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O Resgate da Tradição e a Vigília do Ser: A Presença de Heidegger no Pensamento Político de Hannah Arendt

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O artigo compreende a leitura comparada de Heidegger e Hannah Arendt. O objetivo do autor é aprofundar o entendimento do conceito heideggeriano do Ser e o conceito arendtiano de Política, visando identificar as possíveis correlações entre eles. A confrontação da filosofia do Ser de Martin Heidegger com a filosofia política de Hannah Arendt permite identificar vários pontos de convergência e argumentos similares. O autor destaca, dentre outros, o pressuposto da existência como ação, presente na argumentação de ambos os pensadores, que particulariza a própria concepção que estabelecem a propósito da história.
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    1 O resgate da Tradição e a vigília do ser A pResença de Heidegger no pensamento político de hannaH arendt José Mendes de Oliveira (*)   introdução A noção de tradição, no contexto do pensamento político ocidental, vincula-se aoconjunto cronológico da teoria clássica iniciada com os filósofos gregos e interrompidacom as formulações de Karl Marx na segunda metade do Séc. XIX 1 . Esse corte éestabelecido por diversos filósofos contemporâneos, que observam uma relação muitopróxima entre o declínio da tradição e a crise do mundo ocidental ou da modernidade.Vista por esse ângulo, a história do pensamento político, antes percebida como umprocesso de evolução, passa a ser entendida como uma involução. A morte ou declínio datradição é observado como um elemento de causalidade da crise que atinge o mundomoderno, absorvido por crescente instrumentalização e coisificação da vida 2 . O mundo“tecnificado” restringe as liberdades individuais e coletivas, e transporta para um pontomais distante o desejo da emancipação do homem, desejo que foi fortemente realçado noracionalismo clássico. De acordo com John G. Gunnel, “the principal source of the moderncrisis is usually located in the past, contemporary political and social scientific inquiry isviewed as both a symptom of a decadent tradition and a principal intellectual force thatmust be confronted. Yet the problem is not considered to be merely intelectual in nature,since it is assumed that decline of the tradition has been responsible, in some veryfundamental sense, for the debased condition of modern politics” (GUNNEL, 1979: p.34).Em termos analíticos, a questão da modernidade tem sido objeto de estudos paradiferentes correntes interpretativas, as quais podem ser situadas dentro de um espaçofilosófico amplo ou em campos disciplinares específicos como a sociologia e a economiapolítica. O grupo de filósofos vinculados à Escola de Frankfurt, por exemplo, notabilizou-se, desde a década de trinta do séc. XX, pelo desenvolvimento de ricas e expressivasreflexões sobre o processo de racionalização da existência social e suas conseqüênciaspolíticas (a perda da liberdade por exemplo), conduzidos sobretudo pela indignaçãogerada com o fenômeno totalitário do nazismo e pelo interesse na análise da crescentemassificação nas sociedades capitalistas. Entretanto, a questão do retorno ao passado oude retomada da tradição filosófica não é ponto comum em todas as correntes de (*) Antropólogo e Mestre em Sociologia pela Universidade de Brasília – UnB. 1 Marcuse, a propósito, identifica a teoria marxista como negação da Filosofia. Em sua concepção a transição de Hegel a Marx é, sob todos os aspectos, uma transição a uma ordem de verdadeessencialmente diferente que não se presta a ser interpretada em termos filosóficos . (MARCUSE, 1978:p.239) 2 Esses conceitos foram elaborados por Max Weber e Georg Lukács, respectivamente, para servirem àcompreensão das sociedades modernas (ou da modernidade). Um número significativo de filósofos ecientistas sociais utilizam, quando não os conceitos, pelo menos as idéias sugeridas por eles em suaspróprias análises, de forma crítica ou não. Max Horkheimer, Theodor Adorno, Jurgen Habermas e HannahArendt são alguns exemplos.    2 interpretação. Ela se apresenta com mais vigor nas elaborações de filósofos políticosliberais como Eric Voegelin, Sheldon Wolin, Leo Strauss e Hannah Arendt 3 .No caso específico de Arendt, é possível identificar não só a preocupação com atradição, mas alguns outros elementos que a particularizam dentro da corrente liberal.Constata-se, em primeiro lugar, que seu pensamento político estabelece uma perspectivamais crítica do totalitarismo enquanto virtualidade permanente das sociedades modernase, em segundo lugar, verifica-se que a evolução do seu pensamento, desde a publicaçãode As Origens do Totalitarismo  (1951) até a publicação de A Condição Humana  (1958),seguiu uma trajetória em direção à formulação de uma teoria peculiar, não só pelo uso deconceitos específicos ( vida activa, labor, work, action  etc), mas sobretudo por umafundamentação filosófica que visa basicamente compreender a condição humana  comoprincípio de explicação da existência política 4 .A essencialidade dessa existência ancora-se na ação  como única atividade que seexerce diretamente entre os homens sem a mediação das coisas ou da matéria(ARENDT, 1981, p.15). A ação é capaz de revelar não só a p luralidade  dos homens, mastambém a habilidade de conquistarem a imortalidade através de seus feitos e palavras.Segundo Arendt, “a tarefa e a grandeza potencial dos mortais têm a ver com suacapacidade de produzir coisas - obras e feitos e palavras - que mereceriam pertencer e,pelo menos até certo ponto, pertencem à eternidade, de sorte que, através delas, osmortais possam encontrar seu lugar num cosmo onde tudo é imortal exceto eles próprios.Por sua capacidade de feitos imortais, por poderem deixar atrás de si vestígiosimorredouros, os homens, a despeito de sua mortalidade individual, atingem o seu própriotipo de imortalidade e demonstram sua natureza divina  (ARENDT, 1981: p. 27).O conceito de imortalidade pode ser entendido como uma trans-posição  , que é,por um lado, rompimento com os limites da natureza física e, por outro, um artifício que seconsubstancia em um espaço de interação, em uma esfera pública ( public realm  ), onde oexercício da linguagem ou do discurso constitui princípio de fundamentação da própriapolítica. Nesse caso, a política não constitui um meio segundo uma orientação teleológica,mas parte essencial da condição humana, uma espécie de arte que dignifica os homens eque pretende ensiná-los a compreender a própria existência.A vinculação dessa orientação filosófica com a crítica à modernidade encontra-se,precisamente, na eleição da filosofia clássica – portanto da tradição - como construção contemplativa  , que se preocupa com a essencialidade da existência dos homens nomundo 5 , em contraposição ao pensamento moderno que se perdeu ao subjetivar   cartesianamente a razão e submeter a existência à dúvida. A consideração dessas linhasgerais do pensamento arendtiano, especialmente como são apresentadas no Entre o Passado e o Futuro  (1954), e de forma mais elaborada em A Condição Humana  (1958),sugere interessante afinidade da construção teórica com a filosofia existencialista.Curiosamente, em momento algum, Hannah Arendt anuncia-se como tal, embora se saibade sua formação acadêmica orientada por Husserl, Karl Jasper e, principalmente, MartinHeidegger. 3 John G. Gunnel realiza um interessante estudo comparado desses autores no trabalho citado anteriormente. 4 A esse propósito, sugiro conferir as observações de François Châtelet (CHÂTELET, 1990: p.358) 5 O conceito de mundo  , neste caso, aproxima-se da noção heideggeriana, ou seja, mundo não significa ouniverso físico dos astrônomos, mas o conjunto das condições geográficas, históricas, sociais eeconômicas, em que cada pessoa está imersa . (Considerações de Ernildo Stein in HEIDEGGER, 1991:p.IX).    3 Dentre os comentaristas dos trabalhos de Hannah Arendt, apenas Noel O'Sullivane John G. Gunnel perceberam e fizeram alusão à influência existencialista no pensamentoarendtiano. Sullivan não indica com precisão uma corrente existencialista predominante,mas observa que, à semelhança dos existencialistas, Arendt “acredita que as fontes dovalor e do sentido da existência só podem ser encontrados na própria ação, e que ohomem só se define agindo, ao transformar sua essência numa realidade tangível, sob aforma de feitos” (O’ SULLIVAN, 1982: p.227). Gunnel, por sua vez, insiste um pouco maisnessa questão, e embora não realize uma análise comparativa de Heidegger e Arendt,identifica a correspondência entre os dois pensadores, de tal forma que bastaria substituiros conceitos arendtianos de política  e teoria política  pelos conceitos heideggerianos de Ser  e metafísica  para evidenciar a relação entre os dois filósofos 6 .A sugestão de Gunnel parece-me apropriada se considerarmos a relação dos doispensadores não em termos exclusivos de uma filosofia política, mas em relação às idéiasque embasam os argumentos de ambos, destacando-se primeiramente a aceitaçãocomum da metafísica tradicional como filosofia autêntica, que foi interrompida pelo próprioprocesso que conduziu à modernidade. Heidegger, por exemplo, admite que a metafísicagrega colocou corretamente a temática do ser e ensaiou respostas, lançando assementes para a solução do problema. No entanto, o significado autêntico e as conquistasprofundas dessas primeiras especulações teriam sido alterados, posteriormente, porrazões diversas . Dentre estas razões destaca-se, principalmente, o processo de degeneração da problemática essencial da filosofia (a questão do Ser) que se inicia comos teólogos escolásticos, os quais teriam trivializado a ontologia, passando a trabalharcom um conceito de ser vazio e abstrato, dentro dos quadros de abordagem sobre alógica formal , e deságua na dissolução da Filosofia nos vários campos da ciênciamoderna 7 . A crítica de Heidegger à degeneração da ontologia explicita a sua dificuldadeem aceitar os padrões da cientificidade que irão imperar no mundo moderno. Entendo queessa mesma dificuldade, traduzida em termos da aversão a uma compreensão teleológicada política, pode ser encontrada em Hannah Arendt. A esse aspecto soma-se o temor deambos os pensadores diante o fenômeno das sociedades massificadas, a ponto deHeidegger sugerir ao povo alemão a recriação do grande começo do pensamentoocidental, como forma de fugir a ameaça de duas gigantescas sociedades de massa: aUnião Soviética e os Estados Unidos 8 .Um outro aspecto importante da filosofia heideggeriana, que não é citado ipsis litteris  , mas ecoa nos escritos de Hannah Arendt, refere-se à noção de existencialidade  ou transcendência  . O conceito faz referência à habilidade do homem, em sua singularidade(como indivíduo), de apropriar-se por intermédio de seus atos (obras e feitos como dizHannah Arendt) das coisas do mundo. É a tradução de um processo em que o Sermostra-se capaz de objetivar-se como aquilo que ele ainda não é. Poder-se-ia de umaoutra forma interpretar o conceito como a referência à capacidade humana de criar, deimortalizar-se em seus atos, de estar no mundo. “O homem seria, assim, um ser que seprojeta para fora de si mesmo, mas jamais pode sair das fronteiras do mundo em que se 6 Segundo Gunnel one need only substitute politics for Being and Political Theory for metaphysics to see theparallels (GUNNEL, 1979: p.82). 7 Para os trechos em destaque, conferir comentários de Ernildo Stein in HEIDDEGER, 1991: p.VIII. 8 A sugestão foi feita por Heidegger em sua obra Introdução à Metafísica, publicada em 1953, e reforça apostura do pensador em relação à filosofia clássica.    4 encontra submerso 9 . Trata-se de uma projeção no  mundo, do  mundo e com  o mundo, detal forma que o eu e o mundo são totalmente inseparáveis 10 .É relevante indicar que as reflexões heideggerianas são encaminhadas no sentidode localizar o Ser na dependência da linguagem enquanto forma criadora e poética.Nesse caso, o universo da linguagem através do qual o Ser se revela não se confundecom a linguagem científic  a (que visa objetivar a realidade), nem com a linguagem técnica   (que pretende instrumentalizar o mundo), mas com a linguagem criativa (a linguagem dafilosofia e da poesia) que permite ao Ser habitá-la, perpetuar-se, ser comemorado elembrado. Não é difícil perceber as sutis afinidades dessa orientação filosófica com oconceito de política em Hannah Arendt. De forma similar, a política é encaminhada parase definir no universo da linguagem. A linguagem é elemento essencial não só para afundamentação do espaço público ( public realm  ), mas também para a formulação daHistória. É através dela que os homens estabelecem a política como o fenômeno dapluralidade que se condensa na prática do discurso, e é através dela que os atoshistóricos ou heróicos se constituem e são recordados, e tais feitos permitem aimortalidade de seres fisicamente mortais.Verifica-se, portanto, que a relação sugerida por Gunnel tem algum fundamento emerece nossa atenção. Nesse sentido, meu intento, nas seções que constituem esteensaio, é aprofundar um pouco mais o entendimento do conceito heideggeriano do Ser  eo conceito arendtiano de Política  , objetivando identificar de forma mais analítica aspossíveis correlações. Heidegger e a vigília do ser A filosofia existencialista de Martin Heidegger pode ser entendida inicialmentecomo sendo uma hermenêutica do existo  , que se volta de maneira enfática para a críticada ontologia cartesiana fundada no Cogito. É notável na construção heideggeriana oesforço em objetar o Cogito  como primeira verdade e resgatar, a partir dessa objeção, o Ser  como questão  (a questão do Ser), superando-se, assim, a pretensão cartesiana decerteza a priori  . De acordo com Paul Ricoeur, a questão como tal, implica a negativa daprioridade da posição de si ou da asserção de si, enquanto Cogito. Não se deve entender,aqui, que a questão, enquanto questão, envolveria um grau de incerteza e de dúvida quenão se encontraria mais no Cogito. Essa opinião é ainda de tipo epistemológico. Aobjeção contra o Cogito cartesiano consiste muito precisamente no fato de ele se apoiarnum modelo prévio de certeza pelo que se mede e satisfaz” (RICOEUR, 1978: p.189-190). Em outras palavras, a reação vai de encontro à metafísica ou ontologia deDescartes, por ter definido o ente  em termos da objetividade das representações e terlimitado a verdade, como certeza, às próprias representações.Na perspectiva heideggeriana, a existência humana pode ser traduzida em termosde um ente (tudo o que é objetivamente) capaz de se questionar, de se indagar pelo Ser,e ao fazê-lo constituir-se em Dasein  (Ser-aí). Essa condição é estritamente humana, poissó o homem, dentre todos os entes (todas as coisas que são), seria capaz decompreender o que o ente é, motivado por uma angústia essencial  (e existencial) que 9 Em Hannah Arendt este é um aspecto da condição humana. Fugir a este mundo seria fugir à própriacondição de ser humano (ARENDT, 1981: p.9-14). 10 Considerações de Ernildo Stein in HEIDDEGER, 1991: p.IX.

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Aug 7, 2017
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