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As Interpretações Do Brasil a Partir Da Produção de Joaquim Nabuco, Gilberto Freyre e Sérgio Buarque de Holanda

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  UNIVERSIDADE ESTADUAL DE PONTA GROSSA PROGRAMA DE PÓS-GRADUAÇÃO EM CIÊNCIAS SOCIAIS APLICADAS CIDADANIA E POLÍTICAS PÚBLICAS Mariana Ciminelli Maranho As interpretações do Brasil a partir da produção de Gilberto Freyre e Sérgio Buarque de Holanda  Antes de iniciar a discussão acerca das produções de Gilberto Freyre e Sérgio Buarque de Holanda sobre a formação do Estado brasileiro, é válido identificar o contexto histórico em que tais autores encontravam-se. Ambos autores publicaram suas obras, Casa Grande e Senzala e Raízes do Brasil, respectivamente, em meados dos anos 1930, momento em que país passa por um movimento revolucionário, com intenso debate político, estruturado em torno da luta pelo voto secreto e criação de uma justiça eleitoral independente das oligarquias estaduais. Esse período foi marcado por uma crise na ordem oligárquica. É importante ainda destacar a trajetória biográfica de tais autores para compreender suas afirmativas, enquanto Gilberto Freyre tem uma srcem na aristocracia rural, o pai de Sérgio Buarque de Holanda é funcionário público. Casa Grande & Senzala - Gilberto Freyre  Gilberto Freyre realiza uma análise sobre o Brasil a partir de um olhar senhorial, olha a partir da casa grande, e vê um país que se transformava, onde as elites não tinham mais o mesmo domínio. Mas antes disso, vê um país miscigenado pelo encontro fraterno, generoso, democrático. Foi o encontro entre índios, negros e brancos, reunindo famílias, que provocaram a democratização social no país. Ainda no que se refere à miscigenação, Freyre afirma que o português destacava-se em sua capacidade de miscigenação, e por isso, foi possível povoar as terras brasileiras, visto que criou o homem ideal para viver nos trópicos: um homem branco, com sangue negro e índio. Graças à miscigenação, a colonização portuguesa foi a primeira na europeia a constituir uma sociedade moderna nos trópicos.  A confraternização dos índios, negros e brancos ocorria na relação entre a casa grande e a senzala, uma construção tipicamente brasileira, correspondendo à monocultura escravista, o patriarcalismo católico e o polígamo. O colonizador português, segundo Freyre, foi o primeiro a criar uma civilização baseada na  exploração local da riqueza, criando uma “colônia de plantação”, caraterizada pela base agrícola e pela permanência do colono na terra. Nesse sentido, a colonização portuguesa não foi obra do Estado, mas da corajosa família rural particular. E essa força social de desdobrou em política, constituindo uma aristocracia rural forte. Sobre o Brasil, então, o rei reina sem governar. Para Freyre, os males profundos que comprometeriam a eficiência da população brasileira, a hiponutrição e a sífilis, que são atribuídos à miscigenação, deviam-se na verdade à monocultura latifundiária. Visto que a miscigenação criou um tipo ideal do homem moderno para os trópicos. Essa mistura, não se realizou amorosamente, o autor acredita que o próprio escravo se satisfaça nessa relação sadomasoquista sexual e pessoal. Nesse aspecto, o regime político mais adequado à população brasileira é aquele que predomina desde o início da colonização, a democracia racial e social.  A colonização europeia se deu além da europeização, visto que a própria cultura colonizadora assimilou a indígena e a africana. O negro escravo transformou a língua portuguesa e a religião cristã, a dieta portuguesa e o imaginário infantil. Os brasileiros seriam duas metades confraternizadas, que se enriqueceriam mutuamente. Nesse aspecto, a sociedade brasileira, para Freyre, foi a que mais harmoniosamente se constituiu quanto às relações de raça, em um ambiente de quase reciprocidade cultural, de troca de valores, reinando uma democracia social. Gilberto Freyre, então, compreende a história brasileira como sendo pacífica, tranquila, integradora das diferenças. Possui uma visão do Brasil e do mundo desacelerada, sem saltos revolucionários, com um olhar pessimista sobre o país, visto que em 1930 a mudança acelerava, o assustando, pois comprometia a comunidade do passado patriarcal. O passado brasileiro seria bom, as elites brasileiras seriam competentes e democráticas. Raízes do Brasil - Sérgio Buarque Holanda  Sérgio Buarque de Holanda em Raízes do Brasil constata um grande obstáculo para a construção de uma identidade e projeto nacional: a representação do que os brasileiros são não se refere à realidade do que somos. Nesse aspecto, destaca-se a implantação de uma cultura europeia nos trópicos, em que pensamos com ideias inadequadas à realidade social brasileira. Os portugueses não eram europeus plenos, tinham uma mentalidade srcinal, com um caráter indeciso e impreciso. Tinham como valores a honra, a fidelidade, o livre arbítrio e a fidalguia. O Brasil está associado a Portugal, de onde a forma atual da  nossa cultura foi srcinada. Nem o contato e a mistura de raças nos fizeram diferentes. No brasileiro, esse espírito se acentuou com a liberdade do indígena e a alegria do negro. No que se refere à colonização, Holanda apresenta dois tipos: o aventureiro e o trabalhador. Para o tipo aventureiro, o objetivo final é mais importante que os meios, não visa à estabilidade, paz e segurança pessoal. Enquanto que o tipo trabalhador vê primeiro a dificuldade a vencer, não tolera a ética aventureira, que é desestabilizadora e contrária à segurança e à paz. Na colonização portuguesa, o uso do tipo trabalhador foi residual, os portugueses colonizaram como aventureiros, procuraram prosperidade sem custo. O autor ainda afirma que sem esse espírito a colonização não teria ocorrido. Os colonizadores portugueses não fundaram uma sociedade agrícola, depredaram a terra. Misturaram-se à terra, ao indígena e ao negro, com um domínio mole e brando. O modo de ser desses portugueses era a plasticidade, essencial para o sucesso colonizador. Nessa âmbito, os brasileiros agem de forma mais aventureira que trabalhadora. Os portugueses estabeleceram uma colonização de raízes rurais, de modo que a vida colonial portuguesa se concentrará no campo. Cada casa grande era uma “república”, de modo que a vida pública, social e política era marcada pela família rural colonial. Havia uma invasão do público pelo privado, do Estado pela família. Com o fim do tráfico negreiro, os setores retrógrados resistiram e buscaram o equilíbrio com o novo emergente, os partidos políticos eram vistos como “famílias políticas”. O talento e a inteligência eram mais valorizados do que o trabalho técnico e manual. Nesse contexto, a burguesia urbana adotou atitudes peculiares do patriarcalismo rural, em que as cidades ainda dependiam do campo.  A vida política brasileira foi dominada pelo mundo familiar rural, visto que a família é mais forte que o Estado, e o controla. Assim, para o autor, a família é um obstáculo à construção do Estado moderno. Não há separação entre público e privado, o recrutamento de servidores depende da confiança pessoal. Há, então, a necessidade de romper com o modelo moral de poder com base na família rural. No mundo social, nas relações exteriores à família, há o homem cordial, que quer ser íntimo, amigo, não quer ficar sozinho. Esse homem está pronto para assimilar qualquer ideia de um líder carismático, não importando a fala da realidade. Sérgio Buarque do Holanda afirma que o Brasil transitaria de uma sociedade rural, regida por privilégios, familiar, para uma sociedade urbana, mais regrada e abstrata. Ou seja, a ruptura com as oligarquias rurais e o advento de novos sujeitos urbanos. No passado as cidades se subordinavam ao campo, enquanto que no presente-futuro o campo será o abastecedor das cidades. E a vida política se separa  da vida social. Alguns fatores importantes que corroborariam para essa transformação seria a vinda da coroa portuguesa ao Brasil e o surgimento de um novo cafeicultor. Não haveria revolução social plena no Brasil enquanto não se extinguissem os fundamentos personalistas e aristocráticos, ibéricos e rurais, em que se sustentava a vida social. O mundo cordial brasileiro, para Holanda, fere o princípio jurídico da neutralidade democrática. Acredita nos valores da cidadania e individualismo norte americano capitalista, mas também assumiu posições socialistas. Por fim, é importante destacar que o autor busca reinterpretar o passado, e vislumbrar um novo futuro para o Brasil, visto que uma intervenção democrática na história pressupõe o respeito pelos seus ritmos específicos. Cada sociedade possui seu ritmo próprio de mudanças, e o historiador tem como tarefa compreender esses mundos vividos. Holanda em Raízes do Brasil   é otimista, renovando a esperança no país.  Afirma que é possível a libertação da dominação tradicional, a reaproximação do estado na sociedade, a criação de novas formas de convívio, com novos valores, abrindo o horizonte do Brasil à democracia. O historiador tem como função buscar conhecer suas raízes, para libertar o presente do passado que o inquieta e bloqueia. Referências FREYRE, Gilberto. Casa Grande & Senzala . São Paulo: Global Editora Editora, 2005. HOLANDA, Sérgio Buarque. Raízes do Brasil . São Paulo: Companhia das Letras, 2006. NABUCO, Joaquim. O Abolicionismo . Rio de Janeiro: Editora Nova Fronteira, 1999. REIS, José Carlos. As identidades do Brasil : de Varnhagen a FHC. Rio de Janeiro: Fundação Getúlio Vargas, 1999.
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