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A Vida Como Ela É... : O Limiar entre a Crônica e o Conto

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Silvana Maria de Souza NERY Mestranda pelo programa de Pós-Graduação em Comunicação
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    A Vida Como Ela É... : O Limiar entre a Crônica e o Conto Silvana Maria de Souza NERY Mestranda pelo programa de P ós -Gradua ção em Comunicação  UNIMAR  –   Universidade de Mar ília(SP)   RESUMO: Este estudo encerra uma an álise de dois contos de Nelson Rodrigu es, publicados na coluna di ária, A Vida como Ela é... , no jornal carioca Última Hora , no per íodo de 1951 a 1961. Os contos escolhidos são  A Dama do Lotação  e  As Gêmeas, porque eles representam o aspecto m áximo de sucesso e fama para o autor, uma vez que foram adaptados para   televis ão e cinema. Inicialmente, uma exposi ção sucinta sobre as srcens e características da crônica liter ária. Em seguida, a apresentação das características do conto, a fim de contemplar os objetivos deste trabalho acad êmico, que con sistem em apresentar o limiar entre a cr ônica e o conto presentes nos textos selecionados aqui:  A Dama do Lotação e  As Gêmeas.  Logo, uma breve exposi ção da biografia de Nelson Rodrigues, direcionando a uma abordagem sobre o universo das cr ônicas rodriguean as e suas classifica ções, como pre âmbulo ao estudo em si. É importante destacar que em Á vida Como Ela é... a maioria das cr ônicas transformou-se em contos, por ém, há características peculiares da crônica nestes dois textos. Palavras-Chave: cr ônica, cont o, Nelson Rodrigues,  A Vida Como Ela é...   Crônica A palavra cr ônica srcina -se do grego chronikós  (relativo ao tempo) e do Latim crhonica.  No in ício da era cristã o vocábulo designava uma lista ou relação de acontecimentos ordenados cronologicamente. A cr ônica registrava os eventos sem aprofundar-se nas causas, situando-se entre os anais e a Hist ória.    Consagrou-se depois do s éculo XII, na França, Inglaterra, Portugal e Espanha, quando se aproximou da Hist ória mostrando acentuados traços de ficção literá ria. A partir da Renascen ça o termo crônica cedeu vez à História. Livre da conotação histórica, o voc ábulo passou a revestir  -se do sentido liter ário, a partir do século XIX, para finalmente encontrar seu significado jornal ístico, como o conhecemos hoje. Sobre a palavra cr ônica Moisés Massaud (1979) escreveu:   Para qualquer brasileiro a palavra cr ônica tem sentido claro e inequ ívoco, embora ainda não dicionarizado: designa uma composição breve, relacionada com a atualidade, publicada em jornal ou revista. De tal forma esse significado est á generalizado que só mesmo os especialistas em historiografia se lembram de outro sentido bem mais antigo, o de narra ção histórica em ordem cronológica. (p.245)   Para Jos é Marques de Melo no Brasil, a crônica é o relato poét ico do real, situada na fronteira entre a informa ção da atualidade e a narração literária. Um gênero plenamente definido. J á em outros países o mesmo não ocorre. No jornalismo mundial a crônica está mais vinculada ao relato cronol ógico da narrativa históri ca. Sua natureza é controvertida e varia de pa ís para país. Foi com o sentido de relato histórico que a crônica chegou ao  jornalismo. Mas é no século XIX, como folhetim, que a crônica surge no jornalismo brasileiro, publicada junto com pequenos contos, artigos, ensaios breves, poemas em prosa. Um espa ço reservado nos jornais para informar aos leitores sobre os acontecimentos da semana. Nomes ilustres foram pouco a pouco transformando o folhetim, tornando-o um g ênero autônomo no jornalismo, transformando -o na cr ônica moderna. Para tanto contribu íram José de Alencar, Manuel Antonio de Almeida, Machado de Assis, Coelho Neto entre outros. Afr ânio Coutinho afirma que a crônica adquire personalidade com Machado de Assis, o qual se consagrou no g ênero, contribuindo  consideravelmente para a sua evolu ção.  A cr ônica, como gênero firmou -se no Brasil a partir de 1930, com nomes como o de M ário de Andrade, Manuel Bandeira, Carlos Drumond e Ruben Braga, que, de certo modo, seria o cronista exclusivo desse g ênero.  A partir dessa época o desenvolvimento da imprensa assume proporções empresariais, conduzindo a uma diversifica ção do seu conteúdo e à ampliação das se ções permanentes, para atender a um leitor mais exigente. Nesse âmbito, a crônica adquire um lugar especial, sendo o cronista o int érprete das mudanças que ocorrem na sociedade. A cr ônica se ajusta à nossa sensibilidade de todo dia. Retratando a vida, a cr ônica serve a vida de perto. Despretensiosa, ela se humaniza e aprofunda seu  significado. Ajuda-nos a estabelecer ou restabelecer a dimens ão das coisas e das pessoas, quase sempre com humor. Sua perspectiva n ão é nobre, nem pomposa, mas do simples dia-a-dia. Na sua f  órmula moderna, a crônica pode discorrer sobre um fato pequeno, uma not ícia, um toque de humor, uma pi tada de poesia e representa o seu encontro mais puro com a vida real e com seu c úmplice favorito, o leitor. Mas, apesar de sua leveza e aparente despreocupa ção espécie de conversa sem maior conseqüência, a crônica penetra fundo no significado dos atos e sentimentos do homem, aprofundando a cr ítica social. Aprende-se muito quando se diverte e os tra ços simples, graciosos e breves da cr ônica são um veículo privilegiado para mostrar de modo persuasivo muita coisa, que, divertindo, atrai e faz refletir, amadurecendo nossa vis ão das coisas. Por meio de um zigue-zague de aparente conversa fiada, a cr ônica pode fazer uma constatação de fatos sociais, econ ômicos e políticos, com doses de ironia trágica e descrição de retratos psicol ógicos.  Apesar da rapidez ser uma caracter ística da crônica, ela é uma somatória de pesquisa, sele ção e inspiração. Cândido (1979/80) afirma que:   Embora n ão tenha preconceitos temáticos, a crônica não aceita qualquer mat éria: dentro de seu campo de ação - o acidental (ou circunstancial epis ódico) captado quer num flagrante de esquina, quer nas palavras de uma crian ça ou incidente doméstico - a cr ônica deve escolher um fato capaz de reunir em si mesmo o disperso conte údo humano . (p.12) S ó assim ela pode cumprir o seguinte princípio: informa r, ensinar, comover e deleitar. Existem quatro tentativas de classificar a cr ônica:  Para Luiz Beltr ão que utiliza o critério jornalístico as crônicas podem ter duas classifica ções: quanto à natureza do tema e quanto ao tratamento.  Para a natureza do tema s ão três espécies:   crônica geral  - sob uma forma gr áfica determinada ou sob uma epígrafe geral aborda os assuntos mais variados, ocupando espa ço fixo no jornal. É conhecida também como coluna ou se ção especial.   crônica local - sempre sob a mesma ep ígrafe em  p ágina e coluna fixa, fala da vida cotidiana da cidade, atuando como um tipo de receptor da opini ão da comunidade onde se insere o jornal. É também chamada urbana ou da cidade.   crônica especializada    –   integra a p ágina ou seção determinada, com apresentaçã o gr áfica do texto diferente das demais matérias e focaliza assuntos referentes a um  determinado campo espec ífico, como política, esportes, economia entre outros. É conhecida tamb ém como comentário. Quanto ao tratamento dado ao tema temos tr ês modalidades : analítica - é a crônica em que predomina a dialética e a linguagem é sóbria, elegante e en érgica. Os fatos são expostos com brevidade e analisados com objetividade. O cronista dirige-se à inteligência ao invés do coração.   sentimental - sob esse tema predomina o apelo à sensibilidade do leitor, a linguagem é vivaz, de ritmo ágil e os fatos apresentam -se a partir de aspectos pitorescos, l íricos, épicos, capazes de comover e influenciar a ação. O cronista apela para a sensibilidade.   satírico-humorística  - a linguagem é de duplo sentido com o objetivo de criticar, ridicularizando ou ironizando fatos, a ções, personagens, com a finalidade de advertir e entreter o leitor. J á Afrânio Coutinho, que toma como base a tipologia literária, define cinco tipos de cr ônica s:  crônica narrativa  - est ória ou episódio próximo do conto contemporâneo, que não necessita obrigatoriamente de come ço, meio e fim.   crônica metafísica - s ão reflexões sobre acontecimentos e pessoas de cunho mais ou menos filos ófico.   crônica-poema-em-prosa  - de conte údo lírico expressa os sentimentos do cronista ante o espet áculo da vida, das paisagens ou de episódios significativos.   crônica-comentário  - cr ítica de acontecimentos díspares, tomando o aspecto de “  bazar asi ático ” .   crônica-informação  - relata os fatos, fazendo ligeiros coment ários impessoais Baseado no ponto de vista da ambig üidade do gênero, Moisés Massaud estabelece dois tipos de cr ônica:   crônica-poema  - prosa emotiva que chega ao verso. crônica-conto  - o cronista narra um acontecimento que provoca sua aten ção como se fosse um conto, sendo ele apenas o estoriador. E Antonio C ândido propõe uma classificação destacando as diferenças entre os modernos cronistas brasileiros: crônica-diálogo  - o cronista e seu interlocutor se revezam trocando pontos de vista e informa ções.   crônica-narrativa  - apresenta alguma estrutura de fic ção, semelhante ao conto.   crônica exposição poética  - uma divaga ção sobre um fato ou personalidade, uma série de associa ções.   !   crônica biográfica lírica  - narrativa po ética da vida de algu ém.

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Aug 4, 2017
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