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A Vida Cotidiana Do Rio de Janeiro (Mary Del Priore)

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História - Cotidiano - Rio de Janeiro
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  Revista  Revista  Revista  Revista    Ultramares Ultramares Ultramares Ultramares  A  A  A  A  r    r    r    r   t  t  t  t  i  i  i  i   g   g   g   g  o  o  o  o   s   s   s   s    Nº 3, Volume 1, Jan  -   Jul, 2013    ISSN 2316-1655   154 A vida cotidiana do Rio de Janeiro 1   The daily life of Rio de Janeiro Mary Del Priore RESUMO Os impactos causados pela vinda da família real para o Brasil podem ser observados em diversos aspectos, desde o político, passando pelo econômico. Nosso foco será o cotidiano, local onde emergem as práticas e apropriações feitas por uma sociedade que vivenciou o 1808 e suas consequências. Vamos buscar nos relatos de época as impressões da sociedade, vistas pelo olhar do estrangeiro, mas que merecem ser apreciadas como fontes recebendo suas atenções e críticas. Palavras-chave: Cotidiano, Rio de Janeiro, Sociedade. ABSTRACT The impacts caused by the coming of the royal family to Brazil can be observed in many aspects, from the political, to the economic. Our focus will be the local everyday where emerge practices and appropriations made by a society that experienced the 1808 and its consequences. We will search in the reports of that time the impressions of society, seen through the eyes of the stranger, but they deserve to be appreciated as sources having their attention and criticism. Keywords:  Everyday, Rio de Janeiro, Society. É sabido que a transmigração da Corte, de Lisboa para o Rio de Janeiro provocou transformações significativas na evolução econômica, na vida social e cultural e na estrutura da colônia. Algumas delas atingiram a fundo à sociedade, especialmente no que diz respeito ao poder central, sendo a maior preocupação a de perpetuar no Brasil a estrutura do governo centralizado e o sistema absoluto da monarquia portuguesa 2 . Mas, não só. Outros aspectos da vida de pequenos atores anônimos da história foram, pouco a pouco, sendo modificados por esta – pelo menos para eles - “inesperada” viagem. Foram raros os estudos realizados sobre a vida cotidiana neste período para que pudéssemos constatar o impacto que significou tal ruptura no horizonte dos personagens locais e de seu dia-a-dia 3 . Afinal, num certo março de 1808, a Colônia amanheceu Metrópole. Mestiçou-se mais ainda. Para usar uma expressão e 1  Artigo recebido em março de 2013 e aprovado em junho de 2013. 2 MANCHESTER, Alan. “A Transferência da corte portuguesa para o Rio de Janeiro” In : Revista do IHGB . Vol. 277, out-dez, 1967, pp. 3-44. 3 Maria Beatriz Nizza da Silva faz um excelente estudo sobre vida material e cultural nestes tempos, sem problematizar o impacto das mudanças trazidas pela transmigração, pois este não era o escopo da obra. Ver SILVA, Maria Beatriz N. da. Vida privada e cotidiano no Brasil na época de D. Maria e D. João VI, Lisboa . Lisboa: Editorial Estampa, 1993.  Revista  Revista  Revista  Revista    Ultramares Ultramares Ultramares Ultramares  A  A  A  A  r    r    r    r   t  t  t  t  i  i  i  i   g   g   g   g  o  o  o  o   s   s   s   s    Nº 3, Volume 1, Jan  -   Jul, 2013    ISSN 2316-1655   155 um conceito caros à Serge Gruzinski, a colônia  globalizou-se 4 .  A Europa se fundiu mais ainda à América, já africanizada. Teve início um processo cujas discretas marcas, mais tarde, colocariam em cheque as relações do Brasil com Portugal. Viveu-se a partir de então, uma aceleração das comunicações, uma evolução das técnicas, um encontro de novos atores urbanos que pouco a pouco mudou a cara da cidade e de seus habitantes. Para entender os impactos causados pela vinda da família real portuguesa para o Brasil, nosso foco será voltado a entender aspectos da vida cotidiana dos que aqui viviam. Para observá-los, estaremos privilegiando os quadros locais, as práticas ordinárias, a maneira de se apropriar de seu environement e de transformá-lo 5 . Tal como Alf Lüdtke vamos propor, ainda que de forma breve, o estudo das regularidades, dos fenômenos repetitivos, de suas variações e evoluções, retomando o vivido ou a experiência social dos atores sociais ao longo do tempo. Entenderemos a rotina como o mecanismo que soldava a estabilidade das estruturas sociais. Vale dizer que a retomada de interesse pelos atores anônimos não é apenas uma versão historiográfica do “ retorno ao indivíduo ” que marcou o pensamento filosófico e afetou uma boa parte das ciências sociais nos anos 80. Ela não traduz apenas uma perda de confiança em abstrações tais quais “ a sociedade ” ou “ o social ”. Ela manifesta de maneira mais profunda - e interessante, também - a vontade de compreender como os processos sociais globais foram apropriados pelas trajetórias individuais ou de grupos. É no nível dos comportamentos cotidianos, corriqueiros e ordinários que apreendemos melhor os processos relacionais que estão por baixo das formas de agregação social. Verdadeiro laboratório de uma nova história social, os modelos de análise de tal abordagem se inspiram da história antropológica, abordagem que propõe uma compreensão das sociedades a partir do estudo de práticas cotidianas e das relações entre indivíduos 6 . Quando os Bragança desembarcaram no Rio de Janeiro, a cidade era, então, considerada um dos portos coloniais mais bem localizados do mundo. As facilidades de intercâmbio com a Europa, América, África, Índias Orientais e as Ilhas dos Mares do Sul indicavam, - segundo o Marques de Alorna, veador da Casa Real, - um grande elo de união entre o comércio das variadas regiões do globo. Dominando vastos recursos, precisava apenas de um governo eficiente, que lhe desse prestígio político. A transmigração, realizada em março de 1808, parecia consolidar o sonho do renomado marechal-de-campo e conselheiro de D. João. 4 GRUZINSKI, Serge.  Les quatre parties du monde – histoire d´une mondialisation .  Paris: Éditions de La Martiniére, 2004. 5 Ver sobre cotidiano LÜDTKE, Alf. Histoire du quotidien . Paris: Éditions de La Maison des Sciences de l´Homme, 1994, especialmente o primeiro capítulo “Qu´est-ce que l´histoire di quotidien?”. 6 Sobre a abordagem aqui utilizada ver também REVEL, Jacques.  Jeux d´Echelles, de la micro-analyse à l´expérience . Paris: Gallimard/Seuil, 1996.  Revista  Revista  Revista  Revista    Ultramares Ultramares Ultramares Ultramares  A  A  A  A  r    r    r    r   t  t  t  t  i  i  i  i   g   g   g   g  o  o  o  o   s   s   s   s    Nº 3, Volume 1, Jan  -   Jul, 2013    ISSN 2316-1655   156 Apesar das fantasias sobre as belezas naturais e possíveis riquezas, para quem chegasse a esta parte do mundo, a realidade se impunha rapidamente. Muitos viajantes vindos de cidades européias registraram em seus diários e anotações impressões sobre um panorama material e cultural dos mais desoladores. Pouco tempo havia que os senhores de terras, plantadores e agricultores ricos, tinham saído de seu exílio, deslocando-se do interior ou de pequenas cidades onde viviam, atraídos pelo brilho do porto do Rio de Janeiro e do que viria ser a nova Corte. Para os que aportavam ou migravam para a cidade, havia, sim, o impacto positivo da paisagem da baía de Guanabara, um tanto amplificado pelos meses de longa viagem, por terra ou por mar. O contato com a natureza exuberante fazia viajantes e imigrantes evocarem a serenidade dos ares, a vegetação colorida, o recorte das serras, partes, enfim de um mundo natural edênico. Mas o exotismo pintado por obras que circulavam na Europa e inflavam a imaginação, passava longe das realidades urbanas. No Rio de Janeiro, tudo era “horrivelmente sujo!” 7 , fétido e abandonado. Cercado de mangues e charcos, o burgo sofria com a falta d´água e de higiene. Nas crônicas de viagem, as primeiras observações sobre a vida material, eram sempre, ou quase sempre, desabonadoras. Mas era exatamente pelas ruelas estreitas, por praças sem decoração, por caminhos cheios de mato que levavam para dentro e fora da cidade que o cotidiano de milhares de seus habitantes se construía. O olhar panorâmico dos estrangeiros não captava, contudo, o formidável movimento que propulsionava toda a sorte de indivíduos, moradores deste porto. A rápida intensificação do processo de urbanização, o aumento populacional e a passagem de uma economia fechada para uma aberta se fizeram acompanhar de reflexos nos mais variados grupos sociais. A massa anônima, independentemente da aparente pobreza com que era vista por estrangeiros, traduzia movimento, trabalho e esforço. Origens e cores se misturavam, mas, também, as línguas, as atividades, as crenças e as idéias. Gente e coisas, objetos e pessoas se acotovelavam como nunca dantes o fizeram entre nós. Os moradores reagiram aos desafios das portas que se abriam para o mundo e, mobilidade e nomadismo, precariedade nas ligações, passagens de uma cultura a outra, multiplicidade de referências quase nos permitem inferir que, por trás da penúria material, descrita pelos estrangeiros e repetida nos manuais de história, se gestava um singular cosmopolitismo tropical . Cosmopolitismo de longa data, pois Gilberto Freyre já identificara no dia-a-dia desta gente, traços orientais cuidadosamente trazidos pelos portugueses de suas viagens às Índias. 7 Vejam-se, por exemplo, os comentários de Ernest Ebel em EBEL, Ernest. O Rio de Janeiro e seus arredores em 1824 . São Paulo: Companhia Editora Nacional, 1972, p. 73-74.  Revista  Revista  Revista  Revista    Ultramares Ultramares Ultramares Ultramares  A  A  A  A  r    r    r    r   t  t  t  t  i  i  i  i   g   g   g   g  o  o  o  o   s   s   s   s    Nº 3, Volume 1, Jan  -   Jul, 2013    ISSN 2316-1655   157 É a “pista dos objetos” 8 , objetos capazes de nos falar deste encontro de culturas: os imensos guarda-sóis que abrigavam do calor, os palanquins a se arrastar pelas ruas, a esteira como espaço de descanso, certas beberagens como o aluá ou doces como o alfenim, as mulheres cobertas dos pés à cabeça por capas escuras, as casas caiadas de branco com beirais arrebitados, o hábito de empinar papagaios, o gosto pelos espetáculos pirotécnicos e o foguetório. Enfim, o porto carioca ainda cheirava ao Oriente das grandes Descobertas, quando a família real aqui desembarcou. Apologistas da europeização como o Padre Luís Gonçalves dos Santos, mais conhecido como Padre Perereca, criticavam tais “bisonhos e antigos costumes que só se podiam tolerar nesta porção da América e que não estavam mais em uso entre povos civilizados”. De fato, podiam parecer bisonhos os costumes esses de morar em ruas estreitas em meio às quais corria um canal de águas servidas. Ruas cheias de edifícios   no geral, de dois pavimentos...as paredes são bem construídas de granito; as soleiras, umbrais, vergas e esquadrias são de quartzo maciço, trazido da Bahia. Os tetos são cobertos por telhas tubulares. O pavimento inferior é, em geral, ocupado pela loja ou armazém; o segundo e o terceiro quando existe, pelos aposentos da família para cujo acesso existem corredores estreitos e compridos  9 . Conta-nos o comerciante inglês John Luccok que desembarcara no Rio em 1808, com a intenção de mercadejar. Sempre focados no cenário arquitetônico, os prussianos Von Leithold e Von Rago queixavam-se que o único passeio para os habitantes era uma praça junto ao mar que pelo traçado dos canteiros, mais parecia uma horta! 10  Mas, dizia Schlichthorst, ex-tenente de granadeiros alemães do exército imperial, depois da vinda de D. João VI as casas já ganharam mais um ou dois andares 11 . E Ernest Ebel, viajante austríaco, acrescentava que algumas possuíam gradis dourados à imagem de balcões franceses. Apenas sete anos depois do desembarque, a cidade já tinha se transformado, graças a melhoramentos em toda a capital. “Ela muito perdeu de sua   srcinalidade – informava o príncipe Maximiliano de Wied 8 A expressão é de GRUZINSKY, Serge. Op. Cit. , p. 265, mas o genial autor pernambucano empreendeu o mesmo tipo de observação já em 1933 com Casa Grande & Senzala  e, mais especificamente, em Sobrados & Mocambos , em 1936. 9 LUCCOCK, John. Notas sobre o Rio de Janeiro e partes meridionais do Brasil . São Paulo: EDUSP; Belo Horizonte: Itatiaia, 1975, considerado por Varnhagen “a mais fiel pintura do verdadeiro estado material, moral e intelectual em que estava a capital do Brasil à chegada da família real”. 10 VON LEITHOLD, Theodor; VON RAGO, Ludwig. O Rio de Janeiro visto por dois prussianos em 1819 . São Paulo: Companhia Editora Nacional, 1966, p. 45. 11 SCHLICHTHORST, Carl.  O Rio de Janeiro como ele é  . Brasília: Editora do Senado Federal, 2002, p. 13.

TD 955 Manual

Apr 19, 2018
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