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Entrevista com Philippe Perrenoud sobre ademocratização do ensino
Para o sociólogo suíço, o professor precisa de capacitação para se tornar um tradutor doconhecimento e conseguir modificar sempre sua maneira de explicar até que todos os alunosaprendam
por:
MF
 
Márcio Ferrari
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Etapas e disciplinasSala de aulaEu, professorRevista digital
 
05/12/2016 Entrevista com Philippe Perrenoud sobre a democratização do ensinohttp://novaescola.org.br/conteudo/891/entrevista-com-philippe-perrenoud-sobre-a-democratizacao-do-ensino 2/5
Philippe Perrenoud. Foto: Juliet Piper 
Novembro de 2004 
As mudanças de rumo que ocorreram na educação brasileira na última décadanão foram fruto do acaso. Elas buscaram responder a um desafio: desenvolverno aluno uma série de competências e prepará-lo para entender e transformar omundo em que vive. As competências são objeto de estudo do suíço PhilippePerrenoud, cujas idéias sobre prática pedagógica influenciaram as reformaseducacionais no Brasil.Em sua última visita ao país, em julho, para participar de um seminário sobreeducação e competitividade econômica realizado em Brasília, Perrenoudquestionou a validade do próprio tema do encontro, que considerou"excessivamente ambíguo". Apesar disso, reconheceu ser "inevitável" levar emconta a competitividade de um país em tempos de economia global ao investir naeducação. No sistema educacional, ele distingue duas instâncias de competição igualmente prejudiciais. Aprimeira é a que ocorre dentro de uma escola ou de uma sala de aula. A segunda é a que acontece entreas escolas e que pode levá-las a recusar os chamados "estudantes de risco", em lugar de daroportunidade a todos. "Em educação, não deve haver perdedores", ele justifica. Com a mesma ênfase que coloca na importância da universalização do ensino, o especialista fala dasnovas ambições e perspectivas educacionais.
Por que o desempenho do Brasil e dos países da América Latina em geral no ranking internacional de educação ainda é tão ruim?
PERRENOUD Em uma pesquisa recente a esse respeito, vi que o Brasil ocupava a 37a posição. Mas mesmoa Suíça, que é um país rico e desenvolvido, ficava na 17a. Então, não há motivo para desespero. Existemgrandes desigualdades mesmo entre nações muito ricas. Talvez haja tanta distância entre a Finlândia e aSuíça, que são dois países europeus pequenos e ricos, quanto entre a Suíça e o Brasil. Não é apenas umaquestão de desenvolvimento, mas um conjunto de fatores complexos. O Brasil enfrenta problemasdiversos e, portanto, não me surpreende que a educação brasileira não seja, hoje, ideal. É um desafioextraordinário mobilizar tantos recursos e pessoas. Nenhum governo pode fazer milagres. 
 A que o senhor atribui o sucesso de suas idéias aqui no Brasil?
PERRENOUD Sei do que estou falando, tento ser concreto e busco não me afastar da realidade prática.Além disso, talvez os problemas enfrentados pela escola sejam muito semelhantes em todos os países,apesar das desigualdades de desenvolvimento e da diferente posição geográfica. Em lugar nenhum aeducação é eficaz o bastante. O fracasso escolar e a exclusão são problemas universais, assim como anecessidade de levar em conta as diferenças individuais e de uma pedagogia mais construtiva. Por isso,acho natural que possamos nos reconhecer em trabalhos que vêm de outros continentes.
Os problemas na educação são conseqüência da crise do mundo atual ou são crônicos?
PERRENOUD Eles mostram uma redefinição das ambições das políticas educacionais. No século 19, a idéiade educação como um direito de todos era revolucionária. Até hoje, no entanto, alguns paísesconseguiram escolarizar apenas 10% ou 20% de sua população. Já nas nações desenvolvidas, atualmentequase todo mundo vai à escola. Mas, onde todos já sabem ler, escrever e contar, isso já não basta. Àmedida que o objetivo da escolarização é atingido, ele se desloca. É normal que o sistema esteja sempreem discordância com relação às ambições que se estabelecem na modernidade, na complexidade, natecnologia.
 
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O peso de novas metas pode desestruturar o sistema educacional?
PERRENOUD Não inventamos novas ambições para provocar o fracasso do sistema. Deve-se reconhecerque o nível mundial de educação jamais esteve tão elevado e as pessoas instruídas jamais foram tãonumerosas. Mas, diante das necessidades de uma sociedade cada vez mais complexa, existe um déficitnão absoluto, mas relativo às exigências dos tempos modernos. É fundamental compreender isso. A culpanão pode ser atribuída só à escola, mas à sociedade tecnológica, que é multicultural, globalizada eapresenta aos indivíduos desafios enormes. Viver hoje em dia é muito mais complexo do que há 50 anos:exige novos conhecimentos, novas competências.
Há quem diga que muitas pessoas trabalham bem com a cabeça, muitas trabalham bem com as mãos, mas poucas sabemtrabalhar com as duas ao mesmo tempo. O que o senhor pensa sobre isso?
PERRENOUD Essa idéia é um estereótipo. Todos nós trabalhamos com a cabeça. É impossível fazerqualquer coisa sem ela. E mesmo em trabalhos intelectuais há muitos aspectos práticos, como escrever,classificar, gerir o tempo. Não existe oposição entre atividade intelectual e manual. Pelo contrário: énecessário reconhecer que em toda tarefa existe uma parte de inteligência, sabedoria, antecipação eraciocínio. Mesmo um lixeiro ou um porteiro, que parecem fazer algo muito simples, estão sempretomando decisões, avaliando prós e contras.
O Ensino Fundamental deve preparar para a prática?
PERRENOUD Mas que prática? A Educação Básica realmente não prepara para o exercício de umaprofissão, mas para a prática da cidadania, da vida social, associativa, sexual, amorosa e familiar. Todasessas vidas são muito importantes, e é possível associar a educação fundamental a elas.
O que o senhor pensa dos ciclos de aprendizagem, que no Brasil são vistos como uma solução de urgência contra a repetência?
PERRENOUD Os ciclos de aprendizagem não são uma meta, mas um meio. Não são uma indicação demodernidade ou uma estrutura complicada por puro prazer; são um instrumenmto de trabalho. Devemser o reflexo de uma pedagogia diferente.
Um dos desafios da educação atual é transpor a linguagem científica e tecnológica para a linguagem da escola. Como secapacitar melhor para isso?
PERRENOUD Esse problema não é novo, mas está ganhando importância à medida que a cultura científicase expande. Toda disciplina escolar exige um trabalho de transposição, ou seja, deve tornar-se acessível aum público que não é composto de pesquisadores ou produtores do saber. Dessa forma, toda escola setorna uma imensa empresa de vulgarização, no bom sentido do termo. A formação de professores exigenão só que eles dominem o saber mas também que saibam fazer a transposição desse saber. Comoexplicar frações a alunos de 12 anos? E números negativos a adolescentes de 13? São conceitos muitocomplexos, que, se forem explicados por alguém que não tem a competência da transposição, ou didática,só serão compreendidos pelos melhores estudantes. Os outros passarão por burros ou preguiçosos. Naverdade, a incapacidade é do educador. Traduzir é a responsabilidade principal do professor. Não bastasaber, senão todos nós poderíamos lecionar. É necessário ter a competência específica para ser umtradutor de conhecimento.
 
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Como o professor pode se tornar um bom tradutor de conhecimento?
PERRENOUD Essa competência deveria estar no centro da formação inicial, mas infelizmente isso nemsempre acontece. Muitas vezes, no Ensino Fundamental, basta conhecer a matéria para começar alecionar. Nesse caso, é necessário rever a formação inicial dos docentes para dar mais ênfase àscompetências de transposição e de gerenciamento do saber. A habilidade se desenvolve ao longo da vida,à medida que surgem os obstáculos. Alguém que explica frações e percebe que talvez quatro de cadacinco alunos não entenderam absolutamente nada de sua aula deverá tentar na aula seguinte ser maisconcreto, achar novos exemplos. Esse processo não deve acabar nunca, pois os estudantes se renovam ehá sempre alguns para os quais é necessário encontrar uma linguagem nova. Idealmente, um professorque de início era compreendido por três crianças em uma classe de 30 passará a ser compreendido porseis, depois por nove e finalmente por todas.
 Agir na Urgência e Decidir na Incerteza
 é o título de um de seus livros. Como o professor pode agir diante do imprevisível?
PERRENOUD Quanto mais qualificado for um profissional, maior deverá ser sua capacidade de enfrentar oimprevisível. Isso se aprende, e não é apenas na carreira de professor que é preciso improvisar. Comopreparar as pessoas para isso? É necessário trabalhar a dimensão afetiva: a angústia, o medo deimprovisar ou a resistência em abandonar uma estratégia habitual que se revela ineficaz. É uma tarefaque exige lutar contra toda espécie de perfeccionismo e que demanda tempo. A experiência ensina oprofissional a discernir uma série de fatores. Um professor experiente sabe o que acontece em sua classe,a tal ponto que seus alunos pensam que ele tem olhos nas costas! Ele escuta ruídos, percebe quandocomeça a agitação e quando a concentração diminui. Quanto maior sua capacidade perceptiva, maior suahabilidade em improvisar.
hilippe errenoud
, 60 anos, é doutor em sociologia e antropologia e professor da Faculdade dePsicologia e de Ciências da Educação da Universidade de Genebra. Estudioso da evasão e dasdesigualdades na escola e especialista em práticas pedagógicas em instituições de ensino, é diretor doLaboratório de Pesquisas sobre a Inovação na Formação e na Educação (Life), também de Genebra.
Quer saber mais?Bibliografia
 
A Pedagogia na Escola das Diferenças
, Philippe Perrenoud, 230 págs., Ed. Artmed, tel. (51) 3027-7000, 39 reais
Escola e Cidadania
, Philippe Perrenoud, 184 págs., Ed. Artmed, 32 reais
Os Ciclos de Aprendizagem
, Philippe Perrenoud, 230 págs., Ed. Artmed, 39 reais
As Competências para Ensinar no Século XXI
, Philippe Perrenoud e Monica Gather Thurler, 176 reais
 
 
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