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Anpof - Por Que Nao Defendo a Obrigatoriedade Da Filosofia No Ensino Medio (1)

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  15/03/17 21 󰀺 55ANPOF - POR QUE NÃO DEFENDO A OBRIGATORIEDADE DA FILOSOFIA NO ENSINO MDIOPágina 1 de 15http://anpof.org/portal/index.php/pt-BR/comunidade/coluna-anpof/…r-que-nao-defendo-a-obrigatoriedade-da-filosofia-no-ensino-medio  Português (http://anpof.org/portal)10 Out 2016 POR QUE NÃO DEFENDO AOBRIGATORIEDADE DAFILOSOFIA NO ENSINO MÉDIO  João Vergílio Gallerani CuterSou professor de ! loso ! a. Quero emprego para meus alunos epara os alunos de meus colegas. Sei que, se a ! loso ! a deixar deser uma disciplina obrigatória, o interesse por ela tende a seesvaziar bastante em departamentos nos quais a f ormação dosalunos está fortemente vinculada à docência no ensino médio.São lugares nos quais colegas e amigos meus lutam bravamentepara consolidar programas de graduação e pós-graduação emcondições muitas vezes adversas, e o ! m da obrigatoriedadeseria, para eles, um duríssimo revés. Sinto-me emocionalmenteinclinado a defender a obrigatoriedade por uma simples questãode solidariedade a pessoas com quem convivo e que ! zeramopções de vida muito semelhantes às minhas. Mas isto só nãobasta.Para além dos empregos que possa garantir, uma boa parcela(arrisco-me a dizer – a imensa maioria) da comunidade a quepertenço acredita sinceramente que a obrigatoriedade do ensinoda ! loso ! a para adolescentes pode desempenhar um papelimportante na sociedade brasileira como um todo. Váriosargumentos são apresentados em favor dessa posição. Tenhoouvido um deles com especial frequência, e gostaria por isso deexaminá-lo. Tal ensino deve ser obrigatório, argumenta-se, pois éessencial para a formação de cidadãos críticos — cidadãoscapazes de um tipo mais quali ! cado de avaliação da sociedadeem que estão inseridos, das informações que recebem pelosmeios de comunicação, dos argumentos e alegaçõesapresentados por seus representantes políticos, e assim por ! (http://anpof.org/portal/indBR/comunidade/coluna-anpof) PostsRecentes LATTES(/portal/index.php/pt-BR/comunidade/coluna-anpof/1103-lattes)As mulheres ou os'silêncios' dahistória da ! loso ! a(/portal/index.php/pt-BR/comunidade/coluna-anpof/1099-as-mulheres-ou-os-silencios-da-historia-da- ! loso ! a)O BRASIL E AFILOSOFIAAFRICANA pesquis r INÍCIO (/portal/index.php/pt-BR/)ANPOFENSINO E PESQUISAENSINO MÉDIOBOLETIMCOMUNIDADELOGIN (/portal/index.php/pt-BR/login)  15/03/17 21 󰀺 55ANPOF - POR QUE NÃO DEFENDO A OBRIGATORIEDADE DA FILOSOFIA NO ENSINO MDIOPágina 2 de 15http://anpof.org/portal/index.php/pt-BR/comunidade/coluna-anpof/…r-que-nao-defendo-a-obrigatoriedade-da-filosofia-no-ensino-medio diante. Não duvido que a ! loso ! a, se bem ensinada, possaexercer, em alguma medida, esse papel. O fato, porém, é queoutras pessoas poderiam, com igual direito, alegar que outrasdisciplinas cumpririam papel semelhante, eventualmente comvantagens adicionais, e que seria melhor deixar às escolas aescolha entre a ! loso ! a e outras disciplinas que poderiampropiciar essa formação crítica para o aluno-cidadão.Penso, por exemplo, no que eu poderia responder a um advogadoque me dissesse que valeria mais a pena estudar noções básicasde direito no ensino médio do que obrigar adolescentes a ! carqueimando as pestanas em textos de Aristóteles e Descartes. Se aquestão é favorecer a cidadania, diria esse advogado, seria muitomais efetivo ensinar ao aluno os direitos que a Constituiçãogarante a todos nós, e dar aos adolescentes noções práticas sobrecomo proceder diante de uma cena de abuso de poder, deviolência doméstica ou de discriminação racial. Ao contrário da ! loso ! a, que não tem professores em número su ! ciente paraatender à demanda em nível nacional, há advogados espalhadospelos quatro cantos do país, e não seria difícil dar a eles incentivospara que ministrassem ao menos uma aula semanal explicandoaos alunos os direitos e deveres que lhes são garantidos por lei,bem como os meios para acionar o Judiciário em caso denecessidade. Isso mudaria a face do Brasil em poucos meses, diriao defensor do ensino do direito, muito mais do que o ensino da ! loso ! a seria capaz de fazê-lo ao longo de décadas.Confesso que não sei como contestar de modo efetivo esseadvogado imaginário. Talvez eu fosse levado à cômoda respostade que as coisas não se excluem. Que sejam dadas as duasdisciplinas obrigatoriamente em todas as escolas do Brasil. Odireito daria ao aluno os instrumentos práticos, digamos assim,para se defender da truculência policial ou da discriminaçãoracial; só a ! loso ! a, no entanto, seria capaz de lhe fornecer oinstrumental teórico para fundamentar sua prática cidadã. Estaideia de fundamento causa-me uns calafrios ! losó ! cos de umtipo bem característico, e creio que qualquer wittgensteiniano terásensações semelhantes neste ponto. Mas, não é minha intençãodar início aqui a uma discussão ! losó ! ca a respeito dasduvidosíssimas capacidades fundamentadoras da ! loso ! a,concebida como uma espécie de alicerce dos outrosconhecimentos. Meu ponto é essencialmente prático.Concordemos que as coisas não se excluem. Direito e ! loso ! aseriam ambos parte do cardápio obrigatório de disciplinas denossa escola ideal. Mas a sociologia deve ser excluída por ambas?Que dizer da educação ambiental? Da educação artística?(/portal/index.php/pt-BR/comunidade/coluna-anpof/1090-o-brasil-e-a- ! loso ! a-africana)Filosofando comsotaquesafricanos eindígenas(/portal/index.php/pt-BR/comunidade/coluna-anpof/1089- ! losofando-com-sotaques-africanos-e-indigenas)O Debate sobreFiloso ! a Brasileira(/portal/index.php/pt-BR/comunidade/coluna-anpof/1083-o-debate-sobre- ! loso ! a-brasileira)A Filoso ! aenquanto estudose práticas(/portal/index.php/pt-BR/comunidade/coluna-anpof/1073-a- ! loso ! a-enquanto-estudos-e-praticas)Por uma disciplinapara estudar opensamentoameríndio noscursos de ! loso ! a(/portal/index.php/pt-BR/comunidade/coluna-anpof/1071-por-uma-disciplina-para-estudar-o-pensamento-amerindio-nos-  15/03/17 21 󰀺 55ANPOF - POR QUE NÃO DEFENDO A OBRIGATORIEDADE DA FILOSOFIA NO ENSINO MDIOPágina 3 de 15http://anpof.org/portal/index.php/pt-BR/comunidade/coluna-anpof/…r-que-nao-defendo-a-obrigatoriedade-da-filosofia-no-ensino-medio Devemos juntar num mesmo balaio a educação artística dosolhos, para as artes plásticas, e dos ouvidos, para a música? Todasdeveriam fazer parte de uma mesma caldeirada obrigatóriasorvida por adolescentes irriquietos em colherzinhas de café,numa aula semanal perdida em meio a todas as outras?Ora, diria um músico, isso é desconhecer completamente aimportância da educação musical e a complexidade imensaenvolvida no seu ensino. Impossível fazer com que o ensinomusical cumpra suas funções cidadãs oferecendo uma aulaobrigatória por semana ao longo de um único ano. O mínimo — omínimo dos mínimos — que se espera de um aluno de educaçãomusical é que saia do ensino médio capaz de ouvir uma sonata deBeethoven ou uma fuga de Bach com alguma compreensão doque está ouvindo, e isso não se faz do dia para a noite. A noção decidadania que o ! lósofo e o advogado empregam é de umasuper ! cialidade gritante, acrescentaria o músico. Não nego queseja utilíssimo que um adolescente conheça a noção de contratosocial de Rousseau, a distinção entre matéria e forma emAristóteles e o quinto artigo de nossa Constituição em cada umade suas 78 alíneas. Isto certamente faria dele um cidadão melhor.Mas alguém capaz de ouvir uma sonata de Beethovenentendendo-a do começo ao ! m é antes de mais nada umcidadão que não é mais um receptor passivo do lixo cotidianoproduzido pela indústria cultural. Por que rir da educaçãomusical? E por que tornar Descartes obrigatório, mas Beethovenopcional?O advogado poderia arguir neste ponto que não há músicos ouprofessores de música em quantidade su ! ciente para dar contada demanda que seria criada pela inclusão da educação musicalcomo uma disciplina especí  ! ca, separada da educação para asartes visuais, por exemplo. A ideia é boa quando considerada emabstrato, diria o causídico, mas ine ! caz quando consideramos ascondições concretas de sua aplicação. Quantas pessoas existemno Brasil capazes de acompanhar uma sonata de Beethoven docomeço até o ! nal entendendo aquilo que estão ouvindo? Poucas.Se criássemos a disciplina proposta pelo músico e a tornássemosobrigatória, estaríamos institucionalizando a picaretagem musical,e não educando os jovens. Quando houver tantos músicos quantoadvogados no país, podemos até pensar na proposta. Antes disso,não. O músico teria, talvez, uma boa resposta histórica aoargumento. Lembraria do processo de implantação do cantoorfeônico como disciplina obrigatória no país durante o governoVargas, sob a batuta de Villa-Lobos. Organizaram-se cursos paraprofessores em cada estado, elegeu-se um repertório mínimo quedeveria ser ensinado aos alunos, e a disciplina foi ministrada comcursos-de- ! loso ! a)EM DEFESA DAFILOSOFIA COMOCOMPONENTECURRICULAROBRIGATÓRIO NOENSINO MÉDIOBRASILEIRO(/portal/index.php/pt-BR/comunidade/coluna-anpof/1068-em-defesa-da- ! loso ! a-como-componente-curricular-obrigatorio-no-ensino-medio-brasileiro)SAFATLE, ONACIONALIMPOPULAR ENOSSO DESEJO DEFAZER FILOSOFIA(/portal/index.php/pt-BR/comunidade/coluna-anpof/1067-safatle-o-nacional-impopular-e-nosso-desejo-de-fazer- ! loso ! a)Ocupação:quando adiversidade podeoprimir(/portal/index.php/pt-BR/comunidade/coluna-anpof/1034-ocupacao-quando-a-diversidade-pode-oprimir)A ! loso ! a(brasileira) não éfeita só por  15/03/17 21 󰀺 55ANPOF - POR QUE NÃO DEFENDO A OBRIGATORIEDADE DA FILOSOFIA NO ENSINO MDIOPágina 4 de 15http://anpof.org/portal/index.php/pt-BR/comunidade/coluna-anpof/…r-que-nao-defendo-a-obrigatoriedade-da-filosofia-no-ensino-medio o mais absoluto sucesso em todo o Brasil. Os alunos talvez nãofossem capazes de distinguir uma sonata de uma fuga, mascertamente distinguiriam Orlando Silva de Michel Teló, e jamaisdariam ouvidos a este último. Se isso foi feito na década de 30,por que não poderíamos fazer algo muito mais ambicioso agora,que temos a internet à nossa disposição? Seria tão difícil assim,perguntaria o músico, montar um repertório ! xo de composiçõesclássicas detalhadamente explicadas em vídeo por um maestro, edistribuir esse material para que professores no Brasil todopudessem utilizá-lo em sala de aula?Neste ponto, é claro que os músicos poderiam se dividir. Maisimportante do que distinguir uma sonata de uma fuga, diria umnacionalista, seria aprender a distinguir os nossos próprios ritmose conhecer a imensa diversidade musical existente em nosso país.Quantas pessoas do sudeste seriam capazes de dizer o nome deum bom grupo parense de carimbó? Quantas saberiamreconhecer um lundu? Quantos adolescentes saberiam dizerquem foi Cyro Monteiro ou Jacob do Bandolim? É ótimo quealguém aprenda a ouvir música clássica, sem dúvida. Mas oproblema todo é saber o que é mais importante ensinar aosadolescentes numa escola brasileira de segundo grau. Quemaprende a ouvir boa música popular brasileira não está apenaseducando seus ouvidos. Está conhecendo melhor a tradiçãocultural em que está inserido, e isso é fundamental para aformação do cidadão consciente.Não seria difícil imaginar as réplicas de um a ! cionado do jazz, oudo rock, ou do hip-hop. Acho difícil, por outro lado, encontrar umbom argumento para dar preferência à ! loso ! a no elenco dasdisciplinas obrigatórias em detrimento de qualquer uma dessasalegações concorrentes. O único argumento que eu teria éaquele que citei inicialmente: sou da turma de cá. Sou professorde ! loso ! a, formo futuros professores de ! loso ! a e gostaria degarantir a eles um bom mercado de trabalho. Se eu fosse ummúsico lutando para conseguir um trabalho temporário que megarantisse o pagamento do aluguel do próximo mês,provavelmente acharia que a distinção entre sonatas e fugas émuito mais importante do que a distinção aristotélica entrematéria e forma, e trataria de correr atrás de razõesperfeitamente neutras para embasar minha preferência econvencer meu auditório. A música, pelo menos, me daria direitoa uma inocência argumentativa que o ! lósofo não consegueconceder a si mesmo. Nosso ofício nos coloca, muitas vezes, caraa cara com nossa parcialidade, e tudo o que podemos fazer éreconhecer isso, e tentar remediá-la do melhor modo possível.Nesses casos, ou bem abandonamos a parcialidade,homens(/portal/index.php/pt-BR/comunidade/coluna-anpof/1033-a- ! loso ! a-brasileira-nao-e-feita-so-por-homens)FILOSOFAR DESDEBRASIL: ALÉM DEUMA MERAQUESTÃO“NACIONAL”(ACERCA DE UMTEXTO DEHADDOCK-LOBO EUMA RÉPLICA DEVLADIMIRSAFATLE)(/portal/index.php/pt-BR/comunidade/coluna-anpof/1032- ! losofar-desde-brasil-alem-de-uma-mera-questao-nacional-acerca-de-um-texto-de-haddock-lobo-e-uma-replica-de-vladimir-safatle)Aborto, um dosdireitosfundamentais damulher(/portal/index.php/pt-BR/comunidade/coluna-anpof/1031-aborto-um-dos-direitos-fundamentais-da-mulher)UNGER, FILOSOFIABRASILEIRA ESINGULARIDADEDA NOSSAEXPERIÊNCIA
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