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Democracia e Sociedade de Controle

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Nietzsche e Deluze tratam a democracia como um problema neste texto
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  237 verve Democracia e sociedade de controle democracia e sociedade de controle silvana tótora* Quem não vê que as democracias são ainda o déspota, mas agora mais hipócrita e frio, mais calculista, porque agora tem que contar e codificar as condutas em vez de as sobrecodificar?  Deleuze e GuattariSob a ressonância de Nietzsche e Deleuze, este textopropõe-se tratar a democracia como um problema, semnenhuma pretensão de formular qualquer projeto polí-tico de uma nova sociedade ou de humanidade. Preten-de-se um percurso que escava o chão da história paraproduzir devires. Um devir democrático, segundo De-leuze e Guattari, 1  não se confunde com as formas dedemocracia historicamente constituídas no presente ouno passado, mas é uma insurgência no terreno dessahistória, condição para uma experimentação de algo quelhe escapa. * Professora do Departamento de Política e do Programa de Estudos Pós-Graduados em Ciências Sociais da PUC-SP. verve, 10: 237-261, 2006  238 102006 As democracias como regimes políticos ou formas desociedade fazem apelo às maiorias, enquanto um devir,de acordo com Deleuze e Guattari, “(...) é por natureza oque se subtrai sempre à maioria.” 2  Um devir democráti-co é abalar as formas históricas, o que somos, para in-citar o que estamos em via de nos tornarmos, um limiarque traça uma “linha de fuga”, encetando multiplicida-des intensivas em que nos tornamos outro. A invençãode novos possíveis passa por devires minoritários. De-vir democrático ou devir revolucionário não se confun-de com o presente da democracia ou das revoluções,mas é o que Nietzsche denomina “o intempestivo”, “(...)contra o tempo, e com isso, no tempo e, esperemos, emfavor de um tempo vindouro.” 3 Sem qualquer apelo valorativo das diversas formasde democracia, este texto procura situar as variaçõesrepresentativas e participativas como regimes políticosdisciplinares e de controle, respectivamente.Propõe-se, também, problematizar o conceito de “demo-cracia da multidão”, de Antonio Negri e Michael Hardt, 4 que se esforçam, assim como Deleuze, para romper aimagem clássica do pensamento vinculado à forma Es-tado, particularmente do marxismo na sua clínica demais Estado para a cura dos males da sociedade capi-talista. A democracia, para estes pensadores, foi libe-rada desta tradição — ou, melhor dizendo, de um em-preendimento de revitalização do marxismo. Contudo,pode ser um tanto precipitado sugerir como projetopara uma nova sociedade uma democracia da multi-dão, pautada em condições históricas e filosóficas daatualidade. Para os autores, as redes de comunicaçãoe informação, mais a hegemonia do trabalho imaterial,configuram terreno para um poder constituinte da mul-tidão.  239 verve Democracia e sociedade de controle Democracia e controle O seminal “ Post-scritum   sobre a sociedade de contro-le”, de Gilles Deleuze, 6  indica uma crise dos dispositi-vos de poder disciplinares, decorrente de sua substi-tuição por uma sociedade de controle, a qual funcionanão mais pelo confinamento em instituições de seqües-tro, como tão bem analisou Foucault, “(...) mas por con-trole contínuo e comunicação instantânea.” 7  De formasucinta, as relações poder-saber caracterizam-se, nes-te novo dispositivo, pelo controle de forma contínua eilimitada e, ao mesmo tempo, volátil e de curta dura-ção. À dupla massa-indivíduo da sociedade disciplinar,cujas forças produtivas são majoradas e controladas,sucede-se o par divíduos  -cifra para extração do conhe-cimento e informação armazenados em um banco dedados. Os corpos, individual ou numérico, da popula-ção são substituídos por uma matéria “dividual” ou ci-fra a ser controlada.A sociedade disciplinar exige corpos adestrados e es-pecializados para o trabalho mecânico. Os confinamen-tos são moldes   que extraem e majoram as forças de tra-balho apropriadas pelo capital. A agregação de forçasem um espaço de confinamento sob a ação do capitalque constitui os homens em sujeitos (sujeitados à má-quina e sujeitos privados do capital) é correlata das for-mas coletivas de organização das lutas em sindicatos.No capitalismo pós-industrial, os próprios homenssão peças constitutivas da máquina e não seus merosusuários; são partes de uma engrenagem de circulaçãode informação e extração do conhecimento. As máqui-nas da informática e os computadores não são apenasevoluções tecnológicas, mas operam uma mutação nocapitalismo. Na sociedade de controle, as subjetivida-des que privilegiam os corpos disciplinados são preteri-  240 102006 das por formas de subjetividades que destacam a ver-satilidade criativa, a inteligência e as habilidades de co-municação. Neste sentido, os controles são modulações  ,autodeformantes e voláteis, instaurando emulações quecontrapõem os indivíduos e os atravessam, dividindo-os em si mesmos. A população de indivíduos se frag-menta em segmentos de consumidores que são produ-zidos segundo interesses mercadológicos.A sociedade de controle constitui uma modalidadede poder que atende ao novo capitalismo pós-industri-al, ancorado no consumo e nos fluxos financeiros, cujafinalidade não é dirigida à produção, mas sim ao produ-to destinado à venda e ao mercado, tendo o marketing  “(...) como o instrumento de controle social.” 8  O contro-le, afirma Deleuze, “(...) é de curto prazo e de rotaçãorápida, mas também contínuo e ilimitado, ao passo quea disciplina era longa, infinita e descontínua.” 9  Nuncase termina nada em um regime de controle.O tipo predominante de homem na sociedade pós-industrial é o do endividado, e não o do confinado, afir-ma Deleuze. 10  Os dispositivos de controle intensificame suprimem fronteiras territoriais entre nações ou cul-turas, mas nem por isso dispensam o aparelho de Esta-do, que se torna um instrumento imanente da realiza-ção da axiomática capitalista, ou seja, de produção parao mercado. A diversidade de formas de Estado (liberal,providência, democrático, totalitário, ditatorial etc.) éconcernente à própria relação com a axiomática que,embora o ultrapasse pelo seu caráter de mercado mun-dial, não o dispensa, mesmo nas sociedades de contro-le, em que sua instrumentalidade se intensifica.Deleuze e Guattari definem formas sociais com Es-tado como “aparelhos de captura”, ou seja, “(...) um es-paço geral de comparação e um centro móvel de apro-
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