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A VARIAÇÃO ENTRE CONSTRUÇÕES FINITAS PESSOAIS E IMPESSOAIS NO PORTUGUÊS BRASILEIRO

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A VARIAÇÃO ENTRE CONSTRUÇÕES FINITAS PESSOAIS E IMPESSOAIS NO PORTUGUÊS BRASILEIRO Mary Aizawa Kato * (UNICAMP) Maria Eugenia Lammoglia Duarte º (UFRJ) RESUMO:
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A VARIAÇÃO ENTRE CONSTRUÇÕES FINITAS PESSOAIS E IMPESSOAIS NO PORTUGUÊS BRASILEIRO Mary Aizawa Kato * (UNICAMP) Maria Eugenia Lammoglia Duarte º (UFRJ) RESUMO: O português brasileiro (PB) em decorrência de mudanças na representação do sujeito referencial, com preferência por pronomes expressos, apresenta uma competição nas sentenças impessoais entre sujeitos expletivos nulos e alçamento de constituintes argumentais e locativos. Este trabalho procura mostrar que as distinções paramétricas entre o PE e PB se encontram particularmente no domínio da morfologia flexional, o que produz estruturas semelhantes e diferentes, em especial nas estruturas de Deslocamento (DE). PALAVRAS-CHAVE: sujeitos referenciais; sujeitos expletivos; português europeu: português brasileiro; sujeitos nulos ABSTRACT: As a consequence of changes in the representation of referential subjects, with preference for overt pronominal subjects, Brazilian Portuguese shows, in impersonal sentences, a competition between null expletive subjects and the raisin of arguments and adjuncts to the subject position. This paper shows that parametric distinctions between BP can be attributed to the inflectional morphology, which produces similar and different structures, particularly Lefts Dislocated structures KEYWORDS: referential subjects; expletive subjects; European Portuguese; Brazilian Portuguese; null subjects 1. Introdução O português brasileiro (PB) vêm mostrando um declínio na ocorrência do sujeito nulo definido, um fenômeno atestado em estudos diacrônicos com base em peças de teatro de caráter popular (cf. Duarte 1993; 2012), bem como na fala espontânea (cf. Duarte, 1995; 2003): * Bolsa de Produtividade do CNPq: /2011-0) º Bolsa de Produtividade do CNPq: (305774/2010-7) Web-Revista SOCIODIALETO: Bach., Linc., Mestrado Letras UEMS/Campo Grande, v. 4, nº 12, mai (1) a. Já ontem comprei-lhe i o hábito com que Ø i andará vestido. Assim Ø i não estranhará. Ø i Será frade feliz. (O noviço, Martins Pena, 1845) b. Dona Bárbara : Quem sabe ela não sofre de vermes? Filomena : O próprio médico não sabe o que é. Ø 3ps Sente umas coisas que sobem e descem; às vezes Ø 3ps fica meia apatetada. (Caiu o Ministério, França Junior, 1883) (2) a. Dolores - Agora [ele] i não vai mais poder dizer as coisas que [ele] i queria dizer. (No coração do Brasil, Miguel Falabella, 1992) b. Minha esposa trabalha na Embratel. Ela ganha bem, mas eu acho que ela devia ganhar mais porque ela merece. (fala popular) A mudança é igualmente atestada em entrevistas transcritas e artigos publicados em jornais e revistas, em comparação com o português europeu (PE) (cf. Duarte, 1993, 1995, 2007; Barbosa, Duarte & Kato, 2005, entre outros). dois séculos. O Gráfico 1, a seguir, ilustra o decréscimo de sujeitos nulos no PB ao longo de 90% 80% 70% 60% 50% 40% 30% 20% 10% 0% 80% 77% 75% 72% 71% 57% 63% 56% 54% 50% 41% 43% 36% 27% Sujeitos Nulos 3a. Pessoa Gráfico 1. Decréscimo de sujeitos nulos ao longo de dois séculos no PB (Duarte, 1993; 2012) Web-Revista SOCIODIALETO: Bach., Linc., Mestrado Letras UEMS/Campo Grande, v. 4, nº 12, mai O decréscimo de sujeitos nulos apontado na primeira linha do gráfico 1, de Duarte (1993), reúne sujeitos de primeira, segunda e terceira pessoas e a análise dessas três pessoas do discurso separadamente indicava que na terceira pessoa a mudança se dava mais lentamente. Uma análise posterior (Duarte, 2012), refinado os dados de terceira pessoa segundo o feixe de traços [+/-humano] e [+/-específico], mostra que, com referentes que combinam os traços [+humano/ +específico], a mudança acompanha de perto a primeira e segunda pessoas, que têm o traço inerentemente [+humano] (cf. Cyrino, Duarte e Kato, 2000, sobre a hipótese da atuação de uma hierarquia referencial em processos de mudança que envolvem a pronominalização). De fato, a observação da segunda linha, que representa os sujeitos de terceira pessoa com tal conjunto de traços, mostra que estes seguem de perto o conjunto dos sujeitos analisados em Duarte (1993). Entretanto o PB continua a exibir sujeitos nulos em sentenças impessoais, uma característica que o torna uma língua de grande interesse para linguistas trabalhando na Teoria de Princípios e Parâmetros (TPP), juntamente com outras línguas cujo comportamento em relação ao sujeito nulo não se submete estritamente às previsões do Parâmetro do Sujeito Nulo (PSN), tal qual formulado em Chomsky (1981) e Rizzi (1982). Os exemplos do PB em (3), cujos correspondentes no inglês, uma língua marcada como de sujeito não-nulo (-SN) exibem necessariamente um expletivo lexical it ou there (4) ilustram essa propriedade: (3) a. Ø expl Chove muito nessas florestas. b. Ø expl Tem prédios lindos no Rio. c. Ø expl Me custou chegar em casa. d. Ø expl Parece que eu vou explodir de raiva. (4) a. It rains a lot in these forests. b. There are beautiful buildings in Rio. c. It cost me a lot to get home. d. It seems that I am going to explode in anger. Web-Revista SOCIODIALETO: Bach., Linc., Mestrado Letras UEMS/Campo Grande, v. 4, nº 12, mai Por outro lado, uma variedade falada do espanhol da República Dominicana, que está perdendo o caráter de língua +SN, como o PB, criou um expletivo pronominal para esses casos, o que mostra que esse dialeto está caminhando nitidamente para um novo tipo de gramática -SN (cf. Toríbio 1996) 1. (5) a. Ello quiere llover. b. Ello hay muchos mangos este año. c. Ello parece que no hay azúcar. O PB, no entanto, ao lado de sentenças com o expletivo nulo como os casos ilustrados em (3), exibe casos em que algum argumento, além do adjunto locativo, sobe para a posição de sujeito, eliminando a necessidade do expletivo nulo. (5) a. Essas florestas chovem muito. b. O Rio tem prédios lindos. c. Eu custei a chegar em casa. d. Eu pareço que eu vou explodir de raiva. e. O Fluminense faltou sorte no segundo tempo. No PB, há ainda um caso inusitado de alçamento de um argumento do nome um possessivo -- para a posição de sujeito (ex. 6a). Tal tipo de alçamento se encontra comumente em línguas de proeminência de tópico, segundo tipologia de Li e Thompson (1976), como o japonês (ex. 6b), que marca o sujeito alçado com wa, um tópico. (6) a. O carro furou o pneu. b. Kuruma-wa panku shita. 1 Para Toríbio, um sujeito nulo referencial pressupõe sujeito expletivo nulo, mas não o reverso. Cyrino, Duarte e Kato ( 2000) também propõem o mesmo. Web-Revista SOCIODIALETO: Bach., Linc., Mestrado Letras UEMS/Campo Grande, v. 4, nº 12, mai Segundo Duarte e Kato (2008), a explicação para tais estruturas seria a de que o PB estaria mudando de uma língua de proeminência de sujeito para uma língua de proeminência de tópico, segundo a tipologia de Li e Thompson (1976), ou de proeminência discursiva, segundo a terminologia de Kíss (2002) 2. Além das estruturas acima mencionadas, a construção de duplo sujeito no PB, que atraiu a atenção de Pontes (1987) e Galves (1987) e vem merecendo sucessivas análises à luz de diferentes correntes teóricas, tem sido apontada como um traço que distancia também o PB das línguas de proeminência de sujeito. Os exemplos em (7) mostram que o traço [+/-humano], [+/-específico] não restringe, como na maioria da línguas, a ocorrência da estrutura, que pode ainda exibir DPs quantificados: (7) a. [Essa competência] i, ela i é de natureza mental. (Pontes 1987) b. [Mulher nenhuma] i ela i pode querer dominar o homem. [O homem] i ele i é livre por natureza. [A mulher] i ela i tem que aceitar isso. c. [Toda criança] i ela i aprende rápido a gostar de coca-cola. d. [O que é bom, o que é de qualidade] i ele i fica; [o que é ruim] ele i se perde. Este artigo busca rediscutir esse conjunto de estruturas pessoais e de deslocamento como evidência da preferência, no PB, por preencher a posição do sujeito através de Movimento (ou merge interno), do que através da inserção de um expletivo nulo (ou merge externo), preferência esta característica do PE. 3 Na seção 2, veremos algumas noções de relevância para a discussão dos dados empíricos levantados. Em 3, reveremos a noção de parâmetro e defenderemos a perspectiva Kayneana de microparâmetros que embasará a nossa análise. Na seção 4 apresentaremos a discussão de Costa (2010) sobre o PE em relação aos dados de Kato e Duarte (2008), similares aos dados vistos na seção 1. Na seção 5, exporemos as nossas generalizações empíricas e análises preliminares sobre o conjunto de dados. 2 Cf. Modesto (2008) que defende uma proposta nessa linha também. 3 Nos dois casos se satisfaz o EPP. Web-Revista SOCIODIALETO: Bach., Linc., Mestrado Letras UEMS/Campo Grande, v. 4, nº 12, mai 2. As noções relevantes para o entendimento dos fatos Uma noção crucial para o entendimento da posição do sujeito na sentença é a noção de sentença categórica e sentença tética 4. Para a lógica clássica todo juízo deve ser expresso na forma de uma estrutura composta de um sujeito lógico e um predicado. Há, portanto, dois atos cognitivos: o reconhecimento de um sujeito e a atribuição de um predicado ao sujeito. Para Kuroda (1972), no entanto, há, na verdade, dois tipos de julgamento: o categórico e o tético. O categórico, com a estrutura sujeito-predicado, e o tético, com um único ato cognitivo, de descrição de um evento ou estado, sem singularizar um sujeito 5. Em uma sentença categórica no PB e no PE, o sujeito pode aparecer como sujeito gramatical na ordem SV(X) (ex. (8)), ou como um tópico à esquerda (ex. (9) ) 6. Em contexto, a sentença categórica responde a uma pergunta sobre o sujeito: (8) A: E o Corintians? B: O Corintians venceu o Palmeiras. BP EP (9) A: E o Itaquerão? B: O Itaquerão, a Fifa vai ajudar no acabamento. BP EP Outra construção de juízo categórico é o chamado Deslocamento à Esquerda (DE), em que o sujeito lógico é o elemento deslocado e o sujeito gramatical é coreferente ao tópico deslocado. No PB esse sujeito gramatical não pode ser nulo, um efeito da mudança mencionada no início deste trabalho, enquanto no PE ele é 4 V. estudo de Britto (2000). 5 Podemos relacionar a sentença categórica ao sentido de sentença aristotélica, e a sentença tética à formulação Fregeana de sentença (cf. Kato e Mioto 2009). 6 No japonês, língua estudada por Kuroda, a distinção se faz morfologicamente. Nos dois casos de (8) tanto o sujeito quanto o tópico vêm marcados com o morfema wa. Web-Revista SOCIODIALETO: Bach., Linc., Mestrado Letras UEMS/Campo Grande, v. 4, nº 12, mai necessariamente nulo. Nas duas variedades o sujeito gramatical pode ser um demonstrativo 7. (10) A: E o Ronaldo? B1. O Ronaldo i, ele i não vai jogar na seleção. BP *PE B2. O Ronaldo i, Ø i não vai jogar na seleção. *BP PE B3. O Ronaldo i, esse não vai jogar na seleção. BP PE O juizo tético é expresso no PE com a ordem VS. No PB só sentenças téticas com verbo inacusativo ou existencial aparecem nessa ordem. Com os demais tipos de verbo, a ordem é preferencialmente SVX no PB 8. A resposta tética pode responder a uma pegunta do tipo: O que aconteceu?, O que se passa? (11) A: O que aconteceu? B1. Morreu o José Wilker. BP EP B2. Chegou o IPhone novo. BP EP (12) A: O que se passa? B1: Está um gato a dormir no jardim. EP *BP B2: Um gato está dormindo no jardim. #EP BP Uma outra noção importante para a compreensão do nosso estudo é a distinção entre pronomes fortes e fracos. O pronome forte no PB e no PE é sempre tônico e aparece na posição de DE. O pronome fraco, que é átono, aparece na posição de sujeito gramatical. Para Kato (1999) e Kato e Duarte (2014) o sujeito gramatical no PB é um pronome fraco quasi-clítico. No PE, ele é um sufixo pronominal, donde a posição de sujeito aparecer vazia (Ø). 7 Nas línguas +SN o sujeito é sempre nulo nessas estruturas 8 Isso atesta mais uma mudança no PB, dentro do chamado Parâmetro do sujeito nulo. Web-Revista SOCIODIALETO: Bach., Linc., Mestrado Letras UEMS/Campo Grande, v. 4, nº 12, mai (13) a. Você, cê tá louco! b. Tu, Ø estás louco! Web-Revista SOCIODIALETO O redobro que temos em (13a) frequentemente aparece como pronome idênticos (Você, você tá louco), isso porque na transcrição dos dados procura-se a forma convencional da escrita. Mas Nunes (1990) mostra a natureza quasi-clítica dos pronome fracos no PB quando o fenômeno é estudado via fonologia. (14) a. eu [ô] b. você [cê] c. ele [ey] d. eles [eys] 4. Parâmetros e micro-parâmetros Como dissemos na introdução a este artigo, o comportamento do PB passou a ser de grande interesse para linguistas trabalhando na Teoria de Princípios e Parâmetros (TPP), juntamente com outras línguas cujo comportamento em relação ao sujeito nulo não se submetia estritamente às previsões do Parâmetro do Sujeito Nulo ( PSN), tal qual formulado em Rizzi ( 1982). Inicialmente acreditava-se que as línguas que permitiam sujeito nulo seriam uma classe uniforme, com propriedades que não se limitavam apenas ao sujeito nulo, mas que exibiam, além do sujeito nulo, um conjunto de características, como, por exemplo, o sujeito posposto (Rizzi, 1982). A primeira tentativa de desconstrução dessa perspectiva vem de Borer (1984), para quem a variação sintática nas gramáticas das línguas naturais vem do léxico mais precisamente do léxico funcional -- abordagem que veio a ser conhecida como a Conjectura Borer-Chomsky. O que hoje se denomina linha microparamétrica vai também nessa direção, pois a pergunta que Kayne (2000) se coloca é quais seriam as unidades mínimas que diferenciam gramáticas?. Web-Revista SOCIODIALETO: Bach., Linc., Mestrado Letras UEMS/Campo Grande, v. 4, nº 12, mai A nossa abordagem, neste trabalho, é na linha microparamétrica, que vem sendo utilizada principalmente para caracterizar gramáticas muito próximas, como dialetos da mesma língua nacional. Aqui a comparação é principalmente entre o PB e o PE, que abordaremos na próxima seção. 4. Comparando PB com PE 4.1. Estruturas compartilhadas Segundo Costa (2010), referindo-as às estruturas apresentadas por Duarte e Kato (2008), recorrer a primitivos discursivos para explicar eventuais diferenças não é necessário, uma vez que elas seriam facilmente explicáveis à luz de propriedades sintáticas relacionadas a Flexão (INFL). Tal rediscussão será feita à luz dos argumentos de Costa (2010), para quem os conjuntos de estruturas apresentadas a seguir são atestados e mesmo produtivos no PE. O primeiro conjunto apresentado por Duarte e Kato (2008), que não seria estranho ao PE segundo Costa (2010), é aquele que exibe construções com verbos quasiargumentais com sujeitos lexicais locativos e dêiticos (Duarte 2004): (15) a. Petrópolis, aquilo chove demais. b. A Bahia tem muitas mangas. b. Aqui tá quente. c. São Paulo chove; o Rio faz sol. De fato, Costa (2010) apresenta estruturas extraídas da internet (16a,b) e algumas construídas (16c), mas aceitas naturalmente por falantes do PE. (16) a. O largo Camões, aquilo faz um frio PE b. Aqui está calor. PE c. O Barlavento faz mais vento. PE Web-Revista SOCIODIALETO: Bach., Linc., Mestrado Letras UEMS/Campo Grande, v. 4, nº 12, mai A única construção que não encontra paralelo em PE é a que aparece em (15d), mas o autor levanta a hipótese de que o que está em jogo não seria exatamente a posição pré-verbal mas o sistema de concordância do PB. Se levarmos em conta, porém, que o próprio autor chama a atenção para o enfraquecimento da concordância no PB e nele embasa a sua argumentação, podemos dizer que há aqui um ponto que merece atenção nessa diferenciação. O segundo conjunto diz respeito à preferência por construções com ter existencial pessoalizadas (Kato e Tarallo, 1986, Duarte, 2003b, Callou e Duarte, 2005, Callou e Avelar, 2007): (17) a. Cê tem prédios lindos em Londres. b. Eu tenho uma papelaria ali na esquina que tira cópia baratinho. c. A gente não tem mais comércio no centro da cidade. A esse respeito, os dados de Costa, em (18) a seguir, não deixam dúvida de que tal expansão de ter possessivo é comum em PE e, certamente, é de uso mais geral nas línguas naturais: (18) a. A gente tem uma boa padaria no bairro. PE b. Nós temos muita corrupção no país. PE c. Tu tens muitos perigos em Setúbal. PE d. Eu tenho um aeroporto perto de casa e não consigo dormir. PE Num sistema como o PB, em que o verbo haver existencial está praticamente extinto da fala, a ocorrência de ter existencial em construções impessoais revela ampla concorrência com as estruturas pessoais em (18) acima, além de aceitar o alçamento de constituintes argumentais (19b-c) e não argumentais (19d) (cf. Avelar, 2009, Marins, 2013, entre outros. Web-Revista SOCIODIALETO: Bach., Linc., Mestrado Letras UEMS/Campo Grande, v. 4, nº 12, mai (19) a. Tem leite [na porta da geladeira]. b. [Na porta da geladeira] i tem leite [t] i. c. [A porta da geladeira] i tem leite [t] i. d. [A geladeira] i tem leite [na porta t i ]. Passemos ao terceiro conjunto de dados compartilhados entre PB e PE segundo Costa. Trata-se das construções conhecidas como hiperalçamento ou hiperelevação do sujeito da encaixada de construções com parecer, como em (20a,b), que não seguem o alçamento padrão com verbo no infinitivo (cf. FERREIRA 2000; DUARTE 2004, MARTINS e NUNES 2005) 9 ou alçamento de tópico, como em (20c, d), que Martins e Nunes (2008) analisam como como hiperalçamento aparente ou alçamento de tópico: (20) a. Tem ocasiões que eu i nem pareço [que [ TP t i sou brasileiro]. b. [Caso [as aulas] i pareçam [que [ TP t i vão voltar ]]eu mando eles pra escola de novo. c. Quando eu brigo, [EU pareço [que [ TopP t ] i [ TP eu vou explodir de raiva]. d. VOCÊS parecem [que [ TopP t ] i [ TP cês não pensam na vida]. Também para as estruturas em (20a,b) Costa apresenta estruturas paralelas, consideradas por Costa e Rooryk (1995) como casos de pseudo-elevação, ilustradas em (21a-c), além de dados extraídos da internet, em (21d,e) 10 : (21) a. Eu pareço que estou cansado. PE b. Tu pareces que estás parvo. PE c. Nós parecemos que estamos doentes. PE 9 Nunes (2008) revê a proposta de Martins e Nunes (2005) para licenciamento do movimento A. 10 Segundo a representação de hiperalçamento nos moldes de Ferreira (2000) Martins e Nunes (2005), a representação dos exemplos de Costa em (21) teriam o sujeito vazio, um vestígio de movimento, como nos exemplos (20a-b) do PB. Web-Revista SOCIODIALETO: Bach., Linc., Mestrado Letras UEMS/Campo Grande, v. 4, nº 12, mai d. Não sei de que região és natural, mas pareces que está numa pega. PE e. As pessoas dizem que eu nem pareço que tenho 17 anos. PE Segundo Costa e Rooryk, a construção em PE parece sujeita a restrições aspectuais que mereceriam investigação. De todo modo, os exemplos se assemelham, pelo menos na forma, às instâncias consideradas por Martins e Nunes como de hiperalçamento apontadas em (20a,b), sem a presença de um pronome fraco em Spec,T da encaixada, ou com a presença de pronomes fracos, como mostram os dados (20c,d) acima. Embora as estruturas nas duas variedades envolvam hiperalçamento, no PB podemos encontrar categorias vazias ou pronomes fracos. Isso mostra que, enquanto no PE temos apenas hiperalçamento a partir do sujeito da encaixada, no PB podemos ter alçamento de tópico. Com o tópico em posição deslocada, o que se espera é mesmo um resumptivo, ou um pronome fraco. Finalmente, chegamos à ergativização de verbos transitivos (GALVES 1987, 1998; NEGRÃO e VIOTTI 2008), ilustrada em (22): (22) a. A revista tá xerocando. b. Com a reforma, meu jardim destruiu inteirinho. c. Esse prédio tá construindo desde que vendeu o terreno onde era a casa do vovô. Mais uma vez, Costa aponta, não só para a ocorrência de pares ergativos/transitivos mas chama a atenção, com base em Fiéis (2003), para o fato de se tratar de estrutura recorrente na história da língua: (23) a. O trabalho está a imprimir. PE b. O bolo está a coser. PE c. A fábrica fechou com a crise. PE Web-Revista SOCIODIALETO: Bach., Linc., Mestrado Letras UEMS/Campo Grande, v. 4, nº 12, mai d. A cadeira baloiçou com o vento. PE Esse tipo de ergativização é frequentemente encontrada nas línguas, até mesmo no inglês (cf. (24), e deixaremos
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