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A viagem de Luiz de Castro Faria ao Vale do Paraíba Fluminense (1939): uma pequena pesquisa etnográfica no Brasil no fim da década de PDF

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A viagem de Luiz de Castro Faria ao Vale do Paraíba Fluminense (1939): uma pequena pesquisa etnográfica no Brasil no fim da década de 1930 Lucimeire da Silva Oliveira 1 Alfredo Bronzato da Costa Cruz 2
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A viagem de Luiz de Castro Faria ao Vale do Paraíba Fluminense (1939): uma pequena pesquisa etnográfica no Brasil no fim da década de 1930 Lucimeire da Silva Oliveira 1 Alfredo Bronzato da Costa Cruz 2 O presente trabalho analisa o diário de viagem produzido pelo antropólogo Luiz de Castro Faria ( ) na expedição feita à região do Vale do Paraíba Fluminense entre os dias 28/11 a 3/12 de Nessa pequena viagem Castro Faria faz registros importantes, fotografando e descrevendo as características das cidades visitadas. No intento de discernir quais as principais observações etnográficas realizadas, propõe-se fazer a leitura deste caderno de viagem como fonte documental para a história da antropologia no Brasil. 3 No período da referida expedição, Castro Faria trabalhava como naturalista no Museu Nacional, na condição de praticante gratuito 4. Considerado uma das principais figuras da constituição do campo da antropologia no Brasil do século XX, deu início à sua carreira, alguns anos antes, em 1936, na Divisão de Antropologia e Etnografia. Já em 1938, Castro Faria foi indicado por Heloisa Alberto Torres, então diretora do Museu Nacional, para representar o Museu Nacional e o Conselho de Fiscalização das Expedições Artísticas e Científicas, na expedição à Serra do Norte, Mato Grosso, chefiada por Claude Lévi-Strauss. Tal expedição foi o batismo de fogo da sua formação de antropólogo, como ele declarou em entrevista, em 1997 (DOMINGUES, 2001:19). Esta empreitada representou um primeiro contato direto com a etnografia inspirada em Rondônia de Edgard Roquete Pinto (GARCIA & SORÁ, 2001:25; DOMINGUES, 2001:18). Desde então, Castro Faria intensificou suas pesquisas de campo, concentrando seus trabalhos nos campos da antropologia social e da arqueologia (ALMEIDA, 2006:102). 1 Mestre em História Social pelo PPGHIS/UFRJ. Bolsista de Programa de Capacitação Institucional (PCI - CNPq) do Museu de Astronomia e Ciências Afins - MAST 2 Mestre em História pelo PPGH/UNIRIO. Bolsista de Programa de Capacitação Institucional (PCI - CNPq) do Museu de Astronomia e Ciências Afins- MAST ( ) 3 O presente artigo foi produzido no âmbito das atividades do projeto História da antropologia no acervo Luiz de Castro Faria, do CNPq, do Museu de Astronomia e Ciências Afins (MAST/MCTI), sob a coordenação da Profa. Heloisa Maria Bertol Domingues. 4 O equivalente ao que conhecemos atualmente como estagiário sem remuneração. Entre o final das décadas de 1930 e 1960, Castro Faria realizou trabalhos de campo em vários pontos do país, priorizando o litoral. 5 Para ele, a pesquisa de campo era o meio de conhecer como se forma e se desenvolve o patrimônio cultural de um povo (CASTRO FARIA, 1999: 299). De acordo com Domingues, ele fez antropologia ecológica tanto quanto econômica, criando um estilo científico (DOMINGUES, 2008:39). Nesse período, com suas pesquisas de campo, estava empenhado em compreender a organização social nas relações do homem com o meio natural circundante, o que o levava observar as relações de trabalho, o comércio e as indústrias locais, os métodos e os materiais do artesanato, as vias e meio de transporte e as formas de expressão cultural, de uma forma mais geral. É nesse quadro amplo de interesses que se inseriu o trabalho que se trata aqui, realizado na viagem ao Vale do Paraíba Fluminense em Em contraste a Expedição à Serra do Norte, chamada de a última grande expedição etnográfica do século XX 6, a viagem ao Vale do Paraíba Fluminense pode ser considerada como sendo a primeira pequena expedição de Castro Faria, posto que se configura na primeira expedição de rotina do antropólogo rumo à sua maturidade profissional, e é marcada por pequena duração. Tal incursão durou apenas seis dias, nas quais foram visitadas apenas quatro cidades: Paraíba do Sul, Barra do Piraí, Barra Mansa e Resende; posto que viagem teve que ser abortada antes do previsto devido a uma doença que acometeu seu acompanhante. Como é bem conhecido, a região do Vale do Paraíba Fluminense passou por um período de vigorosa prosperidade no século XIX. O cultivo do café foi então, sem dúvida, fator de progresso econômico da região, que cresceu e diversificou as funções dos seus centros urbanos, desenvolvendo uma cultura própria (MULLER, 1969: 55-67). O Vale do Paraíba possuía condições favoráveis de solo, clima e topografia, além de uma imensa bacia hidrográfica, com km² de área 7, que beneficiou a criação de um sistema social, econômico e financeiro que ficou conhecido historicamente como Ciclo Econômico do Café. 5 A cronologia completa do trabalho de Castro Faria pode ser consultada no website do MAST, no portal: (consultado em maio de 2014). 6 Assim chamada por suas caracteristicas de longa duração, pela abrangência de várias áreas das ciências naturais, pelo objetivo de fazer coleções de objetos locais, pelo registro em imagens fotográficas, como no século XIX, se faziam desenhos (DOMINGUES, 2001:17). 7 Sendo 39,6 % em terras fluminenses, 36,7% em terras mineiras e 23,7% em terras paulistas (LAMEGO, 1950: 316). Foi nesse sentido, produzindo café, que o Vale do Paraíba se tornou uma das áreas socioeconômicas mais importantes do Brasil durante praticamente todo século XIX. Para termos uma ideia, já em 1852, somente a parte fluminense do Vale produziu 7 milhões e 193 mil arrobas (15 kg cada), respondendo por 77% das exportações brasileiras, chegando a 81% das exportações brasileiras em 1860 (LIMA, 2008: 20). No período imediatamente anterior à Grande Guerra de , o café do Vale do Paraíba cobria aproximadamente 70% das exportações deste produto para o mercado mundial (DONGHI, 1978: 253). Contudo, já no final do século XIX, o Vale do Paraíba tanto a sua parte fluminense quanto paulista começou a perder sua hegemonia para a região oeste de São Paulo. 8 Apesar de algumas regiões do Vale do Paraíba ainda possuírem volume considerável de produção cafeeira no final da década de 1920, como Itaperuna, Guaratinguetá, Lorena e São José dos Campos, é notório a derrocada do Vale no período imediatamente posterior a 1918 (RICCI, 2006: 27). Tal declínio deu-se por inúmeros motivos, dentre os quais o fim escravidão, que prejudicou os fazendeiros que não haviam adotado a mão de obra imigrante e, sobretudo, a utilização de técnicas inadequadas de plantio; além de uma série de pragas como a ferrugem que atacava os cafezais desde meados do século XIX (DOMINGUES, 2005:224; PÁDUA, 2002:250). De acordo com Stanley Stein, o conservadorismo de alguns fazendeiros que insistiam em usar técnicas rudimentares de cultivo condenou não só a Mata Atlântica, mas a economia baseada na exportação do café (STEIN, 1984: 189). A chegada da ferrovia ao Vale do Paraíba Fluminense nos anos de , ferrovia que intentava ligar a cidade do Rio de Janeiro, então capital do Império e principal porto do país, com o interior do território paulista, fez-se no momento em que se começava a anunciar no horizonte a virada histórica que determinaria a decadência da economia do café nesta região. Em curto prazo ela incrementou ao invés de comprimir o poder político da aristocracia cafeicultura, porque, como observou Raimundo Lopes, a estrada de ferro levava rapidamente da fazenda à capital imperial, pouco mais adiante republicana; em evidente contraste com o homem público nortista, [que] quando deixa de ser um fazendeiro e político municipal, ou um letrado e político estadual, é quase sempre levado a fixar-se na metrópole da federação, por força das circunstâncias geopolíticas (LOPES, 2007: 223). Também impulsionou o desenvolvimento no 8 Tal região corresponderia atualmente ao noroeste do Estado de São Paulo, o nordeste e a área central do mesmo. Vale de novas atividades econômicas, voltadas para a própria estrada de ferro. Dessa maneira, alterou-se progressivamente a dinâmica das cidades da região do Vale do Paraíba Fluminense, passando a ferrovia a ser o ponto de referência para seu desenvolvimento, contribuindo para o aparecimento de uma economia de cunho cada vez mais industrial. Com as modificações trazidas ao cenário pelas mudanças socioeconômicas das três primeiras décadas do século XX, essa tendência só faria tornar-se mais e mais pronunciada (RICC1, 2006: 33). Foi no interior deste quadro de transformações no Vale do Paraíba Fluminense que Castro Faria interessou-se pela área e decidiu fazer ali a primeira expedição independente de sua carreira, após o batismo profissional da viagem à Serra do Norte. As mudanças econômicas provocadas pelo fim do ciclo cafeeiro e pela irrupção da estrada de ferro na paisagem local redundaram em transformações mudanças sociais profundas, a serem observadas pelo antropólogo. A viagem começou, no dia 24 de novembro de 1939 quando Castro Faria recebeu a notícia de Dr. Lewis de que podiam de viajar no começo da semana seguinte para o Vale. 9 Após conseguir autorização de Heloisa Alberto Torres para dar início à viagem, Castro Faria entrou em contato com Cristóvão Leite de Castro, que na época era secretário Geral do Instituto Brasileiro de Geografia, para obter informações prévias sobre a região. 10 Após essa visita, decidiu conhecer vinte de dois municípios do Vale do Paraíba, compreendidos entre Paraíba do Sul e Jacareí. 11 Terminados os preparativos, Castro Faria e Dr, Lewis partiram de trem da Central do Brasil, no dia 28 de novembro pela manhã. Os primeiros registros feitos por Castro Faria em seu diário de campo foram realizados do interior do trem, característica que acompanha todo o relato do antropólogo, mostrando a importância que tinha então a ferrovia para a região do Vale do Paraíba Fluminense. Todavia, o primeiro registro efetivamente feito em campo pelo antropólogo é sobre o subúrbio do Rio de Janeiro. Da janela de seu vagão de passageiros, o antropólogo observa a importância dos campos de futebol para a comunidade local: 9 Até o presente momento, nossas pesquisas não puderam avançar no sentido de conseguir referência sobre o Dr. Lewis. 10 Engenheiro, geógrafo e professor, Cristóvão Leite de Castro foi secretário Geral do Conselho Nacional de Geografia de 1937 a Coube a ele implementar em 1972 o novo sistema Teleférico do Pão de Açúcar, cujo projeto idealizou e supervisionou. Leite de Castro é considerado um dos responsáveis pelo desenvolvimento da atividade de pesquisa geográfica no Brasil no início do século XX. 11 A saber: Paraíba do Sul, Vassouras, Valença, Barra do Piraí, Barra Mansa, Bananal, Rezende, Pinheiros, Areias, Silveiras, Queluz, Cruzeiro, Cachoeira, Lorena, Guaratinguetá, Aparecida, Pindamonhangaba, Tremembé, Taubaté, Caçapava, São José dos Campos e Jacareí (CASTRO FARIA, 1939, pp. 1-2). O trem vai de uma estação a outra e o que se vê é uma casa de sopapo isolada no meio do campo, uma aqui, outra acolá. Mas onde há um punhado delas, há um campo de futebol. É um elemento indefectível da paisagem rural brasileira. Muitas vezes, antes que se visse a povoação, surge aquele testemunho incontestável da aglomeração humana o clube de futebol. Não apenas de simples aglomeração, natural e uniforme, mas de um agregado definido em facção, qualificado em partido, individualizado por um distintivo, uma bandeira, uma cor. (...) É um clube. E não digam que é pequena a sua significação social (CASTRO FARIA, 1939, p. 4. Grifo no original). Diante da constatação da importância deste espaço, importância prática, como lugar de encontro, mas também simbólica, coteja-o com outras formas de sociabilidade características das cidades interioranas do Brasil da década de Observa que Criador de rivalidades [o campo de futebol], o é também de estímulos. Aliados às bandas, às enterpes, às campesinas, às lutas de Apolo, têm sido os animadores da sociabilidade... A vitalidade desses agrupamentos [humanos] poderia ser aferida, pelo vistoso dos seus emblemas esportivos, e pelo número e excelência dos seus instrumentos musicais. O campo de futebol, com as suas balizas, o seu mastro, a sua arquibancada coberta de sapê, os jogadores com as suas chuteiras e as suas camisas com as cores do clube; o coreto, sempre de boa construção, o esmero no fundamento dos componentes da garbosa, tais os padrões de julgamento. Nas partidas de futebol, e nos desafios das bandas, empenham-se os brios das facções. Que é certo, todavia, é que nunca foram impulsionadas por uma força desintegralizadora, por que nunca deram também origem a dissidências mais profundas (CASTRO FARIA, 1939, pp. 4-5). Após algumas horas de viagem, Castro Faria e Dr. Lewis chegaram ao seu primeiro destino, a cidade de Paraíba do Sul. Aí Castro Faria observou como este aglomerado urbano deu às costas ao Rio Paraíba do Sul, rendendo-se às promessas da estrada de ferro. De fato, naquele momento, a importância da ferrovia para aquele ponto do Vale era inequívoco. Principalmente para o escoamento da produção de leite, que chegava a litros (CASTRO FARIA, 1939:9-11). Segundo Stanley Stein, após a decadência do café, algumas cidades do Vale do Paraíba sofreram o que veio a se chamar de Segunda Invasão Mineira, na qual os mineiros compraram terras das fazendas de café falidas a preços baixos para produzir leite e carne. Esse quadro mostrado por Stein é bem nítido no relato de Castro Faria, que descreveu a forte presença dessas culturas também nas outras cidades visitadas em seguida, Barra do Piraí e Barra Mansa. De acordo com o antropólogo, o predomínio da pecuária era consequência direta do abandono da agricultura e um sinal claro do crescimento da industrialização na região. Em Barra Mansa, por exemplo, a Indústria Barbará empregava então setecentos operários, setecentos homens que deixaram o campo, a lavoura o pastoreio ; com a diminuição da agricultura, que exigindo maior número de cuidados, exige também maior número de braços, o fazendeiro passa então a dedicar-se única e exclusivamente à criação. Este era, contudo, negócio de risco, relativamente instável: da venda do leite consegue o suficiente para importar tudo o mais, e ainda lhe sobra para amealhar. É o quanto basta. Mas se sobrevém a seca, e a produção do leite diminui, ou ao contrário, a super produção provoca uma queda de valor, então ele se atira numa agricultura de emergência, que o tire do embaraço. A lição, porém, quase nunca lhe fica (CASTRO FARIA, 1939, p. 19). Castro Faria também se atém em considerar a diferença relativa da importância da estrada de ferro para os municípios da região. Em Paraíba do Sul e Barra do Piraí, ela ditava soberana o ritmo da vida coletiva e individual, dando-lhes um caráter de cidade estação. Resende, por outra parte, era diferente das demais cidades visitadas, distanciando-se da ferrovia e, galgando as colinas do outro lado do Paraíba, parecia viver um tanto indiferente ao movimento dos trens, conversando um certo ar antigo e nobre, uma dignidade de matrona impoluta que abomina inovações. Neste aglomerado urbano que não cheira a carvão, nem responde aos silvos da locomotiva, na sua resoluta promessa de promessa havia uma aura de dignidade aristocrática e de decadência que Castro Faria registrou com fineza: velhos sobradões, pesados e sólidos, falam do passado, das tradições, arrimados na experiência de decênios. Mas a ruína anda à espreita ou é modernismo ou é abandono se quer convencer os levianos, ou vencer os convictos. A destruição pode ser ignóbil; a ruína nunca será mesquinha (CASTRO FARIA, 1939: 23-24). 12 Tais temas de interesse de Castro Faria evidenciam a preocupação do antropólogo com as formas nas quais se expressavam e se estruturavam a vida social, as relações de produção e de 12 Exercício interessante é comparar esta descrição da ruína digna de Resende com a descrição que Castro Faria fez da ruína ignóbil de Corumbá. No dia 28 de abril de 1938, o jovem viajante percorreu essa cidade e trouxe consigo de volta ao velho prédio mal asseado no qual estava instalado uma impressão de profunda tristeza. Ruas inteiramente desertas, velhas portas cerradas, nenhum sinal de vida. Parece que aqui ninguém ama o conforto; as casas vão caindo aos pedaços, até ruírem totalmente, mas jamais as consertam. Quando se tornam imprestáveis, mudam-se para outras. (...) Corumbá vai morrendo aos poucos, resignadamente. Como quem cumpre uma predestinação (CASTRO FARIA, 2001: 41). Feito este cotejo, temos, de um lado, o tipo do aristocrata que tomba em combate, preservando as tradições e mantendo a honra; do outro, o do miserável que enlouquece e morre de fome, frio e pura miséria. trabalho, os meios de transporte, as formas de habitação e as intervenções na paisagem de um Brasil que estava se modificando. Seu interesse não era apenas pelas formas abrangidas em um conceito restrito de cultura, mas por aquilo que chamou pouco mais adiante, em poemamanifesto publicado em 1942, de dinamismo das transformações. Cria ser necessário tomar os objetos, os seres ou as coisas não na singularidade dos flagrantes, mas sim no encadeamento das transformações. E isto para partir das partes ao todo, conhecer o Brasil em cada dia do seu passado, nas transformações de cada paisagem, nas tendências de cada imperativo cultural, caminhando sempre no sentido da análise cada vez mais minuciosa, mais profunda e atenta. Não por um nacionalismo mesquinho, mas para compreender profundamente os quadros simples da vida brasileira. Na formação deste intento, assombrava-se a percepção de que algo se deslocava, se modificava de forma inexorável, criando a necessidade crescente de ter a posse integral da origem, do ambiente que flui, dos fins que almeja (CASTRO FARIA, 1999: ). Pode-se estender ainda mais este movimento através do qual se vai do registro do observado ao olhar do observador. Considere-se, por exemplo, a relação estreita que se percebe entre o ambiente observado, o estilo de sua descrição e as condições de produção deste. 13 Como bem escreveu Peter Gay, o estilo é uma espécie de centauro que reúne aquilo que o senso comum acredita naturalmente apartado: é forma e é conteúdo, entrelaçados para formar a tessitura de toda arte e de todo ofício (...) molda e é por sua vez moldado pelo conteúdo (GAY, 1990: 17). Daí o fato de que a própria forma do diário de viagem analisado, suas frases quase telegráficas, suas reflexões sucintas, são elementos a serem tidos em conta quando se considera o papel desta curta viagem ao Vale do Paraíba Fluminense na história da antropologia brasileira. No referido diário de campo, observa tanto os aspectos físicos quanto as intervenções sociais na natureza que configuram as cidades; observa ainda as relações econômicas dos lugares: O movimento na estrada de ferro é intenso. Durante toda a noite ouvimos o resfolegar das locomotivas que chegavam cansadas. Arrastando uma fileira de carros, para de novo partir em busca de seu destino. Outras asmáticas, barulhentas, como velhos resmungadores, andavam daqui para ali, manobrando as composições como quem fez um serviço à contra gosto. Ainda aqui a cidade [de Barra do Piraí] volta às costas ao rio; uma fotografia tirada junto ao leito da estrada de ferro confirmará a minha observação. A atividade comercial não deve ser pequena, a julgar pela quantidade de 13 O argumento exposto neste parágrafo e nos seguintes foi-me sugerido pela leitura de GINZBURG, 2002. caixeiros viajantes que se encontram no hotel, embora, como entroncamento de vários ramais, essa atividade possa ser apenas aparente. (CASTRO FARIA, 1939: 13-15). O trem não apenas é o meio pelo qual Castro Faria sobe a Serra, nem só aquele elemento que marca a paisagem, impondo uma nova dinâmica social às comunidades antes caracterizadas pela morosidade da vida rural, dos passos marcados das sacas de café carregadas nas costas de negros e no lombo dos burros. Trata-se de uma tecnologia que conforma o ritmo dos grupos que o antropólogo pretende dar a conhecer, trazendo à luz suas implicações na composição de uma específica forma de ver o mundo. Nas palavras de um homem que percorreu as ferrovias da França do século XIX, ele apresentava não propriamente imagens, mas lam
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