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Alfabetizando o corpo: o pioneirismo de Hortênsia de Hollanda na educação em saúde. Literacy embodied: the pioneering work

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E N T R E V I S TA I N T E RV I E W Alfabetizando o corpo: o pioneirismo de Hortênsia de Hollanda na educação em saúde Literacy embodied: the pioneering work of Hortênsia de Hollanda in health education
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E N T R E V I S TA I N T E RV I E W Alfabetizando o corpo: o pioneirismo de Hortênsia de Hollanda na educação em saúde Literacy embodied: the pioneering work of Hortênsia de Hollanda in health education Virgínia Schall 1 Ce n t ro de Pesq uisa Re n é R a c h o u, Fu ndação Os w a l d o C r u z. Av. Augusto de Li m a , Ba r ro Pre t o, Belo Ho r i zo n t e, MG , Bra s i l. 2 La b o ratório de Ed u c a ç ã o e m Am bien te e Sa úde, De p a rtamento de Bi o l o g i a, Instituto Oswaldo Cru z, Fu n dação Osw aldo Cr uz. Av. Brasil 4365, Rio de Ja n e i ro, R J , Bra s i l. A ed ucação e m saú de teve seu desenvolvime nto no Brasil associado às ca mp anhas de controle das gra ndes en de mias infecto-para s i t á ri a s. Cara c t e rizada desde o início por um a pedagogia higienista e um a prática de o rientação ve rtical, e ncontrou, na década de 50, uma nova abordage m e u m a muda nça radical de procedimentos mediante a atuação de Ho rt ê n- sia Hurpia de Holla nd a n o De p a rta me nto Nacional de Endemias Ru ra i s ( D N E RU). Ne s t e, ela a briu es paço p ara a participação da co m u nida de, n u m enfoque a mbie ntalista e integra d o r, ava nça do e pion eiro e m seu t e m p o, e, até hoje, por poucos alca nçado. Seu trabalho chegou mesmo a ser com pa ra do pelo psica nalista e p rofessor Célio Ga rcia ao de Pa u l o Fre i re. Enqu anto este dese nvolvia u ma form a inova d o ra de alfabetizar p a ra a vida através das palavra s, Ho rtênsia também construía com as populações d e áreas endêmicas um saber para a vida, através da leitura do corpo, conduzindo à compreensão das relações entre a saúde e o ambient e. Ed u c a d o ra desde a déca da d e 40, Ho rtênsia in trod uziu nas ca m panhas do DNERU uma nova mentalidade, recebida com resistência na áre a da saúde, co ma nda da a té e ntã o exc l u s i va mente por médicos qu e dirigiam os programas no País, cujas ações eram centradas na distribuição de medica mentos e informações básicas padronizadas de alca nce limitado. Destac ar a i m portância de Ho rtênsia de Holla nda para a educação e m saúde é re c u p e rar a m e mória da tra j e t ó ria e construção dessa áre a no Brasil, à qual ela se de dicou durante cinco décadas, produzindo u m a re volução silenciosa, atestada me nos estatisticam e nte, e muito m ais por cada u m dos inú m eros personage ns invisíveis das gran des áreas endêm i c a s, que vive n c i a ram melhorias e m sua saú de e qualidade de vida. A abordage m hu manista e hu manitária que ela im primiu à educação e m saúde te m suas ra í zes no exe mplo de seu pai, Horácio Hurpia Fi l h o, m é d i c o, a que m acompa nhava em consultas vo l u n t á rias em hospitais e comu nidades desfavo re c i d a s, assistidas por ele em suas folgas de fins de se m a na. Com o c onta: Sua capacidade para ouvir as queixas dos doent e s, vontade de com preender as sit uações gera d o ras de doenças, p e n e t ra r na raiz dos fatores antes de interv i r, m o s t ra va m u m co m portam ento pro- 1 5 0 SCHALL, V. fissional que me m arcou pro f u n d a m e n t e, associado ao respeito e solidariedade ao sofri mento do povo h u m ilde. Estas foram atitu des que m arc a ra m a sua prática. Nascida e m 26 de maio de 1917, na cidade de Co ru mbá, Mato Gro s s o do Sul, Ho rtênsia fez s ua for mação básica em Belo Ho ri zo n t e, o sec und á rio e colegial n o Rio de Ja n e i ro, o n de ta m bé m concluiu dois cu rsos u n i ve r s i t á rios: u m de Língua e Litera t u ra Anglo-Ge rm â nica, na Fa c u l d a- de de Filosofia, em 1941, e outro de Nu t ri ç ã o, na Un i versidade do Bra s i l, e m Es pecializou-se e m Saú de Pú blic a e Educação em Saú de n a Un i versidade do Chile (Esc u ela de Salu bridad), e m 1950, te n do feito m e s t rado em Public Health and Ed u c a t i o n, na Un i versidade da Ca l i f ó r- nia (Un ive rsity of Ca l i f o r n i a), e m Be rkeley (1952). Alé m disso, part i c i p o u como aluna ou co mo pro f e s s o ra e conferencista de m uitos outros cursos e se minários de Psicologia da Ed u c a ç ã o, de Saúde Pública e Ed u c a ç ã o e m Sa ú d e, no Brasil e e m vários outros países. Sua carre i ra inclui cargos e atividades docentes em diversas instituições nacionais e intern a c i o n a i s. De 1949 a 1955, foi assiste nte téc nica d a Divisão d e Educação Sa n i t á ria do Se rviço Especial de Saúd e Pública da Fundação SESP (Se rviço Especial de Saúde Pública), Mi n i s t é rio da Sa ú- d e. A p artir de 1954, passou a for mular e orientar pro g ra m as de e ducação em saúde para o DNERU, on de, pioneira m e n t e, formou e coord e n o u eq uipes m ultipro f i s s i o n a i s, integra nd o as áreas de epidemiologia, psicologia, educação, ciências sociais e clínica m édica, dedicad as a assessora r as pesquisas e planejamento de pro g ra m a s, com o objetivo de inova r / ref o rm ular concepções e ações de controle das e ndemias ru rais no Bra s i l. Em 1963, foi contrata da com o Healt h Education Officer pela South Pa c i f i c C o m m i s s i o n, atuan do e m vá rios países e terri t ó rios da Melanésia, Po l i n é- sia e Mi c ronésia, em diferen tes pro g ra m a s. Co mo re p resentante daq uela O rg a n i z a ç ã o, participou de diversas reu niões técnicas internacionais relacio na das ao c ontrole da malária (Ilhas Sa l o m ã o, 1963), a o com bate à t u b e rculose (Nova Caledônia, 1965), sobre urba nização e saúde m ental nas socieda des tra dicion ais (Nova Cale dônia, 1965) e sobre org a n i z a ç ã o d e serviços de saú de nas áre as su bdesenvolvidas (Fi l i p i n a s, 1966). Fo i c o n s u l t o ra da Organização Mu ndial da Saúde (1968/1969), para pro g ram as no México, Costa Rica, Ho n d u ra s, Guatemala, Pa raguai e Arg e n t i n a. De 1970 a 1977, foi assessora e dire t o ra da Divisão Nacional de Ed u c a ç ã o Sa n i t á ria do Mi n i s t é rio da Sa ú d e, sendo ta m bé m consultora de secre t a- rias de saúde de Minas Ge ra i s, Mato Grosso do Sul, Rio Gran de do Sul, Pará e Bahia, coordenando e orientando pro g ram as de educação em saúde. A c onvite de diversas instituições intern a c i o n a i s, Ho rtê nsia pa rt i c i- pou de estudos e observação de pro g ram as sobre esq uistossom ose e m a- l á ria na Itália, Su d ã o, Uganda, Tanzâ nia e Eg i t o, co mo f e l l ow s h i p da Wo rl d Health Or g a n i z a t i o n W H O (1958); sobre planejamento e avaliação de m a t e riais educativos para a saúde e m Washingto n, Atlanta, C hicago, Nova Io rq u e, com o bolsista da USAID (1960); sobre o problem a do fumo, pela Am er ican Cancer Society, Nova Io rque (1973); sobre materiais apro p ri a- d os às populações ru rais e desenvolvimen to de rec ursos hu m anos, e m L o n d res (1977). Pro f a. Ho rtênsia Holla nda durante o XVII Congresso Bra s i l e i ro de Hi g i e n e,s a l va d o r, d e ze m b ro de 1968. H O RTÊNSIA DE HOLLANDA Em paralelo à sua atuação a mpla na prática da educação e m saúde, Ho rtênsia re a l i zou pesquisas, algu m as das quais com fina nciam ento do C N P q, co m o u m projeto execut a do e m Capim Bra n c o, Minas Ge ra i s (1974 / 1975), área en dê mica de esquistosso m ose, on de avaliou estra t é- gias m ultidisciplinares de contro l e, investigando os m odos de ver a re a- lid ade e se expressar so bre os proble m as de vid a, sa úde e trabalho de u m a população ru ral. Foi ta mbé m re s p o n s á vel por u m projeto de pesquisa realizado e m áreas ru rais (CNPq, 1977), co m o objetivo de desenvo l ver materiais audiovisuais com a participação das populações locais. Como coord e n a d o ra do projeto: El a b o ração e Ex p e rime ntação de Novo s Ma t e riais para o Ensino de Saúde (convênio MS/DNES MEC/PREM E N ), o rg a n i zou, e m colaboração com outros pesquisadore s / e d u c a d o re s, o liv ro: S a úde co mo Com preensão de Vi d a, fruto de um trabalho de construção de texto com a participação dos pro f e s s o res e co m unidades envo l v i- d a s, cara c t e riza nd o-se com o u ma iniciativa inédita que resultou e m u m a publicação fu n da mental para a educação e m saúde. Publicou out ros documentos e participou da elaboração de m uitos outros materi a i s e d u c a t i vos re l a t i vos à educação em saúde voltados para o controle e prevenção de doen ças co m o: esq uistossomose, doença de Chagas, ha nsen í a s e, dentre outra s. Re c e n t e m e n t e, em recon hecim ento a seu tra b a l h o, foi ho m en agea da na II Conferencia La t i n o - American a de Pro m oción Y Educación para la Salud, em Sa n t i a g o, Chile (1996). En t revistar a Pro f e s s o ra Ho rtênsia de Hollanda foi u ma oport u n i d a- de de e ncontro hu mano dos mais significativos e de apren dizagem, pelo exem plo de u ma vida dedica da à carre i ra; pela coerência de um a atitude p rofissional que busca co mpart i l h a r, co nstruir ju nto às pessoas envo l v i- d a s, co m um e m basam ento teórico se m pre atualizado e en ri q u e c e d o r; pelo co mprometimento com o ava nço do projeto de u ma sociedade m a i s justa e igualitária; pela form a de conduzir a sua ação, firm e, corajosa, o u- sada, exercendo a sinceri d a d e, necessita ndo por vezes ser dura n a fra n- q u eza, m as dando primazia ao diálogo, privilegian do sem pre o escutar. Assim, a seguir, apresento alguns m omentos extraídos dos diversos enc o n t ros realizados durante os meses de m aio a julho de 1997, no apart a- mento de sua fa m ília, n o Rio de Ja n e i ro, n ão haven do possibilidade de e s p a ç o, assim co mo intenção, d e apresentar u m re t rato abra ngen te da o b ra e da vida de Ho rtênsia de Hollanda. O foco da seleção foi ori e n t a d o pela te m ática deste nú m ero da revista, a educação e m sa úde, fica ndo, p o rt a n t o, para pr óximas oportu nidades o resgate de tantos outros belos e ricos aspect os de su a vida e de s ua con tribuiçã o à sa úde p ú blica e m n osso país e n o exteri o r. Pro d u z i m o s, ainda, u m d ocu m entário e m víd e o, no qual depoim entos de alguns pesquisadores que com ela colabora ra m e m m omentos dive r s o s, como: Angelina Ga rcia, João Carlos Pinto Di a s, Edith Ma ta Ma c h a d o, Célio Ga rcia, Co r nelis Va n Stalen, Mônica Me yer e Paulo Ro g e d o, entre l a ç a m - s e, compo ndo u m ve rd a d e i ro painel a nalítico da significativa co ntribuição da Pro f e s s o ra Ho rtênsia e da próp ria tra j e t ó ria da saúd e pública no Brasil, mais especifica m ente da educação em saúde a partir dos a nos 50 até nossos dias. 1 5 2 SCHALL, V. Schall A senhora poderia nos falar u m pouco s o b re a sua opção pela e ducação e m saúde? Hollanda Pa rte fun d am ental deste pro c e s s o localiza-se em minha infância e a dolescência e p recede a cronologia da minha especialização e m ass u ntos e d ucacio n ais na área da saú de. Pri m e i ro vem o meu pai. A ele devo o dese nvo l- vim ento de atitudes que estive ra m no cerne da m inha for m ação profission al. Sua ca pacidade de o uvir as qu eixas dos doe n tes, von ta de de c o m p re e n d ê - l o s, pe n etrar n a raiz d os fatore s a ntes de interv i r, mostra va m o com port a m e n- to profissional que m e m arcou pro f u n d a m e n- t e. Isto foi realmente m uito im portante na minha vida. Ele aprove i t a va o te m po que tinha liv re p ara ajudar as fre i ra s na Sa nta Casa ou ele ia co m elas para identificar os casos m ais séri o s, busca ndo se m pre com preen der a re l a ç ã o da doe nça com os fatores do am bien te, com o modo de vida. Nessa época, eu tinha entre dez e treze anos, era a filha m ais velha, e ele me levou ju nto m uitas veze s. Ele se m pre tra b a l h o u vo l u n t a ri a m e n t e. En t ã o, de p ois de se u tra b a- lho no Ex é rc i t o, ia para a Santa Casa, dava u m a ajuda aos casos m ais im port a n t e s, discutindoos e trocando infor mações com as Irmãs de cari d a d e, co m simplicidade e sim patia. Com a inte nção de c on hecer m elh or o a m bie n te o nde vivia m seus pacie ntes, ia visitá-los em suas casas ou e m seus locais d e tra b a l h o. Nas conve r- sas com as pessoas d a fa mília, ia descobri n d o o m odo d e pe n sar e c ond uzir a vida (os h ábit o s, cre nças etc.). As suas explicações era m s i m p l e s, como eram sim ples as pessoas que ele q u e ria aju dar. As m ães se mpre perg u n t a va m qu al seria o re m édio para seus filh os. Ele re s- pon dia q ue não era falta de rem édios e sim de co mid a co m os ele me nt os necessários para a s a ú d e. Elas res p ondia m qu e dava m co mida, m o s t rando em sua mesa os alime ntos. Ele perg u n t a va: O q ue você dá de a m arelo? E de ve r- d e? E assi m ia e nsi nan do a co mp or u m a alimentação va riada com o que havia de disponível na re g i ã o, co m o se fosse um ra mo de flore s e de folhas, de cores va ri a d a s. S Trad uz i n do e m cores p ara as pe ssoa s en - t e n d e re m... H E ele dizia Isso é m uito bo m, a abóbora, a b a t a t a, a ce noura, todos são ali mentos m uito b o n s.... Não me le mbro m ais o que ele colocava p a ra cada u m porque também ele va ri a va conf o rm e a casa... e eu ach o que isso foi mais im - p o rta nte para mim do que qualq uer curso unive r s i t á ri o. Ah! e ou tra coisa que ele fazia, era m uito in tere s s a n t e, ele ia dese n ha n do. Ele ia explicando e ia desen ha n do, esses desen hoz i- nhos lineare s... não deixava sem dar uma explicaç ão d o porq uê de cad a pro ble m a. Pe g a va um a folha de papel qualquer, desenhava e deix a va lá co m eles. S Um esque ma para le m bra r. E a se nhora faz isso m uito. Eu me lem bro de u m dos cursos em que nós a convida m os para dar u m a aula aqui na Fi o c ruz, e m 88. Está até re g i s t rado nu m víd e o, a se n hora e stá conversan do com as prof e s s o ras e fazendo o esque ma no quadro, ju nto com elas, com as palavras delas, montando u m significado co m part i l h a d o. Muito interessante! H Eu ach o q ue é m uito melhor você seguir o ca min h o das pessoas, m uito m ais fácil p ara elas mesm as re c o n s t ru í re m as s uas conc epções e faze re s. S A senhora citaria ainda outras pessoas? H Ho uve m uitas outras p essoas q ue m e im - p re s s i o n a ram pelo seu saber e a sua pre o c u p a- ção co m a educaçã o das novas gera ç õ e s. Um a delas e ra a D. Cacilda Ma rt i n s, u m a m ulher m uito intelige n t e, com u m a vid a m uito ativa ; seu marido havia sido o Se c re t á rio Ge ral d o It a- m a ra t y, n o te mpo do Bar ão do Rio Bra n c o. El a e ra dire t o ra da Fun dação Os ó ri o, onde eu estud a va, u m a educadora exe m plar, sem pre à proc u ra de inovações que melhorasse m a qualidade da nossa for m a ç ã o. Co s t u m a va convidar artista s e cientistas qu e pud esse m n os ofere c e r um a visão mais ampla da vida. En t re as pessoas q ue ela c onvido u, destaco a im port ância do contato com o professor Lu t ze l b u rg, de He i d e l- b e rg, Alem an ha. Ele havia sido convidado pelo g ove rno bra s i l e i ro para estudar o proble m a da seca d o No rd e s t e, n u m a área an tes ocu pad a por florestas de carn a u b e i ra s. Seus est udos estã o e m docu me ntos que se e ncontram no In s- tit uto Aggeu Ma g a l h ã e s, e m Re c i f e. Suas lições de ciências e botânica guiavam a nossa observação para o m eio am biente. O Lu t ze l b u rg era u ma figura. Ele saía da Acade mia de Ciências, H O RTÊNSIA DE HOLLANDA vinh a com seu fraque n os dar aulas. Não p ara lecion ar apenas, m as n os leva va para um morro q ue havia atrás do colégio, on de estim ulava a nossa observaçã o para o meio a m bien t e, o clim a, anim ais, pla ntas... era um a coisa linda. S E co mo foi o início da sua vida pro f i s s i o n a l? H Com ecei a trab alhar n a Ca mpa n ha Na c i o- nal pela Alime ntação da Cria nça, aos 16 a nos, logo depois de sair do colégio, atendendo a um convite de um pro f e s s o r, filho da nossa dire t o- ra, a D. Cacilda. Era u m ótim o pro f e s s o r, form a- do na In g l a t e r ra, co m u ma form ação em Hi s t ó- ria e Filosofia, o que influenciou a min ha decis ã o. A esta época eu ta mbé m havia sido convidada para u m cargo no It a m a ra t y, m as escolhi a área de Sa úde Pública. Eu se mpre fiz opções pela p arte m ais dura, mais difícil e se m re c u r- s o s. A po breza da po p ulaçã o co n dicio nava q u a d ros de saúde de difícil solução. Bem, h avia carência de m aterial e de pessoal, mas eu era a faz-t ud o ali d entro: batia máquina, fazia tra d u- ç ã o, era bibliotecária e ar quivista. Co m o pouco de inglês q ue tin h a apre n d i d o, aju dava na t ra d ução d os text os. Er a ainda d atilógrafa da c o r respon dência do dire t o r, cujo estilo m e enc a n t a va. Eu re c o rdo q ue e m uma das cartas para u m médico do Ma ra n h ã o, eu nun ca vou esq u e c e r, ele dizia assim: Aqui esta m os. Os proble m as são m uitos, os recursos poucos. Por en - q u a n t o, a ge n te só tem u tilizado o verbo en - q uan to a verba não saí. Nu nca es queci desta f ra s e. De p o i s, já casada, eu vivi u m ano em Po rt u- gal e, e m seguida, cinco an os n o Pa raguai. Fo i no Pa raguai que co mecei a fazer u m pouco de educação e m saú de, ao invés de fazer só p ueric u l t u ra, o q u e nã o fazia se ntido para a quelas menina s do cu rso pri m á ri o. Na quela ocasião, eu co mecei a fazer algu mas experiências práticas com as alunas, pre p a ra ndo e fazendo re f e i- ções ju ntas p ar a est ud ar m os os processos d e n u t ri ç ã o. Depois re t o rnei ao Brasil, te n do sido convid ad a por u m pesq uisad or do In s t i t u t o Oswaldo Cruz, o Manoel Fe r re i ra, p ara tra b a- lhar na Fund ação SESP. Foi lá que e u recebi o convite para trabalhar n a área de educação san i t á ria. Ant es de co meçar, eles m e e nvia ra m ao Chile para fazer u m c urso de intr oduçã o a este n ovo ca mpo. Foi a m inh a pri m e i ra e ntr a- da n u m tra balho q u e me ocu p ou m uito, q u e me apaixonou, não a educação sanitária e m si, a qu ela q ue m e ensinara m lá no Chile, porq u e eu sou m uito crítica. Fui compondo u ma ed u- cação sanitária com algum a coisa que eu tinha no começo, a concepção de a m biente co mo algo fu nda m ental à sa úd e, com preende r com o você está viven do num am biente. Eu nu nca fui, assim, daq uelas de pensar q ue as p essoas podem mudar seu com port a m e n t o, só porque alguém disse ou informou alguma coisa. Eu a c h a- va tudo isso, assim, a bsoluta me nte se m sentid o, não tin ha n ada co m a re a l i d a d e. En t ã o, aí, eu fui fazendo a minha ed ucação sanitária. Alguns m e diziam: Isso aí não é ed ucação sanitár i a. Mas as pessoas q ue eram m ais a bertas n a saúde pública ficava m encanta das co m a minha abordagem de educação sa nitária e buscava m esta integração e m seus pro g ra m a s. Po r e x e m p l o, Samuel Pessoa foi um a pessoa que m e estim ulou m uit o, ele queria qu e e u estud asse Medicina, para poder falar do alto da m edicina. S A sen hora ficou m uito tempo na Fu n d a ç ã o SESP? Fale - m e u m po uco do seu trabalho lá e no DNERU. H Fiquei n a Fu ndação SESP u ns quatro anos. At ravés d a Fu n d a ç ã o, org a n i zei e re a l i zei u m curso de oito meses para todos os pro f e s s o re s de higiene e p ueri c u l t u ra das escolas nor m a i s. Foi e m 47. Esse trabalho baseou-se na idéia d e Man oel Fe r re i ra, de qu e a Educaçã o Sa n i t á ri a devia-se fazer n a escola, pelos pro f e s s o res que já existia m, que era m os de p ueri c u l t u ra e hig i e n e. Nós fize m o s, demos uma for m a ç ã o. Ma s isso pode não ser tão eficiente, se a escola n ão te m u m entrosa men to com a co m u nidade e com os serviços de sa úde, porque m uitas coisas vão se chocar no ca min ho. Depois fui p ara o DNERU. Na quela ép oca, houve u m a carg a m uito grande de recursos para as endemias r u- rais por causa da malária, pelo sucesso no processo de co m bat e que e ra tradicion al, qu ase u m a guerra. Eles realm ente conseguira m cont rolar a m alária com o DDT. E assim, aum ent
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