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7b - Texto 1 - O Papel Feio Da Midia Na Ditadura de 1964

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  370 O papel feio da mídia na ditadura de 1964 Rio 40 graus. O mundo inteiro sabe que o verão carioca é tórrido. Por isso, o leitor mais atento da primeira página do  Jornal do Brasil (JB) daquele sábado, 14 de dezembro de 1968, estranhou o quadro da previ-naqueles tempos tão estranho  A previsão do tempo: a única informação que escapou ao censor na primeira página do JB retalhada no dia 1 do AI-5  No canto superior direito, outra informação inusitada: “Ontem foi o Dia dos Cegos”. A explicação para tal cegueira estava abaixo, na manchete sobre o fato do dia: “Governo baixa Ato Institucional e co-loca Congresso em recesso por tempo ilimitado”. Acontecera na véspera o golpe dentro do golpe de 1964, com a edição do Ato Institucional n.5 – AI-5, que escancarou a ditadura no Brasil. O locutor Alberto Curi, sentado ao lado do ministro da Justiça, Gama e Silva, no Palácio das Laranjeiras, no Rio de Janeiro, leu o texto do ato em cadeia nacional de e quatro capitães – invadiram a redação do  JB para censurar o noticiário. Diante da ocupação, o editor-chefe Alberto Dines trabalhou com o chefe de redação Carlos Le-mos para encontrar maneiras de driblar o controle militar. O editorial censurado da página 10 foi substi-tuído por uma foto vertical de arquivo em que um enorme campeão mundial de judô, em uma brincadeira censor. Mas Dines queria mais, para contornar o bloqueio da primeira página. Chamou o copidesque * Jornalista, autor do capítulo, aqui resumido, de  A Ditadura de Segurança Nacional no Rio Grande do Sul (1964-1985): História e Memória , obra com 4 volumes, 40 autores, co-edição Escola do Legislativo Deputado Romildo Bolzan e Departamento de História da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), Porto Alegre, 2010; título srcinal, Máximas e mínimas: os ventos errantes da mídia na tormenta de 1964 .  Unidade III Direito à verdade, à memória e à reparação 371 Roberto Quintaes e pediu-lhe que recriasse a previsão do tempo com dois números cabalísticos: o 38, número do Ato Complementar que fechou o Congresso, e o 5, marca do ato que enterrou a liberdade. E assim nasceu, para a história do jornalismo brasileiro, a curiosa previsão de tempos em que o Brasil daquele verão esquisito oscilava dos 38º em Brasília para os 5º das Laranjeiras, sede do palácio carioca  já tinha sido censurado e a nota cifrada escapou da revisão dos militares para ganhar um espaço eterno na memória da luta contra a ditadura (DINES, 2008). A meteorologia política do País piorou muito. O AI-5 durou 10 anos e, do olho do furacão autoritário, ventaram mais 12 atos institucionais, 59 atos complementares e oito emendas constitucionais. “Salvamos a democracia”, entoou o general Arthur da Costa e Silva, falando ao País em cadeia no  réveillon  de 1968. Duas semanas depois, em 13 de janeiro de 1969, o coronel João Baptista Figueiredo, um futuro presidente, foi mais sincero e preciso quando – escrevendo ao capitão Heitor Ferreira, secretário dos generais Ernesto Geisel e Golbery do Couto e Silva no Planalto anos mais tarde – antecipou o julgamento da História: “Os erros da Revolução [ de 64 ] foram se acumulando e agora só restou ao governo partir para a ignorância” 1 .outubro de 1969, quando reabriu para carimbar a escolha pelas Forças Armadas do general Emílio Gar-rastazú Médici como sucessor de Costa e Silva, vítima de um derrame. Cassou para isso mais de três centenas de mandatos — 111 deputados federais, cinco senadores, 162 deputados estaduais, 22 prefei-tos, 23 vereadores. Antes de completar um mês, o AI-5 decapitou três ministros do Supremo – Hermes Lima, Vítor Nunes Leal e Evandro Lins e Silva – e aposentou até um dos conspiradores de 64, o general Pery Constant Bevilacqua, ministro do Superior Tribunal Militar. “Dava habeas-corpus uma fonte do Planalto. Expulsaram 66 professores das universidades, entre eles Caio Prado Jr., Flores-tan Fernandes e Fernando Henrique Cardoso. O caso do  JB  é apenas um exemplo de dignidade da imprensa brasileira reagindo à violência da ditadura, exacerbada com o AI-5. Mas, o passado condena o feio papel da grande mídia brasileira, que escolheu o lado errado na conspiração que levou ao golpe de 1964 e deu sustentação à ditadura. Na conspiração e na ditadura, está a digital da mídia que ajudou, por atos, fatos e versões, na criação do cli-ma político que aguçou posições e lançou o País em um abismo autoritário de vinte e um anos. A revisão da imprensa, desde a radicalização do AI-5, que a fez engolir versos, receitas de bolo e muita censura, não apaga seu pecado srcinal e seu envolvimento no golpe militar.O evento de 1964 não foi uma simples quartelada, nem um gesto improvisado de um general impulsivo que, de repente, botou os tanques nas ruas de Juiz de Fora, na madrugada de 31 de março. A história do golpe remonta ao fracasso do golpe anterior, o de 1961, quando os ministros militares tentaram vetar a posse do vice-presidente João Goulart, alçado ao poder pela renúncia de Jânio Quadros. A reação que, sem o apoio da opinião pública e da imprensa, um golpe não passaria. Três anos antes de os tanques rugirem em Minas, os militares começaram a tramar com os recursos dos empresários o golpe que os levaria ao poder por duas décadas. E a grande imprensa estava lá, na trincheira da conspiração. Em novembro de 1961, três meses após a renúncia de Jânio, nasceu no Rio o IPES – Instituto de Pesquisas e Estudos Sociais. Reunia a nata do empresariado nacional e multinacional, com todos os nomes, sobrenomes e siglas que, ainda hoje, enfeitam as listas das maiores empresas do País. Acaba-ram recrutando militares da reserva, um deles o general Golbery. 1  Portal Folha de S. Paulo  – Especial 40 anos do AI-5 . Site  produzido pelos integrantes da 46ª turma do Programa de Treinamento em Jornalismo Diário da Folha. Dezembro, 2008.  Série O Direito Achado na Rua, vol. 7  – Introdução Crítica à Justiça de Transição na América Latina 372 Na sua face oculta, sob siglas e codinomes, o IPES concentrava a execução metódica de um pensado plano da burguesia nacional para combater, de forma clandestina, os seus três principais ini-migos: o Governo Jango, a aliança nacionalista do PTB – Partido Trabalhista Brasileiro e o comunismo, que, aparentemente, resumia tudo aquilo. O braço político ostensivo do IPES era o IBAD – Instituto Bra-sileiro de Ação Democrática, com ligações com o MAC – Movimento Anticomunista, e com a organização da direita católica Opus Dei.  O braço parlamentar cabia à ADP – Ação Democrática Popular, um núcleo conservador de 160 parlamentares da centro-direita no Congresso Nacional reunido em torno da UDN – União Democrática Nacional, PSD – Partido Social Democrático e PSP – Partido Social Progressista. Fazia contraponto à Frente Parlamentar Nacional, que orbitava no universo do PTB e dos aliados da Es-querda. A ação política da ADP era patrocinada pela estação no Rio da CIA – Central Intelligence Agency  , Armand Dreifuss em seu livro 1964: A conquista do Estado. Ação política, poder e golpe de classe (1981) (DREIFUSS, 1981, p. 103). A articulação dos empresários com os militares era feita pelo GLC – Grupo de Levantamento da Conjuntura do IPES, comandado pelo general Golbery, que agitava o I e o III Exércitos, no Rio e em Porto limitada de 12 exemplares, que não eram registrados nas atas do IPES. A equipe de Golbery distribuía nos quartéis uma circular bimestral mimeografada, sem citação da fonte, avaliando a atividade “comunis-Rio de Janeiro, o GLC de Golbery tinha três mil telefones grampeados (DREIFUSS, 1981, p. 188). O GLC escrutinava a produção diária da imprensa do País, um total de 14 mil edições no ano, e produzia mensalmente cerca de 500 artigos, disseminados pelos jornais ou divulgados em forma de palestras. O GAP – Grupo de Atuação Parlamentar do IPES proibia qualquer menção à sigla, que era aparecia publicamente era o IBAD. O plano era simples e mortal: o IPES, por meio do IBAD e da ADP, emparedava Jango no Congresso, criando um beco sem saída parlamentar e um ponto morto do Exe-cutivo. A inércia legislativa levaria ao clamor popular pelo poder “moderador” das Forças Armadas, única instituição capaz de tirar o país daquele atoleiro fabricado pela paralisia armada no Parlamento. Nesse trabalho, era fundamental manipular a expressão da sociedade. O objetivo central do GOP -Grupo de Opinião Pública do IPES era disseminar seus objetivos nas imprensas falada e escrita. Dissimulado, o grupo evitava o nome “opinião pública”, preferindo as expressões “divulgação” e “promo-IPES. José Luís Moreira de Souza, dono da Denison Propaganda, dizia que “conquistar a opinião pública” era a essência da ação política do grupo. O principal articulador do GOP era o ex-comissário de polícia José Rubem Fonseca, o festejado autor de Feliz Ano Novo e  A grande arte , que, nas décadas seguintes, tornou-se o maior contista vivo do Brasil, ganhador em 2003 do Prêmio Camões, uma espécie de Nobel para escritores da língua portuguesa. Outros destaques do GOP no Rio eram os jornalistas Glauco Carneiro e Wilson Figueiredo, este do corpo editorial do  Jornal do Brasil  . Em São Paulo, o GOP atuava com Geraldo Alonso, dono da Norton Propaganda, e nomes ilustres de O Estado de S. Paulo, como   Ênio Pesce e Flávio Galvão. Contava, ainda, com Jorge Sampaio e Alves de Castro, os dois nomes centrais do Repórter Esso  da TV Tupi, o equivalente ao  Jornal Nacional   de hoje, patrocinado pela Esso do Brasil, membro importante do IPES. Em tempos sem e-mail ou  twitter  , o GOP valia-se da tecnologia da época: enviava milhares de cartas e telegramas e fazia chamadas telefônicas, antecipando em décadas o advento do infame tele-marketing . Em novembro de 1962, chegava a três mil nomes a lista de organizações de rádio e TV mo-bilizadas pelo GOP. Aliado a ele, funcionava o GPE – Grupo de Publicações/Editorial, que disseminava material impresso pelo País. Essa campanha de guerra psicológica incluía intelectuais respeitados, como  Unidade III Direito à verdade, à memória e à reparação 373 Augusto Frederico Schmidt, Odylo Costa Filho e Rachel de Queiroz, prima do general Humberto Castelo Branco, líder do golpe que derrubou Jango. Os propagandistas do GOP atuavam em três frentes: artigos -paravam a democracia com a empresa privada. Em comum, eram todos anticomunistas, antitrabalhistas e antipopulistas. Nomes fortes do mercado editorial, como Saraiva, Cia. Editora Nacional e GRD Editora, atuavam na edição da chamada “literatura democrática”. Uma CPI – Comissão Parlamentar de Inquérito da Câmara, que tinha o deputado Rubens Paiva como vice-presidente, investigou a ligação do IPES com o IBAD e apurou que, nas eleições gerais de ou-tubro de 1962, a ADP do complexo IPES/IBAD injetou algo entre cinco bilhões e 20 bilhões de cruzeiros candidatos. Foram eleitos 110. Empresas poderosas ligadas ao IPES adubavam o golpe, distribuindo passagens aéreas gratui-tas da Cruzeiro do Sul, VARIG e Panair, que davam asas para a conspiração voar alto e longe. O IPES suecas, alemãs. A Fundação Konrad Adenauer, órgão do Partido Democrata Cristão alemão, canalizava recursos pelo sólido complexo siderúrgico Mannesmann e pela gigante Mercedes Benz. O general Gol-bery encarregou-se pessoalmente do contato com o presidente da Mercedes. Na véspera da eleição de 1962, a agência Promotion, do integralista Ivan Hasslocher, líder do IBAD, arrendou o jornal carioca  A Noite  por 90 dias, ao custo mensal de 2 milhões de cruzeiros (cerca de R$ 178 mil em valores atuais) para propaganda direta. A revista Repórter Sindical   também era operada  Ação Democrática, circulava mensalmente com 250 mil exempla-res e com textos como os do economista Eugênio Gudin e do líder udenista Aliomar Baleeiro. Era gratuita prestígio, organizados pelo Centro Democrático de Engenheiros, ligado ao IPES, foi publicado no  Jornal do Brasil e em O Estado de S.Paulo. Manifestos variados, todos “democráticos”, proliferavam na impren-sa e eram retransmitidos pela dupla IPES/IBAD. Eles utilizavam uma agência de notícias, a Planalto, que redistribuía o material a 800 emissoras de rádio e jornais do País. Tudo gratuito, tudo pela pátria, tudo pela democracia. Um milhão de cópias da Cartilha para o Progresso , feita pelo IPES, exaltando os benefícios da Aliança para o Progresso do Governo Kennedy, foi encartada como suplemento da Fatos & Fotos , revista de grande circulação da Editora Bloch. Em janeiro de 1963, na Faculdade de Direito de São Paulo, 22 mil pessoas reuniram-se durante uma semana para o I Congresso Brasileiro para Reformas de Base, uma resposta da elite econômica ao que se discutia no Governo Jango. Dali, nasceram 80 propostas de Correio da Manhã  e Folha de S.Paulo ,  Jornal do Brasil. Em um país de elevado analfabetismo, os golpistas perceberam a importância do rádio e da nascente televisão. O IPES gastou 10 milhões de cruzeiros (quase R$ 900 mil, hoje) para produzir 15 pro-gramas de TV para três canais diferentes. Em 1962, o IBAD operava diariamente mais de 300 programas de rádio no horário nobre das principais cidades do País. A rede de mais de 100 estações ligadas a ele formava a “Cadeia da Democracia”, sob o comando do senador João Calmon, dos Diários Associados , que tinha o cuidado de ir ao ar no mesmo horário das transmissões do líder trabalhista Leonel Brizola, que os derrotara um ano antes com a “Cadeia da Legalidade”.
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