Documents

Abandono na velhice

Description
Abandono na velhice Abandonment in old age Vania Beatriz Merlotti Herédia * Ivonne Assunta Cortelletti* Miriam Bonho Casara* RESUMO Este artigo apresenta reflexões sobre o tema abandono na velhice, com base na percepção que idosos domiciliados e institucionalizados possuem sobre abandono. A discussão teve como focos aquilo que o idoso entende por abandono e em que situação ele se sente abandonado. O primeiro foco foi trabalhado para delinear um conceito de abandono na velhice, e o segundo, para
Categories
Published
of 10
All materials on our website are shared by users. If you have any questions about copyright issues, please report us to resolve them. We are always happy to assist you.
Related Documents
Share
Transcript
  Abandono na velhiceAbandonment in old age  Vania Beatriz Merlotti Herédia* Ivonne Assunta Cortelletti* Miriam Bonho Casara*  RESUMO  Este artigo apresenta reflexões sobre o tema abandono na velhice, com basena percepção que idosos domiciliados e institucionalizados possuem sobreabandono. A discussão teve como focos aquilo que o idoso entende por abandono e em que situação ele se sente abandonado. O primeiro foco foitrabalhado para delinear um conceito de abandono na velhice, e o segundo,para identificar em que situações reais o abandono se configura e em quecontexto ele se dá. A discussão metodológica de natureza qualitativa utilizou aanálise de conteúdo para fundamentar o trabalho. Com vistas a sintetizar asfalas dos idosos, destacaram-se os aspectos mais importantes, classificaram-se as idéias e propuseram-se as categorias de análise que representam o olhar dos idosos entrevistados sobre o abandono. O texto traduz, da forma maisfidedigna possível, a exploração qualitativa das falas dos idosos. As reflexõesapontam para um tema de fundamental importância e mostram que existemvárias possibilidades para enfrentar o abandono. PALAVRAS-CHAVE: Idoso; Maus-tratos ao idoso INT RODUÇÃO   ³N ÃO É POSSÍVEL FAZER FRENTE AOS MALES E DESENCONTROS DE UMA ÉPOCA COMO ANOSSA - TAIS COMO A FALTA DE SENTIDO PARA A EXISTÊNCIA , ADESPERSONALIZAÇÃO E A DESUMANIZAÇÃO - A NÃO SER QUE A DIMENSÃO HUMANA , ADIMENSÃO DOS FENÔMENOS HUMANOS SEJA INCLUÍDA NO CONCEITO DE HOMEM (V IKTOR E.   F RANKL ).´   O Núcleo de Estudos do Envelhecimento, da Universidade de Caxias doSul, tem contribuído, juntamente com outras instituições de nível superior, paraampliar o conhecimento sobre a realidade idosa, por meio de pesquisas sobreo processo de envelhecimento. Essas pesquisas têm auxiliado noconhecimento da realidade do idoso que vive no domicílio e em instituições delonga permanência, incluindo estudos de histórias de vida de idososinstitucionalizados.   Durante a realização desses estudos,¹foram encontradas dificuldadespara interpretar e fundamentar os dados coletados que se relacionavam aofenômeno do asilamento. As análises estabeleciam uma correlação entre osmotivos de asilamento e o abandono. A inexistência de bibliografia sobre o  assunto e a demanda que o mesmo traz para o aprofundamento das situaçõesde institucionalização dos idosos e das condições de vida de idososdomiciliados motivaram a construção de um novo estudo²que desse suporteteórico para a compreensão do abandono.   Diante dessa necessidade, propôs-se a produção de um texto sobreabandono na velhice, com base na percepção que idosos domiciliados einstitucionalizados possuem sobre o abandono. A partir das concepções dosentrevistados, oriundas de seu imaginário e de suas experiências de vida,estruturou-se a análise interpretativa das respostas dadas às duas questõesnorteadoras do presente estudo, com vistas a auxiliar a compreensão do tema,a colaborar com a reflexão sobre as perguntas relacionadas ao envelhecimentohumano e a subsidiar novos estudos.Para dar cumprimento ao proposto e garantir uma configuração maisabrangente no que se refere à compreensão acerca do abandono, buscou-seidentificar os significados atribuídos, por idosos provenientes de diversascondições sociais, a essa problemática. Foram os sentimentos e as sensaçõesexpressas pelos entrevistados que construíram o corpus deste estudo.Para proceder à análise do referido corpus, foi utilizado o método deanálise de conteúdo que, segundo Moraes (1999, p. 2) ³constitui umametodologia de pesquisa usada para descrever e interpretar o conteúdo detoda classe de documentos e textos.´ Essa metodologia foi consideradaadequada para reinterpretar as percepções e concepções dos entrevistados,na busca da compreensão dos significados atribuídos. Com a finalidade desintetizar as falas dos idosos, destacando os aspectos mais importantes,realizou-se a classificação das idéias que constituíam o corpus do estudo.Dessa classificação, foram propostas as categorias de análise querepresentam o olhar dos idosos entrevistados sobre o abandono.   As categorias foram construídas a partir da leitura interpretativa dasrespostas dadas às questões norteadoras das entrevistas. Dessas respostas,srcinaram-se cinco categorias: sozinho, ser deixado de lado, sofrimento,perdas e sem cuidador. A primeira aglutinou as expressões estar sozinho,desamparado, desprotegido e solidão. A segunda envolveu manifestações quereferiam a ser esquecido, deixado pelos filhos, deixado de lado, desvalorizado,desconsiderado, isolado, negligenciado, afastado da família, excluído. Aterceira categoria, sofrimento, integrou o sentir tristeza, sofrimento,necessidades, maus-tratos, injustiça, crueldade e ruindade. A quarta abrangeuo sentimento de ter perdido o amor dos filhos, autonomia, laços de família,independência, liberdade, amigos e amor. A quinta abarcou o ficar , expressonas falas que se referiam a sem cuidador, desassistido, dependente e asilado.   O resultado do estudo realizado traduz, da forma mais fidedigna possível,a exploração qualitativa das falas dos idosos, cujos conteúdos foramcategorizados, descritos e interpretados com o intuito de dizer o que os idosos  entendem por abandono na velhice e que circunstâncias podem provocá -lo.Nesse proceder, constatou-se que os idosos buscaram situações concretaspara tentar explicar o que entendiam por abandono, descrevendo as condiçõesem que ele se manifesta, sobrepondo-se as respostas das duas perguntasformuladas. As falas transcritas no texto evidenciam a reciprocidade entrecondição e sentimento, mostrando que ambos estão sempre intimamenterelacionados e que um não se dá sem o outro.   O CO NT EX T O DO ABA N DO N O A discussão sobre o tema abandono foi tratada em momentos distintos,com fins de responder a duas questões essenciais do estudo: ³O que vocêentende por abandono?´ e ³Em que situação uma pessoa se senteabandonada?´. As duas questões foram os elementos norteadores daindagação e expressam a inquietação sobre o assunto.   A primeira pergunta teve a intenção de delinear um conceito de abandonona velhice; e a segunda, identificar em que situações reais o abandono seconfigura, em que contexto ele se dá. A inter-relação de circunstâncias queacompanham a concepção de abandono na velhice espelha uma relaçãointrínseca de um verbo ± ser, estar, ficar, sentir, ter ± com os substantivossozinho e solidão. Isso significa sofrer a ação srcinada da situação sozinho, oque leva ao sentimento de solidão.As situações que levam ao abandono são provocadas pela condição defragilidade do idoso, que pode passar a depender de outras pess oas, pelaperda da autonomia e da independência, pelo esfriamento dos vínculos afetivose pela conduta do grupo de relações ou ausência dele. Ainda há situações quedependem do próprio idoso, no que se refere ao modo como se dá oenfrentamento dessas situações. Isso significa dizer que uma mesma situaçãopode ser motivo gerador do sentimento de abandono para uma pessoa e não oser para outra. Depende das circunstâncias objetivas e subjetivas de cadaindivíduo.A partir das falas dos idosos entrevistados, entendeu-se que abandono navelhice é um sentimento de tristeza e de solidão, provocado por circunstânciasrelativas a perdas, as quais se refletem basicamente em deficiências funcionaisdo organismo e na fragilidade das relações afetivas e sociai s, que por sua vezconduzem a um distanciamento, podendo culminar no isolamento social.Abandono é um sentimento de sofrimento trazido por essas circunstâncias, oque impede o indivíduo de viver e conviver plenamente e de permanecer inserido na família, no grupo e na cultura. Essa situação rompe o contato vitalcom o mundo, favorece a inércia do corpo e rouba a possibilidade de ser e deconhecer. O estar-indefeso, a falta de intimidade compartilhada e a pobreza deafetos e de comunicação tendem a mudar estímulos de interação social e deinteresse com a própria vida. Aparentemente, o idoso espera ser salvo dessesentimento; espera que seu grupo o acolha e com ele permaneça até a morte.Será a morte o abandono maior? O idoso quer em vida o acolhimento, a  presença, o amor dos seus. Ele quer compartilhar a experiência e oconhecimento que construiu ao longo de sua existência. Quer entender ascontradições que o envolvem, o porquê da distância emocional entre aspessoas de seu grupo familiar e social e seus sentimentos, o que o separa dosoutros no momento em que precisa ser apoiado para a travessia que envolve oprocesso da morte.O sentimento de abandono é aqui entendido como uma experiênciaafetiva, íntima, emocional. Uma reação individual que depende da história decada um, provocada por uma condição ou circunstância.O ser humano teme as perdas, uma vez que as mesmas habitualmentetrazem sofrimento. A experiência de perdas pode levar a esclarecer umasituação de abandono. As perdas se revelam como condiçõesdesencadeadoras de um processo que se dá num continuum de maneiragradativa e que se intensifica pelas sucessivas perdas e danos. Oaprisionamento nessa situação o fragiliza e o coloca numa condição dedependência, de inutilidade e de aniquilamento. Para muitos, a perda maior é amorte. Aceitar o limite imposto pela morte como experiência cotidiana implicaaceitar as regras da existência, visto que a morte impõe uma ruptura com tudoo que se conhece e se ama e faz parte da condição humana.   A falta de preparo para a morte impede que se compreenda a razão dessasituação irreversível e verdadeira, visto que a sociedade ocidental prepara oser humano para a vida. A valorização dessa cultura retrata o despreparo dohomem para a vida interior, e esse despreparo se manifesta principalmente emsituações de impotência frente às perdas. Muitas filosofias de vida ³vêem amorte não como um evento isolado, mas como uma mudança no infindávelciclo de mudanças´ (Riponche, 1987, p. 7).O despreparo para viver as diferentes etapas do ciclo de vida mostra quehá falta de conhecimento, e que cada etapa exige do ser humano acompreensão de que ³cada fase da vida representa algo de novo, que não foivivido anteriormente e que o homem é um outro´ (Guardini, 1990, p. 8). A faltadessa compreensão indica que nem sempre o ser humano tem condições deentender e acompanhar as mudanças que lhe são impostas. A preparação édisfuncional à realidade, e as instituições que são responsáveis pelapreparação estão desatualizadas e desfocadas da tensão que existe entre oser da pessoa e a evolução de suas fases sucessivas, bem como do objetivomaior que é a realização plena da natureza humana.   A PERCEPÇÃO DOS I DOSOS  O entendimento de abandono na velhice, sob o olhar dos idososentrevistados, relaciona-se à idéia de sozinho: ser sozinho, estar sozinho, ficar sozinho, sentir-se sozinho e de não ter. Ser sozinho, como algo constitutivo,

fauvismo

Aug 12, 2017
We Need Your Support
Thank you for visiting our website and your interest in our free products and services. We are nonprofit website to share and download documents. To the running of this website, we need your help to support us.

Thanks to everyone for your continued support.

No, Thanks