Movimento & Percepção, Espírito Santo de Pinhal, SP, v.6, n.8, jan./jun. 2006 – ISSN 1679-8678
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ARTIGO  ________________________________________________________ Re- significando o esporte na educação física escolar: uma perspectiva crítica Ricardo Macedo Moreno
Pós-graduação em Ciências da Motricidade – Unesp
Afonso A. Machado
Professor adjunto da Unesp - Rio Claro
Resumo
O presente artigo visa analisar a Educação Física Escolar, mais precisamente o fenômeno esportivo sob uma perspectiva crítica, de modo a fornecer subsídios para olhares que se voltem a outras propostas educacionais e profissionais no âmbito da Educação Física Escolar. Trata de uma leitura minuciosa de clássicos da Educação Física Escolar contemporânea, sustentando uma práxis que culmine com a formação do cidadão.
Palavras-chave
: Educação Física Escolar; Esportes; Perspectiva Crítica
Introdução
O esporte, em suas diferentes facetas, tem sido um tema que sempre cria certa polêmica. Idéias divergentes surgem para tentar explicar e melhor entender o fenômeno, algumas considerações são questionáveis outras parecem ser unânimes em seus ideais. Vantagens e desvantagens são postas na balança com a intenção de avaliar se a prática do esporte é positiva ou não. Considerando o esporte como uma atividade presente em diferentes setores da sociedade e que pode atingir diversas porções desta como o
 
 
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comércio, a família, o bairro, a escola, dentre outras, vamos restringir nosso campo de estudo e discussão especificamente para o ambiente escolar, inserido num contexto global de sociedade e não isolado das interferências que pode sofrer. O esporte é muitas vezes confundido com a Educação Física, porém o esporte pertence à Educação Física que é a disciplina aonde ele é tratado. No campo da Educação Física Escolar o esporte tem sido ou foi o centro de debates por que: por muito tempo foi o conteúdo hegemônico das aulas; por se tornar a expressão dominante da cultura corporal de movimento no mundo moderno; pela sua alegada contribuição para a educação e a saúde que era uma das bases de legitimação da área; porque a escola era vista como uma via de contribuição para o desenvolvimento das “bases” e porque surgiram dúvidas quanto ao valor educativo do esporte (BRACHT, 2000). Muitos trabalhos estão sendo publicados nessa temática, alguns com o intuito de desfazer alguns enganos de interpretações, outros para sugerir modificações na prática, o campo ainda não está definido, o que nos é claro é que o esporte não é trabalhado com segurança pelos profissionais, que muitas vezes recorrem de suas experiências passadas como aluno para agora como professor dirigir a prática, assim a discussão a seguir pretende contextualizar o esporte dentro da prática educacional da Educação Física. Baseado no que foi exposto o objetivo desse trabalho é o de refletir sobre o esporte dentro da escola, mostrar que ele é apenas um recurso didático eficiente para os professores de Educação Física, sugerir uma possível forma de se trabalhar com um novo esporte e esclarecer o papel interventor do professor nessa tarefa.
Revisão de Literatura O Esporte
O esporte é um fenômeno sócio-político-cultural, que não pode deixar de ser um forte meio de propagação e manutenção ideológicas, um dos mais significativos “veículos” (entre outros fenômenos utilizados pelo Estado),
 
 
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massificado e direcionado pela mídia e decorrentemente pelo senso comum;  “ademais, não por causalidade todas as estruturas hierarquizadas (igreja, forças armadas, burocracia) promovem o esporte com tanto desvelo.” (LAGUILLAUMIE, apud PINTO 1989). É como dito um elemento cultural presente na sociedade, considerado até como um patrimônio da humanidade. Na maioria das vezes o esporte reflete as situações pelas quais a sociedade passa e até a percepção que o povo tem de si mesmo (SANTOS, 2003). Falando desse evento, uma boa definição (porém não unânime) de esporte se faz necessária, a dada pelo CONSELHO FEDERAL DE EDUCAÇÃO FÍSICA (2002) parece caracterizar bem o mesmo, segundo o qual o esporte é:  “a atividade competitiva, institucionalizado, realizado conforme técnicas, habilidades e objetivos definidos pelas modalidades desportivas, determinado por regras pré-estabelecidas que lhe dá forma, significado e identidade, podendo também ser praticado com liberdade e finalidade lúdica estabelecida por seus praticantes, realizado em ambiente diferenciado, inclusive na natureza (jogos da natureza, radicais, orientação e outros).” (p.26). Cabe salientar que a definição acima não caracteriza o esporte escolar e sim o institucionalizado culturalmente, o escolar (que é alvo dos nossos estudos) exige princípios mais formadores, norteados por ideais sócio-educativos. Hargreaves (apud PINTO, 1989) frisa que o esporte não deve ser avaliado como um fenômeno homogêneo (quanto aos objetivos dos praticantes e aos diferentes tipos de esporte) e maniqueísta (em suas qualidades e nos níveis de consciência dos seus adeptos). Dunning (apud PINTO, 1989) destaca que as características atribuídas ao esporte (estruturas, funções, significados, e categorias) podem diferir dentro de uma sociedade, entre distintos grupos e também entre distintas sociedades.
 
 
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 Os vários tipos de esporte podem transitar do nível de iniciação à especialização e do lazer ao rendimento. Deste modo, percebe-se que o esporte não pode ser encarado como unidade.
Visão crítica do esporte escolar
O esporte na escola, segundo Paes (apud SANTOS, 2003), pode ser importante por várias razões: ser um dos conteúdos da educação física, de ser a escola uma agência de promoção e difusão da cultura e até mesmo por uma questão de justiça social, uma vez que em outras agências o acesso ao esporte será restrito a um número reduzido de crianças e de jovens clientes de academias e/ou de escolas de esportes. Por muito tempo o esporte foi considerado como a “panacéia” para todos os males. No discurso o esporte era sinônimo de saúde, o esporte sociabilizava crianças e jovens, o esporte ensinava valores morais e sociais, o esporte era a esperança de uma vida melhor, entre outras vantagens que lhe era alegado. Na década de 80 com o surgimento das teorias críticas o quadro se altera. No ambiente escolar o esporte pode seguir diferentes abordagens, se organizar de diversas maneiras e ainda buscar diferentes objetivos com a prática. A influência do esporte no sistema escolar é de tal magnitude que temos, então, não o Esporte da escola, mas sim o esporte na escola. Isso indica a subordinação da educação física aos códigos/sentido da instituição esportiva, caracterizando-se o esporte na escola como um prolongamento da instituição esportiva. O esporte determina, dessa forma, o conteúdo de ensino da Educação Física, estabelecendo também novas relações entre professor e aluno, que passam da relação professor-instrutor e aluno-recruta para a de professor-treinador e aluno-atleta (COLETIVO DE AUTORES, apud CAPARROZ, 1997).
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