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José Magalhães. Perspetiva A problemática do Burnout na ótica laboral: breve revisão bibliográfica. N.º37 Jul-Set 2015 Pág

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N.º37 Jul-Set 2015 Pág José Magalhães Doutorado em Psicologia Instituto Nacional de Estatística Perspetiva A problemática do Burnout na ótica laboral: breve revisão bibliográfica Palavras-chave:
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N.º37 Jul-Set 2015 Pág José Magalhães Doutorado em Psicologia Instituto Nacional de Estatística Perspetiva A problemática do Burnout na ótica laboral: breve revisão bibliográfica Palavras-chave: Stresse; Burnout; Riscos psicossociais Resumo Os riscos psicossociais são a principal fonte de preocupação das sociedades desenvolvidas. O stresse e o Burnout, em sede da atividade laboral, são as consequências mais nefastas daqueles riscos. Segundo a Agência Europeia para a Segurança e Saúde, um em cada quatro trabalhadores tem indicadores de Burnout, cerca de 22% da população trabalhadora encontra se sobre os efeitos dos riscos psicossociais com enfoque no stresse e Burnout e a Organização Mundial de Saúde afirma que se não se realizarem medidas preventivas e interventivas, em 2020 a incapacitação para o trabalho terá como origem a depressão. O presente artigo assentou numa pesquisa bibliográfica ao nível do conceito de Burnout para uma melhor compreensão do problema e uma reflexão de proximidade à realidade nacional. O Burnout: uma breve revisão bibliográfica na compreensão da problemática A continuada reflexão sobre Burnout tem como razão substantiva o facto de ser uma das mais graves consequências dos riscos psicossociais emergentes em ambiente laboral ao nível da União Europeia. Por outro lado, o Burnout continua a ser um conceito menos falado e menos informado embora, associado ao stresse, traduza uma forma progressiva de incapacitação para o trabalho, podendo culminar em suicídio. O stresse é um fenómeno característico das sociedades desenvolvidas, ou em desenvolvimento, onde o indivíduo enfrenta diariamente situações que o obrigam a ser competitivo de forma a assegurar o seu lugar no trabalho. O stresse era inicialmente visto como um comportamento biofisiológico, contudo, atualmente, os estudos mostram que o componente psicológico ao nível do comportamento suporta a causa deste elemento gravoso para o mundo laboral 1. Para Costa, Accioly Júnior, Oliveira e Maia 2 a sintomatologia de stresse manifesta se principalmente por meio de sintomas psicológicos, com baixos níveis de sintomas físicos. Contudo, para Lazarus e Folkman 3, a manifestação do fenómeno do stresse observa se na relação entre o sujeito e o seu meio ambiente, condicionada por fatores individuais e específicos de cada situação, onde a avaliação que o indivíduo faz da sua condição determina o nível de stresse que experiencia. 18 O stresse é responsável pelo surgimento de vários problemas de saúde pública como cardiovasculares, úlceras, entre outros, e deriva da incapacidade do indivíduo de reagir perante um elemento stressor, onde os seus valores, cultura e crenças influenciam a forma como enfrenta a situação 4,5. Para os autores Jenaro, Flores e Arias 6, O esforço físico e mental gerado pelas pressões e tensões quotidianas, centram o Burnout como uma das causas psicossociais que afetam, a nível da prestação funcional, profissionais das mais diversas áreas de atividade 9. De acordo com a Agência Europeia para a Segurança e Saúde no Trabalho (AESST) 10, Burnout: uma das mais graves consequências dos riscos psicossociais emergentes em ambiente laboral ao nível da União Europeia o Burnout refere se ao esgotamento físico e mental causado pelo excesso de trabalho, ou devido ao stresse provocado pela atividade profissional. Caracteriza se pelo negativismo e sentimentos de exaustão emocional. Leiter e Maslach 7, reforçam a noção de que o Burnout reflete um problema de stresse no trabalho, assumindo um papel intermediário entre o resultado das exigências externas ao trabalho (agentes stressores) e as respetivas consequências. Monteiro 8 atribui ao Burnout três dimensões: a exaustão emocional, em que o indivíduo já não consegue dar mais de si mesmo; a despersonalização, evidenciado pelo sentimento de vazio; e a baixa realização pessoal, em que o sujeito sente uma profunda insatisfação no geral. Assim, o Burnout pleno, envolvendo as três dimensões, retrata uma situação limite de exaustão emocional, despersonalização, cinismo e baixa eficácia/produtividade gerados por fatores psicossociais que envolvem as novas formas de trabalho, os novos ambientes organizacionais e o advento das recentes tecnologias que substituíram o foco físico para o foco mental da carga e intensidade do trabalho 1. os riscos psicossociais determinam se como envolventes psicológicas, físicas e sociais negativas que decorrem devido a uma organização e gestão no trabalho ineficientes, bem como pobres relacionamentos sociais em contexto laboral. Este mesmo estudo refere algumas conclusões que podem determinar a elevada preocupação pelo problema. 19 N.º37 Jul-Set 2015 Pág Nomeadamente, refere que as consequências dos riscos psicossociais estão relacionadas quando as exigências do trabalho desequilibram a capacidade do executante em satisfazê-las e que esta realidade tem por base um problema organizacional e não uma dificuldade individual. Segundo o European Opinion Poll on Occupational Safety and Health 11, Portugal está classificado como o terceiro país europeu com maior proporção de trabalhadores (59%) que diz que o stresse relacionado com o trabalho é muito comum. Ainda segundo a mesma revista, em Portugal estima-se que dois e cada dez trabalhadores sofram não fazem exames regulares. Dado a sua profissão, a incidência de uma depressão é elevada e os dados revelam que 23% a 47% respondem positivamente a questionários para a rastreabilidade de doenças mentais, enquanto 29% apresentam sintomas clínicos de depressão. Os suicídios representam 38% das mortes prematuras na classe médica, superando qualquer outra classe profissional 13. Decorreram cerca de 35 anos desde que o conceito de Burnout foi inicialmente apresentado por Freudenberger e Maslach 14 e 30 anos de investigação na área têm reconhecido o papel fulcral que as condições sociais Os riscos psicossociais determinam se como envolventes psicológicas, físicas e sociais negativas que decorrem devido a uma organização e gestão no trabalho ineficientes, bem como pobres relacionamentos sociais em contexto laboral de problemas de saúde psicológica, representando 1,3 dias de falta por ano devido a estes problemas. Os problemas do foro psicológico além de gerarem absentismo que prejudica quer o indivíduo, quer a organização, desenvolveram uma outra forma de retração que se designa por presentismo, ou seja, a presença no local de trabalho com alguma patologia física ou mental que provoca perda de produtividade. A realidade, em que Portugal não é exceção, refere que 28% dos trabalhadores sofrem de stresse e 23% já se encontram em Burnout 6,12. Estes resultados são reforçados pelos dados disponibilizados pela AESST 10, que reporta que um em cada quatro trabalhadores está em situação de Burnout. A classe médica é a mais afetada pelo Burnout. Perante um desequilíbrio emocional, os médicos não procuram ajuda profissional. Quando confrontados com uma doença física, automedicam-se e 70% e organizacionais atribuem para o Burnout, nomeadamente em seis áreas-chave da vida profissional: Sobrecarga de trabalho Falta de controlo Recompensas insuficientes Falta de apoio da comunidade Falta de justiça Conflito de valores Nestas áreas, incongruências entre a pessoa e o trabalho são preditivos do Burnout 14. Investigação na área de stresse e Burnout continua a demonstrar a sua presença em contexto laboral e em cada vez mais profissões. Por exemplo, um estudo elaborado por Khamisa, Oldenburg, Peltzer e Ilic 15 com 895 enfermeiros em África do Sul revelou a existência de uma relação entre stresse 20 escolas primárias e secundárias, nos Estados Unidos de América e Canadá. O grupo experimental recebeu formação em consciência plena (mindfulness) e os resultados revelaram que 87% dos professores que Um em cada quatro trabalhadores está em situação de Burnout Os suicídios representam 38% das mortes prematuras na classe médica, superando qualquer outra classe profissional relacionado com o trabalho, Burnout, satisfação geral no trabalho e a saúde geral de enfermeiros. Os resultados demonstraram que o stresse dos funcionários encontrava- -se associado às três dimensões do Burnout, representando 16% de exaustão emocional, 13% de despersonalização e 10% de baixa realização pessoal. Por outro lado, é evidente uma viragem na conotação das presentes investigações, que se preocupam em encontrar soluções para combater o stresse e o Burnout no local de trabalho. Rupert, Miller e Dorociak 16 apresentam-nos algumas soluções para o Burnout em psicólogos como, por exemplo: uma boa monitorização do trabalho que permite garantir o envolvimento do psicólogo em atividades que podem construir uma visão positiva de realização; o foco em trabalhos com interesse para o mesmo e que potenciam as suas forças, capacidade de trabalho e o estabelecimento de limites; uma perceção real dos recursos disponíveis; e a manutenção de um equilíbrio entre a vida profissional e pessoal. Já Arnold, Connelly, Walsh e Ginis 17 procuraram determinar de que modo as estratégias de regulação emocional em diversos estilos de liderança eram associadas ao Burnout e os resultados demonstraram que o uso de emoções genuínas era um fator determinante para a redução de Burnout em líderes. Roeser et al 18 dividiram 113 professores em grupos de controlo e experimental, em completaram o programa sentiram que foi útil. Para além disso, no final do estudo, quando comparado com o grupo de controlo, o grupo experimental demonstrou maior consciência plena, atenção focalizada, maior capacidade de memória, bem como níveis de stresse e Burnout mais baixos. Um acompanhamento posterior do estudo não revelou alterações nos resultados. Num estudo realizado num hospital da Dinamarca com cerca de 8500 colaboradores, foram identificadas situações de diversos assédios geradoras de elevados índices de stresse. Neste contexto a liderança da instituição fez uma reflexão sobre cada ambiente de trabalho, envolvendo dirigentes e representantes dos trabalhadores, de modo a adotar uma estratégia na relação laboral que envolvesse ações de partilha de saberes. Esta medida, que envolveu a feitura de manuais informativos e o estabelecimento de práticas de prevenção, mostrou resultados muito positivos quer no aumento da satisfação dos trabalhadores, quer na diminuição dos riscos psicossociais identificados 10. De facto é preciso ter presente que, segundo a AESST 10 (p.19), «trabalhando em 21 N.º37 Jul-Set 2015 Pág conjunto, empregadores, quadros dirigentes e trabalhadores podem combater, em benefício de todos, o stresse e os riscos psicossociais relacionados com o trabalho». Se por um lado a pesquisa bibliográfica permite ficarmos a conhecer com maior determinação o conceito de Burnout enquanto ocorrência em contexto laboral, suportada por riscos de cariz psicossocial como os assédios, a violência verbal (e outras), a organização do trabalho e as lideranças, importa ter em atenção o longo caminho ainda a percorrer porque a realidade nacional refere que só 13% das empresas é que estão preparadas para lidar com Conclusões O Burnout é um problema da atualidade e das sociedades desenvolvidas, suportado na perceção sobre a forma e ritmo do trabalho, bem como da diversidade das atribuições operacionais de caráter psicológico e social que o trabalho representa para cada um. A lógica cada vez mais competitiva e pressionante que envolve o mundo do trabalho, conjuntamente com outros fatores gerados no meio ambiente, funcionam como focos de tensão e geram elevados prejuízos biopsicossociais para o indivíduo, para a vida familiar e social, e materiais nas organizações. Prevenir o stresse, e o Burnout, em contexto laboral, deve implicar uma noção de que a partilha da vida organizacional entre trabalhadores e dirigentes é fundamental e tem de assentar num diálogo ascendente e descendente o stresse 19 e certamente com o Burnout. Segundo a mesma fonte, não existe informação direcionada e assertiva e são parcos os instrumentos técnicos e os meios humanos. Prevenir o stresse, e o Burnout, em contexto laboral, deve implicar uma noção de que a partilha da vida organizacional entre trabalhadores e dirigentes é fundamental e tem de assentar num diálogo ascendente e descendente. Não é possível encarar o problema apenas com medidas de cariz informativo. Urge dar vida prática ao que está teorizado e segundo a AESST 10 (p.12), é necessário que «ambas as partes falem entre si, escutem as preocupações uma da outra, partilhem opiniões e informações e tomem decisões em conjunto». Hoje, as situações de stresse e Burnout ao nível de alguns grupos socioprofissionais, como médicos, enfermeiros, professores, entre outros, traduzem o desequilíbrio das relações familiares e os disfuncionamentos relacionais traduzidos, nomeadamente, em situações de desistência da profissão, traumas e suicídio, estabelecem uma cada vez maior necessidade de conciliação entre atividade familiar e profissional. Esta lógica tem de ser traduzida numa necessária promoção do bem-estar e qualidade de vida, estímulo dos valores de vida, da elevação de autoestima e motivação. Como referimos, o Burnout pode ter como consequências negativas, entre outras, a diminuição da prestação eficiente/eficaz do trabalho com consequente baixa de motivação e de produtividade por um lado, e por outras manifestações reflexas que podem causar danos dolorosos e mesmo fatais em 22 termos fiscos e fisiológicos, diminuindo a qualidade de vida e mesmo a sua durabilidade temporal. É um problema que implica um desenvolvimento em níveis de diminuição drástica de eficácia profissional, comportamentos de cinismo e despersonalização e exaustão emocional. Estas manifestações podem, em situação de Burnout pleno, traduzir-se, como referem Maslash e Leiter 20, num nível de exaustão emocional ou numa resposta à intensidade emocional continuada que resulta da proximidade da relação com os outros, levar ao abandono da profissão, ao cometimento de erros humanos graves e ao suicídio. O problema existe, é preocupante e carece de reflexão continuada para que a qualidade de vida de quem exerce a função, e dos que dela esperam tudo, não seja posta em causa. Assim, importa ter na informação e formação continuada sobre o Burnout, conceito e consequências, o enfoque na estratégia de prevenção. Contudo, torna- -se necessário caminhar no sentido da origem que são os riscos psicossociais. E neste contexto é preciso identificar os principais perigos e os que estão mais sujeitos, tendo em linha de conta que a consciência dos mesmos é fundamental para que se possa fazer uma avaliação positiva e com possibilidades de intervir com sucesso. Para além desta estratégia, importa realçar que atualmente os estudos tendem para direcionar o combate ao Burnout através de práticas assentes no quotidiano laboral, no sentido de transformar a exaustão em energia, o cinismo em envolvimento e a ineficácia em eficiência. «Num bom ambiente de trabalho, os trabalhadores dão conta de um elevado grau de satisfação com o trabalho e sentem-se estimulados e motivados para desenvolver as suas potencialidades» 10 (p.16). Agradecimento A Victoria Paul pela colaboração na revisão e ajustamento do artigo. Referências 1. European Agency for Safety and Health at Work (2007). Expert forecast on emerging psychosocial risks related to occupational safety and health (European Risk Observatory Report 5). Retrieved from Office for Official Publications of the European Communities website: /reports/ Costa M, Accioly Júnior H, Oliveira J, et al. E. Estresse: diagnóstico dos policiais militares em uma cidade brasileira. Revista Panamericana de Salud Pública. 2007; 21: Lazarus R, & Folkman S. Stress, appraisal, and coping New York: Springer Publishing Company, Inc. 4. Bernik V. Estresse: O assassino silencioso. Cérebro & Mente Retrieved from doencas/stress.htm. 5. Goleman D. Inteligência emocional (8ª ed.) (M. D. Correia, Trad.). Lisboa: Temas e Debates Atividades Editoriais, Lda. (Obra original publicada em 1995). 6. Jenaro C, Flores N, Arias B. Burnout and coping in human service practitioners. Professional Psychology: Research and Practice. 2007; 38: Leiter M, Maslach C. Nurse turnover: the mediating role of Burnout. Journal of Nursing Management. 2009; 17: Monteiro Z. H. Desempenho escolar, condições de trabalho e as implicações para a saúde do professor (Dissertação de Tese de Mestrado não publicada) Rio de Janeiro: Universidade do Rio de Janeiro. 9. Ferenhof I, Ferenhof E. Burnout em professores. Eccos Revista Científica. 2002; 4: Agência Europeia para a Saúde e Segurança no Trabalho. Guia da campanha: Gestão do stresse e dos riscos psicossociais no trabalho Bilbau, Espanha: OSHA. 11. European Agency for Safety and Health at Work. European opinion poll on occupational safety and health Luxemburgo: Publications Office of the European Union. 12. Otto K, Schmidt S. Dealing with stress in the workplace: Compensatory effects of belief in a just world. European Psychologist. 2007; 12: Frasquilho MA. Medicina, médicos e pessoas: Compreender o stresse para prevenir o Burnout. Acta Médica Portuguesa. 2005; 18: Maslach C, Leiter M, Jackson S. Making a significant difference with Burnout interventions: Researcher and practitioner collaboration. Journal of Organizational Behaviour. 2011; 33: Khamisa N, Oldenburg B, Peltzer K, et al.. Work related stress, Burnout, job satisfaction and general health of nurses. International Journal of Environmental Research and Public Health. 2015; 12: Rupert P, Miller A, Dorociak K. Preventing Burnout: What does the research tell us? Professional Psychology: Research and Practice. 2015;46: Arnold K, Connelly C, Walsh M, et al.. Leadership styles, emotion regulation, and Burnout. Journal of Occupational Health Psychology. 2015; 4: Roeser R, Schonert-Reichl K, Jha A, et al. Mindfulness training and reductions in teacher stress and Burnout: Results from two randomized, waitlist-control field trials. Journal of Educational Psychology. 2014; 105: Antunes S. Os psicólogos e os riscos psicossociais. In C. P. da Silva (Ed.) PSIS 21: pp Lisboa: Ordem dos Psicólogos. 20. Maslach C, Leiter M. The Truth about Burnout: How organizations cause personal stress and what to do about it California: Jossey-Bass Inc. 23
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