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A violência doméstica e os desafios

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O presente artigo pretende tecer uma reflexão teórica acerca da temática família, especificamente a família que apresenta a violência doméstica, com a violência física de pais e mães contra filhos. Apoiamo-nos na leitura psicodinâmica e em conceitos da Antropologia para a compreensão da amplitude que os conceitos família e violência adquirem na análise das organizações familiares. Ao recorrer a áreas distintas do conhecimento, construímos um saber dinâmico, enriquecedor e que amplia o campo de abordagem do objeto de estudo. A interdisciplinaridade edifica um arranjo teórico questionador, complementar e complexo que faz do pesquisador um elo fundamental entre a teoria, a crítica e a análise da pesquisa.
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  299299299299299 A F A MÍ   L  I   A E A V I    O L  Ê  N  C I   A  D  O MÉ   S  T I    C A  Estudos de Psicologia   I   Campinas   I   23(3)   I 299-306   I  julho - setembro2006 A violência doméstica e os desafiosda compreensão interdisciplinar 1 Domestic violence and the interdisciplinary comprehension challenge Anamaria Silva NEVES 2 Geraldo ROMANELLI 3 Resumo O presente artigo pretende tecer uma reflexão teórica acerca da temática família, especificamente a família que apresenta aviolência doméstica, com a violência física de pais e mães contra filhos. Apoiamo-nos na leitura psicodinâmica e em conceitos daAntropologia para a compreensão da amplitude que os conceitos família e violência adquirem na análise das organizaçõesfamiliares. Ao recorrer a áreas distintas do conhecimento, construímos um saber dinâmico, enriquecedor e que amplia o campode abordagem do objeto de estudo. A interdisciplinaridade edifica um arranjo teórico questionador, complementar e comple-xo que faz do pesquisador um elo fundamental entre a teoria, a crítica e a análise da pesquisa. Palavras-chave : interdisciplinaridade; família; violência doméstica. Abstract The present research intends a theoretical reflection about the family theme, specifically in regards to the family in which domestic violenceoccurs with physical violence of fathers and mothers towards their children. We support our study on the psychodynamic reading and anthropological notions to comprehend the scope of family concepts and violence acquired in the family organizations analysis. Distinct areas of knowledge have composed a dynamic and rich comprehension, which broadens the approach of the object to be studied.Interdisciplinary edifies a theoretic, complementary and complex arrangement that makes the researcher a fundamental link among theory,critic and research analysis. Key words : Interdisciplinarity; family; domestic violence. 11111 Artigo elaborado a partir da tese de A.S. NEVES, intitulada “A violência física de pais e mães contra filhos: cenário, história e subjetividades”. Universidadede São Paulo, 2005. 22222 Professora Doutora, Instituto de Psicologia, Universidade Federal de Uberlândia. Av. Pará, 1720, Bloco 2C, Campus Umuarama, 38400-920, Uberlândia, MG,Brasil. Correspondência para/  Correspondence to : A.S. NEVES. E-mail  : <anamaria@umuarama.ufu.br>. 33333 Professor Doutor, Faculdade de Filosofia Ciências e Letras, Departamento de Psicologia e Educação, Universidade de São Paulo. Ribeirão Preto, SP, Brasil. ▼ ▼ ▼ ▼ ▼ As histórias de Graciliano Ramos (2000), escritasno livro de memórias Infância, versam sobre asdescobertas do seu mundo infantil. O imaginário e asfantasias imperam sobre a realidade hostil de ummundo misterioso e excludente. As dolorosas vivênciasdo autor revelam não somente o espaço individual esubjetivo da infância: submergimos nas profundezasda organização familiar representada com maestria pelo  300300300300300 A  . S   . NE  V E   S    &  G  . R  OMA NE  L  L  I    Estudos de Psicologia   I   Campinas   I   23(3)   I   299-306   I    julho -.setembro2006 autor ao caracterizar os personagens, as cenas e os afetoscircundantes. Partimos da escrita refinada e essencial-mente humana de Graciliano para caminharmos pelomundo científico que teoriza a família e suas estratégiasde organização.O literário abre-alas das versões de sofrimento ede angústia da infância serve como inspiração para ashistórias ouvidas e interpretadas neste estudo. Históriassingulares mas que refletem fenômenos da subjetividade ,comuns ao desenvolvimento humano e à organizaçãofamiliar. A família é o cenário   das versões controversassobre amor e agressão, confiança e abuso, respeito einvasão, legitimadas em histórias de vida protagonizadaspor personagens oriundos das camadas populares dasociedade ao longo das gerações. As histórias das famí-lias apelam para as reminiscências das dores sentidas, eas lembranças evocadas não se limitam às interlocuçõesdo sujeito consigo mesmo, mas incluem as versõescompostas pelas gerações que o antecederam.A Antropologia, que propõe “o estudo do homeminteiro”, leva em consideração as diferentes dimensõesdo ser humano que vive em sociedade, é “a ciência dohomem por excelência e envolve a todos nós”(Laplantine, 1988, p.33).A reflexão do homem sobre o homem, a naturezaque o cerca e a sociedade da qual ele faz parte sãoantigas, mas apenas no final do século XVIII, segundoLaplantine (1988), um saber científico começa adespontar, fundando a “ciência do homem”  , a Antro-pologia . O homem passa a ser objeto de conhecimento,e o “espírito científico”   antes aplicado pela Física ou pelaBiologia passa a ser aplicado ao próprio homem. Ohomem, sujeito que se apropria do conhecimento, passaa ser objeto de estudo da ciência.O autor distingue cinco áreas principais daAntropologia, que, apesar de distintas, mantêm estreitarelação entre si: a Antropologia Biológica, a AntropologiaPré-histórica, a Antropologia Lingüística, a AntropologiaSocial e Cultural (ou Etnologia) e a AntropologiaPsicológica. Essa última com ênfase na compreensãodos comportamentos conscientes e inconscientes doser humano com vistas à apreensão da totalidade dosujeito, confirmando que a dimensão psicológicapermanece indissociável do campo de estudo daAntropologia.A Psicanálise, com Freud, descobre o incons-ciente como expressão manifesta do  pathos, e assimela nasce e se desenvolve a partir da investigação dopsiquismo e inerente à noção de Psicopatologia. Ofenômeno do sofrimento humano, sob a perspectivado sofrimento psíquico, alicerça-se na PsicopatologiaFundamental, termo criado há mais de vinte anos pelopsicanalista francês Pierre Fédida. Em contraste com aPsicopatologia Geral, a Psicopatologia Fundamental seinteressa pelo sofrimento singular e pela forma comoele se apresenta constituindo um sujeito - assujeitadopelo  pathos. Pathos, que além de significar sofrimento,srcina ainda as palavras paixão e passividade. O  pathos passa pelo corpo mas vem de fora, fazendo-o padecer(Berlinck, 2000).O desafio do estudo interdisciplinar que ora seapresenta inclui a compreensão dos aspectos sociais ea produção de subjetividade dos sujeitos, das famílias edas diferentes gerações das famílias que convivem coma violência doméstica praticada por pais e mães contraseus filhos. Séve (1989, p.448) relembra um trecho deMarx, extraído de Correspondance : “a história social doshomens nunca é senão a história de seu desenvol-vimento individual”. Segundo Séve, as inquietações quemovem a ciência, a pesquisa e os confrontos teóricostêm aproximado a Psicanálise dos preceitos marxistase, nesse sentido, acoplamos ao discurso marxista a falafreudiana de 1921, do texto Psicologia de Grupo e a Análisedo Ego , que afirma: “temos que concluir que a psicologiados grupos é a mais antiga psicologia humana” (Freud,1976, p.156). Marx que pensa o indivíduo e Freud queassimila o grupo. Pretensões visíveis e anseios inerentesao entendimento clínico e comunitário permitemtransparecer o quanto a interdisciplinaridade é fonte depesquisa inerente ao conhecimento produzido nasciências humanas. Família: conceitos e arranjos Muitas vezes pressenti, em minhas insônias do mundointeiro, que eu também arrasto a condenação daquelacasa mítica num mundo feliz onde morríamos todas asnoites . G.G. Márquez. Viver para contar. Na autobiografia do escritor colombiano GabrielGarcía Márquez, de 75 anos, a casa referida é aquela naqual ele passou a sua infância com a avó, as tias religiosas  301301301301301 A F A MÍ   L  I   A E A V I    O L  Ê  N  C I   A  D  O MÉ   S  T I    C A  Estudos de Psicologia   I   Campinas   I   23(3)   I 299-306   I  julho - setembro2006 e os homens contadores de histórias de guerra, casaonde cada santo tinha um quarto e cada quarto tinhaum morto. Os cenários que acolhem os diferentesmodelos familiares e que arrastam infinitas histórias edramas na vida dos sujeitos de toda a humanidaderefletem as características oscilantes que a famíliaengloba.A exemplo do que vinha ocorrendo na décadade 1970, as décadas de 1980 e 1990 foram marcadaspela redução relativa do modelo tradicional de famílianuclear (constituída por marido, esposa e filhos) e peloaumento proporcional do número de famílias chefiadaspor mulheres e por unidades domésticas unipessoais.A evolução dos diferentes tipos de unidades domésticasmostra a significativa redução do tamanho das famílias,com número médio menor de pessoas e de filhos (IBGE,2001).As relações atualmente conhecidas que unemrede de parentesco, unidade doméstica/residencial egrupo conjugal tiveram estruturas diferenciadas nasdiversas sociedades e em momentos históricos especí-ficos (Bruschini, 1997), confirmando que a mutabilidadee a não-naturalidade são especificidades do estudo dafamília.A família é uma unidade dinâmica, um gruposocial, um espaço de convivência fundamental aodesenvolvimento dos seus membros; contudo possuicaracterísticas e funções próprias, que são historica-mente questionadas e redefinidas. A família nãocomporta uma definição unívoca, primordialmentecentrada em parâmetros excludentes. É justamente osaber produzido por diversas disciplinas que auxilia apensar o conceito e o significado contextualizado dosubstantivo família.A família é um grupo primordial no âmbito dodesenvolvimento de sujeitos psíquicos singulares, bemcomo na formação ideológica dos cidadãos que acompõem. Ideologia que, de acordo com Guareschi(1999), tanto serve para sustentar relações justas e éticascomo serve para alimentar relações assimétricas, dedominação.A amplitude do conceito de família nos impeleà busca de recortes que delimitem os horizontes dediscussão. A definição de Osório (1996, p.16) clareia e,concomitantemente, apresenta elementos introdutóriossobre as variáveis que envolvem a conceituação: Família é a unidade grupal onde se desenvolvemtrês tipos de relações pessoais-aliança (casal), filiação(pais/filhos) e consangüinidade (irmãos) - e que, apartir dos objetivos genéricos de preservar a espécie,nutrir e proteger a descendência e fornecer-lhecondições para a aquisição de suas identidadespessoais, desenvolveu através dos tempos funçõesdiversificadas de transmissão de valores éticos,estéticos, religiosos e culturais. A srcem etimológica da palavra família denotaconotações instigantes quanto às suas derivaçõessociais. Família, do vocábulo latino famulus, significaservo ou escravo, do que se entende que primitivamentea família era considerada um conjunto de servos oucriados de uma pessoa. Dessa forma, as srcens do termotraduzem as srcens da tipologia relacional estabelecida,ou, como Osório (1996) repara, a raiz etimológica refere--se à natureza possessiva dos vínculos familiares entreos povos primitivos. O autor considera que as con-cepções de poder e posse estão vinculadas às srcensda família e à sua constituição grupal.Lasch (1991), em seu livro Refúgio num mundosem coração , tenta recuperar os percalços da família noúltimo século. O autor pontua que, com a selvageriacrescente do mundo dos negócios e da política, ohomem procura refúgio na família; entretanto elaaparece gradativamente mais frágil e incapaz de acolheresse sujeito carente. Afirma que a família contemporâneaé produto da ação humana e do controle social e nãode forças sociais abstratas. Lasch fala sobre a sociedademoderna e o controle social antes relegado às famíliasou aos indivíduos, afirmando que o Estado controla ocorpo, o espírito e a vida privada dos sujeitos. Se algunscríticos apontaram Lasch como um admirador dafamília burguesa ou um nostálgico defensor da famíliapatriarcal, entendemos que o autor imprime o diálogocrítico com a Antropologia, a Psicanálise e a Sociologiae, sem recorrer a versões ortodoxas sobre as relaçõesfamiliares, promove um debate instigante, apontandoa família como agente de socialização que reproduzpadrões culturais no indivíduo.Bourdieu (1996) apresenta a família como princi-pal sujeito das estratégias de reprodução, não apenasbiológica, mas reprodução das relações sociais. O autordiz que a família é produto do trabalho de instituiçãoque tem como objetivo instituir, de forma adequada e  302302302302302 A  . S   . NE  V E   S    &  G  . R  OMA NE  L  L  I    Estudos de Psicologia   I   Campinas   I   23(3)   I   299-306   I    julho -.setembro2006 duradoura, em seus membros, sentimentos que asse-gurem a integração, condição de perpetuar a unidadefamiliar. A família precisa se afirmar como corpo   queluta para existir mediante relações de força econômicae simbólica.Se Lasch resgata aspectos catastróficos e poucootimistas da família, com foco na família norte-ameri-cana, Bourdieu especifica ainda características deexistência e estruturação da família atual. Romanelli(2003) retoma Bourdieu e acrescenta que na análise deestratégias é importante criar a dimensão da tempo-ralidade, já que os integrantes da família percorrem astrajetórias de vida de forma diversa dos demais. A partirdaí, a análise do ciclo de vida familiar permite acom-panhar o movimento dos membros da família e asposições sociais que são ocupadas nesse processo.A discussão aponta para a família como umaconstrução social, um grupo ativo na formação e trans-formação dos padrões culturais e afetivos. Biasoli-Alvese Simionato-Tozo (1998) ressaltam que a família, sejacomo conceito, seja como grupo primário, apresentaalterações ao longo dos diferentes momentos históricose nas diversas culturas em que está inserida. A família,ao ser transformada, assimila, modifica e devolve àsociedade os elementos processados em seu interiorque, por sua vez, os modifica. A diversidade dos arranjosfamiliares descritos nas diferentes culturas e em distintosperíodos nos permite observar a importância da famíliana orientação dos filhos, em particular.Na busca por definições de família, algunsautores recorrem ainda aos conteúdos míticos comoreferência primária. Osório (1996), focalizando a antro-pogênese, afirma que as mitologias, ao criar o homem,situam-no em condição relacional no seio familiar e,nesse sentido, resgata a versão mitológica greco-romanada criação do universo e dos seus habitantes.A versão bíblica, com Eva e Adão e a expulsãodo paraíso, representa, simbolicamente, o repúdio dopai aos filhos. Os irmãos Caim e Abel espelham a rivali-dade entre os irmãos. O mito de Édipo, que envolve apunição, a culpa, o desejo e o emaranhado afetivo, ampliaa compreensão do ciclo afetivo da vida familiar. Aspropriedades da família conferem-lhe, mitologicamente,a condição de reduto do nascimento do relacionamentohumano. Relação que, de acordo com Guareschi (1999),é definida pela existência das pessoas em relação aoutras, ordenação que se faz intrínseca, ou, em latim,o rdo ad aliquid  . A família, srcinária das relaçõeshumanas, é entendida como grupo primordial.Familiar, familiarizado, em família, da família ede família são conotações dispersas de um lugar simbo-licamente definido, um reduto onde se encenamromances trágicos, dramáticos, aventureiros, felizes econtraditórios, com personagens amados e odiados,simultaneamente, no reduto do composto familiar. Se afamília se constitui uma representação, é também umgrupo de convivência que se organiza de acordo comdiferentes arranjos e se apresenta em distintas versões.Faz-se mister a evocação dos cenários que não apenas ahistoricizam, mas que a compõem: a casa, a domesti-cidade, a intimidade e a produção da violênciadoméstica nessa conjunção. Violência doméstica: o desafio dacompreensão Pensar a violência implica considerar as bases eo desenvolvimento histórico que determinam as formasque ela assume ao longo da organização das sociedades.Raggio (1992), psicanalista, propõe “concentrar nossaatenção no bosque antes que nas folhas” (p.26). O autorexplica que o ser humano necessita da agressividadepara viver, mas a violência institucional e sistemática éum fenômeno que nasce com as sociedades de classe epenetra no processo de exploração do homem pelohomem por meio de mecanismos de repressão. Raggioargumenta que a ordem capitalista reproduz a violênciaassim como reproduz o capital e, para isso, reproduzsujeitos ideologicamente violentos que, por fim,produzem e consomem a violência.As raízes histórico-sociais da violência, o bosque ,e o inconsciente individual, as folhas , formado porfantasias edípicas, desejos e alicerçado por um superegode características variantes são processos inerentes aosujeito social. A análise do sujeito e a análise da famíliaconsistem em inserirmos a discussão do homem comoum sujeito em que a história e a violência imprimiramsuas marcas.A prerrogativa de que o tema violência domés-tica está relacionado à violência geral que impera na
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