Mensagem: 8 Data: Tue, 1 Nov 2005 11:27:24 0200 (Hora oficial do Brasil) De: "ISIS" <meumoi@pop.com.br> Assunto: A GRANDE HERESIA IV CAPÍTULO IV O Berço da Heresia As lendas relacionadas a Madalena ultrapassam as fronteiras da Provença,embora apenas lá se possam encontrar os locais associados com a sua passagempela França. Histó-rias sobre ela afloram em abundância por todo o sul,concentrandose partic-ularmente nas proximidades do sudeste dos Pireneus eem Ariege. E dizem que foi para esses lugares que ela trouxe o Santo Graal.Como já era de se esperar, essas terras também são morada de um grandenúmero de Madonas Negras, em particular nos Pireneus orientais.Seguindo em direção oeste, tendo Marselha atrás de nós, chegamos à região deLanguedocRoussillon, que já foi a região mais rica da França e hoje é umadas mais pobres. Nessa região despovoada, os pensamentos de cada pessoaparecem ecoar sobre a terra, reverberando cada vez mais, pouco a pouco,milha após milha, a despeito do número crescente de turistas que vêm sorversua história encharcada de sangue; e, claro, o vinho local também. E emboranós, como bons europeus, fizéssemos nossa própria contribuição à economialocal, estávamos lá, em primeiro lugar, para examinar o passado.Em todos os lugares podemse ver as evidências da turbulenta história vividapela região. Castelos arruinados e antigas fortalezas, postos abaixo porordens de reis e papas, sujam a paisagem e nos falam de brutalidades queultrapassam até mesmo a propensão medieval comum de governar por meio daatrocidade. Pois se existe um lugar na Europa que possa ser lembrado como olar da heresia, esse é LanguedocRoussillon. E foi esse único fato históricoo responsável pelo empobrecimento sistemático da região. Não le-vando emconsideração regiões como a Bósnia e a Irlanda do Norte, rara-mente areligião deixou marcas tão profundas sobre a prosperidade de um país, de ummodo tão explícito, como o fez nessa região.Antigamente só o Languedoc (de Langue d'Oc, o idioma local) se es-tendia daProvença à região entre Toulouse e os Pireneus orientais. Até o século XIII,não fazia exatamente parte da França, sendo governado pelo con-dado deToulouse que, embora nominalmente devesse submissão aos reis da França, na
 
prática era, na verdade, mais rico e poderoso.Nos séculos XI e XII essa região causava inveja a toda a Europa, por suacivilização e cultura. Sua arte, literatura e ciência eram, sem sombra dedúvi-da, as mais avançadas da época; no século XIII, porém, essa culturares-plandecente foi cortada ao meio pela invasão dos povos bárbaros do norte causando um ressentimento que persiste até hoje em dia. Muitos doshabi-tantes ainda preferem chamar a região de Occitania, seu nome anterior.Essa região, como iríamos descobrir, é dona de uma memória particularmentelonga.O antigo Languedoc sempre foi um berço para idéias heréticas enão-ortodoxas, provavelmente porque uma cultura que encoraje a busca deco-nhecimento tenda a tolerar pensamentos novos e radicais.Uma das principais figuras desse ambiente eram os trovadores, essesmenestréis andarilhos cujas canções de amor eram, em essência, hinosde-dicados ao Princípio Feminino. Essa tradição, voltada para o amorelegante, era centrada na idealização das mulheres e, dentre as mulheres, amulher ideal, a Deusa. Eles podem ter sido românticos, mas as canções dostrova-dores também transmitiam um real erotismo. A influência do movimento,porém, estendeuse para além do Languedoc, e em particular, com grande êxito na Alemanha e nos Países Baixos, onde os trovadores eram conhecidos comominnesingers, literalmente, 'os cantores de senhoras', embora aqui a palavratenha o significado de mulher idealizada ou arquetípica.O Languedoc assistiu ao primeiro ato de genocídio cometido pelos europeus,quando 100.000 membros da heresia dos cátaros foram massacra-dos por ordemdo Papa, durante a cruzada contra os albigenses (em razão da cidade de Albi,uma fortaleza cátara). A Santa Inquisição foi srcinalmente criada para,especificamente, interrogar e exterminar os cátaros. Talvez seja apenas pelofato da cruzada dos albigenses ter ocorrido em uma época tão remota quanto oséculo XIII que esse massacre nunca tenha tido o mesmo impacto histórico deholocaustos mais contemporâneos. Porém, muitos dos habitantes locais aindasentem o sangue ferver à simples menção desse as-sunto, e alguns até sugeremque houve uma operação oficial de cobertura ao longo dos séculos, umaverdadeira conspiração para impedir que a história dos cátaros fosse maisamplamente conhecida.Além dos cátaros, essa região era, e sempre foi, um reduto da alquimia, evárias aldeias atestam o interesse pela alquimia de seus antigos
 
moradores,notadamente AletlesBains, perto de Limoux, onde as casas ainda sãoenfei-tadas com simbolismo esotérico.Foi também em Toulouse e Carcassonneque surgiram as primeiras acusações conhecidas contra as assim chamadasBrux-as do Sabbath, entre 1330 e 1340. Em 1335, sessenta e três pessoasforam acusadas de feitiçaria em Toulouse e suas confissões obtidas atravésdos mé-todos usuais que garantiam que qualquer um confessasse. A chefe erauma jovem mulher chamada AnneMarie de Georgel, que parecia falar em nome detodas ao descrever suas crenças. Afirmou que viam o mundo como um campo debatalha entre dois deuses, o Deus do Céu e o Deus deste Mundo. Ela e asoutras apoiavam este último porque acreditavam que ele seria o vence-dor.Tal coisa pode ter significado 'feitiçaria' para os juizes eclesiásticos,mas era na verdade gnosticismo, pura e simplesmente. Outra mulher, acusadade crime semelhante, testemunhou ter assistido ao 'Sabbath' a fim de 'serviros cátaros ao jantar'. Muitos elementos pagãos sobrevivem nessa região,podendo ser encontrados nos lugares mais surpreendentes. Pois, embora asesculturas do 'Homem Verde', o deus da vegetação que era venerado na maiorparte das regiões rurais da Europa, possam, por outro lado, ser vistas emmuitas igrejas cristãs, como a Catedral de Norwich, ele normalmente não édescrito como sendo descendente de uma deidade do Antigo Testamento. Como AT. Mann e Jane Lyle escrevem: Na catedral de StBertranddeComminges, nos Pireneus, Lilith encontrou umjeito de entrar em uma igreja: uma escultura que retrata uma mulher alada,com pés de pássaro, que dá à luz uma figura dionisíaca, um Homem Verde. A mesma cidadezinha afirma ser o local da tumba de ninguém mais, nin-guémmenos que Herodes Antipas, o governador da Palestina, que mandou executarJoão Batista. De acordo com o cronista hebreu do século I, Josephus, ofrágil triunvirato composto por Herodes, sua esposa, a intrigante Herodíadae a enteada Salomé, que é conhecida pela 'Dança dos Sete Véus', estavamtodos exilados na cidade romana de Lugdunum Convenarum, em Gaul, no que hojeé StBertranddeConuninges. Herodes desapareceu sem deixar rastro, masSalomé morreu em um córrego nas montanhas, e Herodíada transformouse emlenda local, tornandose líder de um grupo de 'feiticeiras'.Outra lenda pitoresca de Languedoc se refere à 'Rainha do Sul' (Reine duMidi), um título das condessas de Toulouse. No folclore, a protetora deToulouse é La Reine Pedauque (a Rainha Ganso). Isso pode ser uma
 
referên-cia na cifrada e esotérica 'linguagem dos pássaros', para o Pays d'Oc, mas ospesquisadores franceses identificaram essa figura com a deusa síria Anath,que por sua vez está intimamente ligada a Ísis. E também há a associaçãoóbvia com Lilith.Um outro personagem legendário da região é Meridiana. Seu nome pareceligála ao meiodia e ao sul (ambos midi em francês). Sua aparição maisfamosa aconteceu quando Gerbert d'Aurillac (9401003), que mais tardetornarseia o Papa Silvestre II, rumou para a Espanha a fim de aprender ossegredos da alquimia. Silvestre, que tinha como oráculo uma cabeça falante,recebeu sua sabedoria desta Meridiana, que lhe ofereceu 'seu corpo, riquezase a sabedoria da magia', com certeza algum tipo de conhecimento alquími-co eesotérico transmitido através de rituais de iniciação sexual.A escritora epesquisadora americana Barbara G.Walker deriva o nome Meridiana de Maria-Diana', unindo assim essa complexa deusa pagã com a lendária Madalenado Sul da França.Foi também o Languedoc que abrigou, sem dúvida nenhuma, a maior concentraçãode cavaleiros templários na Europa, até que fossem suprimi-dos, no início doséculo XIV. A região é toda pontilhada com as evocativas ruínas dos castelose edificações militares da ordem.Se, como suspeitamos, existiram muitas outras ramificações do culto herético' de Maria Madalena, além das que encontramos na Provença, então,com certeza, o Languedoc seria o lugar para encontrálas. Uma das maiorescidades por onde passaríamos, ao viajar pela autoestrada de Marselha, viu odespertar de incontroláveis paixões em nome dela; e milhares de pessoashaviam sido, de modo horrível, levadas à morte em virtude do significado queela tinha para eles.A cidade de Béziers, hoje pertence à província de Hérault, noLangue-docRoussillon é uma cidade populosa a cerca de dez quilômetros doGolfo dos Leões, no Mediterrâneo. Em 1209, porém, todos os habitantes daci-dade, até o último deles, foram caçados e mortos impiedosamente peloscruzados da albigense. Mesmo para uma cruzada marcada pela quantidade desangue derramado, essa passagem é uma história particularmente bizarra.Essa história já foi relatada por vários comentadores contemporâneos, masaqui nos limitaremos ao relato de Pierre des VauxdeCemat, um monge deCister (Ordem austera baseada nas regras beneditinas, fundada em 1098, nacidade de Cister, França), escrito em 1213. Ele não esteve presente aoseventos, mas ba-seou seu relato nos dos cruzados que lá estiveram.
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