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Antero de Quental. Análise dos sonetos “Tormento do Ideal”, “Sonho Oriental” e “Logos”

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Análise dos sonetos Tormento do Ideal , Logos e Sonho Oriental de Antero de Quental
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  Darío Portela Núnez Antero de Quental Análise dos sonetos “Tormento do Ideal”, “Sonho Oriental” e “Logos”. Para este pequeno trabalho utilizaremos a seguinte bibliografia. Em dois destes exemplaresfigura o Prefácio que Oliveira Martins fez aos sonetos e ao que também recorreremos. Sonetos    /  Antero de Quental  ; edição organizada, prefaciada e anotada por António Sérgio.Publicação Lisboa : Livraria Sá da Costa, 1976. Sonetos    /  Antero de Quental  ; organização, introdução e notas de Nuno Judice. PublicaçãoLisboa : Impresa Nacional-Casa da Moeda, D.L. 1994. Génese e devir dos sonetos de Antero. Publicação Porto : Figueirinhas, 1999. Joel Serrão. Tormento do Ideal Conheci a Beleza que não morreE fiquei triste. Como quem da serraMais alta que haja, olhando aos pés a terraE o mar, vê tudo, a maior nau ou torre,Minguar, fundir-se, sob a luz que jorre;Assim eu vi o mundo e o que ele encerraPerder a cor, bem como a nuvem que erraAo pôr do sol e sobre o mar discorre.Pedindo à forma, em vão, a ideia pura,Tropeço, em sombras, na matéria dura,E encontro a imperfeição de quanto existe.Recebi o baptismo dos poetas,E assentado entre as formas incompletasPara sempre fiquei pálido e triste.Este soneto é dos que Antero elaborou entre os anos 1860-1862. O título do mesmo já obrigaa pô-lo em relação com o Prefácio de Oliveira Martins quando diz: “[...] É que o geral da gentenão sabe que as tempestades da imaginação são as mais duras de passar! Não há dores tãoagudas como as dores imaginárias. Não há problemas mais difíceis do que os problemas do pensamento, nem crises mais dolorosas do que as crises do sentimento. As agoniasdilacerantes da morte com as ânsias da morte com as ânsias do estertor, os horrores maisinverosímeis dos crimes monstruosos, as aflições mais pungentes da saudade, as tristezasmais dolorosas da solidão, as lutas do dever como a paixão, os gritos do homem arruinado, osais da orfandade faminta... tudo, tudo quanto no Mundo pode haver de doloroso, desde amiséria até à prostituição, desde o andrajo até ao veludo arrastado pela imundície, desde o  cardo que dilacera os pés até ao punhal que rasga o coração: tudo isto é menos do que aagonia de um poeta vendo passar diante de si, em turbilhão medonho, as lúgubres misérias doMundo. Todas as aflições têm o seu quê de imaginativas, e por isso há apenas uma espécie dehomens que não sentem: são os cínicos, esses que perderam os nervos da moralidade,anestesiados do sentimento. [...]” No primeiro quarteto diz que apesar de ter alcançado a beleza ideal (ele remarca os conceitostranscendentais e filosóficos com maiúscula: Beleza ), que é imperecedoira, ficou triste. Comodemostra no segundo quarteto, esse ideal de beleza não tem correspondências no mundo realonde adoece de imperfeições (“  perder a cor  ”) e, por mais que procura a “ideia pura” (primeiroterceto) de forma caprichosa (como indica Oliveira Martins no Prefácio) nos elementos darealidade, descobre que o material apenas lhe oferece “sombras” e “a imperfeição de quantoexiste”. Conclui sentenciando que, como chegou a ser poeta, pode possuir intelectualmente osideais da perfeição, mas ficou para sempre triste e saudoso por não ser capaz de atopar essaverdade no mundo real e sensorial do resto dos humanos.António Sérgio enquadra este poema de juventude de Antero no que ele denomina “Ciclo dosentimento pessimista”. Este sentimento quase-lúgubre (“ Tropeço em sombras ”) vem dadopelo contraste entre o ideal e o real que poderemos atopar noutras composições. É assimcomo Antero justifica esta atitude através duma concatenação de imagens (“ Minguar, fundir-se, sob a luz que jorre... ”). E, como nos mostra António Sérgio, a imagem da “nuvem queerra” devemos pô-la em relação com outros seus sonetos deste ciclo (“Velut Umbra”) e do “Ciclo Do desejo de evasão” (“Das Unnembare”) que verificam a mudança do próprio poeta aoperceber como a beleza e a ostentosidade de a possuir (“...Como quem da serra/Mais alta quehaja, olhando aos pés a terra/ E o mar, vê tudo...”) se lhe vão no mundo real. Ó nuvens do Ocidente, ó coisas vagas,Bem vos entendo a cor, pois, como a vós,Beleza e altura se me vão em fumo! (“Velut Umbra”) Mas que destino o meu! E que luz baça A desta aurora, igual à o sol-posto,Quando só nuvem lívida esvoaça! (“Das Unnembare”) Mas, tal vez, conviria ter em conta as apreciações que o companheiro do autor,Oliveira Martins, faz ao respeito no Prefácio aos sonetos:  “ [...] O próprio do génio é querer realizar o irrealizável; é ser quimérico, no sentido crítico da palavra, quando por quimera entendemos uma verdade essencial que não pode todaviareduzir-se a fórmulas compreensíveis, ou uma coisa cuja realidade se sente, sem se poder ver. [...]” (Sérgio, 1976:LXVIII) Resulta muito interessante, também, estabelecer nesta análise como é queAntónio Sérgio entende ao autor do XIX português que estamos a analisar paraenquadrarmos esta composição no decorrer da sua obra poética. O crítico fala-  nos do Antero “luminoso” (o intelectual) e o “noturno” (fisiológico, sentimental,sensível). A faceta primeira tem uma datação concreta, mentres a qualidadelúgubre do Antero noturno acompanharia-o de por sempre.  “ [...] Se por <<Antero>> entendermos uma doutrina, será justo afirmar-se que o seu pessimismo foi <<transitivo>>, que <<conhece datas>>, como diz muito bem Joaquim deCarvalho; que <<nasceu por 1874, desenvolveu-se de 1876 a 1882, declinou e extinguiu-senos anos imediatos de modo que em 1886 o situava sem nostalgia numa região espiritual já percorrida>>; mas o Antero do <<resto>>, isto é, o temperamental, o sensível, - essemanifestou durante toda a vida a atitude sentimental do pessimista. Ao soneto Despondency, por exemplo, de 1864 (tinha o poeta 22 anos), nada o poderá talvez superar como poéticaexpressão de tal atitude; e são do último ciclo (1880-84) o Elogio da Morte, o Oceano Nox, oO que diz a Morte, todos de sentimento pessimista. Finalmente, sob tal aspecto, surge comoconfirmação o próprio suicídio (1891). [...]” (Sérgio, 1976: 75) Oliveira Martins, pela sua parte, denuncia o período em que se inscreve estesoneto (1860-1862, que se corresponde co Antero mais romântico, deatendermos às considerações de Nuno Juice) como o de um autor duma “almasensível, mas patenteia já a preocupação metafísica na sua fase rudimentar dedúvida teológica, e apresenta uns assomos de tristeza que são como osfarrapos de nuvens quando velam intermitentemente o Sol, deixando antevera tempestade para o dia seguinte.” Repare-se na alusão de Martins às nuvens,imagem analisada mais arriba quando falávamos da beleza material fugidia.Contudo, e como já sugerimos há um pouco , Oliveira Martins não tem umapostura coincidente com a de críticos posteriores como Nuno Judice, quemaposta pela filiação mais bem romântica deste trecho cronológico com respeitoàs composições anterianas (Judice, 1994: 8). Martins sustem que o seu coleganão seguiria escolas nem correntes clássicas, senão que a sua foi, umaconceição literária eminentemente pessoal, mas imbuído pelas inovaçõeschegadas de París (Michelet, Quinet, Vera-Hegel, etc). Mas deixemos estasdiscussões para um trabalho mais geral e completo da obra de Quental. Sonho Oriental Sonho-me às vezes rei, nalguma ilha,Muito longe, nos mares de Oriente,Onde a noite é balsâmica e fulgenteE a lua cheia sobre as águas brilha...O aroma da magnólia e da baunilhaPaira no ar diáfano e dormente...Lambe a orla dos bosques, vagamente,  O mar com finas ondas de escumilha...E enquanto eu na varanda de marfimMe encosto, absorto num cismar sem fim,Tu, meu amor, divagas ao luar,Do profundo jardim pelas clareiras,Ou descansas debaixo das palmeiras,Tendo aos pés um leão familiar.Este soneto, como indica Judice, inserido no período de entre 1862-1866,conta formalmente com uma sonoridade muito destacável de jogos com asvogais o e a ao longo da composição. E é que Martins, no famoso Prefácio, jáavisa que se trata “da serie de sonetos psicologicamente menos srcinal, massendo, artisticamente, a mais brilhante.” A voz poética vê-se numa ilha lá no Oriente que tal qual ele o imagina suscitaum aparente ambiente agradável (“ balsâmica ”) e cheio de luminosidade,devido a ação da lua cheia. As comparações, neste último sentido, comoestereótipos românticos são inevitáveis. No segundo quarteto evoca-se oaroma de prantas aromáticas (“ magnólia e da baunilha ”) dando uma sensaçãode vaguidade e de formas não muito claras (“o ar diáfano dormente”) aotempo que se dão, como no primeiro terceto, pinceladas de suntuosismoturrieburnista (“marfim”) para reincidir na meditação evasiva da voz poética.Há uma referência a uma segunda pessoa (“ meu amor  ”) que repousa num jardim de claras evocações românticas, novamente, ao tempo que elementosexóticos (“  palmeira ”, “ leão ”) partilham esse cenário que a voz poética semelhavisualizar com olhos de serenidade libertadora.António Sérgio situa este soneto no Ciclo “Da expressão lírica do Amor Paixão” devido, supomos, a essa referência a essa segunda pessoa que a voz poéticadenomina como “meu amor”. Contudo, também nos atreveríamos a situar estacomposição fazendo parte do ciclo que se refere ao desejo de evasão naterminologia achegada por Sérgio, sobre tudo tendo em conta umasdeclarações de Antero adicadas a Castelo Branco por volta de 1865 e que JoelSerrão recolhe no seu exemplar de Génese e Devir dos Sonetos de Antero :  “ [...]  Ainda no ano da publicação de Odes Modernas (1865), em Setembro-Outubro, Anteroconfidencia a António de Azevedo Castelo Branco, um dos seus maiores amigos de então: “Ocenobistismo e a contemplação, o misticismo, se quiseres, são na sua inércia aparente, osmais rijos obstáculos que a liberdade de espírito pode opor à brutalidade invasora dascondições fatais do mundo; são a maior vitória consciência, o maior triunfo, com esta armainvisível e silenciosa – a indiferença, o desdém.- Todas as vezes que a alma humana, sufocada

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Aug 7, 2017
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