Os padrões eurocentrados e os dispositivos da colonialidade na experiência do projeto UNILA:
 perspectivas acerca das contradições e êxitos de um recente egresso
 
Cauê Almeida Galvão
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 Esse trabalho trata-se de uma análise experiencial do autor sobre os processos vividos no seio do projeto iniciado em 2010 da Universidade Federal da Integração Latino-Americana, que tem como fatores centrais, o bilinguismo, o ciclo comum de estudos e a divisão de vagas entre metade brasileiros e metade não-brasileiros. O autor que vos escreve, chegou a esse projeto no ano de 2014, e desde então vem  buscando desconstruir toda a carga histórica produzida no ensino básico e ainda na carreira de história em outra instituição com estruturas curriculares clássicas e eurocentradas. Todavia, essa busca não pode ser somente por parte do estudante, já que a predisposição para o acúmulo e compartilhamento de ideia ainda caminha na lógica
“fluida” da hierarquia entre a
s classes e do determinismo de superioridade de uma classe (docente) sobre outra (discente). Esse caminhar traz consigo diversas barreiras e muros as quais os pressupostos para uma integração latinoamericana, não somente econômica, exige e põe como fator determinante, o rompimento das estruturas hierárquicas de saber. Deixando de lado, a prepotência acadêmica herdada dos  processos de colonialidade e abrindo caminhos para uma desconstrução de e para os latinoamericanos, ou seja, uma história desde
los de abajo
 nessa zona continental. Como aluno da carreira de História
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 América Latina nos é apresentado uma gama de
“disciplinas” (conceito eurocentrado ainda utilizado dentro deste projeto) de
rompimento e desconstrução histórica e historiográfica. Entretanto, as estruturas que engendram essas organizações de saberes, partem do mesmo pressuposto as quais levanta crítica e propõe rompimentos. Nesse sentido, se não há uma quebra prática de ação, a estrutura eurocentrada pautada sobre a disciplinaridade e os pressupostos hierárquicos de definição da colonialidade do saber e poder através da régua do pensar, influi diretamente na paralisia dos processos de desconstrução epistêmica e logicamente na ação prática da academia e sua obrigatoriedade de retorno social. Neste âmbito, a disciplinaridade, a cobrança de presenças como forma de garantia da atenção do estudante, a estrutura de provas, avaliações e atividades classificatórias denotam com clareza alguns dos dispositivos de coerção e controle posto dentro do âmbito repressivo e persecutório a qual vivem as instituições hierárquicas de saber. Assim, o projeto UNILA não se coloca diferente das universidades clássicas, e termina  por desvalorizar as potências que são alimentadas nas salas de aula através de uma suposta desobediência epistêmica, mas que na prática, soa como limitância por medo de uma horizontalização das hierarquias. Esse fator é posto em evidência quando nos atemos ao processo de paridade que a classe universitária conseguiu avançar em 2012 e implementar junto aos documentos de criação da instituição, mas que, no ano de 2015, sofreu um duro golpe das pessoas da própria instituição, que usaram do dispositivo  jurídico para legitimar a hierarquização das classes e supostamente dos saberes, deixando claro nesse episódio, porque incomoda tanto uma horizontalização das hierarquias para sujeitos sociais que imaginam a sociedade como inferior-superior, e  porque a estrutura de uma universidade diferente tende a ser fragmentada através do
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 Historiador da América Latina formado na turma de 2016 da Universidade Federal da Integração Latino-Americana (UNILA) e atualmente mestrando do Programa de Pós Graduação Interdisciplinar em Estudos Latino-Americanos (PPG-IELA) da mesma instituição.
 
corporativismo de professores que trouxeram diversos colegas de formação, cônjuges e outros seres, vinculados ao padrão burocrático das Universidades tidas como clássicas,  por clara (o caso da paridade põe essa questão sob a luz) intenção de controle do projeto
supostamente “revoluc
ionário-bolivariano-bolchevique-
guevarista” (ou qualquer outro
apelido cretino ao qual sejamos denominados) que tanto incomoda a esses que aqui chegaram não pelo contexto político ou de ideais, mas sobretudo, porque a esses a evidência de que a camada pobre está na universidade e está questionando é uma afronta aos sujeitos de luz, de saberes únicos, de verdades únicas, de doutores de seus próprios umbigos... Infelizmente, nesses três anos que estive por aqui, não conseguimos eleger um reitor  para comandar nosso projeto de dentro para dentro, estando nós todos, sempre nas mãos do Ministério da Educação (MEC) brasileiro, que elegeu um interventor que em nada tem a ver com os projetos e organizações da UNILA como integradora e participativa na zona latinoamericana. Esse fator acredito eu, é de extrema importância para os diversos golpes sofridos durante os últimos anos, como o caso da paridade e o corte de bolsas aos estudantes internacionais, o que acarreta diretamente na tríade (bilinguismo, ciclo comum, 50-50%) e põe sob a estrutura diversas confusões e conflitos em torno do rumo modificado de cima para baixo, de forma nada paritária. Em contraponto aos fatores negativos, quando tratamos de burocracia e institucionalidade do projeto UNILA, há  pouco para nós que acreditamos no projeto UNILA e na integração e cooperação entre os povos (e não somente as economias). Entretanto, no tocante as integrações vivenciadas com os atores partícipes desse projeto, o que se percebe é uma potência de vidas, cheiros, formas, idiomas, dialetos, afetos, tradições, etc. que explodem nas relações entre estudantes, técnicos e alguns  professores. Essas trocas e experiencialidades se colocam como eixo determinante, pois, localiza-se em um âmbito onde a institucionalidade que nos castra não nos alcança, e em consequência disso, nossas potências e proximidades com a realidade do outro se fazem de forma mais vigorosa, sem filtros, sem máscaras. Dessa forma, o projeto UNILA, infelizmente, tem sofrido duros golpes por conta de corporativismos e amiguismos da classe dominante (e que usou a justiça comum para a manutenção desse privilégio) da universidade, e como egresso hoje, o que se pode levar e construir através dos pedaços que juntamos nesses três anos de intensidades, trocas e vivências, é nosso grande trunfo na construção não de um projeto universitário ousado, como pensávamos lá no início, mas primordialmente, uma sociedade menos hierárquica, menos colonializada pelas estruturas eurocentradas e, sobretudo mais solidária e latinoamericanista, parte da nossa desconstrução e da prática diária da desconstrução colonial que nossos saberes eurocentrados nos perpetuam como corpos-máquinas que estruturam o sistema-escravocrata-colonial-encarcerador de corpos.  No nosso caso de também sermos professores, cabe a crítica a nossas formações eurocentradas dentro das salas de aula, e ainda em todos os espaços de pesquisa e debate sobre ciência, mas não a ciência científica, branca e colonial, e sim a ciência enquanto experiencialidade, enquanto potência de vidas e tradições, enquanto valorização não do que é ou pode ser mercado, mas do que é nosso, do que diz a nós e nossas ancestralidades, do que diz a nós e nossas formas de ser, governar, educar e todo tipo de estrutura eurocentrada que nos serve de forma de controle e cooptação para um subterfúgio onde sempre somos o inferior, sempre somos o outro.
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