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  HERMENÊUTICA FILOSÓFICA EM GADAMER: INTERPRETAÇÃO, COMPREENSÃO E LINGUAGEM  07 Abril 2016 Monique Pereira, Jorge Renato Reis Sumário:  1. Introdução; 2. As descobertas de Martin Heidegger 3. A constituição da compreensão: a historicidade e tradição do ser; 4. O círculo hermenêutico; 5. O papel da linguagem na hermenêutica Gadameriana; 6. A importância da hermenêutica filosófica Gadameriana frente ao uso da hermenêutica metodológica tradicional; 7. Conclusão; 8. Referências 1 INTRODUÇÃO  Buscando aliar a hermenêutica filosófica à prática do direito contemporâneo, o presente artigo pretende investigar e compreender a obra de Hans-Georg Gadamer, teórico decisivo para a hermenêutica do século XX. Inspirado e motivado pelo seu professor Martin Heidegger, Gadamer trouxe a questão da historicidade do ser e sua autonomia enquanto ser no mundo para defender sua teoria. Dessa forma, em um primeiro momento o presente estudo analisará a teoria hermenêutica de Gadamer, partindo da análise de Heidegger sobre o Desain  [3]  ,  que compreende que o que constitui a compreensão é a historicidade do ser. Então, para Gadamer, a compreensão não parte do comportamento, e sim do modo de “ser do mundo” de quem analisa/interpreta. Em um segundo momento, será estudado o círculo hermenêutico criado por Heidegger e seguido por Gadamer, compreendendo que a hermenêutica não é um problema de metodologia, mas da ontologia (estudo do ser), a partir da hermenêutica histórica, pois a partir da sua teoria, a hermenêutica não é uma arte ou uma forma instrumental de compreensão, e sim algo transcendental que paira na faticidade histórica do ser. Por fim, traz-se a análise gadameriana acerca da linguagem enquanto experiência de mundo, pois o teórico defende a ideia de que o ser possui um mundo e que esse mundo possui um significado, ou seja, que o ser é constituído linguisticamente e que a linguagem é condição de compreensão da experiência humana. 2. As descobertas de Martin Heidegger    A interpretação se funda existencialmente na Compreensão e não vice-versa. Interpretar não é tomar conhecimento do que se compreendeu, mas elaborar as possibilidades projetadas na compreensão  (Martin Heidegger) Refém de um hábito objetivista, o Direito sofreu com a produção de referenciais metafísicos, métodos e conceitos para que o operador do direito chegue a alguma resposta absoluta e verdadeira. Todavia, estudar hermenêutica requer uma análise das tradições e historicidade que compõe o dia após dia do ser humano: a compreensão do mundo está voltada para o próprio ser. Inicialmente, faz-se necessário uma breve diferenciação entre a hermenêutica clássica, fundada em metodologias e técnicas de interpretação, e a hermenêutica filosófica que teve surgimento a partir dos ensinamentos de Martin Heidegger  [4]  e Gamader.   Para Heidegger, a questão da interpretação só poderia ser dirimida a partir da compreensão. Esta problemática já havia sido enfrentada anteriormente, por diversos filósofos, dentre eles, imperioso citar os expoentes Schleiermacher e Wilhelm Dilthey.  Aa filosofia de Heiddeger, nas palavras de Streck (1999, p. 170), “a hermenêutica deixa de ser normativa e passa a ser filosófica, onde a compreensão é entendida como estrutura ontológica do Dasein”  . Conforme já exposto, o Desein , em Heidegger, é o “ser no mundo”, que significa que o que constitui a compreensão é a historicidade do ser, sua vinculação no mundo e sua condição. O compr  eender é “uma estrutura do   Desain , uma estrutura do ser- aí, é uma estrutura do homem”. (STEIN, 199, p. 58) Ainda, verifica -se que  A compreensão do ser em Heidegger no fundo nada mais é do que a compreensão do sentido ou do sentido do ser, isto é, a compreensão da totalidade não é mais a de um ser determinado. É a compreensão do ser enquanto compreensão do que é. Mas não do que é como objeto. Não podemos compreender nada sem compreender a totalidade. Enquanto compreendemos a totalidade, nos compreendemos. Nós temos o sentido da própria existência. Por isso diz Heidegger que o homem se compreende quando compreende o ser.” (STEIN, 1996, p. 57)  Dessa forma, compreender é próprio da condição humana enquanto ser jogado no mundo. E desses ensinamentos de Heidegger, valeu-se significativamente Gadamer. 3 A constituição da compreensão: a historicidade e tradição do ser   Hans-Georg Gadamer foi um filósofo nascido em 1900 na Alemanha, que desempenhou um importante papel no estudo da hermenêutica no século XX: na obra Gadameriana a hermenêutica não está atrelada a uma ciência, nem mesmo a uma metodologia de interpretação, mas sim na historicidade e compreensão como constitutivos do ser histórico. Para Gadamer, a analítica temporal do ser humano em Heidegger demonstrou convincentemente que a compreensão não é um modo de comportamento do sujeito, mas uma maneira de ser do eis-aí-ser. Há hermenêutica porque o  homem é hermenêutico, isto é, finito e histórico, e isso marca o todo de sua experiência de mundo. (OLIVEIRA, 1996, p. 225)  Aqui, a hermenêutica não é uma questão metodológica, e sim da ontológica. Para Gadamer, a hermenêutica não é uma arte ou uma forma instrumental de compreensão, mas algo transcendental. Gadamer mostrou na sua teoria que a experiência hermenêutica está muito além do controle da metodologia (em Habermas, por exemplo). No prefácio da 2ª edição de Verdade e Método , Gadamer (2004, p. 14) já adverte: [...] não pretendia desenvolver um sistema de regras artificiais capaz de descrever o procedimento metodológico das ciências do espírito, ou que pudesse até guia-lo. (...) minha verdadeira intenção, porém, foi e continua sendo uma intenção filosófica: O que está em questão não é o que fazemos, o que deveríamos fazer, mas o que nos acontece além do nosso querer e fazer. Trata-se, portanto, de um saber filosófico e não metodológico. Aquele que interpreta, interpreta a partir de suas possibilidades e perspectivas de mundo e de sua condição histórica e de tradição no mundo/sociedade em que está inserido.  A constituição de sentido é finita, pois é determinada por costumes e tradições da experiência do ser no mundo que interpreta. A compreensão paira  justamente na faticidade histórica do ser, pois “cada compreen são é condicionada por uma motivação ou por um pré- conceito” (GRODIN, 1999, p. 186) bem como “por estar imerso em tradições, ligado necessariamente ao passado, o homem está sempre condicionado pelo mundo que o determina” (ALMEIDA, 2000, p. 42). Isso quer dizer que, onde quer que esteja o ser que compreende algo, esse assim o faz, pois, parte de uma determinada noção de tradição e história de sentidos. Para Gadamer, é a partir da tradição de sentidos que é “se tornam possíveis nossos conhecimentos, nossas valorizações, nossas tomadas de posição no mundo”. (OLIVEIRA, 1996, p. 229)   Assim, verifica-se que a compreensão do ser no mundo para Gadamer é uma projeção do passado e presente. Isso quer dizer que a historicidade do ser é a condição para a compreensão, ou seja, uma autoconstrução da razão através da tradição. No entanto, essa tradição não está sob o poder do ser, ao passo que é ela quem o domina e sujeita, pois no momento de conceber uma compreensão acerca de um determinado fato, está- se “preso” ao horizonte de uma determinada tradição e sentido. Conforme revela o filósofo alemão, Não é a história que pertence a nós, mas nós é que a ela pertencemos. Muito antes de que nós compreendamos a nós mesmos na reflexão, já estamos nos compreendendo de uma maneira auto-evidente na família, na sociedade e no Estado em que vivemos. [...] A auto-reflexão do indivíduo não é mais que uma centelha na corrente cerrada da vida histórica. Por isso os preconceitos de um indivíduo são, muito mais que seus juízos, a realidade histórica do ser. (GADAMER, 2002, p. 415-416)   Dessa forma, Gadamer revela que os pré-conceitos não são simplesmente pré-conceitos do ser, mas sim o histórico de sentidos onde ele está imerso como sujeito  –  que forjam e formam a pré-compreensão. Nesse sentido que existe a crítica ao pensamento gadameriano, uma vez que ao realizar a reflexão da forma como o autor de Verdade e Método reconhece como válida, sempre existirão limites para o intérpr  ete, pois “cada compreensão é condicionada por uma motivação ou por um pré- conceito” (GRODIN, 1999, p. 186) E é justamente por pertencer a uma história e um lugar comum, que não se faz possível um esgotamento da verdade. Conforme refere OLIVEIRA (ano, p. 2 30), “a “onipotência da reflexão”, típica da filosofia moderna da consciência, é dobrada pela resistência de uma realidade que não se deixa sem mais absorver pela reflexão”.  Nessa abertura para o novo, para o desconhecido, para o estranho, para o “ainda não dito”, a partir da qual visamos preencher lacunas, corremos o risco de nos influenciar por nossas noções preliminares e não alcançar a coisa em questão. Resta a nós, então, como atitude hermenêutica, tornar conscientes pelo menos algumas dessas noções preliminares, que são nossas opiniões e preconceitos, para que permitamos pelo menos uma aproximação da verdade das coisas, ou melhor, de um fragmento da história.  A partir desse problema, adentra-se na teoria de uma hermenêutica crítica, com ida do intérprete de encontro com seus pré-conceitos, tradições e historicidade. 4 O círculo hermenêutico  Como se viu das teorias de Heidegger e Gadamer, a hermenêutica do homem está intimamente ligado com o mundo e sua historicidade - sendo essa última, condição e possibilidade de compreensão. Nas palavras de LUCAS (2007, p. 37), só é possível compreender quando se antecipa o horizonte que dá sentido à compreensão, quando se localiza e se situa aquilo que se quer compreender.  A intepretação, assim, não é uma intervenção do sujeito que desnuda as verdades incrustadas enigmaticamente no objeto, mas é, sim, o momento de explicitação do compreender, daquilo que sempre esteve à disposição e que é desvelado pela compreensão. Na medida em que estamos “jogados no mundo”, nossa compreensão nunca será plena e pura, pois descrevemos o mundo da forma de como o vemos e sentimos. Em Gadamer, a pré-compreensão para ser verdadeiramente crítica, deve ser submetida à análise, o que acarretará em uma nova compreensão que será capaz de elucidar cada vez mais o sentido das coisas. Assim, através de interpretações cada vez mais críticas do interprete, a compreensão pode ser cada vez mais profunda. Daí o caráter do Círculo Hermenêutico: cada pré-
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