação daindividualidade, da razão, da medida, da moral. “Apolo nos aparece como a divinização do  principium individuationis”, escreve Nietzsche:   “ Essa divinização da individuação, particularmente se for considerada como imperativa e prescritiva, não conhece senão uma única lei, o indivíduo, isto é, a manutenção doslimites da personalidade, a medida, no sentido helênico. Apolo, como divindade ética,exige dos seus a medida e, para poder conservá-la, o conhecimento de si. E assim, ànecessidade estética da beleza vem se juntar a disciplina desses preceitos: 'Conhece-te a timesmo!' e 'Nada em demasia!' - enquanto a autopresunção e o exagero são os demônioshostis da esfera não-apolínea e, nessa qualidade, pertencem realmente ao tempo pré-apolíneo, à época dos Titãs e do mundo extra-apolíneo, isto é, ao mundo bárbaro. Por causa de seu amor titânico pelos homens, Prometeu acabou sendo dilacerado pelo abutre; por causa de seu excessivo saber que o levou a decifrar o enigma da esfinge, Édipo foiarrastado num turbilhão inextricável de monstruosos crimes: é assim que o deus de Delfosinterpretava o passado grego.” Já o princípio dionisíaco é responsável pela “abolição do eu” típica dos estados deembriaguez ou êxtase místico, estado aparentado àquilo que Romain Rolland, num conceito quetornar-se-ia caro a Freud, chamava de “sentimento oceânico”. O apolíneo fala em prol do Eu; o 1NIETZSCHE. O Nascimento da Tragédia . São Paulo: Cia das Letras. P. 16.2Op cit. P. 14.3Op Cit. Capítulo 1. P. 27. Ed. Escala.  dionisíaco, em prol da dissolução do Eu no todo. O apolíneo é “socrático”, racionalista, sensato; odionisíaco é “pagão”, sensualista, desmesurado. No templo de Apolo, os estandartes são o“Conhece-te a ti mesmo!” e o “Nada em Demasia!”; já o deus Dioniso, apesar de não ter templofixo (os rituais em sua homenagem são celebrados nos carnavais, nas festas, nas danças, nasorgias...), sugereria a seu entusiasta algo como: “Dissolve teu Eu naquilo é maior que Ti!” e“Embriague-se até esquecer-se de si mesmo!” Nos rituais dionisíacos gregos, sugere Nietzsche, “eracomo se a natureza soluçasse por seu despedaçamento em indivíduos” e como se quisesse reunificá-la misticamente (“...sob o grito de júbilo místico de Dionísio, é rompido o feitiço da individuação efica franqueado o caminho para as Mães do Ser, para o cerne mais íntimo das coisas...” 4 ). “Seja por influência da beberagem narcótica, da qual todos os povos e homens primitivosfalam em seus hinos, ou com a poderosa aproximação da primavera a impregnar toda anatureza de alegria, despertam aqueles transportes dionisíacos por cuja intensificação osubjetivo se desvanece em completo auto-esquecimento.” (...) “Sob a magia dodionisíaco torna a selar-se não apenas o laço de pessoa a pessoa, mas também a naturezaalheada, inamistosa ou subjugada volta a celebrar a festa de reconciliação com seu filho perdido, o homem.” (...) “Agora, graças ao evangelho da harmonia universal, cada qualse sente não só unificado, conciliado, fundido com seu próximo, mas um só, como se ovéu de Maia tivesse se rasgado e, reduzido a tirar, esvoaçasse diante do misterioso Uno- primordial” 5 .  4Op Cit. P. 92.5Op Cit. P. 30-31.  II. O SOCRATISMO E A MORTE DA TRAGÉDIA Desta aliança apolínea-dionisíaca, teriam surgido as mais clássicas das tragédias de Ésquilo(  Prometeu Acorrentado ) e Sófoles (  Édipo Rei, Antígona ). Mas se perguntássemos a Nietzsche quemfoi que matou a tragédia, ele apontaria um dedo indicador acusatório ao homem que Atenascondenou a beber a cicuta: Sócrates. “Em Sócrates, se materializou um dos aspectos do helenismo,aquela claridade apolínea , sem mescla de nada estranho” 6 . É com ele que uma “tendênciaantidionisíaca” irá “ganhar uma expressão inauditamente grandiosa” 7 .Este “lógico despótico”, este“mistagogo da ciência”, que não gostava das tragédias e dissuadia seus dissípulos de frequentar  peças trágicas, foi o carrasco da arte que tinham criado Sófocles e Ésquilo. “Basta imaginar asconsequências das máximas socráticas: 'Virtude é saber; só se peca por ignorância; o virtuoso é omais feliz'; nessas três fórmulas básicas jaz a morte da tragédia...”, aponta Nietzsche 8 . Em contrastecom isto, “a tragédia, que surgiu da profunda fonte da compaixão, é pessimista por essência. Aexistência é nela algo de extremamente horrível e o ser humano algo realmente insensato. O heróida tragédia não fica em evidência, como pensa a estética moderna, na luta com o destino – etampouco sofre o que merece. Pelo contrário, precipita-se em sua desgraça cegamente e de olhosvendados. 9 ”“Sócrates é o protótipo do otimista teórico”, escreve Nieztsche. Ele possui “fé naescrutabilidade da natureza das coisas” e “atribui ao saber e ao conhecimento a força de umamedicina universal”, percebendo “no erro o mal em si mesmo” 10 . Sócrates, pois, é o primeiro“homem teórico”, o precursor ancestral da ciência, tida por Nietzsche como “a oposição mais ilustreà consideração trágica do mundo”):“Todo o nosso mundo moderno está preso na rede da culturaalexandrina e reconhece como ideal o homem teórico, equipado com as mais altas forças cognitivas,que trabalha a serviço da ciência, cujo protótipo e tronco ancestral é Sócrates. Todos os nossosmeios educativos têm srcinariamente esse ideal em vista...” 11 Com o socratismo vem ao mundo “uma profunda representação ilusória”: a “inabalável fé deque o pensar, pelo fio condutor da causalidade, atinge até os abismos mais profundos do ser e que o pensar está em condições, não só de conhecê-lo, mas inclusive de corrigi-lo...”. Atitude esta que Nieztsche não poupa de rotular como uma “sublime ilusão metafísica” 12 . Pois há aquilo que aciência não explica, aquilo que a assombra, aquilo que derruba sua fé em si mesma. Pois todohomem de ciência acaba por “tropeçar, e de modo inevitável, em tais pontos fronteiriços da periferia, onde fixa o olhar no inesclarecível” 13 . Sob a influência do “socratismo”, nasce a dramaturgia de Eurípides: “a divindade que falava por sua boca não era Dionísio, tampouco Apolo, porém um demônio de recentíssimo nascimento,chamado Sócrates. Eis a nova contradição: o dionisíaco e o socrático, e por causa dela a obra de arteda tragédia grega foi abaixo... o mais esplêndido templo jaz em ruínas...” 14 Este socratismo estéticoassassina o trágico e o dionisíaco ao exigir que tudo fosse inteligível e compreensível para que pudesse ser belo. A arte estava se tornando engessada pela razão , e Sócrates nascia como umadversário, inimigo em franca batalha contra o deus Dionísio.Em Nieztsche, começa a ser tirada a coroa de rainha da cabeça presunçosa da Razão, que 6NIETZSCHE. “Sócrates e a Tragédia”. Apêndice à  Filosofia na Era Trágica dos Gregos . São Paulo: Escala. P. 134.7NIETZSCHE. O Nascimento da Tragédia . São Paulo: Cia das Letras. P. 90.8Op Cit. P. 89.9Op Cit. P. 136.10Op Cit.11Op Cit. P. 109.12Op Cit. P. 93.13Op Cit. P. 95.14Op Cit. P. 79.
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