Para além do capital e de sua lógicadestrutiva
 
Enquanto escrevia sua última obra, a Ontologia do ser social, Lukács anunciou que gostaria deretomar o projeto de Marx e escrever O capital dos nossos dias. Esse projeto significaria investigar o mundo contemporneo, a l!gica que o preside, os elementos novos de sua processualidade, objetivando com isso fa"er, no último quartel do s#culo $$, uma atuali"a%&o dos nexos categoriais presentes em O capital. Lukács c'egou a indicar seus lineamentos gerais, mas nunca p(de iniciar essa empreitada. )oi outro fil!sofo marxista, o 'úngaro *stván M#s"áros, grande colaborador de Lukács, que se se lan%ou a esse desafio monumental e certamente coletivo.+adicado na niversidade de -ussex, na *nglaterra, onde # rofessor Emeritus, M#s"áros já 'avia publicado obras de grande proje%&o intelectual, de que podemos destacar / teria marxista da aliena%&o 012345, )ilosofia, ideologia e ci6ncias sociais 012785 e O poder da ideologia 012725, entre vários outros livros, publicados em vários pa9ses do mundo.ara al#m do capital tornou:se, no entanto, o seu livro de maior envergadura e se configura como uma das mais agudas reflex;es cr9ticas sobre o capital em suas formas, engrenagens e mecanismos de funcionamento sociometab!lico, condensando mais de duas d#cadas de intenso trabal'o intelectual. M#s"áros empreende uma demolidora cr9tica do capital e reali"auma das mais instigantes, provocativas e densas reflex;es sobre a sociabilidade contempornea e a l!gica que a preside.<omo um dos eixos centrais de sua interpreta%&o particular do fen(meno, M#s"áros considera capital e capitalismo como fen(menos distintos. / identifica%&o conceitual entre ambos fe" com que todas as experi6ncias revolucionárias vivenciadas no s#culo passado, desde a +evolu%&o +ussa at# as tentativas mais recentes de constitui%&o societal socialista, se revelassem incapacitadas para superar o =sistema de sociometabolismo do capital>, isto #, o complexo caracteri"ado pela divis&o 'ieráquica do trabal'o, que subordina suas fun%;es vitaisao capital. O capital antecede ao capitalismo e # a ele tamb#m posterior. O capitalismo, por sua ve", # uma das formas poss9veis de reali"a%&o do capital, uma de suas variantes 'ist!ricas, como ocorre na fase caracteri"ada pela subsun%&o real do trabal'o ao capital. /ssim como existia capital antes da generali"a%&o do sistema produtor de mercadorias, do mesmo modo pode:se presenciar a continuidade do capital ap!s o capitalismo, pela constitui%&o daquilo que M#s"áros denomina como =sistema de capital p!s:capitalista>, que teve vig6ncia na +-- e demais pa9ses do Leste Europeu, durante várias d#cadas do s#culo $$.Estes pa9ses, embora tivessem uma configura%&o p!s:capitalista, foram incapa"es de romper com o sistema de sociometabolismo do capital.O capital #, portanto, um sistema poderoso e abrangente, tendo seu núcleo constitutivo formado pelo trip# capital, trabal'o e Estado, sendo que estas tr6s dimens;es fundamentais s&o materialmente constitu9das e inter:relacionadas, sendo imposs9vel supera:lo sem a elimina%&o do conjunto dos elementos que compreende esse sistema. -endo um sistema que n&o tem limites para a sua expans&o 0ao contrário dos modos de organi"a%&o societal anteriores, que buscavam em alguma medida o atendimento das necessidades sociais5, o sistema de sociometabolismo do capital torná:se no limite incontrolável. )racassaram, na busca de controlá:lo, tanto as inúmeras tentativas efetivadas pela social:democracia, quanto a alternativa de tipo sovi#tico, uma ve" que ambas acabaram seguindo o que M#s"áros denomina de lin'a de menor resist6ncia do capital.M#s"áros demonstra como essa l!gica incontrolável torna o sistema do capital essencialmentedestrutivo. Essa tend6ncia, que se acentuou no capitalismo contemporneo, leva o autor a
 
desenvolver a tese, central em sua análise, da taxa de utili"a%&o decrescente do valor de uso das coisas. O capital n&o trata valor de uso e valor de troca como separados, mas de um modoque subordina radicalmente o primeiro ao último. O que significa que uma mercadoria pode variar de um extremo a outro, isto #, desde ter seu valor de uso reali"ado, num extremo da escala, at# jamais ser usada, no outro extremo, sem por isso deixar de ter, para o capital, a sua utilidade expansionista e reprodutiva. E esta tend6ncia decrescente do valor de uso das mercadorias, ao redu"ir sua vida útil e desse modo agili"ar o ciclo reprodutivo, tem se constitu9do num dos principais mecanismos pelo qual o capital vem atingindo seu incomensurável crescimento ao longo da 'ist!ria.E quanto mais aumentam a competitividade e concorr6ncia intercapitais, mais nefastas s&o suas conseq?6ncias, das quais duas s&o particularmente graves@ a destrui%&o eAou precari"a%&o, sem paralelos em toda a era moderna, da for%a 'umana que trabal'a e a degrada%&o crescente do meio ambiente, na rela%&o metab!lica entre 'omem, tecnologia e nature"a, condu"ida pela l!gica societal subordinada aos parmetros do capital e do sistema produtor de mercadorias.Expansionista, destrutivo e, no limite, incontrolável, o capital assume cada ve" mais a forma de uma crise end6mica, cr(nica e permanente, com a irresolubilidade de sua crise estrutural fa"endo emergir, na sua lin'a de tend6ncia já vis9vel, o espectro da destrui%&o global da 'umanidade, sendo que a única forma de evitá:la # colocar em pauta a atualidade 'ist!rica da alternativa societal socialista. Os epis!dios ocorridos em 11 de setembro e seus desdobramentos s&o exemplares dessa tend6ncia destrutiva.Emerge aqui outro conjunto central de teses na obra de M#s"áros, com forte significado pol9tico@ a ruptura radical com o sistema de sociometabolismo do capital 0e n&o somente com o capitalismo5 #, por sua pr!pria nature"a, global e universal, sendo imposs9vel sua efetiva%&ono mbito da tese do socialismo num s! pa9s. /l#m disso, como a l!gica do capital estrutura seu sociometabolismo e seu sistema de controle no mbito extraparlamentar, qualquer tentativa de superar este sistema que se restrinja B esfera institucional está impossibilitada de derrotá:lo. -! um vasto movimento de massas radical e extraparlamentar pode ser capa" de destruir o sistema de dom9nio social do capital. <onseq?entemente, o processo de auto:emancipa%&o do trabal'o n&o pode restringir:se ao mbito da pol9tica. *sto porque o Estado moderno # entendido por M#s"áros como uma estrutura pol9tica compreensiva de mando do capital, um pr#:requisito para a convers&o do capital num sistema dotado de viabilidade para a sua reprodu%&o, expressando um momento constitutivo da pr!pria materialidade do capital.-olda:se, ent&o, um nexo fundamental@ o Estado moderno # inconceb9vel sem o capital, que #o seu real fundamento, e o capital, por sua ve", precisa do Estado como seu complemento necessário. / cr9tica B pol9tica e ao Estado desdobra:se em cr9tica aos sindicatos e aos partidos, colocando o grande desafio de forjar novas formas de atua%&o capa"es de articular intimamente as lutas sociais, eliminando a separa%&o entre a%&o econ(mica e a%&o pol9tico:parlamentar.ode:se discordar de muitas de suas teses, quer pelo seu caráter contundente, quer pela sua enorme amplitude, abrang6ncia e mesmo ambi%&o C que por certo gerar&o muita controv#rsia e pol6mica. Mas esse livro, já publicado em diversos pa9ses, #, neste in9cio de s#culo, o desen'o cr9tico e anal9tico mais ousado contra o capital e suas formas de controle social, nummomento em que aparecem vários sintomas de retomada de um pensamento vigoroso e radical. / s9ntese de M#s"áros, inspirada decisivamente em Marx, mas tributária tamb#m de Lukács e da radicalidade cr9tica de +osa Luxemburgo, resulta num trabal'o srcinal, indispensável, que devassa o passado recente e o nosso presente, oferecendo um manancial de ferramentas para aqueles que est&o ol'ando para o futuro. ara al#m do capital.
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Sobre o autor:
 
István Mészáros
 é um renomado filósofo húngaro que colaborou diretamente com Luckács junto à Universidade de Budaeste nos anos que antecederam à interven!"o soviética na #ungria$ em %&'() *osteriormente$ radicou+se na ,nglaterra$ junto à Universidade de -usse.$ onde aosentou+se recentemente) -ua rodu!"o é vasta e significativa$ tendo vários livros ublicados em diversas l/nguas e também em esanhol e em ortugu0s1
 Aspectos de la historia y la consciencia de clase
$ U234$ 4é.ico$ %&567
La teoria de la enajenación en Marx 
$ 8diciones 8ra$ 4é.ico$ %&597
Marx: A Teoria da Alienação,
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El pensamiento y la obra de Georg L!"cs
$ 8ditorial :ontanamara$ Barcelona$ %&9%7
 A necessidade do controle social 
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#rodção destrti$a e estado capitalista
$ ;adernos 8nsaio$ -"o *aulo$ %&9&7
 A obra de %artre: &sca da Liberdade
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'iloso(ia, ideologia e ci)ncia social 
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* poder da ideologia
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