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“Aos inimigos, a lei”: Major Vidigal e a dialética da ordem e desordem em Memórias de um sargento de milícias

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O presente ensaio tem como objetivo analisar os aspectos de posição social, ordem e desordem do personagem Major Vidigal na obra Memórias de uma sargento de milícias, de Manuel Antônio de Almeida, sob a ótica da dialética da ordem e desordem examinada por Antônio Cândido em Dialética da Malandragem (1970) e o mecanismo do favor estudado por Roberto Schwarz no artigo As ideias fora do lugar (2000) buscando entender como esses aspectos podem desaguar num Estado ineficiente regado a relações de poder social.
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  84 Alabastro: revista eletrônica dos alunos da Escola de Sociologia e Política de São Paulo, São Paulo, ano 4, v. 1, n. 7, 2016, p. 84-91. E NSAIOS “Aos inimigos, a lei”: Major Vidigal e a dialética da ordem e desordem em Memórias de um sargento de milícias Resumo O presente ensaio tem como objetivo analisar os aspectos de posição social, ordem e desordem do personagem Major Vidigal na obra  Memórias de uma sargento de milícias  , de Manuel Antônio de Almeida, sob a ótica da dialética da ordem e desordem examinada por Antônio Cândido em Dialética da Malandragem   (1970) e o mecanismo do favor estudado por Roberto Schwarz no artigo  As ideias fora do lugar   (2000) buscando entender como esses aspectos podem desaguar num Estado ineciente regado a relações de poder social. Palavras-chave Major Vidigal; ordem e desordem; mecanismo do favor. Erick Alves Heidan Graduando em Sociologia e Política pela FESPSP(erickheidan@gmail.com)  85 E NSAIOS “Aos inimigos, a lei”: Major Vidigal e a dialética da ordem e desordem em Memórias de um sargento de milícias E RICK   A LVES  H EIDAN Alabastro: revista eletrônica dos alunos da Escola de Sociologia e Política de São Paulo, São Paulo, ano 4, v. 1, n. 7, 2016, p. 84-91. Introdução  Memórias de um sargento de milícias   é um romance da literatura brasileira publicado pela primeira vez em folhetins no Correio Mercantil entre os anos de 1852 e 1853, sem nome do autor. Um ano depois, em 1854, a primeira edição em livro é lançada em dois tomos, sendo o tomo II publicado em 1855 1 . É considerado um dos principais romances da literatura brasileira, e segundo Andrade (1978, p. 303) “estes folhetins iriam constituir um dos romances mais interessantes, umas das produções mais srcinais e extraordinárias de cção americana”. Mas se a srcinalidade de  Memórias de um sargento de milícias   é signicativa, não conseguimos dizer o mesmo de sua forma estética, pois “no romance de Manuel d’Almeida nem o fundo nem a forma são admiráveis” (VERÍSSIMO, 1894, p. 294). Assim, o que atrai nesta obra de Almeida é o retrato realista e sarcástico da sociedade brasileira do século XIX, que, destaca Veríssimo (1894, p. 302), “é a sua feição tão profundamente brasileira, o seu nacionalismo não articialmente procurado, nem intencionalmente estudado, mas natural, fácil, ingênuo”. Assim, a obra se organiza em torna da gura de Leonardo, “lho de uma pisadela e um beliscão de reinóis imigrantes”, que é enxotado de casa com um pontapé dado pelo pai, Leonardo Pataca, após o romper o casamento com Maria da Hortaliça ao vê-la com outro homem em casa. Logo, o garoto “traquina” e “guloso” foi para os cuidados do padrinho barbeiro (compadre) e da madrinha parteira (comadre), cando na casa do padrinho de quem nutriu um grande amor.  Já na escola Leonardo não levava jeito para os 1 LARA, Cecília de. Introdução. In: Memórias de um sargento de milícias. Edição crítica de Cecília de Lara. Rio de Janeiro: Livros  Técnicos e Cientícos, 1978. estudos, mas, ainda assim, o padrinho decide que o melhor para o garoto é a vida religiosa para que tenha um futuro seguro. Com dois anos de escola, Leonardo consegue “ler mal e escrever pior”, mas ainda vendo um futuro eclesiástico para o jovem, o compadre insiste em inseri-lo na vida religiosa. Vislumbrando possibilidade de fazer mais traquinagens, Leonardo vê na vida de coroinha a perceptiva de maiores travessuras e pede para que o compadre o ajude a conquistar o posto na Igreja da Sé. Na igreja não produz mais que “diabruras” com as senhoras que vão participar da missa, além de fazer o padre perder a hora de um sermão e revelar a relação amorosa com a cigana que deveria ser mantida em segredo.  Já adulto, Leonardo se torna um “completo  vadio, vaio mestre, vaio tipo” e começa a nutrir uma paixão por Luisinha – menina meio desajeitada –, sobrinha de D. Maria – rica, gorda e de bom coração, era devota e amiga dos pobres. Leonardo começa a querer frequentar mais a casa de D. Maria, que nutria um carinho pelo jovem, para car próximo da moça. O compadre e a comadre passam a ajudar Leonardo a conquistar Luisinha e a tirar José Manuel – interessado em casar com a menina para herdar os bens de D. Maria – do caminho. Então a comadre inventa uma história mentirosa para denegrir a imagem de José Manuel perante D. Maria. Esse plano falha, pois, o mestre-de-reza intercede por José Manuel e convence D. Maria que aquela era uma história inventada, desfazendo assim a intriga gerada entre D. Maria e  José Manuel.  Após a morte do compadre barbeiro, Leonardo volta para a casa do pai, Leonardo Pataca (agora conhecido como Pataca para não confundir o leitor) e com Chiquinha, lha da comadre e nova esposa do Pataca. A paz dura pouco e após um  86 E NSAIOS “Aos inimigos, a lei”: Major Vidigal e a dialética da ordem e desordem em Memórias de um sargento de milícias E RICK   A LVES  H EIDAN Alabastro: revista eletrônica dos alunos da Escola de Sociologia e Política de São Paulo, São Paulo, ano 4, v. 1, n. 7, 2016, p. 84-91. desentendimento entre Leonardo (lho) e Chiquinha, Pataca toma partido da esposa e saca o “espadim em riste” contra Leonardo que foge “pondo dez léguas por hora”. Como andarilho, Leonardo encontra seu antigo companheiro de travessuras da Igreja da Sé, Tomas da Sé, e conhece Vidinha, com quem se apaixona. Leonardo se agrega a família de Vidinha e  Tomas da Sé e provoca a ira dos primos que chamam o Major Vidigal para prendê-lo por vadiagem. Simultaneamente, Luisinha casa-se com José Manuel enquanto Leonardo foge do major e volta para a casa de Vidinha.  Agora empregado na Ucharia Real, emprego que a comadre consegue para Leonardo, o jovem se interessa pela mulher do toma-largura, que expulsa Leonardo ao agrá-lo tomando caldo com sua mulher. Com isso Leonardo perde o emprego e gera os ciúmes de Vidinha, que por sua vez vai tomar satisfações com a mulher de toma-largura. Ele ca encantado por  Vidinha e começa a cortejá-la. Com o consentimento e aprovação das tias, toma-largura passa a frequentar a casa e os festejos da família. Leonardo, enquanto fugia da fúria de Vidinha, é pego pelo M. Vidigal e desaparece por um tempo e quando volta está fardado e transformado em granadeiro. Recebe ordem de prender toma-largura que está embriagado e causando problemas em uma festa na casa das tias de Vidinha. Leonardo concretiza sua vingança contra toma-largura, mas não deixa a vida de vadio por completo. Mesmo com farda, enganava o M. Vidigal, desobedecendo ordens. Numa dessas traquinagens, M. Vidigal descobre e manda prender Leonardo que será chibatado como punição. Neste momento entra a gura de Maria Regalada, que junto com D. Maria e a comadre vão tentar convencer M. Vidigal de não cumprir essa punição. As três senhoras procuram convencê-lo, mas o major se mostra irredutível. Contudo, Maria- Regalada chama o M. Vidigal de lado e propõe algo em segredo. Logo após, Leonardo estava solto e de  volta a corporação como sargento da Companhia de Granadeiros, sendo promovido. Enquanto isso, José Manuel, marido de Luisinha morre e Leonardo vê renascer a admiração que tinha pela moça. Luisinha se tornou “uma moça espigada, airosa mesmo, olhos e cabelos pretos”. Depois da missa de sétimo dia de José Manuel, Luisinha e Leonardo decidem se casar, entretanto, o posto de sargento da Companhia de Granadeiros não possibilita que Leonardo constitua família, então, levado o problema para M. Vidigal, que agora vivia com Maria-Regalada – essa foi a promessa que ela fez para que Leonardo fosse solto e absolvido das chibatas  –, que promoveu o rapaz a sargento de Milícias, podendo, assim, se casar com Luisinha. Depois de um nal feliz, morrem D. Maria e Leonardo Pataca e “uma enada de acontecimentos tristes que pouparemos aos leitores, fazendo aqui um ponto nal”. 1. A ordem relativa do Major: o público e o privado Major Vidigal era o chefe da polícia no Rio de Janeiro no romance de Manuel Antônio de  Almeida. Sua fama era de que “não havia beco, nem travessa, nem praça onde não se tivesse passado uma façanha do Sr. major para pilhar um maroto ou dar caça a um vagabundo” (ALMEIDA, 1978, p. 21). Ele é o personagem que está no âmbito da ordem, como vai denir Antônio Cândido. A ordem, nesse contexto, são as “normas estabelecidas” (CÂNDIDO, 1970, p. 330) que tem como grande representante o  87 E NSAIOS “Aos inimigos, a lei”: Major Vidigal e a dialética da ordem e desordem em Memórias de um sargento de milícias E RICK   A LVES  H EIDAN Alabastro: revista eletrônica dos alunos da Escola de Sociologia e Política de São Paulo, São Paulo, ano 4, v. 1, n. 7, 2016, p. 84-91. M. Vidigal. Contudo, a ordem da sociedade carioca retratada no romance está subordinada as vontades do mesmo, levando há um questionamento do direito positivo perante a gura do M. Vidigal: “Ora, a lei… que é a lei, se o sr. Major quiser?” (ALMEIDA, 1978, p. 201). Esse questionamento da comadre representa o caráter autoritário de como é vista uma posição social na época do romance, principalmente de um agente que preza pelo cumprimento das leis, pois “o autoritarismo de Vidigal […] diz respeito a uma marca da polícia, naquele tempo. Nesse sentido, o major acumula o papel de simbolizar os desmandos que os senhores da lei estavam autorizados a executar com a roupagem da manutenção da ordem” (CHAUVIN, 2006, p. 53). O M. Vidigal, por ser o “rei absoluto [… neste] ramo da administração” (ALMEIDA, 1978, p. 21), se apropria das leis e da organização da cidade. Seu papel ultrapassa o de mantedor da ordem. Suas ações superam esta alçada, num movimento que podemos identicar como “encarnação da ordem”, que Cândido explorará, pois […] o Major Vidigal, que no livro é a encarnação da ordem, sendo manifestação de uma consciência exterior, única prevista no seu universo. De fato, a ordem convencional a que obedecem os comportamentos, mas a que no fundo permanecem indiferentes as consciências, é aqui mais do que em qualquer outro lugar o policial na esquina, isto é,  Vidigal, com a sua sisudez, seus guardas, sua chibata e seu relativo  fair-play  ” (CÂNDIDO, 1970, p. 333-334). E ainda: Ele prende Leonardo Pai na casa do Caboclo e o Mestre de Cerimônias na da Cigana. Ele ronda o baile do batizado de Leonardo Filho e intervém muitos anos depois na festa de aniversário de seu irmão, consequência de novos amores do pai. Ele persegue  Teotoninho Sabiá, desmancha o piquenique de Vidinha, atropela o toma-largura, persegue e depois prende Leonardo Filho, fazendo-o sentar na praça tropa. O seu nome faz tremer e fugir. (  Ibid  , 1970, p. 334) É um conceito difundido na sociedade que a “repressão policial […] atua como forma de conter as desordens internas, por meio do cuidado com bens, pessoas e lugares” (AUGUSTO, 2013, p. 33), contudo não há uma ideia clara do que é a ordem na sociedade abordada no livro. Na leitura observamos sempre uma tensão do que se pode fazer ou não. A relatividade da lei chega ao ponto de não se reconhecer a culpa, pois ela depende de uma signicação que a autoridade indicará, isso criou “um universo sem culpabilidade e mesmo sem repressão, a não ser a repressão exterior que pesa o tempo todo por meio do Vidigal” (CÂNDIDO, 1970, p. 337), pois não há culpa onde não é crime, o que há é apenas o medo de uma punição arbitrária: “O Vidigal! Disseram todos a um tempo, tomados do maior susto” (ALMEIDA, 1978, p. 20).Essa posição nos mostra uma linha tênue entre o que entendemos como público e como privado. A falta de um Estado regulador da ordem abre espaço para uma “regulação frouxa” da ação privada: “Não era fácil aos detentores das posições públicas de responsabilidade, formados por tal ambiente, compreenderem a distinção fundamental entre os domínios do privado e do público” (HOLANDA, 1995, p. 145). Esta dialética público-privado levou as relações domésticas a um estágio elevado na ação pública, em que Duarte nos mostra como:

MERMELADA2

Jul 31, 2017

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