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PONTIFÍCIA UNIVERSIDADE CATÓLICA DE SÃO PAULO PUC-SP. José Luiz Bueno. A travessia do nada na Filosofia da Religião de Franz Rosenzweig

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PONTIFÍCIA UNIVERSIDADE CATÓLICA DE SÃO PAULO PUC-SP José Luiz Bueno A travessia do nada na Filosofia da Religião de Franz Rosenzweig DOUTORADO EM CIÊNCIA DA RELIGIÃO SÃO PAULO 2016 PONTIFÍCIA UNIVERSIDADE
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PONTIFÍCIA UNIVERSIDADE CATÓLICA DE SÃO PAULO PUC-SP José Luiz Bueno A travessia do nada na Filosofia da Religião de Franz Rosenzweig DOUTORADO EM CIÊNCIA DA RELIGIÃO SÃO PAULO 2016 PONTIFÍCIA UNIVERSIDADE CATÓLICA DE SÃO PAULO PUC-SP José Luiz Bueno A travessia do nada na Filosofia da Religião de Franz Rosenzweig DOUTORADO EM CIÊNCIA DA RELIGIÃO Tese apresentada à Banca Examinadora da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo, como exigência parcial para obtenção do título de Doutor em Ciência da Religião sob a orientação do Prof. Dr. Luiz Felipe de Cerqueira e Silva Pondé. São Paulo 2016 Banca Examinadora Esta pesquisa foi tornada possível graças ao apoio da CAPES e da FUNDASP, às quais expresso aqui o meu agradecimento. À minha esposa, Maria Rita, pelo amor e apoio incondicional. À minha filha Julia, amor de minha vida. Aos meus pais, Alcindo e Izaura (in memorian). Agradecimentos: Agradeço ao meu orientador, Prof. Dr. Luiz Felipe Pondé, por me abrir generosamente as portas para o grupo de pesquisa e sempre me incentivar nos estudos filosofia da religião, por me apresentar, dentre tantas outras coisas, a obra de Franz Rosenzweig e por me apoiar, como orientador e como amigo, em todo o caminho da pesquisa. À querida amiga, Dra. Maria Cristina Mariante Guarnieri, que me precedeu na pesquisa sobre Rosenzweig, cuja obra conhece profundamente. Nossas permanentes conversas sobre o autor e o intercâmbio de textos e de ideias em muito me enriqueceram e, acima de tudo, por sua amizade e companheirismo que jamais me faltaram. À querida amiga Dra. Lilian Wurzba, que me recebeu e integrou ao grupo de pesquisa. Mesmo estando em países diferentes durante o mestrado, ajudou-me com a pesquisa e com a redação da dissertação. Jamais me faltaram sua amizade e carinho. Aos queridos amigos e colegas do grupo de pesquisa, Andrea Kogan, Isadora Sinay e Fabiano Mina, que dedicaram seu tempo e paciência para fazer uma cuidadosa revisão de meu texto, oferecendo valiosas sugestões e correções. Uma ajuda de inestimável valor. Qualquer deficiência que ainda restar no texto final é de minha inteira responsabilidade. Aos amigos do NEMES, nosso grupo de pesquisa em Ciência da Religião da PUC, pelo intercâmbio de ideias durante todo este tempo em que temos convivido na universidade. À Assistente de Coordenação do Departamento de Ciência da Religião da PUC, Andrea Bisuli, sempre pronta a nos ajudar, orientar e apoiar, com sua simpatia e presteza, o que nos deu a tranquilidade de saber que conseguiríamos cumprir com todas as exigências formais da universidade. Ao Departamento de Ciência da Religião, da PUC de São Paulo, por acolher este projeto e tornar possível materializá-lo nesta tese. Cada ato deveria ser realizado como se toda a eternidade dependesse dele. (Franz Rosenzweig, apud GLATZER, 1998, p. 47) RESUMO Esta tese estuda o enfrentamento ao relativismo e ao niilismo empreendido pelo filósofo e teólogo judeu alemão Franz Rosenzweig. Para isso, nosso objeto de estudo é a obra de Rosenzweig, particularmente seu livro mais importante, A Estrela da Redenção, juntamente com o texto O Novo Pensamento, escrito posteriormente pelo filósofo para servir como prefácio ao seu livro principal, visando esclarecer seu conteúdo e sua estrutura. Nossa hipótese é de que o pensamento de Rosenzweig se torna apto a enfrentar aqueles desafios na medida em que assimila categorias do pensamento judaico tradicional, que o autor assume a partir de seu retorno ao judaísmo, e as concilia com a filosofia de cunho existencial e pragmático que ele elabora. A forma de produzir este seu sistema de filosofia, que o pensador chama de novo pensamento, é definida por ele mesmo como o seu método judaico. Este método implica adotar um pensamento mergulhado na contingência e na temporalidade, assumindo a insuficiência e não-autonomia ontológica tanto do homem quanto do mundo. Também significa uma atitude existencial que assume que se caminha sempre ao lado de Deus. Implica, ainda, assimilar a linguagem da tradição judaica que será o meio de expressão de seu pensamento. Assim, investigaremos os dois textos principais de Rosenzweig com o auxílio de outros textos importantes, produzidos na forma de artigos e de cartas, nos quais se pode encontrar os elementos constituintes de seu pensamento e que revelam os seus recursos racionais e existenciais para enfrentar o relativismo e o niilismo e para propor sua própria perspectiva para a racionalidade assim como para a existência. A assimilação de categorias judaicas bem como de elementos da filosofia existencial e pragmática permitirão ao autor tornar o nada uma categoria criativa e um ponto de partida de seu sistema de pensamento, jamais um fim ou uma chegada. Estas características conferirão singularidade e potência à obra de Franz Rosenzweig. Palavras-chave: Franz Rosenzweig, judaísmo, niilismo, relativismo, revelação, contingência. ABSTRACT This thesis researches how Franz Rosenzweig, the German Jewish philosopher and theologian, faces the challenges of relativism and nihilism. The works of Rosenzweig are the object of this research, especially his most important book, The Star of Redemption, along with the text named The New Thinking, whose aim was to serve as a preface to the main book and to clarify its meaning and content. Our hypothesis is that Rosenzweig s philosophy makes itself able to face those challenges only when it assumes some categories from the traditional Jewish thinking when he makes his return to Judaism, and combines it with the existential and pragmatic sort of philosophy that he elaborates. He calls his own way of producing his philosophy as his Jewish method. This method presupposes a kind of thinking completely immersed in contingency and temporality, acknowledging the insufficiency and lack of ontological autonomy to man and also to the world and an existential attitude of walking alongside God. It also implies that one assimilates the language of Jewish tradition which will function as the means of expression of his philosophy. So, we will research Rosenzweig s two main texts along with some supporting texts, among them some articles as well as some letters, where we can find some clarification about elements that he used to build his system of philosophy which make him able to face relativism and nihilism, and also to come up with his own form of rationality and existential attitudes. The use of traditional Jewish categories of thinking along with elements of existential and pragmatic philosophy will allow him to change the concept of nothing into a creative category and a point of departure to his own thinking. The nothing will never be a halt or an end point. Those characteristics will bestow the singularity and power of Rosenzweig s work. Keywords: Franz Rosenzweig, Judaism, nihilism, relativism, revelation, contingency. SUMÁRIO Introdução Capítulo I Os problemas impostos pelo velho pensamento I.1 O contexto da teologia protestante alemã I.2 O desafio da Emancipação I.3 Individualização e secularismo I.4 Sionismo e secularização I.5 Romantismo e cultura I.6 Historicismo e relativismo I.7 Niilismo I.8 O contexto geral Capítulo II Vida e filosofia II.1 A formação e os interesses intelectuais II.2 A pesquisa em Hegel. A crise de seu relativismo historicista II.3 O diálogo noturno em Leipzig, com Rosenstock II.4 Da decisão de conversão à teshuvá II.4.1 Ainda sobre as razões para a teshuvá. Da negação do mundo à reconciliação Deus-mundo-homem II.5 As reações. O início da nova jornada II.6 Teologia ateia II.7 De Hegel a Schelling II.8 O pensador judeu na guerra II.9 A correspondência com Eugen Rosenstock II.10 A Urzelle, a Célula Originária da Estrela da Redenção. A importância dos conceitos de revelação e de indivíduo singular II.11 A redação da Estrela no front de guerra II.12 Novos caminhos II.13 A paralisia e os últimos anos II.14 Vida e obra indissociáveis Capítulo III O método judaico e o mergulho nos nadas III.1 O judaísmo é meu método, não meu objeto III.2 Superando o velho pensamento III.3 O Novo Pensamento: prefácio posterior para A Estrela da Redenção III.4 A Estrela da Redenção III.5 Os Elementos ou O Eterno Antemundo III.6 A morte revela o sujeito singular III.7 A fragmentação do Todo III.8 Os nadas III.9 Afirmação e negação III.10 O Deus mítico e a metafísica III.11 O mundo metalógico III.12 O homem metaético III.13 A realidade antecede a racionalidade III.14 Os nadas em sua função no novo pensamento III.15 Mergulho e travessia do nada CAPÍTULO IV Do milagre à vida Nova Filosofia e Nova Teologia A questão da objetividade do conhecimento IV.1 As rotas: relações e experiência na temporalidade IV.1.1 Criação IV.1.2 Da lógica à arte IV.1.3 Leitura do Gênesis IV.2 Revelação e a permanente renovação da alma IV.2.1 Revelação e amor IV.2.2 Revelação como diálogo Deus-homem IV.2.3 Do monólogo ao diálogo Eu-Tu IV.2.4 Os modos da linguagem IV.2.5 O risco do místico IV.3 Redenção: a convergência entre Criação e Revelação IV.3.1 O novo homem IV.3.2 O amor ao próximo IV.3.3 O mundo inacabado IV.3.4 As ideias de progresso, história, tempo IV.3.5 A Relação homem-mundo IV.3.6 A linguagem do tempo futuro IV.3.7 A temporalidade na segunda parte da Estrela da Redenção IV.3.8 A contingência é o outro IV.4 A Figura ou o Supramundo Eterno IV.5 A articulação entre as três partes da Estrela IV.6 À vida Conclusão Bibliografia I. Bibliografia Principal II. Bibliografia secundária: INTRODUÇÃO Na tradição judaica todo leitor é um revisor de originais, todo aluno um crítico, e todo escritor, inclusive o Autor do universo, incorre em grande número de questões. Amós Oz (OZ; OZ-SALZBERGER, 2015, p. 10) A motivação para o estudo da obra de Franz Rosenzweig nasceu quando este autor me foi apresentado em 2005, enquanto participava dos estudos em filosofia da religião desenvolvidos no grupo de pesquisa à época chamado de Religião: Teoria e Experiência, do Departamento de Ciência da Religião da PUC-SP e nas aulas ministradas pelo Prof. Dr. Luiz Felipe Pondé, que apresentara o autor e sua obra aos alunos e membros do grupo de pesquisa. À época, despertou-me a atenção no pensamento de Rosenzweig o fato de que, como filósofo e ao mesmo tempo como pensador religioso, o autor era capaz de conciliar em sua obra um pensar filosófico de caráter eminentemente pragmático e não-metafísico com uma teologia judaica rica em elementos oriundos das fontes tradicionais e, acima de tudo, de aplicar este sistema de pensamento como fundamento de suas atitudes existenciais. O caráter pragmático deste pensador religioso e filósofo foi o elemento que me revelou um autor capaz de enfrentar o relativismo e o niilismo de seu tempo que ainda são características presentes em nossa racionalidade e nossa vida em sociedade propondo um sistema de pensamento que buscava aliar a objetividade do pensamento filosófico à subjetividade da experiência do indivíduo singular que o pensamento teológico e a prática religiosa conheciam de perto. Isto me pareceu indicar uma obra de grande profundidade e alcance que seria capaz de oferecer perspectivas muito proveitosas para não apenas entender os desafios de seu tempo, mas também auxiliar em nosso esforço de enfrentar as questões atuais. Franz Rosenzweig, alemão, judeu, nascido em 1886 em falecido em 1929, viveu e produziu sua obra em um período histórico que ainda se apoiava na esperança de que a pura racionalidade seria a impulsionadora do progresso material e humano, mas que, em vez disso, era uma época que produzia um acelerado processo de degradação cultural, derivado da dissolução dos sistemas culturais e sociais tradicionais, bem como de um relativismo moral amplamente disseminado, capaz de produzir uma tragédia da grandeza de uma Primeira Guerra Mundial. 12 Rosenzweig viveu a transição para um período em que a modernidade, ao radicalizar 1 os seus fundamentos, produziu aquela grande catástrofe até deixar apenas os escombros e fragmentos das formas de vida, de pensamento e de cultura que ainda predominavam até a primeira década do século XX. O momento histórico que o autor experimentou, o tempo em que viveu, foi muito complexo e cambiante; durante este período, Rosenzweig vivenciou as incertezas de seu tempo e a insegurança a respeito do futuro da Europa, e da Alemanha em particular, com uma pungência tal que sobre ele se impôs uma dolorosa experiência existencial, ainda que esta experiência tenha lhe oferecido, como contraponto, um rico campo de reflexão. Este aspecto de riqueza de experiência do tempo em que Rosenzweig viveu apareceu concretamente na forma de uma obra intelectual e de um trajeto biográfico que são imensamente ricos como material de reflexão sobre o seu próprio tempo, mas também para a atualidade, uma vez que não superamos totalmente as contradições estabelecidas na época em que viveu nosso autor e que novos problemas surgiram como resultado do enfrentamento daqueles que se apresentavam à época. Alguns destes puderam ser superados, outros permaneceram e ainda estão diante de nós. Nosso autor trilhou um caminho de reflexão que lhe proporcionou a ocasião e as condições de levar ao limite aquela forma de pensamento em que ele mesmo fora formado. O pensamento alemão, no início do século XX, assistia o surgimento de movimentos como a tentativas de retomar o hegelianismo, outros como a emergência da escola neokantiana, ao mesmo tempo que batalhava com o desafio deixado pela herança filosófica de Nietzsche, que lançara à racionalidade o desafio do relativismo, e lidava, ainda, com a emergência de novas correntes da filosofia, que representariam uma forma ou outra de resposta ao niilismo. Simultaneamente, via-se na Alemanha a religião sendo reduzida ao patamar de mera cultura, como resultado da tentativa das escolas teológicas de se adequarem aos padrões de racionalidade e cientificidade impostos pelo pensamento iluminista. Por fim, havia a situação da comunidade judia da Alemanha, que desde há muito se via às voltas com a questão da assimilação à cultura alemã. A Alemanha, ao considerar o cristianismo como o tecido que produzia a sua unidade social e cultural, exigia que os indivíduos judeus assumissem inteiramente a cultura alemã, o que significava 1 Referimo-nos, aqui, ao conceito de modernidade radicalizada de Anthony Giddens (Cf. GIDDENS, ). 13 inclusive a conversão ao cristianismo, para que alcançassem a emancipação, isto é, a plena condição de cidadãos alemães com todos os direitos e deveres daí derivados, especialmente no caso das carreiras acadêmicas em que a conversão funcionava como bilhete de entrada (SCHMIED-KOWARZIK, 2002, p. 75) A pressão da assimilação cultural sobre os judeus produziu várias vertentes de reação na comunidade judaica alemã, que passou pelo plena aceitação dessa exigência, com muitos judeus se convertendo, havendo também aqueles que resistiram tentando harmonizar a condição de cidadãos alemães com a sua confissão religiosa, como houve, ainda, um movimento que se desesperançou da emancipação na Europa e passou a pregar e buscar uma solução política que envolvesse a definição de um território em que os judeus pudessem viver e adotar sua cultura e religião próprias, que foi o amplo e diversificado movimento sionista. Esta complexidade filosófica, teológica, social e cultural, agravada pelo conflito internacional que foi a Primeira Guerra, expuseram nosso pensador a uma ampla gama de experiências, contradições, desafios, as quais lhe impuseram a necessidade de buscar elementos que lhe permitissem compreender esse momento novo de sua vida, da sua comunidade judaica, da Alemanha e da Europa como um todo, e para tanto, nosso autor se debruçou tanto sobre a filosofia quanto sobre o pensamento teológico, buscando neles os elementos racionais e existenciais que lhe permitissem enfrentar estes desafios com o mais completo arsenal intelectual e existencial que lhe fosse possível adquirir. O que faz com que a obra de Rosenzweig seja tão importante, como se passou a reconhecer nas últimas décadas de pesquisa acadêmica na Europa, nos Estados Unidos, em Israel e mais recentemente no Brasil, é exatamente a sua capacidade de articular uma nova forma de entender e produzir filosofia com categorias de pensamento oriundos da tradição de pensamento judaico que o autor reassumiu a partir de determinado momento de sua vida. Rosenzweig, para elaborar seu sistema de filosofia, que ele nomeou como novo pensamento, apoderou-se de categorias da filosofia do judaísmo juntamente com as novas perspectivas da filosofia que se abriam em seu tempo. No seu sistema de filosofia, ele indicou que o pensamento judaico lhe proporcionou categorias que seriam adequadas e necessárias para suprir aquilo que a razão filosofante já não podia mais oferecer nem produzir, dadas as condições em que ela se encontrava no período em que eclode a 14 Primeira Guerra Mundial. Seria possível, assim, superar a condição fragmentária e o estado de paralisia em que, segundo Rosenzweig, a filosofia se encontrava. A filosofia em seu modelo clássico, cujas origens remontam aos gregos, tendo Tales como seu ponto inicial, teria, segundo Rosenzweig, chegado ao seu ápice com Hegel e, também com ele, ao seu esgotamento. Depois de Hegel, não seria mais possível produzir filosofia como antes. A principal razão para isso seria que o pensamento hegeliano teria sido confirmado por aquela catástrofe que foi a Primeira Guerra Mundial. Não se tratava, portanto, de que tivesse sido refutado o hegelianismo, mas de ter ele produzido tudo o que dele se poderia esperar. Esta forma de filosofia já não mais seria possível no mundo que ela mesma produzira. Ora, para Rosenzweig, Hegel representava a tradição filosófica que pensa a totalidade a partir de categorias metafísicas, como a do ser que se contrapõe ao nada absoluto. Entretanto, o fim do pensamento da totalidade não é apenas o seu esgotamento pela sua realização, mas é também a derrocada do sistema de totalidade dada a total fragmentação da filosofia a partir da contribuição de Nietzsche. Se não se pode mais falar em uma totalidade, restará apenas o nada? Ou estará também o nada fragmentado em muitos nadas? Rosenzweig considera que os sistemas metafísicos da totalidade sucumbiram diante da singularidade do indivíduo que emergiu como o produtor da filosofia. Esta derrocada da filosofia da totalidade e a sua fragmentação trouxeram a possibilidade de pensar não mais um nada absoluto mais vários nadas. Pois se não há um todo e tampouco um nada absoluto, cada indivíduo e cada elemento singular que emergem podem ter como seu contraponto o seu nada particular. Rosenzweig entende que a emergência do indivíduo significou, também, que a filosofia se rendera ao perspectivismo, isto é, às formas singulares e individuais (subjetivas) de pensamento. Cada pensador poderia produzir sua própria perspectiva e sua própria filosofia. Cada pensador seria a justificação de seu sistema de filosofia. Haveria tantas filosofias quantos filósofos houvesse. O efeito deletério sobre a capacidade organizadora da razão é evidente. O preço de abandonar a totalidade metafísica era o de se ser submergido nos infinitos fragmentos do pensamento, cada um podendo se referir à perspectiva de cada pensador particular. Como resgatar a razão dessa situação tão precária? Como erigir algum conhecimento científico que não se dissolvesse imediatamente em múltiplos fragmentos e perspectivas? Seriam ainda possíveis uma filosofia e uma ciência? Se o nada era em si um grande desafio, como pensar diante da possibilidade de se estar diante de vários nadas? 15 Ao mesmo tempo, a religião, que era tradicionalmente o lugar onde a experiência individual encontrava sua legitimidade, passava por um processo de crítica histórica que a desprovia de seus fundamentos tradicionais, como era o caso da crença na revelação, na divindade do Cristo, no milagre, e a teologia, ao admitir estas críticas, gradualmente convertia a religião (tanto o cristianismo como o judaí
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