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Comentário IV José de Souza Martins Departamento de Sociologia, Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas/Universidade de São Paulo Apontamentos sobre vida cotidiana e História Centralizo meu comentário sobre o texto de Vainfas nos aspectos problemáticos de sua referência à vida cotidiana e à rela
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   omentário V JosédeSouzaMartins DepartamentodeSociologia,FaculdadedeFilosofia,LetraseCiênciasHumanas/UniversidadedeSãoPaulo ApontamentossobrevidacotidianaeHistóriaCentralizomeucomentáriosobreotextodeVainfasnosaspectosproblemáticosdesuareferênciaàvidacotidianaeàrelaçãoentre(noentenderdele,osconceitosde)vidaprivadaevidacotidiana.Essetexto,maisdoqueoutracoisa,documentabemasdificuldadesdoshistoriadoresquepelotemaseinteressamemdialogarcomasciênciassociaisafins,especialmentecomaSociologia.Refiro-menãosóaoprópriocomentáripdeVciinfas,mastambém pormeiodascitaçõesqueelefaz,aLeGoffeDuby.EcuriosoquenamesmaFrançadeambos,umoutrofrancês,filósofoesociólogo,HenriLefebvre,oautorquedesenvolveuasformulaçõesmaisabrangenteseconsistentessobreavidacotidiana,sejaporelesignorado.Dubyempobreceenormementeaconcepçãodevidacotidianaaoreduzi-Iaa usosecostumes eaoconfiná-Iaàcasaeaoquarto,conformeascitaçõesdeVainfas,aosuporenfimqueolugareomododavidacotidianadizemrespeitoaorotineiroeaorepetitivo.ApesardaorientaçãodiversadeLeGoff,nãoémenospobreasuaconcepçãodevidacotidiana,tambémreferidaausose mores ,aindaquedestaquea vivência doscostumes(ecomissosugiraumainterpretaçãofenomenológicadavidacostumeirae,portanto,doprópriovivido).Mas,mesmoassim,tambémaíestamospostosemfacedeumvividorepetitivo.Aofalarda vidaprivada (edesuarelaçãocoma vidacotidiana Vainfasestranhaqueesses novosproblemas e novosobjetos nãotenhamsidolevadosemcontaporautorescomoDubyeLeGoff,poisapartirdapropostade AnaisdoMuseuPaulista.SãoPaulo.N.Sér.v.4p.49-58jan./dez.1996    50 umaHistóriadoVidaPrivado,feitoemcélebreartigoporAries  988: v-xviii),jánãosepoderiopensarahistóriasemessasnovosperspectivas.PensoquejustamenteaícomeçaoinconclusividadedotextodeVainfas,queganhocorpoaolongodocomentário,aoreduziressas concepções àcategoriade conceitos Emconseqüência,parece-lheinevitávelqueoshistoriadoresutilizem conceitos novosparadefinir novosproblemas e novosobietos sendoapenasestranhoquenãoofaçam.Paraqueotextopudesseganharadimensãocríticaquepretende,teriasidonecessárioexplicarporqueosnovosproblemassãoproblemase,sobretudo,problemasparoquemeapartirdequepontodevista.Domesmomodo,teriasidonecessárioexplicarporqueosnovosobjetossãoobjetosenovos.Nainvestigaçãocientífica,osnovosproblemassurgemsempredopossibilidadedenovasindagações,propostasjustamenteopartirdoconsciênciados vazios contidosnossistemasdeconhecimento.Vainfassobe,pesquisadorqueé,queumnovoproblemanãosaidobolsodocoletedopesquisadorcapazdeumagrandeegenialsocado,comosecostumodizer.Porsuovez,numprimeiromomento,umnovoobjetosepropõeporsimesmo,comoresultadodeumaconsciêncianovoarespeitodecoisasquepodemservelhos.DiferentedoqueocorrenoSociologia,noHistória,umnovoobjeto,comoavidaprivadaeavidacotidiano,nãorarotemsidopropostoapartirdeumaprojeçãoretrospectivadopresentenopassado.Issojánospõediantedeumadificuldadeepistemológica,naqualseenvolveopróprioVainfas.Vidaprivadoevidacotidiana,comoobjetosdeconhecimentocientífico,sãotemosdoatualidade,sãotemasdoconsciênciasocialcontemporâneaeosãoporquedealgummodosãoproblemasparaasociedade.Emrelaçãoàsociedade,nãohácomotomarconsciênciade novos)problemaseemconseqüênciaproporsocialmenteodelineamentodoquepodeviroserumnovoobjetodeconhecimento,semqueelesseproponham,também,decertomodo,àconsciênciadohomemcomum.Nãoénosgabinetesenosbibliotecasqueessascoisassurgememprimeirolugar.Aotomaremprestadasconcepçõescomoessasparobuscarnohistóriasuopré-presença,oshistoriadoresqueofazempodemevidentementegarimparevidênciasdevidaprivadoeevidênciasdevidacotidianaaténopassadoremoto.Ficam,porém,devendoajustificaçâodolegitimidadedoprivilegiamentodesses conceitos emrelaçãoaépocasemqueelesaindanâoeramumdadodoconsciênciasocialenemmesmoeramum conceito .Otransplantedessaspreocupaçõesparaumasociedadeperiférica,deorigemcolonial,comoosociedadebrasileiro,nospõediantededificuldadesadicionais.Comoempregaremrelaçãoàsociedadebrasileirodopassado,quenãoeraumasociedadepostanocentrodoacontecerhistórico,osconcepçõesdevidaprivadaedevidacotidiano,expressõesdemudançasinovadorasnomododevida,própriosdassociedadeseuropéiasedominantes?Euteriadificuldadesemaplicarambosasconcepçõesàsociedadebrasileirodehojeemuitomaisdificuldadeteriaparaaplicá-Iasaonossopassado.Nãoestouexpressandoaquinenhumnacionalismoextemporâneo.Mosentendoqueumadiscussâocomoessa,emgrandepartepostiça,nomínimosugereimplicitamenteumaindagaçâ9consistentesobrenossospeculiaridadessociaisnoperíodocorrespondente. E  necessárioqueaquitambémseinvestiguemaquelastransformaçõespeculiareseprópriasdenossasociedadeque,noâmbitolimitadodenossarealidadehistórica,podemteranunciadoedefinido,emdiferentesépocas,umnovomododevida.Domesmomodoqueseimpõeumaindagaçãosobrefatoresecausasdanossaindiferençahistóricaou,nomínimo,tardiaabsorçãodasinovaçõessociaisgestadasedifundidasapartirdassociedadesmetropolitanas,comoéocasodavidaprivadaenquantomododevida eoétambémacotidianidade).Defato,vidaprivadaéummododevivermuitoresidualemnossasociedadeatual.Nãosóporquemilhõesdebrasileirosnãotêmondeviveroestadopróprioe,sobretudo,omomentopróprioderecolhimentoquecorresponderiaàvidaprivada,habitandolugaresimprópriosparaosurgimentodesemelhantemododevida,masporqueamplossetoresdasociedade,relativosaosquetêmascondiçõesadequadasparaassumi-Ioeexercitá-Io,nãoofazemnecessariamente acomeçardauniversidadeesuaculturadeconchavos,tricasefutricas). A nossaculturaurbanacarnavalescaeexibicionistanãofavoreceodesenvolvimentoamploeprofundodavidaprivada,anãosercomoexcrescência,sobretudoporquetem aruacomopontodereparol.Evidentemente,temosvidaprivada.MasnãonecessariamentevidaprLvadacomoummododevidaquedefinaumestilodominantedeviver.Adiferençaentrearuaeacasaémuitosutilemnossacultura.DiferentedoqueocorrenasociedadeinglesaeriaEuropaemgeral,emqueessadiferençachegaaserritualizada,comclarademarcaçãodadistinçãoentrepúblicoeprivadojánosdetalhesdecomportamentodecadapessoa.Ofatodeque,noBrasil,empúblicoaspessoassecomportemcomoseestivessememcasa,desdeofalaraltoatéousodotelefonecelularcomosefosseumbrincoouumanel,constituiumindíciofortedaprecariedaçJedavidaprivadaentrenós.Eclaroquesepodeencontrarentrenósmuitasevidênciashistóricas,etambémevidênciasantropológicasatuais,deummododevidarecolhidoaointeriordacasae,sobretudo,recolhidoadeterminadosaposentosdacosa.Masissonãotemmuitoaver ounadatemaver)comoqueopróprioAriesdefinecomoumdosmomentosconstitutivosdavidaprivada,odainteriorizaçãodomésticadavidadapequenanobrezaalcançadapeloaçambarcamento,pelorei,decertosprivilégiosquepertenciamaosparticulares.Avidaprivadaquenãotemossurge,portanto,naEuropa,dotadadeumestilo,umestilodesociabilidadeedementalidade,mastambémumestiloartísticopresentenaschamadasartesmenoresdadecoraçãodoméstico,nosaposentosbemdefinidosemsuasfunçõeserelacionamentos. E nissocomeçaadiferençaemrelaçãoàvidacotidiana,cujotraçopróprioéafaltadeestilo.Certamentetivemosimitaçõesdessesestilosnascasasgrandesenossobradosdaaristrocraciacanavieiradonordeste,daaristocraciacanavieiradeSãoPaulooudaaristocraciacafeeirafluminenseepaulista.As so ré s promovidasporfamíliasgradasemencionadasporMariaPaesdeBarros (1946) eporPaulodeAlmeidaNogueira (1955), entreoutros,sãobemindicativasdessetransplantecultural.Aquimenosemconseqüênciadeumfatoculturalnovo,doqueemconseqüênciadosdistanciamentossociaisprópriosdavelhasociedadeestamental,queinvadiramporlongasdécadasanovarealidadeeconômicacapitalistadavelhaaristocraciafundiária. 1 A inconsistênciado queéentrenósvidapri-vadaaparecedecertomodonatrajetóriadapalavra privada comodesignaçãodainsta-laçãosanitária.Aparen- temente foicoma chegadadasempresasinglesasnoséculoXIXqueapalavrapassoua serutilizadacomosubs- tativoparadesignarolocaldasnecessidadesfisiológicas.Amaisanti-gadesignaçãoqueco-nheçoédoséculoXVIlI e aencontrei emdo- cumentosdoarquivodoMosteirodeSãoBento deSãoPaulo.quandoos mongesmandamfazernointeriordacasa- grandedesuaFazendadeSãoCaetanoas respectivas casas neces sárias Mesmaocasião aliás,daconstruçãodeumbanheirofechado,foradacasa,aproveitan-doumaquedad águajuntoaoribeirãodos Meninos emqueaté mesmo osenfermos podiamtomarcomoda-menteseubanho,em águacorrente.Recen- temente durante um semináriosobreoartigo deAries PorumaHistóriadaVidaPriva- da pergunteiameusalunosseemsuascasas hábanheiro . sanitário ouprivada .Todosres-ponderamqueemsuascasashábanheiros naescolahásanitários eprivadaéabaciasani- táriaemquesàofeitas asnecessidadesfisioló-gicas.Ouseja,aprivadasaidoâmbitodopriva-doparaserconsiderada unicamenteuminstru-mentodeusocotidiano. 51  2.Nãoédemaislembrar nessesentido ahistória pessoaldeDonaVeridianadaSilvaPrado deumafamíliadebarõesegrandesfazen deirosdecafé.Separada domaridoeprimo levousuavidacom granderecatoecompos tura Masadotouum estiloeuropeudevidaemseupalacetedaavoHigienópolis emSãoPaulo esquinadaruaquelevahojeoseu nome Costumavasairapasseioemumasege dirigidaporseuco cheiro oquesegundoamentalidadedaépocaqueriadizermulherdesacompanhadatendoporcompanhiaumsu balterno Foi porisso objetodediscriminaçãoehostilidadeporpartedasmulherespaulis tanasdesuaclasse Deixou porisso contraelas umavingançaque perduraatéhoje.Legou suacasaaumclubemasculino queaindaexiste emcujointerior éproibidaaentradade mulheres 52 o diáriodePaulodeAlmeidaNogueira é nessesentido,umdocumentodegrandeimportôncia.Masesseestilotransplantadonôoproduziupropriamenteoaparecimentodavidaprivadacomoummododevida,esuarespectivamentalidade,centradonagestaçãodacategoriadeindivíduo.DonaMariaPaesdeBarros,filhadeumbarãodacana-de-açúcar,atésecasaraindaquasecriança,teve,comosuasirmãsesuasparentes,umavidapraticamentereclusa,numaépocaemqueemSãoPauloasrótulasdasjanelasaindaprotegiamamulherdoolhardaIIgentinha -osmestiços,oscaipiras,osnegros,osimigrantes-quecirculavapelasruasdacidade2.Elaprópriafoisurpreendidacertodiapelopaiquelheapresentouinesperadamenteumnoivo,decisãopatriarcalnegandoabertamentequalquercomponenteculturaldevidaprivada Barros1946:112-6).Esóvivenciouasociabilidadeprópriadavidaprivadaemconseqüênciadaconversãodesuafamíliaaocalvinismo,tornando-semembrodaPrimeiraIgrejaPresbiterianaIndependentedeSãoPaulo.Mesmooshomensdessacastadegente,queadotavamesseestilodevida,estavamconfinadosaosrecintosprópriosparaoexercíciodasociabilidadedeseuestamento,comoemdetalhedocumentaodiáriodePaulodeAlmeidaNogueira.Emambososcasos,nãosegestouaí~mmododevidaquefosserealmentenovo,queexigisseumasociabilidadeefetivamentenova,quesetornasseprogressivamenteacessíveleatéinevitávelaoconjuntodapopulação.Defato,odiáriodePaulodeAlmeidaNogueiratemváriasesignificativasreferênciasaumasociabilidadefortementeatravessadapelofamilismoestamentaldaselitesdeentão,exercitadonointeriordogrupofechadodealgumasdezenasdefamílias,emgrausvariáveisaparentadasentresi.Afreqüênciadoscasamentosintrafamiliaresnaelitedeentão,comosepodeveremPedroToqueseemSilvaLeme d.LuizGonzagadaSilvaLeme 1903 5 e,também,PedroToquesdeAlmeidaPaesLeme1980),éoutraindicaçãodequeavidaemsociedade,entrenós,fundiucostumesantigosprópriosdasociedadepatriarcalcommaneirasimportadassobretudodaFrançapelosbarõesdocafé.AsreferênciasdePaulodeAlmeidaNogueirasobresuasresponsabilidadesmateriaiseafetivasemrelaçãoaantigosescravoséumaindicaçãoadicionaldessepatriarcalismodeorigemruralainviabilizarodesenvolvimentoentrenósdeumaverdadeiravidaprivada.NoBrasil,atécertoponto,intimidadeeprivado ainda)seconfundem.Ascasasvulneráveis,promíscuasecheiasdefrestasinviabilizavam eaindainviabilizam)aintimidadecomoaconcebemoshojeesobretudoosritosprópriosdavidaprivada.MasVainfasaparentementesedesinteressapeloaparecimentodasalcovas edeseussignificadosinteiramenteopostosaodaconcepçãodeprivacidadeedeprivado)nascasassenhoriaisdasantigasfazendas,queaindapodemservistasemdiferenteslugares,comonoValedoParaíba;naconcepçãodecamarinhanascasasrústicassertanejas noMaranhãoemesmoaquiemSãoPaulo),nosquartosescuros,dejanelassemprefechadas,cõmodosvedadosaoestranhoeaoolhardoestranho,ondesetoleraapenasapresençadorecém--nascidoedaspessoasquelhedevemdarassistênciaedarassistênciaàparturientenoperíododoresguardo.Foradisso,érecintodaintimidadedocasal,sendograveofensaummeroolharcuriosoemdireçãoaoseuinteriorporpartedeumvisitanteouhóspede.Oprivado,comessaconotaçãoantiquada,oposta
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