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Papel Do Aldulto Em Situacoes de Aprendizagem

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  F  ALSARELLA   AMRev. Psicopedagogia 2003; 20(61): 52-5 52 Para a criança, o ato de aprender, seja em casa,seja na escola, sempre pressupõe uma relaçãocom outra pessoa: aquela que ensina. Comodestaca Assis 1 , “o papel do adulto em umasituação de aprendizagem é fundamental porqueele é o intermediário entre a criança e o objeto doconhecimento”. Desta forma, caso a relação como adulto seja positiva, é mais provável que acriança receba bem o que parte dele. Caso sejanegativa, provavelmente haverá, por parte dacriança, desconfiança ou mesmo rejeição comrelação ao que lhe é oferecido.Na escola, aprender a utilizar símbolosgráficos, como os da escrita e os da matemática,significa tomar conhecimento de instrumentos quepertencem ao domínio adulto. Apropriar-se destesinstrumentos significa adentrar neste universo,identificar-se com ele, dominar seus códigos,enfim, adquirir algo do mundo adulto. A INFLUÊNCIA DA FAMÍLIA O papel dos pais, ou dos adultos que cuidamda criança, é essencial, dado que estes são aomesmo tempo os primeiros modelos e os O O O O O PPPPP APEL  APEL  APEL  APEL  APEL    DODODODODO    ADUL  ADUL  ADUL  ADUL  ADUL TOTOTOTOTO   EMEMEMEMEM   SITUSITUSITUSITUSITU AÇÕES AÇÕES AÇÕES AÇÕES AÇÕESDEDEDEDEDE    APRENDIZA  APRENDIZA  APRENDIZA  APRENDIZA  APRENDIZA GEMGEMGEMGEMGEM  Ana Maria Falsarella  Ana Maria Falsarella - Professora do curso de Pedagogiada UNIBAN -Universidade Bandeirante de São Paulo;Professora convidada do curso de Psicopedagogia daFICS - Faculdades Integradas Campos Salles;Doutoranda no Programa de Estudos Pós-graduados emEducação, História, Política e Sociedade, da PontifíciaUniversidade Católica de São Paulo. primeiros parceiros na formação da subjetividadeinfantil. A influência dos pais sobre a criançacaracteriza-se por uma gama de fatores que atuamconcomitantemente: seu comportamento, seugrau de compreensão e empatia, seus senti-mentos conscientes e também suas reaçõesespontâneas e inconscientes. Dificuldades afetivasdos pais e suas reações irrefletidas têm tantaimportância quanto o seu comportamento e os seussentimentos conscientes. Inúmeras perturbaçõesna vida emocional da criança são provenientesde reações inconscientes do pai ou da mãe. Nãoraras vezes os pais influenciam os filhos menospor suas qualidades e esforços conscientes do quepor seus defeitos e fraquezas não conscientes.Pais que temem perder a própria juventude ouque, por algum motivo, fixam-se em sua própriainfância, da qual não conseguem libertar-seplenamente, podem, sem ter uma percepção claradisso, contribuir para bloquear a evolução da criançae sua libertação de comportamentos infantis.Pelo contrário, estimulam a criança a “não crescer”,a também fixar-se em sua condição infantil.Outros pais podem, também incons-cientemente, ser hostis ao próprio filho. É o casoda mãe que sonhava com uma menina ao invésde um menino; da mãe de um garoto que nãoaceita sua condição feminina e permanece hostil    ARTIGO DE REVISÃO RESUMO - Este texto pretende trazer elementos para reflexão, a partir da perspectiva psicanalítica, sobre a influência das imagos parentais naaprendizagem de crianças em situação escolar. Destaca a importância dasprimeiras relações constituídas com os adultos significativos e que servempara a formação da matriz de identidade infantil. UNITERMOS: Imagos parentais; aprendizagem; adultos significativos;matriz de identidade. CorrespondênciaRua Antonio José de Souza, 45 - Lapa – São Paulo – SP- Cep 05120-040 - anamariafal@uol.com.br   O PAPEL   DO    ADULTO   NA     APRENDIZAGEM Rev. Psicopedagogia 2003; 20(61): 52-5 53 ao mundo masculino; do pai que, temendo perder o afeto do filho, o mantém sob sua dependênciaafetiva, temeroso de sua emancipação.Na verdade, ao nascer, a criança desperta nospais não apenas reações positivas. Ela reativatambém conflitos e dificuldades afetivas que elespróprios enfrentaram durante sua infância. Écomum vermos pais punindo nos filhos tendênciasque rejeitam em si próprios. Ou então, passandorecados contraditórios. Como destaca Bourdieu 2 ,muitas vezes o pai passa ao filho uma mensagemambígua. Não deseja que o filho identifique-secom sua própria posição e, ao mesmo tempo,trabalha continuamente para produzi-la por meiode seu comportamento e da linguageminconsciente de seu corpo. Ao mesmo tempo quediz “faça como eu”, diz também “seja diferente”.Certamente toda criança passará por dificuldades afetivas durante sua infância,dificuldades que são manifestadas através dereações intempestivas de cólera ou birra, usoeventual de mentiras ou resistência a cumprir suastarefas. Na maior parte das vezes, são episódiospassageiros facilmente superados. Aprender aenfrentá-los faz parte da evolução psicológica doser humano. Se acontecerem freqüentemente, noentanto, podem ser a ponta de um iceberg, istoé, representar o aspecto visível de um conflitoafetivo mais profundo. São sintomas quesinalizam um pedido de ajuda. Além do mais,desde o início de sua vida, a criança é portadorade todos os impulsos que animam o ser humano:agressividade, ciúmes, egoísmo e tantos outros.Maior razão para inquietação deverá haver seobservarmos na criança falta de vitalidade e dereação às situações adversas e ansiogênicas.Refiro-me àquela criança passiva, “que não dátrabalho”, permanecendo em silêncio na escolasem interagir com os colegas e os professores.Por muito tempo a família foi considerada comoportadora de valores inquestionáveis. Hojesabemos que, se o amor dos pais transmitevalores à geração que educam, pode também ser um peso à sensibilidade infantil. É fácil confundir respeito com abuso de poder ou com autoritarismoparalisante, afeição com dominação ou comchantagem, moral com submissão. Um paiautoritário, que humilha seu filho, pode bloquear sua iniciativa ou, pelo contrário, provocar suarebeldia. Muitos pais, ao invés de prepararem acriança para a autonomia, acabam por aprisioná-la em seu amor egoísta, provocando um acúmulode angústias e sofrimentos desnecessários, eabrindo a porta a futuras desadaptações.Podemos dizer sem perigo de errar que exemplossurtem mais efeitos que ameaças. Para que acriança tenha uma evolução sadia é muitoimportante um clima doméstico, qualquer que sejao tipo de constituição familiar, favorável àespontaneidade, mas que apresente limites eparâmetros nos quais ela possa se pautar. Pelocontrário, um clima familiar que exerce umapressão tirânica ou incessante sem dar folga paraa criança respirar, ou, um clima displicente de“deixar totalmente à vontade” em uma linha depermissividade inconseqüente e sem limites, sópode ser prejudicial ao desenvolvimento infantil. A IMPORTÂNCIA DAS IMAGOSPARENTAIS Caso a criança tenha uma imagem positiva doadulto, certamente tentará imitá-lo. Ao contrário,se a imagem for negativa, será menos provávelque queira assemelhar-se a ele. De acordo com Assis 1 , com relação às imagens do adulto, é maisapropriado falarmos em imagos, “  pois se tratamde representações internas, mentais, quecarregam um conjunto de significados: não são retratos, mas idéias e sentimentos relacionadosaos adultos – especialmente os pais – com quema criança convive ”.Essas imagos parentais, construídas ao longodo desenvolvimento infantil, dependem tanto defatores constitucionais do próprio sujeito, quantode características dos adultos que fazem partede seu ambiente. Como lembra Macedo 3 , a famíliaconstitui a matriz de identidade sobre a qual,paulatinamente, a criança construirá suapersonalidade.Dentre os aspectos constitucionais, pode-sedestacar o equilíbrio entre inveja e gratidão. Inveja,para Melanie Klein (apud Assis 1 ), tem umsignificado diferente do comumente utilizado. Osprocessos invejosos, provenientes da pulsão demorte, são intensamente destrutivos e pretendemdanificar o objeto alvo da inveja. Portanto, umacriança que tenha uma relação predominantementeinvejosa com o adulto tenderá a destruir ou diminuir suas qualidades. Na mente da criança, os adultosficarão “danificados” e serão introjetados comofrágeis, impotentes, incapazes de protegê-la,formando-se, assim, imagos parentais negativas.  F  ALSARELLA   AMRev. Psicopedagogia 2003; 20(61): 52-5 54 Em contraposição, se prevalecer o sentido degratidão, proveniente da pulsão de vida, a criançabuscará, em seu inconsciente, ressaltar osaspectos positivos dos adultos que lhes sãosignificativos. Serão introjetadas, então, figurasde adultos fortes, potentes, protetores,constituindo-se imagos parentais positivas.Klein acreditava, conforme destaca Souza 4 ,que “ ao possibilitar uma educação menos repressiva à criança, esta teria mais condiçõesde exercer, na sua plenitude, suas capacidades intelectuais ”. Dentre os fatores relativos ao ambiente quecontribuem para a formação das imagos parentais,pode-se destacar as atitudes reais que os pais eoutros adultos importantes têm para com acriança. Adultos predominantemente carinhosos,protetores, provedores, compreensivos, firmes nasregras, contribuem para a formação de imagospositivas, ao passo que adultos predo-minantemente frios, negligentes, violentos,inseguros, inconstantes, contribuem para aformação de imagos negativas.O desempenho da criança na escola seráinfluenciado pelas imagos parentais por elaconstruídas. Uma imago parental positiva oferecesustentação, isto é, prepara-a para lidar comdesafios e situações adversas, fornece-lhe umarsenal de recursos internos que são instrumentosque lhe possibilitam enfrentar situaçõesinesperadas. É como se tivesse dentro de si umporto seguro onde ancorar em meio àstempestades. Na escola, confiança e segurançatornam a criança mais produtiva e mais criativapara enfrentar as exigências escolares derelacionar-se com a instituição, com os colegas eos professores e com a aprendizagem. Já, acriança com uma imago parental negativa sente-se desamparada, insegura, sem autoconfiança,impotente, enfim, sem recursos internos paraenfrentar situações novas. As exigências da escolaserão motivo de tal ansiedade que dificultarãoseu desempenho. Sem confiança no adulto, sente-se à deriva, não saberá a quem recorrer paraajudá-la em suas dificuldades. RELAÇÃO DA CRIANÇA COM OPROFESSOR: PROCESSOSINCONSCIENTES Face ao que foi apresentado até aqui,percebemos o quanto as imagos parentaisinfluenciam diretamente o comportamento dacriança na escola, seja através de um objeto bomou mau estabelecido em seu ego, seja através dofenômeno transferencial na relação que elaestabelece com o professor. Quando portadora deum ego fragilizado, a criança tem dificuldade emdedicar-se à aprendizagem, pois toda sua energiaestá direcionada a resolver os conflitos de suavida interior, alerta Tinoco 5 . Já, a criança com umdesenvolvimento adequado do ego, isto é, comum objeto bom fortemente estabelecido,apresentará integração, coerência, força, estarálivre para dedicar-se à construção de suaaprendizagem.Sempre é bom lembrar àqueles que lidam coma formação da consciência infantil quão tênuessão os limites da ação pedagógica, uma vez queo aluno transfere para seus professores ossentimentos carinhosos ou agressivos quedesenvolveu na relação primordial com seus paise outros adultos significativos. Ou seja, o fenô-meno psíquico a que Freud chamou de trans-ferência não existe apenas no contexto analítico,mas interfere também na relação pedagógica quese estabelece entre professor e aluno.Mas, afinal, o que são transferências?Segundo Freud (apud Kupfer  6 ), “ são reediçõesdos impulsos e fantasias despertadas e tornadasconscientes durante o desenvolvimento daanálise e que trazem como singularidadecaracterística a substituição de uma pessoaanterior pela pessoa do médico ”. Em outraspalavras, “ toda uma série de acontecimentos psíquicos ganha vida novamente, agora não mais como passado, mas como relação atualcom a pessoa do médico ”. Assim, tendo por base a teoria freudiana, atransferência das relações primordiais comadultos significativos para a relação com oprofessor é inevitável e pode facilitar ou não aaprendizagem escolar. Na sua relação com oprofessor, a criança faz a projeção de sua relaçãocom seus pais: revive, tanto objetos e sentimentosinternos bons, quanto conflitos e dificuldadesrelacionais que causam ansiedade. Ao conceituar o fenômeno da transferência, Freud mostrou queo passado está sempre presente nas relaçõesinterpessoais, ou seja, as relações atuais sãobaseadas em padrões de relacionamentomodelados durante a história de vida das pessoas.No contexto escolar, a criança transfere padrões  O PAPEL   DO    ADULTO   NA     APRENDIZAGEM Rev. Psicopedagogia 2003; 20(61): 52-5 55 de relacionamento vivenciados em sua históriafamiliar com os pais e com os irmãos para oprofessor e para os colegas.Em resumo: através do fenômeno transfe-rencial, as imagos parentais influenciamdiretamente a relação da criança com o professor. Assim, a criança com uma imago parental positivapode estabelecer uma relação amigável econfiante com o professor, com a formação devínculos afetivos que favorecem seu desempenhoescolar. Ao contrário, a criança com uma imagoparental negativa estabelecerá com o professor uma relação de desconfiança, temor, competiçãoe inveja, relação que bloqueia seu crescimento eseu aproveitamento na escola.Logicamente o assunto não se esgota aqui. Oprofessor, com sua personalidade e sua históriade vida, também influencia a construção daimagem de adulto – positiva ou negativa – pelacriança. A instituição escolar, por sua vez, podefacilitar o ajustamento e a aprendizagem dacriança, se tiver flexibilidade nas suas exigências.Ou dificultar, caso não o faça. Como bem analisaBourdieu, “ confinada em uma visão meritocrática que a prepara mal para perceber eenfrentar a diversidade das estratégias mentaisdos alunos, a instituição escolar provoca, muitasvezes, traumatismos propícios a reativarem ostraumatismos iniciais: os julgamentos negativosque afetam a imagem de si encontram reforço,sem dúvida, muito variável em sua força e forma, junto aos pais, que redobra o sofrimento e colocaa criança ou o adolescente diante da alternativade se submeter ou sair do jogo (...) ”. SUMMARY  The role of adults in learning situationsThis article aims to provide elements for reflection, from the psichoanalyticstand point, towards the influence of the parental images on the learning of children in school. It highlights the importance of the first relationships built with the meaningful adults and that serve for the formation of the childhoodidentity matrix. KEY WORDS: Parental images; learning; meaningful adults; identitymatrix. REFERÊNCIAS 1.Assis, Maria Bernadete AC. Aspectosafetivos do desempenho escolar: algunsprocessos inconscientes. Boletim da Associação Brasileira de Psicopedagogia,1990, 20:35-48, p.42.2.Bourdieu, P. Escritos de educação.Nogueira, M.A, Catani, A (orgs). Petrópolis: Vozes, 2002, p.233-234.3.Macedo, RM. A família diante dasnecessidades escolares de seus filhos. In:Oliveira, Vera B. de e Bossa, N. A. (orgs). Avaliação psicopedagógica da criança dezero a seis anos. Petrópolis: Vozes, 1994,183-206, p.187.4.Souza, AL. de. Pensando a inibiçãointelectual. São Paulo: Casa do Psicólogo,1995, p.295.Tinoco, DH. Distúrbios afetivo-emocionais e suainterferência na aprendizagem escolar: umavisão psicanalítica. [Dissertação]. São Paulo:Pontifícia Universidade Católica, 1990, p.25.6.Kupfer, MC. Freud e a educação. São Paulo:Scipione, 1995, p.88.  Artigo recebido em 08/01/2003 Aprovado em 14/02/2003Trabalho realizado no Programa de Estudos Pós-graduados em Educação, História, Política e Sociedadeda Pontifícia Universidade Católica de São Paulo.

Tema 8

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